Crítica: Observadores

O fascínio pela realidade dos outros

Intrigante esse suspense à la Super Cine do Prime Video. Parte porque nos seduz para dentro de seu bom suspense, parte porque derrapa tanto ao final que ficamos nos perguntando quando foi que decidiram jogar a merda no ventilador. O filme vai muito que bem até seus instantes finais, quando o roteiro opta por reviravoltas bizarras e desfaz todo aquele bom envolvimento que tinha nos causado até então. É uma pena porque claramente existia um baita potencial aqui.

Observar a vida alheia dos vizinhos não é novidade no cinema. Hitchcock foi mestre em “Janela Indiscreta” e a sétima arte nunca perdeu o fascínio por essa situação. De certa forma, o próprio cinema é um ato de voyeurismo, de assistir de longe uma vida que não é nossa, de querer entender, fazer parte daquilo que não nos pertence. É assim que se torna tão fácil compreender as motivações da protagonista de “Observadores”. Pippa (Sydney Sweeney) acabou de se mudar para um apartamento junto com seu recente marido, Tom (Justice Smith). Existe uma certa ingenuidade na forma como eles se interagem, é então que notam a possibilidade de assistir, através da janela, a vida de casados dos vizinhos, que soa muito mais interessante que a realidade que eles vivem. É um casal fogoso e logo uma narrativa de traição e mistério suga toda a atenção da jovem observadora.

“A grama do vizinho é sempre mais verde”. É curioso como a vida de Pippa vai perdendo cada vez mais sentido, quanto mais ela observa a dos outros. A paixão do vizinho é mais ardente, o sexo, as conquistas, os conflitos. Ela vai perdendo a si mesma e se preenchendo com tudo aquilo que consome. Existe uma relação fascinante aqui com o nosso envolvimento nas redes sociais e como dedicamos horas de nosso dia assistindo essa versão filtrada e repleta de sucesso da vida alheia. Um recorte encenado, bem enquadrado e irreal. A comparação com nós mesmos, porém, é inevitável e logo nos vemos diminuídos pela grandeza do outro.

Ainda que traga boas reflexões, o filme se prolonga mais do que devia, abrindo espaço para reviravoltas forçadas e inverossímeis. Tudo caminhava bem até sua meia hora final, surpreendendo pelas saídas absurdamente tolas que decide seguir. Não convence e é de um mal gosto extremo. A atriz Sydney Sweeney está à vontade aqui e entrega uma performance provocativa. Mesmo assim, tanto sua escalação como a de Justice soam equivocadas pelo background dos personagens que nitidamente são “mais vividos”.

Dirigido por Michael Mohan, “Observadores” é um filme sexy e abraça esse thriller erótico sem culpa. A produção tem seu charme e assim como os protagonistas, assistimos tudo com tesão e atenção. Apesar de se perder completamente ao decorrer, confesso que achei a sessão divertida, brega e um tanto quanto audaciosa. É uma pena que erre tanto em sua conclusão, porque aí é um caminho sem volta e esses pontos perdidos não se recuperam mais.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 202
1
Título original: The Voyeurs
Duração: 116 minutos

Disponível: Prime Video
Diretor: Michael Mohan
Roteiro: Michael Mohan
Elenco: Sydney Sweeney, Ben Hardy, Natasha Liu Bordizzo, Justice Smith

Crítica: A Menina Que Matou os Pais / O Menino Que Matou Meus Pais

A versão que melhor contamos

Poucos casos tiveram tanta repercussão no Brasil como o Richthofen. Foi em 2002 quando o país parou para ver a chocante história da jovem que matou os próprios pais, ao lado do namorado. Era de grande espera do público ver o acontecimento ganhando as telas e isso finalmente veio. De uns anos para cá, o “true crime” vem ganhando mais espaço na produção audiovisual brasileira e é assim que o longa dirigido por Maurício Eça dá um passo significativo nesse subgênero tão pouco explorado por aqui. Claro que vem recheado de falhas, mas ainda assim é ótimo ver o cinema nacional se arriscando em um projeto nada convencional. Aqui, separado em dois filmes, vemos mais do que apenas duas perspectivas sobre o mesmo crime, vemos duas histórias completamente diferentes que, ao se contradizerem, revelam o brilhantismo da produção.

É interessante como as histórias se completam e como, ao ser narrado por cada um dos réus, Suzane (Carla Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt), cada versão tem sua vítima. Com falas e situações retiradas dos depoimentos reais, a obra acerta nessa divisão, porque nos permite ver os dois lados do acontecimento.

Nunca é exatamente sobre o planejamento do crime, mas como ao contá-lo, naturalmente, ambos tentam endomonizar o outro, como forma de defesa. O grande acerto do texto é ter essa fluidez em cada um dos filmes, seja dessa memória falha, seja dessas contradições. Você acredita em cada uma dessas versões, você compra o que lhe é contado, porque ambos são espertos e narram da forma que melhor os beneficiam. Eles não estão apenas contando, estão se defendendo de nós, o público. A obra nos coloca na pele de um juiz, ouvindo atentamente, permitindo que o julgamento seja feito por nós. A sentença é dada, mas nos permite escolher em que lado acreditar.

Ainda que seja uma experiência nova no nosso cinema, o roteiro peca, muitas vezes, por jogar as cenas sem muito contexto, sempre dependente da outra versão. A trama não é desenvolvida de forma natural, sempre jogando os atos sem qualquer tipo de preparo. São puramente relatos filmados, sem o cuidado de se aprofundar nas situações e nos protagonistas. Acaba saindo tudo muito seco, sem a emoção necessária para nos jogar para dentro da ação. O filme não sabe criar tensão e aquela atmosfera de pavor. Inclusive, o próprio planejamento do assassinato tem pouco espaço aqui e surge às presas. Como consequência de tudo isso, entrega um final anticlimático, estranhamente linear. Que espanta sim e nos choca pelo caso real, mas não por mérito da produção.

O elenco, por sua vez, é esforçado. A real potência de Carla Diaz e Leonardo Bittencourt está em construir dois personagens completamente diferentes em cada versão e nos convencer dessa visão de cada um. Ainda assim, sinto que falta direção que dosasse melhor certos comportamentos que soam exagerados. Aliás, a mão de Maurício Eça em todo o projeto vem com pouca inspiração. Não sei se pela pressa em finalizar dois filmes ao mesmo tempo, mas faltou capricho e cuidado em muitas sequências. A fraca caracterização é um exemplo dessa ausência de refinamento. A peruca usada por Carla Diaz nas cenas do tribunal é vergonhosa.

Apesar das falhas, “A Menina Que Matou Os Pais” e “O Menino Que Matou Meus Pais” é uma experiência interessantíssima, que intriga e nos deixa refletindo sobre o que é real e o que não é. Nossa memória é falha e ela vem com julgamentos. Nada que contamos possui a verdade extrema, porque simplesmente não somos os mesmos na história que contamos e na que os outros contam sobre nós.

NOTA: 7,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 85 / 87 minutos
Diretor: Maurício Eça
Roteiro: Raphael Montes, Ilana Casoy
Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann

Crítica: Val

entre o homem e o personagem

Não sou muito de falar de documentários aqui no site, mas esse eu senti que precisava. “Val” me acertou em cheio. Me fez sentir algo que não havia sentido esse ano diante de uma obra. Com uma dor profunda no peito, terminei de vê-lo sem estruturas, tentando digerir e tentando entender o porquê de tudo aquilo ter me afetado tanto.

“Val” nasce para ser uma cinebiografia do ator Val Kilmer, mas vai muito além daquela trajetória que já conhecemos de fama, ascensão e fracasso. O ator passou a ser notado lá nos anos 80 com “Top Gun” e alcançou o auge nos anos 90 ao interpretar o Batman. Era um jovem apaixonado por cinema e por onde andava carregava consigo uma câmera na mão. O documentário, então, impressiona pelo imenso acervo, entregando um material rico, não apenas dos bastidores dos filmes – que por si só já é incrível – mas principalmente de uma vida. “Val” é um registro de uma história, nos permitindo mergulhar em sua intimidade, nas suas mais dolorosas lembranças. É o registro do tempo, do envelhecimento, das perdas. Do ídolo rejeitado.

Val Kilmer se desnuda por completo, retirando todo o glamour hollywoodiano e revelando sua mais profunda verdade. Hoje, sofrendo as sequelas de um câncer na garganta, fala com a ajuda de um aparelho. Logo quando ele perdeu a fala, entendeu que era a hora de contar sua história. Existe poesia em todas essas escolhas e a forma como o documentário vai narrando sua vida. Essa vida que se mescla com a ficção, dele vivendo da fantasia tanto quanto vive da realidade.

Nós, enquanto público, só vemos a trajetória do fracasso. Da carreira que não deu certo. O que existe além daquilo que julgamos? O que é ” dar certo”, “dar errado”? A vida de todo mundo é um conjunto de traumas, frustrações e vitórias, sem ordem fixa. A obra distorce essa visão que temos do ator e emociona ao falar sobre o homem que viveu por sua paixão pelo cinema, que ganha a vida preso aos anos de glória e tentando se manter firme, mesmo com tudo que vai perdendo ao longo do caminho. É lindo os instantes em que ele revisita os locais de filmagem e é reconhecido por suas conquistas. A montagem, que alterna entre passado e presente, é brilhante e nos faz adentrar ao seu universo com coração. A trilha, a narração, tudo nos leva a uma jornada emocional de peso, de grande impacto.

“Val” é muito maior do que pretende ser. É um documentário poderoso, imenso. O final vai se alcançando e vem o nó na garganta, uma dor no peito. Uma emoção que nos inunda diante de tanto sentimento exposto. Nessa história que se confunde entre homem e personagem, aconteceu que, ao contar sua verdade, Val Kilmer entregou o grande momento de sua carreira. Existe poesia nesse seu relato de sonhos. Aquele que desiste de viver da ilusão, só lhe restará o peso da realidade. Pode até continuar respirando, mas terá deixado de existir.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 109 minutos
Diretor: Leo Scott
Elenco: Val Kilmer

Crítica: Modern Love (segunda temporada)

O aconchego da identificação

Inspirada na coluna semanal do The New York Times, “Modern Love” traz crônicas reais de pessoas que tem algo especial a dizer. A série antológica chega em sua segunda temporada no Prime Video e, ainda, com uma leveza adorável. Tem muito do cinema de John Carney (Apenas Uma Vez, Sing Street), que aqui encabeça o projeto. São tramas apaixonantes, confortáveis e que, de alguma forma, nos fazem muito bem.

É natural, como em qualquer série que conte com episódios independentes, que alguns deles nos toquem mais. Logo, assim como a primeira leva, esses também não agradam sempre. Vai acontecer, em alguns instantes, que aquele personagem fale diretamente com você e outras vezes não. É assim, porém, que a temporada termina com a sensação de ser irregular, porque nem sempre segue no mesmo nível. Falha, ainda, por apostar, em alguns momentos, em uma narrativa mais fantasiosa, se afastando daquele realismo que lhe faz tão bem, como no episódio In the Waiting Room of Estranged Spouses, que destoa de todo o resto.

Ainda assim, existe inteligência em todas as histórias contadas e uma maturidade surpreendente no desenvolvimento de cada uma delas. Mesmo que seja simples e rotineiro, aquele recorte foi importante para alguém. Uma viagem, um reencontro, o primeiro beijo. “Modern Love” nos faz pensar que em cada canto do mundo, neste exato segundo, histórias estão sendo traçadas. E ao nos identificarmos com essas crônicas de vida, traz aconchego, conforto.

A temporada já inicia com o momento de maior inspiração do show. On a Serpentine Road, With the Top Down é emotivo e facilmente nos leva às lágrimas. Os episódios 2, 3 e o último também se destacam ali. Um tema que permeia algumas dessas histórias e dá o tom da temporada é que todos nós carregamos em nós um background. Uma história passada que definiu o que somos hoje e nenhuma experiência que vamos viver irá apagar o que já existiu. Vamos carregar essas lembranças com a gente. Sempre aptos a mudanças, a seguir novos passos, mas sem apagar o aquilo que, um dia, foi importante para nós.

Gosto, ainda, de como todos esses episódios terminam. Paula, personagem de Lucy Boynton, no instante mais metalinguístico da temporada (episódio 3, no trem), revela que prefere os finais sem ponto final, aqueles que terminam como um recorte, com a incógnita dessa vida que continua. “Modern Love” deixa um sentimento bom em nós mesmo que nunca saibamos exatamente como todos esses contos irão seguir. Deixa um sentimento de “quero mais” e, atualmente, são poucas as produções que deixam esse gosto. Aquela sensação de que não se esgotou, de que ainda precisamos ouvir aquelas pessoas falando, aquelas jornadas sendo contadas.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: Prime Video
Duração: 256 minutos / 8 episódios
Diretor: John Carney, John Crowley, Andrew Rannells
Elenco: Minnie Driver, Kit Harington, Lucy Boynton, Dominique Fishback, Sophie Okonedo, Tobias Menzias, Zoe Chao, Garrett Hedlund, Anna Paquin
, Jack Raynor, Tom Burke

Crítica: A Guerra do Amanhã

O futuro que nos espera

Às vezes, eu tenho um prazer sádico de assistir algo que tenho certeza de que será ruim. O lado bom disso é que vou com expectativas zeradas e tudo o que me apresentam pode ser uma surpresa. É assim que me deparo com “A Guerra do Amanhã”, que é sobre o ex-militar norte-americano que vai salvar a Terra. Chris Pratt é o valentão da vez e ele é convocado, assim como muitos cidadãos comuns, a lutar em uma guerra no futuro, logo que daqui há 30 anos, o planeta será dizimado por aliens famintos.

Faz sentido? Não faz. E a cada vez que o filme segue adiante mais nos deixa inconformados sobre como certas ideias foram aprovadas no roteiro final. Seja o pobre treinamento dos novos soldados, a forma como eles simplesmente retiram pessoas do presente para morrer no futuro, além dessa “viagem no tempo” que desafia qualquer lógica. No entanto, por trás dessas pataquadas, existe um produto divertidíssimo de assistir e que se você deixar se levar por essas bizarrices, pode ser uma experiência válida, empolgante em uma sessão com pipoca e cérebro desligado. Funcionou para mim que não senti suas mais de 2 horas passarem.

“A Guerra do Amanhã” peca, porém, ao se levar a sério demais. O humor existe mas é apenas um escape rápido de um filme que acredita mesmo nesse tom heróico e dramático que desenha. É assim que a presença de Chris Pratt acaba sendo um grande desperdício, justamente porque ele poderia ser a peça ideal para trilhar esse pastelão. Mas o diretor pouco explora esse talento do ator para a comédia, estando um verdadeiro canastrão em cena, pouco inspirado. Destaque para a boa presença de Yvonne Strahovski, que consegue extrair algo de bom do texto. Aliás, nota-se uma bela diversidade no elenco, sendo um passo significativo em filmes do gênero.

Quando o filme se liberta dessa seriedade e abraça o clichê sem vergonha alguma, nasce um produto empolgante e que bebe de ótimas referências dos anos 80, como a parte final no gelo. É um produto que vai se renovando a cada novo ato, se redescobrindo e jamais perdendo o fôlego. O diretor Chris McKay acerta ao nos colocar frente à ação, nos permitindo sentir, ao lado de seus personagens, essa sensação de pavor, adrenalina e urgência. E são poucos os filmes atuais com esse poder. Aliás, os aliens são incríveis aqui. Espantam não apenas pela tensão que nos causa, mas principalmente pelo belíssimo visual e efeitos especiais que lhes dão vida.

“A Guerra do Amanhã” traz questões óbvias mas um tanto quanto válidas a serem discutidas. Sabemos que nosso planeta corre riscos grandes lá na frente e somos nós, aqui no presente, responsáveis por escolher qual é esse mundo que queremos encontrar no futuro. Cabe a nós essa direção. Cabe a nós refletir se vale a pena lutar por uma guerra que ainda não vivemos, porque diferente da fantasia, não teremos uma segunda chance para reparar nossos erros.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Tomorrow War
Disponível: Prime Video
Duração: 138 minutos
Diretor: Chris McKay
Roteiro: Zach Dean
Elenco: Chris Pratt, Yvonne Strahovski, J.K.Simmons, Sam Richardson, Betty Gilpin

Crítica: Depois a Louca Sou Eu

Nem tudo está bem.

É muito fácil estar perto dos 30 e se identificar com alguma passagem de “Depois a Louca Sou Eu”. Baseado no livro de Tati Bernardi, que narrou grande parte de suas próprias experiências, a trama é uma costura de seus causos de vida, narrando com humor e sensibilidade seus traumas e paranoias que poderiam muito bem ser de todos nós. Essa geração atarefada, cansada, ansiosa e bombardeada de tanta informação.

Dani, vivida pela ótima Débora Falabella, é uma mulher com muitas aspirações, no entanto está sempre em descompasso com seu mundo interior, sempre sendo sabotada por si devido suas crises de pânico e ansiedade. A obra busca revelar como ela lida com isso desde a infância e hoje no campo profissional, familiar e amoroso, em uma narrativa esperta e ágil, que mistura diversos tempos, realidade e imaginação.

Visualmente é um filme bem inventivo, que busca diversas formas de ilustrar essa colisão da protagonista consigo mesma, de quem ela é e quem ela gostaria de ser. O verde e vermelho saturados estão sempre presentes nas cenas, indicando esse conflito interno. Com direção de Júlia Rezende, no entanto, existe uma desarmonia dessa linguagem infanto juvenil, que nem sempre conversa com o teor da obra, expondo um conteúdo adulto que pode surpreender os desavisados. É um filme que, definitivamente, dialoga com um público mais velho, mas em alguns momentos a direção não parece muito ciente disso.

O longa acerta em cheio, porém, em não cair no humor caricato e nem no texto piegas motivacional. E é aqui que ele encontra seu equilíbrio. A esperteza do roteiro está em reconhecer que Dani, assim como todo mundo que enfrenta algum tipo de transtorno, é uma junção de muitas partes, as tais bolas de gude que não se podem desprender. É preciso acertar essa balança de viver com todos esses fragmentos. O filme não procura uma cura para a protagonista e nem encontra respostas fáceis para isso. Nem mesmo o amor que provavelmente seria a resposta se ele fosse escrito há uns dez anos atrás. A protagonista segue seu caminho com medo, mas ela segue porque precisa seguir. E todos nós precisamos. “Depois a Louca Sou Eu” é um retrato responsável sobre esse longo processo pessoal em reconhecer que as coisas não estão bem. No mais, uma obra escrita, dirigida, protagonizada, produzida por mulheres…então bora prestigiar!

NOTA: 8,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 86 minutos
Diretor: Júlia Rezende
Roteiro: Gustavo Lipsztein
Elenco: Débora Falabella, Gustavo Vaz, Yara de Novaes, Cristina Pereira, Débora Lamm

Crítica: Estados Unidos vs. Billie Holiday

Sobre os frutos incomuns

Pouco mais de oitenta anos após sua gravação, a canção “Strange Fruit” ainda nos choca porque ela ainda diz muito sobre a violência racial. Na voz de Billie Holiday, a música sobreviveu ao tempo e ela se tornou símbolo de um movimento civil que jamais teve fim. Com direção de Lee Daniels, “Estados Unidos vs Billie Holiday” faz um recorte nos últimos anos da vida da cantora e como ela foi, durante esse período, perseguida pelo FBI por cantar uma canção considerada antiamericana, que incitava a rebeldia na população.

De fato, a grande força da obra está concentrada na atuação de Andra Day. E não estamos falando de uma atuação qualquer. Na pele de Billie Holiday, a jovem atriz entrega – desde já – uma das melhores e mais impressionantes interpretações do ano. É de uma potência e garra espantosa. Seja pelo timbre de voz, a postura, tudo nela indica um trabalho rico que merece ser ovacionado.

O diretor Lee Daniels tem certo fascínio por esses melodramas históricos e entrega a essa dolorosa trajetória um tom novelesco e cheio de excessos. Até soa estranho, ao início, mas são traços que dialogam muito com essa assinatura pesada do diretor, nos remetendo a obras como “A Última Ceia”, no qual ele foi produtor e “Preciosa”, seu trabalho mais marcante. É piegas em muitos momentos, mas é também repleto de muito sentimento, de honestidade.

“Estados Unidos vs Billie Holliday”, por vezes, se perde nas próprias intenções, pincelando os amores da cantora, seus vícios e a constante batalha contra os federais. Nem sempre é claro qual o caminho que obra deseja seguir e isso nos afasta. A questão da operação do FBI, principalmente, é enfraquecida com um texto um tanto quanto maniqueísta. Eles são vilões e ponto. Ainda que emocione e deixe claro essas injustiças que ocorreram na época, é lamentável a forma preguiçosa com que esse conflito é desenhado pelo roteiro.

Apesar das falhas, termino a sessão inundado de sentimento. Tanto pelo prazer que é assistir o trabalho primoroso de Andra Day, como pela revolta e angústia de conhecer mais de perto essa poderosa história. Mais do que a força de Billie Holiday, enquanto artista, mulher, preta, vemos a força da arte e como o protesto dela em forma de música jamais foi silenciado, infelizmente, assim como ocorreu com aqueles frutos incomuns nas árvores do sul.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The United States vs. Billie Holiday
Disponível: Prime Video
Duração: 130 minutos
Diretor: Lee Daniels
Roteiro: Johann Hari, Suzan-Lori Parks
Elenco: Andra Day, Trevante Rhodes, Garrett Hedlund, Tyler James Williams, Da’Vine Joy Randolph, Natasha Lyonne

Crítica: Uma Noite em Miami

Um encontro fictício, dores reais

Estreia da atriz Regina King na direção de um longa-metragem, “Uma Noite em Miami” encena um encontro fictício entre quatro ícones afro-americanos: Muhammad Ali, Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown em uma noite de 1964, durante um período importante para o movimento civil no país. O argumento, bastante curioso, é baseado na peça teatral de Kemp Powers, que aqui também assina o roteiro.

A obra demora um pouco a engatar quando nos introduz aos quatro personagens centrais. Não é muito claro sobre onde pretende chegar. Quando as cartas já estão na mesa, porém, é que Powers revela o poder de seu jogo. É uma trama que se sustenta por diálogos e nas atuações de seu elenco. Das discussões acaloradas às conversas sobre a luta e resistência negra no país. Existe força nas palavras e na presença de cada personagem e tudo o que eles representam. Essa transição do teatro ao cinema é primorosa e não é toda produção que alcança esse mérito. Funciona não apenas pelo belíssimo texto, mas também pela elegante direção de Regina King. É um trabalho de estreia incrível, limpo, honesto e, mesmo sem altas pretensões, causa impacto.

E mesmo nesta simplicidade, a diretora consegue revelar instantes gloriosos, como a sequência do show a capella de Sam Cooke ou a canção que ele canta ao final encerrando essa jornada de forma precisa. Ela também extrai o melhor dos atores que, distantes da caricatura, entregam sentimento e honestidade em cena, destacando Leslie Odom Jr. e Kingsley Ben-Adir que renasce na pele de Malcolm X. Os figurinos, direção de arte e som também chamam a atenção na produção.

Malcolm X, que estava à frente do movimento negro da época, os recruta para o encontro por acreditar que os três poderiam ser as vozes da revolução, o futuro dessa luta. A dor de “Uma Noite em Miami” vem porque esse momento nunca aconteceu e porque Malcolm seria brutalmente assassinado um dia depois. A obra encena o que ele poderia ter dito, o que ele poderia ter tentado. Diferente do que ele imaginava, ele se tornou símbolo dessa batalha e nunca deixou de estar presente. Nesse encontro, quatro homens revelam suas próprias dores e receios, seus pensamentos sobre o futuro e desta sociedade que eles almejam viver. Livres e seguros.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: One Night in Miami
    Disponível: Prime Video
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Regina King
    Roteiro: Kemp Powers
    Elenco: Kingsley Ben-Adir, Leslie Odom Jr., Eli Goree, Aldis Hodge

Crítica: A Vida em Um Ano

Drama mal reciclado

Quase seis anos depois de “A Culpa é das Estrelas” (confesso que é um filme que gosto bastante), o cinema ainda insiste nesses romances adolescentes trágicos. Um do casal vai morrer e você já sabe como será o final. Tudo tem a ver com o tempero e como o roteiro e a direção irá nos conduzir até lá. “A Vida em Um Ano” vem coberto de todos os possíveis clichês existentes e chega a ser espantoso o pobre resultado que alcança. Ser previsível, afinal, é um dos menores problemas aqui.

A começar pela fraca química do casal protagonista. Jaden Smith e Cara Delevingne já quase não funcionam isoladamente, juntos é desastroso. Ainda é difícil ter que aceitar Delevingne como adolescente, mas seguimos. O protagonista é Daryn, um jovem com grande potencial nos estudos e vive uma vida regrada pela pressão do pai. Tudo muda quando se apaixona por Isabelle, que tem uma rotina completamente oposta à dele, sem regras, sem planos. Quando ela revela enfrentar uma doença terminal, Daryn decide entregá-la uma vida inteira em um ano, a fazendo realizar desejos ainda não realizados.

O roteiro é falho nesta passagem de tempo, sendo pouco crível a construção deste relacionamento. Não apenas é difícil acreditar nessa paixão que acende entre os dois, como é incômodo o controle que um passa a ter na vida do outro, sempre julgando e sempre decidindo o que é melhor. O texto romantiza essas decisões, sempre forçando a barra, sempre clamando por nossas lágrimas. Nada é sutil aqui, tudo vem escancarado em uma reciclagem mal feita de tantos outros títulos. O diretor Mitja Okorn segue passo a passo a cartilha dos filmes adolescentes e pouco se esforça para fazer bom proveito dos clichês ou extrair alguma boa atuação do elenco. Até o humor, que poderia tornar a trama mais leve, não funciona, apenas constrange. É tudo extremamente piegas e mal gosto.

É estranho pensar que Will Smith é um dos produtores aqui. De fato, não sei qual o potencial viu em “A Vida em Um Ano”. No mais, gosto das músicas escolhidas e de como elas foram inseridas nas cenas. A trajetória de Daryn como cantor de rap e os conflitos vividos com o pai poderiam ter rendido um filme bem mais interessante.

NOTA: 5/10

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Mitja Okorn
    Roteiro: Jeffrey Addiss
    Elenco: Jaden Smith, Cara Delevingne, Cuba Gooding Jr., Nia Long

Crítica: Uncle Frank

Sempre serei eternamente grato a Alan Ball por ter criado e escrito uma de minhas séries favoritas, “Six Feet Under”. Ele, que ainda foi responsável pelo roteiro de Beleza Americana, retorna com seu novo filme, “Uncle Frank”, produção original do Prime Video.

Paul Bettany dá vida ao tio Frank do título. Ovelha negra de uma família extremamente conservadora, ele sempre causou fascínio em sua sobrinha Beth (a ótima Sophia Lillis), que desde criança nunca entendeu como alguém tão sensível e inteligente como ele poderia ser rejeitado por pessoas tão próximas. Anos depois, as pontas se encaixam, quando ela descobre que Frank é homossexual e vive com outro homem, recluso, distante de todo mundo. O grande conflito nasce quando o patriarca morre e ele precisa retornar, não apenas para dizer adeus à seu pai, mas confrontar seu passado e ir em busca de reconciliação, ao lado de Beth e seu parceiro.

É assim que “Uncle Frank” se transforma em um delicioso road movie quando, colocando na estrada três belíssimos personagens, discutindo sobre a vida e sobre auto aceitação. É sensível todo este discurso de família e como é um processo doloroso viver em um meio que não te aceita, que te julga e te exclui. Allan Ball captura esses instantes de forma bastante madura e honesta, no entanto, não consegue manter o bom nível até o fim.

O filme funciona muito bem até o ato final, onde o roteiro perde a sutileza e abre espaço para o dramalhão. É quando se dá início a revelações forçadas e situações um tanto quanto constrangedoras. Parece ter sido escrito por outra pessoa completamente diferente, que pouco entendeu o que estava sendo trabalhado até ali. É incômodo o caminho que segue, porque em nada tem a ver com a delicadeza e honestidade com que iniciou. O texto acaba, por fim, reproduzindo ideias tão antiquadas sobre homossexualidade, que vai deste o infame discurso religioso até o suicídio, para causar impacto. Acaba optando pelo sensacionalismo banal para se expressar, quando, na verdade, caminhava tão bem na sutileza. É, ainda, cruel com seu protagonista que precisa ceder, como se devesse algum tipo de desculpa para aqueles que o rejeitaram, como se fosse ele quem devesse se adaptar ao mundo dos outros.

Apesar dessa reviravolta pouco inspirada, “Uncle Frank” vale uma conferida. Ótimo poder ver Paul Bettany de volta ao drama e relembrarmos o potencial que ele tem como ator. Assim como a jovem Sophia Lillis, Peter Macdissi ilumina a cena. Alan Ball pode cometer alguns deslizes aqui, mas sem dúvidas, entrega um filme de coração. Há sensibilidade em suas criações e comove neste seu belo relato de lutar por ser quem deseja ser. Amar quem deseja amar. Mudar até de nome, se precisar.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 94 minutos
    Diretor: Alan Ball
    Roteiro: Alan Ball
    Elenco: Paul Bettany, Sophia Lillis, Peter Macdissi, Margo Martindale, Judy Greer, Steve Zahn, Stephen Root