Crítica: A Guerra do Amanhã

O futuro que nos espera

Às vezes, eu tenho um prazer sádico de assistir algo que tenho certeza de que será ruim. O lado bom disso é que vou com expectativas zeradas e tudo o que me apresentam pode ser uma surpresa. É assim que me deparo com “A Guerra do Amanhã”, que é sobre o ex-militar norte-americano que vai salvar a Terra. Chris Pratt é o valentão da vez e ele é convocado, assim como muitos cidadãos comuns, a lutar em uma guerra no futuro, logo que daqui há 30 anos, o planeta será dizimado por aliens famintos.

Faz sentido? Não faz. E a cada vez que o filme segue adiante mais nos deixa inconformados sobre como certas ideias foram aprovadas no roteiro final. Seja o pobre treinamento dos novos soldados, a forma como eles simplesmente retiram pessoas do presente para morrer no futuro, além dessa “viagem no tempo” que desafia qualquer lógica. No entanto, por trás dessas pataquadas, existe um produto divertidíssimo de assistir e que se você deixar se levar por essas bizarrices, pode ser uma experiência válida, empolgante em uma sessão com pipoca e cérebro desligado. Funcionou para mim que não senti suas mais de 2 horas passarem.

“A Guerra do Amanhã” peca, porém, ao se levar a sério demais. O humor existe mas é apenas um escape rápido de um filme que acredita mesmo nesse tom heróico e dramático que desenha. É assim que a presença de Chris Pratt acaba sendo um grande desperdício, justamente porque ele poderia ser a peça ideal para trilhar esse pastelão. Mas o diretor pouco explora esse talento do ator para a comédia, estando um verdadeiro canastrão em cena, pouco inspirado. Destaque para a boa presença de Yvonne Strahovski, que consegue extrair algo de bom do texto. Aliás, nota-se uma bela diversidade no elenco, sendo um passo significativo em filmes do gênero.

Quando o filme se liberta dessa seriedade e abraça o clichê sem vergonha alguma, nasce um produto empolgante e que bebe de ótimas referências dos anos 80, como a parte final no gelo. É um produto que vai se renovando a cada novo ato, se redescobrindo e jamais perdendo o fôlego. O diretor Chris McKay acerta ao nos colocar frente à ação, nos permitindo sentir, ao lado de seus personagens, essa sensação de pavor, adrenalina e urgência. E são poucos os filmes atuais com esse poder. Aliás, os aliens são incríveis aqui. Espantam não apenas pela tensão que nos causa, mas principalmente pelo belíssimo visual e efeitos especiais que lhes dão vida.

“A Guerra do Amanhã” traz questões óbvias mas um tanto quanto válidas a serem discutidas. Sabemos que nosso planeta corre riscos grandes lá na frente e somos nós, aqui no presente, responsáveis por escolher qual é esse mundo que queremos encontrar no futuro. Cabe a nós essa direção. Cabe a nós refletir se vale a pena lutar por uma guerra que ainda não vivemos, porque diferente da fantasia, não teremos uma segunda chance para reparar nossos erros.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Tomorrow War
Disponível: Prime Video
Duração: 138 minutos
Diretor: Chris McKay
Roteiro: Zach Dean
Elenco: Chris Pratt, Yvonne Strahovski, J.K.Simmons, Sam Richardson, Betty Gilpin

Crítica: Depois a Louca Sou Eu

Nem tudo está bem.

É muito fácil estar perto dos 30 e se identificar com alguma passagem de “Depois a Louca Sou Eu”. Baseado no livro de Tati Bernardi, que narrou grande parte de suas próprias experiências, a trama é uma costura de seus causos de vida, narrando com humor e sensibilidade seus traumas e paranoias que poderiam muito bem ser de todos nós. Essa geração atarefada, cansada, ansiosa e bombardeada de tanta informação.

Dani, vivida pela ótima Débora Falabella, é uma mulher com muitas aspirações, no entanto está sempre em descompasso com seu mundo interior, sempre sendo sabotada por si devido suas crises de pânico e ansiedade. A obra busca revelar como ela lida com isso desde a infância e hoje no campo profissional, familiar e amoroso, em uma narrativa esperta e ágil, que mistura diversos tempos, realidade e imaginação.

Visualmente é um filme bem inventivo, que busca diversas formas de ilustrar essa colisão da protagonista consigo mesma, de quem ela é e quem ela gostaria de ser. O verde e vermelho saturados estão sempre presentes nas cenas, indicando esse conflito interno. Com direção de Júlia Rezende, no entanto, existe uma desarmonia dessa linguagem infanto juvenil, que nem sempre conversa com o teor da obra, expondo um conteúdo adulto que pode surpreender os desavisados. É um filme que, definitivamente, dialoga com um público mais velho, mas em alguns momentos a direção não parece muito ciente disso.

O longa acerta em cheio, porém, em não cair no humor caricato e nem no texto piegas motivacional. E é aqui que ele encontra seu equilíbrio. A esperteza do roteiro está em reconhecer que Dani, assim como todo mundo que enfrenta algum tipo de transtorno, é uma junção de muitas partes, as tais bolas de gude que não se podem desprender. É preciso acertar essa balança de viver com todos esses fragmentos. O filme não procura uma cura para a protagonista e nem encontra respostas fáceis para isso. Nem mesmo o amor que provavelmente seria a resposta se ele fosse escrito há uns dez anos atrás. A protagonista segue seu caminho com medo, mas ela segue porque precisa seguir. E todos nós precisamos. “Depois a Louca Sou Eu” é um retrato responsável sobre esse longo processo pessoal em reconhecer que as coisas não estão bem. No mais, uma obra escrita, dirigida, protagonizada, produzida por mulheres…então bora prestigiar!

NOTA: 8,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 86 minutos
Diretor: Júlia Rezende
Roteiro: Gustavo Lipsztein
Elenco: Débora Falabella, Gustavo Vaz, Yara de Novaes, Cristina Pereira, Débora Lamm

Crítica: Estados Unidos vs. Billie Holiday

Sobre os frutos incomuns

Pouco mais de oitenta anos após sua gravação, a canção “Strange Fruit” ainda nos choca porque ela ainda diz muito sobre a violência racial. Na voz de Billie Holiday, a música sobreviveu ao tempo e ela se tornou símbolo de um movimento civil que jamais teve fim. Com direção de Lee Daniels, “Estados Unidos vs Billie Holiday” faz um recorte nos últimos anos da vida da cantora e como ela foi, durante esse período, perseguida pelo FBI por cantar uma canção considerada antiamericana, que incitava a rebeldia na população.

De fato, a grande força da obra está concentrada na atuação de Andra Day. E não estamos falando de uma atuação qualquer. Na pele de Billie Holiday, a jovem atriz entrega – desde já – uma das melhores e mais impressionantes interpretações do ano. É de uma potência e garra espantosa. Seja pelo timbre de voz, a postura, tudo nela indica um trabalho rico que merece ser ovacionado.

O diretor Lee Daniels tem certo fascínio por esses melodramas históricos e entrega a essa dolorosa trajetória um tom novelesco e cheio de excessos. Até soa estranho, ao início, mas são traços que dialogam muito com essa assinatura pesada do diretor, nos remetendo a obras como “A Última Ceia”, no qual ele foi produtor e “Preciosa”, seu trabalho mais marcante. É piegas em muitos momentos, mas é também repleto de muito sentimento, de honestidade.

“Estados Unidos vs Billie Holliday”, por vezes, se perde nas próprias intenções, pincelando os amores da cantora, seus vícios e a constante batalha contra os federais. Nem sempre é claro qual o caminho que obra deseja seguir e isso nos afasta. A questão da operação do FBI, principalmente, é enfraquecida com um texto um tanto quanto maniqueísta. Eles são vilões e ponto. Ainda que emocione e deixe claro essas injustiças que ocorreram na época, é lamentável a forma preguiçosa com que esse conflito é desenhado pelo roteiro.

Apesar das falhas, termino a sessão inundado de sentimento. Tanto pelo prazer que é assistir o trabalho primoroso de Andra Day, como pela revolta e angústia de conhecer mais de perto essa poderosa história. Mais do que a força de Billie Holiday, enquanto artista, mulher, preta, vemos a força da arte e como o protesto dela em forma de música jamais foi silenciado, infelizmente, assim como ocorreu com aqueles frutos incomuns nas árvores do sul.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The United States vs. Billie Holiday
Disponível: Prime Video
Duração: 130 minutos
Diretor: Lee Daniels
Roteiro: Johann Hari, Suzan-Lori Parks
Elenco: Andra Day, Trevante Rhodes, Garrett Hedlund, Tyler James Williams, Da’Vine Joy Randolph, Natasha Lyonne

Crítica: Uma Noite em Miami

Um encontro fictício, dores reais

Estreia da atriz Regina King na direção de um longa-metragem, “Uma Noite em Miami” encena um encontro fictício entre quatro ícones afro-americanos: Muhammad Ali, Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown em uma noite de 1964, durante um período importante para o movimento civil no país. O argumento, bastante curioso, é baseado na peça teatral de Kemp Powers, que aqui também assina o roteiro.

A obra demora um pouco a engatar quando nos introduz aos quatro personagens centrais. Não é muito claro sobre onde pretende chegar. Quando as cartas já estão na mesa, porém, é que Powers revela o poder de seu jogo. É uma trama que se sustenta por diálogos e nas atuações de seu elenco. Das discussões acaloradas às conversas sobre a luta e resistência negra no país. Existe força nas palavras e na presença de cada personagem e tudo o que eles representam. Essa transição do teatro ao cinema é primorosa e não é toda produção que alcança esse mérito. Funciona não apenas pelo belíssimo texto, mas também pela elegante direção de Regina King. É um trabalho de estreia incrível, limpo, honesto e, mesmo sem altas pretensões, causa impacto.

E mesmo nesta simplicidade, a diretora consegue revelar instantes gloriosos, como a sequência do show a capella de Sam Cooke ou a canção que ele canta ao final encerrando essa jornada de forma precisa. Ela também extrai o melhor dos atores que, distantes da caricatura, entregam sentimento e honestidade em cena, destacando Leslie Odom Jr. e Kingsley Ben-Adir que renasce na pele de Malcolm X. Os figurinos, direção de arte e som também chamam a atenção na produção.

Malcolm X, que estava à frente do movimento negro da época, os recruta para o encontro por acreditar que os três poderiam ser as vozes da revolução, o futuro dessa luta. A dor de “Uma Noite em Miami” vem porque esse momento nunca aconteceu e porque Malcolm seria brutalmente assassinado um dia depois. A obra encena o que ele poderia ter dito, o que ele poderia ter tentado. Diferente do que ele imaginava, ele se tornou símbolo dessa batalha e nunca deixou de estar presente. Nesse encontro, quatro homens revelam suas próprias dores e receios, seus pensamentos sobre o futuro e desta sociedade que eles almejam viver. Livres e seguros.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: One Night in Miami
    Disponível: Prime Video
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Regina King
    Roteiro: Kemp Powers
    Elenco: Kingsley Ben-Adir, Leslie Odom Jr., Eli Goree, Aldis Hodge

Crítica: A Vida em Um Ano

Drama mal reciclado

Quase seis anos depois de “A Culpa é das Estrelas” (confesso que é um filme que gosto bastante), o cinema ainda insiste nesses romances adolescentes trágicos. Um do casal vai morrer e você já sabe como será o final. Tudo tem a ver com o tempero e como o roteiro e a direção irá nos conduzir até lá. “A Vida em Um Ano” vem coberto de todos os possíveis clichês existentes e chega a ser espantoso o pobre resultado que alcança. Ser previsível, afinal, é um dos menores problemas aqui.

A começar pela fraca química do casal protagonista. Jaden Smith e Cara Delevingne já quase não funcionam isoladamente, juntos é desastroso. Ainda é difícil ter que aceitar Delevingne como adolescente, mas seguimos. O protagonista é Daryn, um jovem com grande potencial nos estudos e vive uma vida regrada pela pressão do pai. Tudo muda quando se apaixona por Isabelle, que tem uma rotina completamente oposta à dele, sem regras, sem planos. Quando ela revela enfrentar uma doença terminal, Daryn decide entregá-la uma vida inteira em um ano, a fazendo realizar desejos ainda não realizados.

O roteiro é falho nesta passagem de tempo, sendo pouco crível a construção deste relacionamento. Não apenas é difícil acreditar nessa paixão que acende entre os dois, como é incômodo o controle que um passa a ter na vida do outro, sempre julgando e sempre decidindo o que é melhor. O texto romantiza essas decisões, sempre forçando a barra, sempre clamando por nossas lágrimas. Nada é sutil aqui, tudo vem escancarado em uma reciclagem mal feita de tantos outros títulos. O diretor Mitja Okorn segue passo a passo a cartilha dos filmes adolescentes e pouco se esforça para fazer bom proveito dos clichês ou extrair alguma boa atuação do elenco. Até o humor, que poderia tornar a trama mais leve, não funciona, apenas constrange. É tudo extremamente piegas e mal gosto.

É estranho pensar que Will Smith é um dos produtores aqui. De fato, não sei qual o potencial viu em “A Vida em Um Ano”. No mais, gosto das músicas escolhidas e de como elas foram inseridas nas cenas. A trajetória de Daryn como cantor de rap e os conflitos vividos com o pai poderiam ter rendido um filme bem mais interessante.

NOTA: 5/10

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Mitja Okorn
    Roteiro: Jeffrey Addiss
    Elenco: Jaden Smith, Cara Delevingne, Cuba Gooding Jr., Nia Long

Crítica: Uncle Frank

Sempre serei eternamente grato a Alan Ball por ter criado e escrito uma de minhas séries favoritas, “Six Feet Under”. Ele, que ainda foi responsável pelo roteiro de Beleza Americana, retorna com seu novo filme, “Uncle Frank”, produção original do Prime Video.

Paul Bettany dá vida ao tio Frank do título. Ovelha negra de uma família extremamente conservadora, ele sempre causou fascínio em sua sobrinha Beth (a ótima Sophia Lillis), que desde criança nunca entendeu como alguém tão sensível e inteligente como ele poderia ser rejeitado por pessoas tão próximas. Anos depois, as pontas se encaixam, quando ela descobre que Frank é homossexual e vive com outro homem, recluso, distante de todo mundo. O grande conflito nasce quando o patriarca morre e ele precisa retornar, não apenas para dizer adeus à seu pai, mas confrontar seu passado e ir em busca de reconciliação, ao lado de Beth e seu parceiro.

É assim que “Uncle Frank” se transforma em um delicioso road movie quando, colocando na estrada três belíssimos personagens, discutindo sobre a vida e sobre auto aceitação. É sensível todo este discurso de família e como é um processo doloroso viver em um meio que não te aceita, que te julga e te exclui. Allan Ball captura esses instantes de forma bastante madura e honesta, no entanto, não consegue manter o bom nível até o fim.

O filme funciona muito bem até o ato final, onde o roteiro perde a sutileza e abre espaço para o dramalhão. É quando se dá início a revelações forçadas e situações um tanto quanto constrangedoras. Parece ter sido escrito por outra pessoa completamente diferente, que pouco entendeu o que estava sendo trabalhado até ali. É incômodo o caminho que segue, porque em nada tem a ver com a delicadeza e honestidade com que iniciou. O texto acaba, por fim, reproduzindo ideias tão antiquadas sobre homossexualidade, que vai deste o infame discurso religioso até o suicídio, para causar impacto. Acaba optando pelo sensacionalismo banal para se expressar, quando, na verdade, caminhava tão bem na sutileza. É, ainda, cruel com seu protagonista que precisa ceder, como se devesse algum tipo de desculpa para aqueles que o rejeitaram, como se fosse ele quem devesse se adaptar ao mundo dos outros.

Apesar dessa reviravolta pouco inspirada, “Uncle Frank” vale uma conferida. Ótimo poder ver Paul Bettany de volta ao drama e relembrarmos o potencial que ele tem como ator. Assim como a jovem Sophia Lillis, Peter Macdissi ilumina a cena. Alan Ball pode cometer alguns deslizes aqui, mas sem dúvidas, entrega um filme de coração. Há sensibilidade em suas criações e comove neste seu belo relato de lutar por ser quem deseja ser. Amar quem deseja amar. Mudar até de nome, se precisar.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 94 minutos
    Diretor: Alan Ball
    Roteiro: Alan Ball
    Elenco: Paul Bettany, Sophia Lillis, Peter Macdissi, Margo Martindale, Judy Greer, Steve Zahn, Stephen Root

Crítica: O Som do Silêncio

O som que vem de dentro

Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder, que aqui também reprisa sua parceria com Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina) como roteirista. Belíssima revelação, ele entrega um filme poderoso, íntimo, milagroso até, eu diria. Seu cinema transcende e alcança instantes de uma comoção indescritível.

“Sound of Metal” se inicia com o som exacerbado de um show de rock. Duas almas ali vibram em cima de um palco, entregando toda a fúria e paixão que guardam dentro de si. Ruben Stone (Riz Ahmed) é o baterista e Lou (Olivia Cooke, ótima) é sua parceira na vida e quem entrega a voz na turnê que estão fazendo. Quase como dois nômades rodeando o mundo e distante de todos. Tudo muda quando Ruben começa a perder sua audição e lhe é recomendado se afastar de sons altos para que pudesse salvar o pouco que ainda ouve. Completamente sem direção, o baterista acaba aceitando aquilo que parecia sua única saída, adentrar em um grupo de apoio para pessoas surdas, mergulhando em uma maré de incertezas e angústias, atormentado pelo silêncio que parece arruinar seu futuro.

Uma obra tão inquietante quanto seu protagonista. Quando parece se acomodar, salta em uma nova direção. Seus momentos iniciais são poderosos e logo nos afundam juntamente com Ruben e esta iminente perda de todo seu sustento e razão de viver. É assim que a presença de Riz Ahmed se revela tão potente. Ele demonstra com precisão essa fragilidade e ansiedade, esse medo diante do abismo que sua vida alcança. Quando o som que rodeava toda sua existência se extingue, ele precisa encarar uma nova e assombrosa realidade. O protagonista, porém, sempre está diante de um grande dilema e tem dificuldade em ver as coisas com muita clareza, em se aceitar. Diante de um ambiente que simboliza sua salvação ali, ele se depara com inúmeras pessoas que enfrentam a ausência de audição, mesmo que Ruben nunca se veja como um igual. É extremamente sensível a forma como a obra desenha este lugar. Há otimismo, compaixão e nos faz refletir, de fato, a importância da inclusão em relação às pessoas surdas que poucas vezes ganharam espaço no cinema e na sociedade. É um tema de extrema relevância e guiado com delicadeza pela produção. Destaque, também, para o ator Paul Raci, que passa a ser seu mentor neste novo lugar. É um coadjuvante de ouro, que brilha e emociona em cena.

Todo o trabalho de som é absurdamente bem explorado aqui. É brilhante como a câmera está sempre muito bem posicionada e como ela influencia na maneira como o som é aplicado. Dependendo da perspectiva, seja do protagonista, seja do mundo de fora, é interessante como a equipe consegue criar essa diferenciação e como consequência, nos fazer adentrar ao universo a qual Ruben se encontra. É incômodo quando sua audição é cortada ou, até mesmo, quando o diretor nos censura a ouvir certos sons que para nós é tão natural. O filme nos dá esta dimensão do silêncio e o que ele provoca na mente do personagem. É imenso quando ele ouve música através de uma matéria física, sentindo as vibrações pelo toque. Este é o som do metal. Neste sentido, o instante final da obra é de uma beleza e poesia inigualável. Ruben finalmente se encontra e não é uma trajetória fácil.

Viver é estar em uma montanha russa. Sempre rodando, sempre nos levando para um novo trilho. Às vezes acontece de estarmos no alto, outras somos arrastados para baixo. E quando isso acontece precisamos saber lidar com o que a vida nos oferece. Talvez seja intrínseco do ser humano saber se adaptar, enxergar como é possível se moldar a uma nova circunstância. E só cabe a nós mesmos nos salvarmos, ouvir o que há lá dentro. E não há nada mais barulhento do que o som que vem de dentro. Eu senti a dor, a angústia, o medo, o aperto no peito. “O Som do Silêncio” me fez sentir e me entregou uma das experiências mais incríveis que tive vendo um filme este ano.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título Original: Sound of Metal
    Disponível: Prime Video
    Duração: 130 minutos
    Diretor: Darius Marder
    Roteiro: Darius Marder, Derek Cianfrance
    Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Amalric

The Boys – Segunda Temporada

Um grande acerto do Prime Video lançar a série semanalmente. Cada episódio traz um evento grandioso, que se visto como maratona, perderiam o impacto. Baseado na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson, a segunda temporada de “The Boys” é explosiva (literalmente) e retorna com críticas bem pertinentes sobre a política norte-americana, além da sempre ótima e irreverente sátira ao universo dos heróis.

Apesar de ter em mãos sacadas que beiram a genialidade, falta ainda saber como aproveitá-las para o bem da trama. Tudo vem em um ritmo tão alucinante que é quase impossível desfrutar de suas boas criações. São tantos temas interessantes que surgem e quando menos nos damos conta, já se foram. Na necessidade de ser um produto ágil, perde-se desenvolvimento e anula a possibilidade de criar qualquer vínculo com algum plot ou personagem.

O show deveria logo assumir a identidade “Os Sete”, porque são eles o grande destaque. Aya Cash como Tempesta foi uma detestável e adorável adição, enquanto Antony Starr continua a brilhar na pele do assombroso Homelander. The Deep segue aleatório e os “The Boys” seguem insuportáveis. Difícil aguentar qualquer coisa que envolva Billy Butcher.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Elenco: Karl Urban, Antony Starr, Jack Quaid, Aya Cash, Erin Moriarty, Chace Crowford

Vestido Maldito

Retorno do diretor Peter Strickland, depois do elogiado “The Duke of Burgundy”, que aqui cria uma atmosfera única e fascinante dentro do terror. A trama é centrada em um vestido amaldiçoado e item desejável de uma loja de departamentos que traz consequências assustadoras para aqueles que o compram.

Há uma certa comicidade em toda sua concepção e é ótimo quando o filme não se leva tão a sério. Strickland desenha um universo um tanto quanto fascinante aqui, onde através de elementos gráficos tão fortes e de referências visuais certeiras – explorando o retrô – torna possível nossa imersão a sua fantasia. A brilhante trilha sonora composta pela banda Cavern of Anti-Matter, só enriquece a experiência.

No entanto, mesmo com suas qualidades gritantes, “Vestido Maldito” morre muito antes de acabar. O grande equívoco aqui é separar a trama em dois capítulos, principalmente quando a parte final é completamente sem brilho, onde o roteiro jamais justifica sua existência. É assim que o filme que nasce com uma grande premissa cava um buraco que não consegue mais se reerguer. Falta, ainda, um texto que unisse todos esses bons elementos que tem em mãos e construísse algo melhor estruturado, sem que parecesse apenas um refinado rascunho. O resultado final é frustrante porque suas ótimas ideias não chegam a lugar algum.

NOTA: 5

  • Duração: 118 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Peter Strickland
    Elenco: Marianne Jean-Baptiste
    , Fatma Mohamed, Richard Bremmer, Gwendoline Christie

Borat: Fita de Cinema Seguinte

Quatorze anos depois, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” não poderia ter vindo em hora mais oportuna. O ator Sacha Baron Cohen retorna com seu glorioso repórter do Cazaquistão para revelar o atual caos em que vivemos. Ele volta aos Estados Unidos para dar um presente ao vice-presidente Mike Pence e finalmente ganhar o respeito de Trump, beneficiando sua nação depreciada. Devido alguns incidentes, ele decide presenteá-lo com a própria filha.

Em período de eleição, o longa vem com timing perfeito, usando do humor nonsense do personagem para escancarar o ridículo de tantos discursos conservadores que dão palco e ascensão para governantes patéticos. É um texto provocativo, que ainda consegue extrair reações reais de suas “vítimas”, causando um certo impacto pelos absurdos que expõe. 

Um filme repleto de boas sacadas, onde o diretor Jason Woliner consegue amarrar bem o documentário com a trama ficcional que constrói ali. É brilhante sua virada final que envolve ainda a pandemia do coronavírus e a relação do repórter com sua filha, interpretada pela ótima Maria Bakalova. É uma piada que confronta, que incomoda e justamente por isso é tão necessária.

NOTA: 8,5

  • Duração: 95 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Jason Woliner
    Elenco: Sacha Baron Cohen, Maria Bakalova