Crítica | Casa Gucci

Preciso começar dizendo que “Casa Gucci” é uma pataquada divertida. Peca pelos excessos, mas não é aquele entretenimento que nos faz ter a sensação de tempo perdido. Achei tudo muito curioso, bizarro e me vi querendo saber até onde tudo aquilo poderia chegar. Claro, é um produto muito aquém de todos os envolvidos e a sensação de frustração vem justamente por nunca alcançar o grande potencial que tinha. O filme investiga, de forma pobre, a ascensão do império da família Gucci e como ele foi interrompido de forma trágica.

Gucci é uma grife italiana e uma das mais importantes do mundo da moda. Sua história, por trás dos holofotes, é recheada de ganância, intrigas familiares e um assassinato. Temos um material riquíssimo aqui, mas que nunca resulta em um grande filme. A trama nos apresenta esse universo com a entrada da socialite Patrizia Reggiani (Lady Gaga), ao se casar com o herdeiro Maurizio Gucci (Adam Driver). As interferências dela na condução da marca, acabam por abalar os negócios e as relações desse clã.

Apesar da belíssima produção, que choca pelo incrível trabalho de maquiagem e figurinos, “Casa Gucci” falha em seu roteiro. Tudo muito picotado e atropelado mesmo com uma longa duração. Até conseguimos ver uma evolução sendo contada ali, mas nunca deixa claro seus desenvolvimentos. Em uma cena, por exemplo, Patrizia é só uma mulher apaixonada, na outra ela é a gananciosa. O texto nunca se aprofunda, de fato, nos acontecimentos, deixando uma sensação de ter exibido apenas a superfície do iceberg, existindo uma história inteira não contada dentro do filme. É um roteiro que parece não ter passado por uma revisão, que tinha tudo ali nas mãos, mas não soube explorar nada com muito cuidado.

O elenco grandioso é apagado por esse texto atrapalhado, sobrando apenas os sotaques italianos exagerados e a caricatura. Lady Gaga, por sua vez, acaba sendo o grande destaque. Quando sai de cena, o filme rapidamente enfraquece (ainda mais). É ela quem mais acerta o tom e mais tem consciência sobre o que faz ali. Em contrapartida, Jared Leto entrega um dos papéis mais esquisitos que vi em um longa neste ano. É tanto equívoco que não sei bem por onde começar. Mas não é só culpa de sua atuação, é de direção também, por nunca entender a função daquele personagem na trama. Ele é distante de todo o resto, cômico no nível paródia. Tão bizarro de assistir que eu me contorcia quando ele aparecia.

Talvez nunca tenhamos acesso a versão completa de Ridley Scott. Mas essa que vemos aqui é uma bagunça. Ao menos, entrega um entretenimento divertido, onde seu exagero e cafonice desperta atenção. E claro, uma Lady Gaga inspirada e é ela quem faz a sessão valer a pena.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021
Título original: House of Gucci
Duração: 157 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston, Roberto Bentivegna
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Camille Cottin, Jeremy Irons, Jack Huston

Crítica | Treze Vidas: O Resgate

A visão ampla de um acontecimento

Em 2018, no norte da Tailândia, um jovem time de futebol e seu treinador ficaram presos em uma caverna depois de ser inundada pelas fortes chuvas locais. O evento chocou o mundo e pessoas de diversos países se mobilizaram para salvá-los. Ainda que muito recente, já tivemos outras versões do ocorrido como no documentário “Rescue” e no drama “Milagre na Caverna”. “Treze Vidas” é a visão de Ron Howard que, apesar de ser mestre nesse cinemão hollywoodiano, consegue fugir das armadilhas do gênero e se recusa, constantemente, a ser mais um filme sobre homens brancos salvadores.

A obra vem com tom bem realista, acertando nessa construção do tempo e nos fazendo acompanhar o passo a passo de uma calamidade como essa. Os trâmites, as burocracias e toda essa comoção que o evento acaba tendo, principalmente quando, em uma necessidade de extrema urgência, as autoridades locais passam a aceitar ajuda de mergulhadores profissionais de outros países na operação do resgate. É então que conhecemos nossos protagonistas, aqui vividos por Viggo Mortensen, Colin Firth e Joel Edgerton. Mas o filme acerta ao não colocá-los ao centro e entende que são tão importantes como qualquer outro voluntário. Ron Howard foge do sensacionalismo habitual e daquela antiga glorificação do herói. Ele amplifica o olhar e nos faz ter noção do ao redor. De todas as vidas envolvidas.

É impossível não se manter apreensivo ao assistir “Treze Vidas”. A câmera do diretor passeia pelos espaços apertados e nos traz uma sensação desesperadora de estar presente em cada instante. É claustrofóbico, imersivo e consegue, com maestria, criar essa atmosfera de urgência, de puro medo. Arriscaria dizer que é um dos melhores trabalhos de Howard dos últimos anos. Não apenas por saber construir a tensão necessária, mas também por trazer uma visão honesta sobre o ocorrido, respeitando, ainda, a etnia dos envolvidos e revelando a cultura local de forma autêntica e cuidadosa.

O que emociona nessa história e o que a torna tão forte é assistir essa mobilização das pessoas, em um ato de extrema bondade, sem exigir nada em troca. É ver essa força que nasce na humanidade diante de uma crise. Ainda assim, “Treze Vidas” narra tudo isso de maneira sutil. O filme não está interessado em criar um clímax glorioso ao final. As vitórias vão ocorrendo aos poucos, assim como os percalços que enfrentam. Tal qual como acontece na vida.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Thirteen Lives
Duração: 149 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ron Howard
Roteiro: William Nicholson
Elenco: Colin Farrell, Viggo Mortensen, Joel Edgerton, Tom Bateman

Crítica | A Lenda do Cavaleiro Verde

Jornada de desonra

A Távola Redonda é cercada de lendas gloriosas, entre elas a de Rei Arthur, símbolo da cultura celta e que enfrentou males em prol da honra e bondade. Neste mesmo universo arturiano se encontra Gawain, seu sobrinho. É sobre sua jornada que conhecemos aqui em “A Lenda do Cavaleiro Verde”, lançado no Brasil pelo Prime Video e que, por sua vez, foi baseado em um poema escrito no século XIV.

Dirigido por David Lowery, dos excelentes “Pete’s Dragon” e “A Ghost Story”, o longa se afasta por completo deste cinema de fantasia e ação do qual estamos acostumados, revelando este cenário medieval de forma mais sombria e, até mesmo, mais humana. Nosso protagonista, Gawain, interpretado pelo ótimo Dev Patel, é irresponsável e vive uma vida sem grandes esforços, mesmo que queira ser reconhecido como herói, assim como todos aqueles que o cercam. Sua imprudência, porém, define sua inevitável jornada, quando aceita o desafio do Cavaleiro Verde – uma criatura metade humana, metade árvore – que oferece um poderoso machado e uma vida digna para aquele que o golpear. O preço, porém, é que um ano depois, terá de receber o mesmo golpe de volta. Gawain, em um ato impensável, corta a cabeça do Cavaleiro.

É assim que “A Lenda do Cavaleiro Verde” se transforma em uma espécie, curiosa e intrigante, de coming of age medieval. O jovem protagonista parte em uma longa caminhada pelo interior da Inglaterra para encontrar a criatura e ter sua cabeça cortada. É ele indo atrás da própria morte. Saindo de sua vida cômoda, descobrindo o mundo e sentindo, finalmente, o peso de suas escolhas. O amadurecimento forçado de alguém que não está preparado para ser uma lenda. Há, também, muito de um thriller psicológico aqui, quando o personagem se lança nessa tortura de buscar por seu destino mortal, quando escolher pela vida será sinal de seu fracasso e de sua desonra. É assim que o filme subverte essa saga do herói de forma brilhante e audaciosa.

Existe uma grandeza intimidadora na obra, onde as cenas causam bastante impacto. Visualmente é um dos filmes mais belos que vi nesse ano e teria sido lindo tê-lo visto em uma tela de cinema. É rico todo o trabalho da equipe e o que conseguiram fazer com o orçamento. Sequências como as do encontro com os gigantes ou do mergulho no mar vermelho me deixaram estagnado.

Cheio de simbolismos, “A Lenda do Cavaleiro Verde” termina de forma ambígua e isso o engrandece. As possibilidades que vão se abrindo em nossa mente o tornam ainda mais intrigante. Me senti completamente imerso nesse universo e seduzido pelo poder de suas imagens. Fantástico!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Canadá, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021

Título original: The Green Knight
Duração: 130 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: David Lowery
Roteiro: David Lowery
Elenco: Dev Patel, Alicia Vikander, Barry Keoghan, Joel Edgerton, Sean Harris

Crítica: Observadores

O fascínio pela realidade dos outros

Intrigante esse suspense à la Super Cine do Prime Video. Parte porque nos seduz para dentro de seu bom suspense, parte porque derrapa tanto ao final que ficamos nos perguntando quando foi que decidiram jogar a merda no ventilador. O filme vai muito que bem até seus instantes finais, quando o roteiro opta por reviravoltas bizarras e desfaz todo aquele bom envolvimento que tinha nos causado até então. É uma pena porque claramente existia um baita potencial aqui.

Observar a vida alheia dos vizinhos não é novidade no cinema. Hitchcock foi mestre em “Janela Indiscreta” e a sétima arte nunca perdeu o fascínio por essa situação. De certa forma, o próprio cinema é um ato de voyeurismo, de assistir de longe uma vida que não é nossa, de querer entender, fazer parte daquilo que não nos pertence. É assim que se torna tão fácil compreender as motivações da protagonista de “Observadores”. Pippa (Sydney Sweeney) acabou de se mudar para um apartamento junto com seu recente marido, Tom (Justice Smith). Existe uma certa ingenuidade na forma como eles se interagem, é então que notam a possibilidade de assistir, através da janela, a vida de casados dos vizinhos, que soa muito mais interessante que a realidade que eles vivem. É um casal fogoso e logo uma narrativa de traição e mistério suga toda a atenção da jovem observadora.

“A grama do vizinho é sempre mais verde”. É curioso como a vida de Pippa vai perdendo cada vez mais sentido, quanto mais ela observa a dos outros. A paixão do vizinho é mais ardente, o sexo, as conquistas, os conflitos. Ela vai perdendo a si mesma e se preenchendo com tudo aquilo que consome. Existe uma relação fascinante aqui com o nosso envolvimento nas redes sociais e como dedicamos horas de nosso dia assistindo essa versão filtrada e repleta de sucesso da vida alheia. Um recorte encenado, bem enquadrado e irreal. A comparação com nós mesmos, porém, é inevitável e logo nos vemos diminuídos pela grandeza do outro.

Ainda que traga boas reflexões, o filme se prolonga mais do que devia, abrindo espaço para reviravoltas forçadas e inverossímeis. Tudo caminhava bem até sua meia hora final, surpreendendo pelas saídas absurdamente tolas que decide seguir. Não convence e é de um mal gosto extremo. A atriz Sydney Sweeney está à vontade aqui e entrega uma performance provocativa. Mesmo assim, tanto sua escalação como a de Justice soam equivocadas pelo background dos personagens que nitidamente são “mais vividos”.

Dirigido por Michael Mohan, “Observadores” é um filme sexy e abraça esse thriller erótico sem culpa. A produção tem seu charme e assim como os protagonistas, assistimos tudo com tesão e atenção. Apesar de se perder completamente ao decorrer, confesso que achei a sessão divertida, brega e um tanto quanto audaciosa. É uma pena que erre tanto em sua conclusão, porque aí é um caminho sem volta e esses pontos perdidos não se recuperam mais.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 202
1
Título original: The Voyeurs
Duração: 116 minutos

Disponível: Prime Video
Diretor: Michael Mohan
Roteiro: Michael Mohan
Elenco: Sydney Sweeney, Ben Hardy, Natasha Liu Bordizzo, Justice Smith

Crítica: A Menina Que Matou os Pais / O Menino Que Matou Meus Pais

A versão que melhor contamos

Poucos casos tiveram tanta repercussão no Brasil como o Richthofen. Foi em 2002 quando o país parou para ver a chocante história da jovem que matou os próprios pais, ao lado do namorado. Era de grande espera do público ver o acontecimento ganhando as telas e isso finalmente veio. De uns anos para cá, o “true crime” vem ganhando mais espaço na produção audiovisual brasileira e é assim que o longa dirigido por Maurício Eça dá um passo significativo nesse subgênero tão pouco explorado por aqui. Claro que vem recheado de falhas, mas ainda assim é ótimo ver o cinema nacional se arriscando em um projeto nada convencional. Aqui, separado em dois filmes, vemos mais do que apenas duas perspectivas sobre o mesmo crime, vemos duas histórias completamente diferentes que, ao se contradizerem, revelam o brilhantismo da produção.

É interessante como as histórias se completam e como, ao ser narrado por cada um dos réus, Suzane (Carla Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt), cada versão tem sua vítima. Com falas e situações retiradas dos depoimentos reais, a obra acerta nessa divisão, porque nos permite ver os dois lados do acontecimento.

Nunca é exatamente sobre o planejamento do crime, mas como ao contá-lo, naturalmente, ambos tentam endomonizar o outro, como forma de defesa. O grande acerto do texto é ter essa fluidez em cada um dos filmes, seja dessa memória falha, seja dessas contradições. Você acredita em cada uma dessas versões, você compra o que lhe é contado, porque ambos são espertos e narram da forma que melhor os beneficiam. Eles não estão apenas contando, estão se defendendo de nós, o público. A obra nos coloca na pele de um juiz, ouvindo atentamente, permitindo que o julgamento seja feito por nós. A sentença é dada, mas nos permite escolher em que lado acreditar.

Ainda que seja uma experiência nova no nosso cinema, o roteiro peca, muitas vezes, por jogar as cenas sem muito contexto, sempre dependente da outra versão. A trama não é desenvolvida de forma natural, sempre jogando os atos sem qualquer tipo de preparo. São puramente relatos filmados, sem o cuidado de se aprofundar nas situações e nos protagonistas. Acaba saindo tudo muito seco, sem a emoção necessária para nos jogar para dentro da ação. O filme não sabe criar tensão e aquela atmosfera de pavor. Inclusive, o próprio planejamento do assassinato tem pouco espaço aqui e surge às presas. Como consequência de tudo isso, entrega um final anticlimático, estranhamente linear. Que espanta sim e nos choca pelo caso real, mas não por mérito da produção.

O elenco, por sua vez, é esforçado. A real potência de Carla Diaz e Leonardo Bittencourt está em construir dois personagens completamente diferentes em cada versão e nos convencer dessa visão de cada um. Ainda assim, sinto que falta direção que dosasse melhor certos comportamentos que soam exagerados. Aliás, a mão de Maurício Eça em todo o projeto vem com pouca inspiração. Não sei se pela pressa em finalizar dois filmes ao mesmo tempo, mas faltou capricho e cuidado em muitas sequências. A fraca caracterização é um exemplo dessa ausência de refinamento. A peruca usada por Carla Diaz nas cenas do tribunal é vergonhosa.

Apesar das falhas, “A Menina Que Matou Os Pais” e “O Menino Que Matou Meus Pais” é uma experiência interessantíssima, que intriga e nos deixa refletindo sobre o que é real e o que não é. Nossa memória é falha e ela vem com julgamentos. Nada que contamos possui a verdade extrema, porque simplesmente não somos os mesmos na história que contamos e na que os outros contam sobre nós.

NOTA: 7,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 85 / 87 minutos
Diretor: Maurício Eça
Roteiro: Raphael Montes, Ilana Casoy
Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann

Crítica: Val

entre o homem e o personagem

Não sou muito de falar de documentários aqui no site, mas esse eu senti que precisava. “Val” me acertou em cheio. Me fez sentir algo que não havia sentido esse ano diante de uma obra. Com uma dor profunda no peito, terminei de vê-lo sem estruturas, tentando digerir e tentando entender o porquê de tudo aquilo ter me afetado tanto.

“Val” nasce para ser uma cinebiografia do ator Val Kilmer, mas vai muito além daquela trajetória que já conhecemos de fama, ascensão e fracasso. O ator passou a ser notado lá nos anos 80 com “Top Gun” e alcançou o auge nos anos 90 ao interpretar o Batman. Era um jovem apaixonado por cinema e por onde andava carregava consigo uma câmera na mão. O documentário, então, impressiona pelo imenso acervo, entregando um material rico, não apenas dos bastidores dos filmes – que por si só já é incrível – mas principalmente de uma vida. “Val” é um registro de uma história, nos permitindo mergulhar em sua intimidade, nas suas mais dolorosas lembranças. É o registro do tempo, do envelhecimento, das perdas. Do ídolo rejeitado.

Val Kilmer se desnuda por completo, retirando todo o glamour hollywoodiano e revelando sua mais profunda verdade. Hoje, sofrendo as sequelas de um câncer na garganta, fala com a ajuda de um aparelho. Logo quando ele perdeu a fala, entendeu que era a hora de contar sua história. Existe poesia em todas essas escolhas e a forma como o documentário vai narrando sua vida. Essa vida que se mescla com a ficção, dele vivendo da fantasia tanto quanto vive da realidade.

Nós, enquanto público, só vemos a trajetória do fracasso. Da carreira que não deu certo. O que existe além daquilo que julgamos? O que é ” dar certo”, “dar errado”? A vida de todo mundo é um conjunto de traumas, frustrações e vitórias, sem ordem fixa. A obra distorce essa visão que temos do ator e emociona ao falar sobre o homem que viveu por sua paixão pelo cinema, que ganha a vida preso aos anos de glória e tentando se manter firme, mesmo com tudo que vai perdendo ao longo do caminho. É lindo os instantes em que ele revisita os locais de filmagem e é reconhecido por suas conquistas. A montagem, que alterna entre passado e presente, é brilhante e nos faz adentrar ao seu universo com coração. A trilha, a narração, tudo nos leva a uma jornada emocional de peso, de grande impacto.

“Val” é muito maior do que pretende ser. É um documentário poderoso, imenso. O final vai se alcançando e vem o nó na garganta, uma dor no peito. Uma emoção que nos inunda diante de tanto sentimento exposto. Nessa história que se confunde entre homem e personagem, aconteceu que, ao contar sua verdade, Val Kilmer entregou o grande momento de sua carreira. Existe poesia nesse seu relato de sonhos. Aquele que desiste de viver da ilusão, só lhe restará o peso da realidade. Pode até continuar respirando, mas terá deixado de existir.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 109 minutos
Diretor: Leo Scott
Elenco: Val Kilmer

Crítica: Modern Love (segunda temporada)

O aconchego da identificação

Inspirada na coluna semanal do The New York Times, “Modern Love” traz crônicas reais de pessoas que tem algo especial a dizer. A série antológica chega em sua segunda temporada no Prime Video e, ainda, com uma leveza adorável. Tem muito do cinema de John Carney (Apenas Uma Vez, Sing Street), que aqui encabeça o projeto. São tramas apaixonantes, confortáveis e que, de alguma forma, nos fazem muito bem.

É natural, como em qualquer série que conte com episódios independentes, que alguns deles nos toquem mais. Logo, assim como a primeira leva, esses também não agradam sempre. Vai acontecer, em alguns instantes, que aquele personagem fale diretamente com você e outras vezes não. É assim, porém, que a temporada termina com a sensação de ser irregular, porque nem sempre segue no mesmo nível. Falha, ainda, por apostar, em alguns momentos, em uma narrativa mais fantasiosa, se afastando daquele realismo que lhe faz tão bem, como no episódio In the Waiting Room of Estranged Spouses, que destoa de todo o resto.

Ainda assim, existe inteligência em todas as histórias contadas e uma maturidade surpreendente no desenvolvimento de cada uma delas. Mesmo que seja simples e rotineiro, aquele recorte foi importante para alguém. Uma viagem, um reencontro, o primeiro beijo. “Modern Love” nos faz pensar que em cada canto do mundo, neste exato segundo, histórias estão sendo traçadas. E ao nos identificarmos com essas crônicas de vida, traz aconchego, conforto.

A temporada já inicia com o momento de maior inspiração do show. On a Serpentine Road, With the Top Down é emotivo e facilmente nos leva às lágrimas. Os episódios 2, 3 e o último também se destacam ali. Um tema que permeia algumas dessas histórias e dá o tom da temporada é que todos nós carregamos em nós um background. Uma história passada que definiu o que somos hoje e nenhuma experiência que vamos viver irá apagar o que já existiu. Vamos carregar essas lembranças com a gente. Sempre aptos a mudanças, a seguir novos passos, mas sem apagar o aquilo que, um dia, foi importante para nós.

Gosto, ainda, de como todos esses episódios terminam. Paula, personagem de Lucy Boynton, no instante mais metalinguístico da temporada (episódio 3, no trem), revela que prefere os finais sem ponto final, aqueles que terminam como um recorte, com a incógnita dessa vida que continua. “Modern Love” deixa um sentimento bom em nós mesmo que nunca saibamos exatamente como todos esses contos irão seguir. Deixa um sentimento de “quero mais” e, atualmente, são poucas as produções que deixam esse gosto. Aquela sensação de que não se esgotou, de que ainda precisamos ouvir aquelas pessoas falando, aquelas jornadas sendo contadas.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: Prime Video
Duração: 256 minutos / 8 episódios
Diretor: John Carney, John Crowley, Andrew Rannells
Elenco: Minnie Driver, Kit Harington, Lucy Boynton, Dominique Fishback, Sophie Okonedo, Tobias Menzias, Zoe Chao, Garrett Hedlund, Anna Paquin
, Jack Raynor, Tom Burke

Crítica: A Guerra do Amanhã

O futuro que nos espera

Às vezes, eu tenho um prazer sádico de assistir algo que tenho certeza de que será ruim. O lado bom disso é que vou com expectativas zeradas e tudo o que me apresentam pode ser uma surpresa. É assim que me deparo com “A Guerra do Amanhã”, que é sobre o ex-militar norte-americano que vai salvar a Terra. Chris Pratt é o valentão da vez e ele é convocado, assim como muitos cidadãos comuns, a lutar em uma guerra no futuro, logo que daqui há 30 anos, o planeta será dizimado por aliens famintos.

Faz sentido? Não faz. E a cada vez que o filme segue adiante mais nos deixa inconformados sobre como certas ideias foram aprovadas no roteiro final. Seja o pobre treinamento dos novos soldados, a forma como eles simplesmente retiram pessoas do presente para morrer no futuro, além dessa “viagem no tempo” que desafia qualquer lógica. No entanto, por trás dessas pataquadas, existe um produto divertidíssimo de assistir e que se você deixar se levar por essas bizarrices, pode ser uma experiência válida, empolgante em uma sessão com pipoca e cérebro desligado. Funcionou para mim que não senti suas mais de 2 horas passarem.

“A Guerra do Amanhã” peca, porém, ao se levar a sério demais. O humor existe mas é apenas um escape rápido de um filme que acredita mesmo nesse tom heróico e dramático que desenha. É assim que a presença de Chris Pratt acaba sendo um grande desperdício, justamente porque ele poderia ser a peça ideal para trilhar esse pastelão. Mas o diretor pouco explora esse talento do ator para a comédia, estando um verdadeiro canastrão em cena, pouco inspirado. Destaque para a boa presença de Yvonne Strahovski, que consegue extrair algo de bom do texto. Aliás, nota-se uma bela diversidade no elenco, sendo um passo significativo em filmes do gênero.

Quando o filme se liberta dessa seriedade e abraça o clichê sem vergonha alguma, nasce um produto empolgante e que bebe de ótimas referências dos anos 80, como a parte final no gelo. É um produto que vai se renovando a cada novo ato, se redescobrindo e jamais perdendo o fôlego. O diretor Chris McKay acerta ao nos colocar frente à ação, nos permitindo sentir, ao lado de seus personagens, essa sensação de pavor, adrenalina e urgência. E são poucos os filmes atuais com esse poder. Aliás, os aliens são incríveis aqui. Espantam não apenas pela tensão que nos causa, mas principalmente pelo belíssimo visual e efeitos especiais que lhes dão vida.

“A Guerra do Amanhã” traz questões óbvias mas um tanto quanto válidas a serem discutidas. Sabemos que nosso planeta corre riscos grandes lá na frente e somos nós, aqui no presente, responsáveis por escolher qual é esse mundo que queremos encontrar no futuro. Cabe a nós essa direção. Cabe a nós refletir se vale a pena lutar por uma guerra que ainda não vivemos, porque diferente da fantasia, não teremos uma segunda chance para reparar nossos erros.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Tomorrow War
Disponível: Prime Video
Duração: 138 minutos
Diretor: Chris McKay
Roteiro: Zach Dean
Elenco: Chris Pratt, Yvonne Strahovski, J.K.Simmons, Sam Richardson, Betty Gilpin

Crítica: Depois a Louca Sou Eu

Nem tudo está bem.

É muito fácil estar perto dos 30 e se identificar com alguma passagem de “Depois a Louca Sou Eu”. Baseado no livro de Tati Bernardi, que narrou grande parte de suas próprias experiências, a trama é uma costura de seus causos de vida, narrando com humor e sensibilidade seus traumas e paranoias que poderiam muito bem ser de todos nós. Essa geração atarefada, cansada, ansiosa e bombardeada de tanta informação.

Dani, vivida pela ótima Débora Falabella, é uma mulher com muitas aspirações, no entanto está sempre em descompasso com seu mundo interior, sempre sendo sabotada por si devido suas crises de pânico e ansiedade. A obra busca revelar como ela lida com isso desde a infância e hoje no campo profissional, familiar e amoroso, em uma narrativa esperta e ágil, que mistura diversos tempos, realidade e imaginação.

Visualmente é um filme bem inventivo, que busca diversas formas de ilustrar essa colisão da protagonista consigo mesma, de quem ela é e quem ela gostaria de ser. O verde e vermelho saturados estão sempre presentes nas cenas, indicando esse conflito interno. Com direção de Júlia Rezende, no entanto, existe uma desarmonia dessa linguagem infanto juvenil, que nem sempre conversa com o teor da obra, expondo um conteúdo adulto que pode surpreender os desavisados. É um filme que, definitivamente, dialoga com um público mais velho, mas em alguns momentos a direção não parece muito ciente disso.

O longa acerta em cheio, porém, em não cair no humor caricato e nem no texto piegas motivacional. E é aqui que ele encontra seu equilíbrio. A esperteza do roteiro está em reconhecer que Dani, assim como todo mundo que enfrenta algum tipo de transtorno, é uma junção de muitas partes, as tais bolas de gude que não se podem desprender. É preciso acertar essa balança de viver com todos esses fragmentos. O filme não procura uma cura para a protagonista e nem encontra respostas fáceis para isso. Nem mesmo o amor que provavelmente seria a resposta se ele fosse escrito há uns dez anos atrás. A protagonista segue seu caminho com medo, mas ela segue porque precisa seguir. E todos nós precisamos. “Depois a Louca Sou Eu” é um retrato responsável sobre esse longo processo pessoal em reconhecer que as coisas não estão bem. No mais, uma obra escrita, dirigida, protagonizada, produzida por mulheres…então bora prestigiar!

NOTA: 8,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 86 minutos
Diretor: Júlia Rezende
Roteiro: Gustavo Lipsztein
Elenco: Débora Falabella, Gustavo Vaz, Yara de Novaes, Cristina Pereira, Débora Lamm

Crítica: Estados Unidos vs. Billie Holiday

Sobre os frutos incomuns

Pouco mais de oitenta anos após sua gravação, a canção “Strange Fruit” ainda nos choca porque ela ainda diz muito sobre a violência racial. Na voz de Billie Holiday, a música sobreviveu ao tempo e ela se tornou símbolo de um movimento civil que jamais teve fim. Com direção de Lee Daniels, “Estados Unidos vs Billie Holiday” faz um recorte nos últimos anos da vida da cantora e como ela foi, durante esse período, perseguida pelo FBI por cantar uma canção considerada antiamericana, que incitava a rebeldia na população.

De fato, a grande força da obra está concentrada na atuação de Andra Day. E não estamos falando de uma atuação qualquer. Na pele de Billie Holiday, a jovem atriz entrega – desde já – uma das melhores e mais impressionantes interpretações do ano. É de uma potência e garra espantosa. Seja pelo timbre de voz, a postura, tudo nela indica um trabalho rico que merece ser ovacionado.

O diretor Lee Daniels tem certo fascínio por esses melodramas históricos e entrega a essa dolorosa trajetória um tom novelesco e cheio de excessos. Até soa estranho, ao início, mas são traços que dialogam muito com essa assinatura pesada do diretor, nos remetendo a obras como “A Última Ceia”, no qual ele foi produtor e “Preciosa”, seu trabalho mais marcante. É piegas em muitos momentos, mas é também repleto de muito sentimento, de honestidade.

“Estados Unidos vs Billie Holliday”, por vezes, se perde nas próprias intenções, pincelando os amores da cantora, seus vícios e a constante batalha contra os federais. Nem sempre é claro qual o caminho que obra deseja seguir e isso nos afasta. A questão da operação do FBI, principalmente, é enfraquecida com um texto um tanto quanto maniqueísta. Eles são vilões e ponto. Ainda que emocione e deixe claro essas injustiças que ocorreram na época, é lamentável a forma preguiçosa com que esse conflito é desenhado pelo roteiro.

Apesar das falhas, termino a sessão inundado de sentimento. Tanto pelo prazer que é assistir o trabalho primoroso de Andra Day, como pela revolta e angústia de conhecer mais de perto essa poderosa história. Mais do que a força de Billie Holiday, enquanto artista, mulher, preta, vemos a força da arte e como o protesto dela em forma de música jamais foi silenciado, infelizmente, assim como ocorreu com aqueles frutos incomuns nas árvores do sul.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The United States vs. Billie Holiday
Disponível: Prime Video
Duração: 130 minutos
Diretor: Lee Daniels
Roteiro: Johann Hari, Suzan-Lori Parks
Elenco: Andra Day, Trevante Rhodes, Garrett Hedlund, Tyler James Williams, Da’Vine Joy Randolph, Natasha Lyonne