Critica: Luce

Quando sua existência é um ato político.

Sucesso no Festival de Sundance, onde foi lançado ano passado, “Luce” é uma adaptação da peça teatral de JC Lee, que aqui também assina o roteiro. Através de um interessante thriller psicológico, a obra narra a conflituosa relação entre os quatro personagens centrais. É o tipo de filme que cresce lentamente, que inicia com uma problemática pequena e onde aquela situação simples acaba ganhando proporções cada vez mais assustadoras.

Luce é um jovem preto. Nasceu em uma região de combate na África e foi adotado por um casal norte-americano (Naomi Watts e Tim Roth). Aluno exemplar onde estuda, ele ministra debates, escreve discursos e está sempre distante de polêmicas. No entanto, a única que não o vê com bons olhos é a rigorosa professora Harriet Wilson (Octavia Spencer), que passa a questionar o caráter do bom moço depois de ler uma redação onde ele parece se identificar com uma ideologia violenta. A partir deste instante, os dois travam uma batalha silenciosa, tentando a todo custo manter as aparências e o lugar de respeito que ambos conquistaram.

Em certo momento, alguém questiona: “que homem preto tem o nome de Luce?” O nome, que vem de luz, lhe foi dado para se encaixar em seu novo espaço e apagar de vez seu passado. Viver na América, o lugar onde tudo é possível e sonhos se realizam. Nas aparências, ele vive dessa propaganda e age como modelo de tudo o que deu certo. O filme, então, cava essa superfície e nos convida a entender o que, de fato, há por traz do aluno exemplar. Sem procurar respostas, sabiamente, o roteiro não percorre os caminhos mais fáceis, nos fazendo questionar e a duvidar deste complexo personagem. Seria ele uma vítima de uma perseguição infundada? Seria ele um sociopata em ascensão? A provocação de “Luce” vem justamente disso, de nos fazer pensar tudo aquilo que evitamos. De dizer em voz alta o que fingimos não existir. Nos faz refletir nos tantos rótulos existentes em nossa sociedade e nessa pressão imposta por sermos tudo aquilo que esperam de nós. Não existem apenas santos e monstros, havendo inúmeras camadas entre essas duas divisões.

“Você não é preto. Você é o Luce”. Essa jornada do protagonista e a forma como todos o vêem me faz lembrar de como a América enxergava O.J.Simpson. O homem preto que gostava de musicais e jogava golfe nos fins de semana. Aquele que se encaixava perfeitamente ao moldes dos brancos e sentia orgulho por isso. Era um sinal de vitória, de conquista. Distante de seu mundinho, simultaneamente, ele era o símbolo da representação para a comunidade negra, mesmo que não estivesse com eles em nenhuma batalha, em nenhum momento de dor. Ninguém gostaria de ver Luce como vilão porque isso negaria as apostas. A sociedade precisa de heróis, dos ícones que exaltam o que deu certo.

Desta forma, “Luce” caminha como se uma bomba pudesse explodir a cada instante. A complexidade de cada personagem permite que a trama siga por caminhos imprevisíveis e torne este provocativo embate em uma experiência intensa, reveladora. O elenco de peso alavanca a potência, entregando excelentes atuações de Octavia Spencer, Naomi Watts e da belíssima revelação do jovem Kelvin Harrison Jr. Ele consegue causar empatia, ao mesmo tempo em que nos faz duvidar de suas boas ações. É aquele enigma que fascina, que seduz. A grande força da produção vem justamente de seu roteiro e desta capacidade de extrair de uma premissa tão simples, discursos tão poderosos, impactantes. O diretor Julius Onah concentra seus indivíduos em espaços fechados – assim como no teatro – seja entre as quatro paredes da casa, seja da escola. Os conflitos pulsam neste confinamento e onde todos são obrigados a se confrontar. Apesar dessas tantas qualidades, a obra acaba pecando em sua montagem. Não apenas pelo ritmo lento que pode cansar boa parte do público, como pela quebra de diversos momentos que poderiam causar um clímax mas são insistentemente interditados por uma outra sequência sem o mesmo valor. Impedindo, assim, o crescimento de uma tensão maior.

Por todas essas reflexões levantadas pela obra, é tão intrigante ver esses embates entre os personagens. Porque nenhum deles quer admitir o que sente, porque nenhum deles consegue dizer o que teme ou o que acredita. Porque isso fere a conduta, fere o rótulo que lhes foi dado. Não apenas do aluno perfeito, mas da mãe que não quer admitir as falhas que destruiriam anos de confiança. Da professora preta que precisa provar, mais do que todo mundo, que merece estar onde está. A existência deles se torna um ato político, quando, historicamente, estão ocupando um espaço que por anos lhes foi negado. Esses espaços foram alterados e eles são a representação dessa mudança.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 109 minutos
    Distribuidor: –
    Diretor: Julius Onah
    Roteiro: Julius Onah, J.C. Lee
    Elenco: Kelvin Harrison Jr., Octavia Spencer, Naomi Watts, Tim Roth

Um pseudo começo

Não é bem um começo. É um novo começo. Há um tempo escrevo sobre cinema e decidi dar um novo passo. Escrevia no blog Cinemateca e agora esta é minha nova casa.

O que me motivou a fazer isso foi ter me dado conta de que é, de fato, o que gosto de fazer e aquilo que faço com extrema paixão. Falar sobre cinema, escrever e esta experiência de poder dividir tudo isso com outras pessoas.

Por que encerrar o blog Cinemateca?

  • Por que era um nome muito genérico e sentia que esse nome já não representava o que fazia.
  • Por que é um nome que confundia parte do público, por atrelá-lo a uma instituição, organização ou até mesmo à um cinema. Existia então, uma necessidade de evitar isso.

Por que “Pseudo Crítico”?

Por que apesar de gostar muito de cinema e escrever sobre há muito tempo, não me considero exatamente um crítico. Não fiz jornalismo também e nem sou expert na escrita. Sou uma pessoa qualquer dando opinião em filmes.

O que vem por aí?

Espero continuar dando a atenção que sempre tive com meus textos e com aqueles que estão lendo. Gosto de escrever com o coração e é com ele que vejo tudo o que assisto.

Espero postar com frequência e espero dar atenção para outras mídias como Facebook e Instagram e se tudo correr bem, quem sabe, um canal no Youtube. Então sigam essas redes, dando apoio com curtidas, comentários e todas essas coisas que impulsionam a gente a continuar!

Para finalizar

Um grandíssimo obrigado para quem me segue até aqui. Para aqueles que me conheciam do Cinemateca ou aqueles que tanto opoiam os conteúdos do Facebook! Um grande obrigado pelos amigos também, que super me encorajam a manter tudo isso.

Quem sou eu? Onde vivo? O que como?

Bom, como começo acho legal eu me apresentar, certo?

Me chamo Fernando, tenho 29 anos, sou formado em Design Gráfico. Libriano, gosto de pizza, sorvete, tirar fotos, assistir filmes, séries e estar sempre acompanhado de uma boa música.

Sou de São Paulo. Adoro desbravar a cidade, mas também existe dentro de mim um velhinho de 60 anos que ama ficar em casa.

Apesar de seguir com minha carreira como designer, cinema e escrita sempre foram minhas verdadeiras paixões. Sou da época do VHS, assisti a ascensão e o declínio do DVD. Escrevo em blog deste 2008 e sempre foi ótimo poder colocar em palavras minhas sensações diante de um filme.

Quando me perguntam qual meu filme favorito nunca sei dizer. Sempre mudo de resposta para não deixar nenhum excluído. Mas costumo responder que e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Closer, Magnolia, Na Natureza Selvagem, Peixe Grande e por aí vai.

Como todo cinéfilo, adquiri uma grande paixão por séries também. Dentre as melhores que já vi citaria Six Feet Under, The Office, Shameless US, Breaking Bad, Gilmore Girls, The O.C., How I Met Your Mother, Mad Men e Rectify. Das mais recentes gostei bastante de Euphoria, Pose e Fleabag.

O que tem aqui?

Você vai encontrar aqui críticas de filmes escritas por um pseudo crítico. Procuro ver um pouco de tudo, desde um filme cult preto e branco mudo iraniano até um blockbuster menos aclamado. Tenho gostos peculiares, já diziam meus amigos. Tem coisa que todo mundo detesta e eu amo, como tem coisa que eu detesto e todo mundo ama. Normal, né?

Eu tenho costume de assistir mais produções recentes, então a maioria dos posts são sobre eles. Procuro, claro, sempre ver algo mais clássico, antigo , afinal temos muito o que aprender com todos eles. Sou bem aberto a tudo. Tem final de semana que vou querer algo mais underground, como tem dias que vou procurar pelo novo filme da Larissa Manoela.

Tenho ainda aquela lista de filmes obrigatórios que vou assistindo aos poucos, então, de vez em quando vão aparecer alguns clássicos aqui.

Gosto de fazer aquelas listas também. Selecionar os melhores de um determinado tema e fazer um Top 30, 20, 15…e por aí vai. Então, claro, sugestões são sempre bem-vindas!

E final do ano, tenho uma tradição de fazer as listas com tudo o que teve de melhor nos últimos 12 meses. Rola ate uma premiação fictícia!

É isso, espero que gostem do conteúdo. Se não gostarem, deixem nos comentários, deem a opinião de vocês, sugestões, reclamações. Não hesitem em dizer o que gostam também, porque isso sempre nos motiva a continuar.