Crítica: Antes do Anoitecer

A Revolução não é para todos.

Ao final da década 50, a Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro, deu um novo rumo ao país que estaria, enfim, livre de uma ditadura. É neste cenário de transformação que Reinaldo Arenas, escritor de poesia, constrói sua história. “Antes do Anoitecer”, filme lançado 10 após sua morte, se baseia no livro de memórias do autor para investigar toda sua trajetória, desde sua miserável infância até os dolorosos anos em que foi torturado. É um resgate profundo de uma época, de uma vida inteira. Intenso e impactante ao falar da luta, da resistência. Sensível ao falar da arte, dos homens que ali viveram.

Reinaldo era um escritor assumidamente homossexual e isso definiu a dor que o fez sofrer no próprio país. A política comunista que ali se instaurou o via como uma ameaça, por não se alinhar aos valores dos revolucionários. Foi perseguido, preso e torturado pelo regime de Fidel. “Meu livro foi premiado em Paris e eu não tenho onde morar”. É revoltante e angustiante toda sua jornada. Dele que tinha tanto a dizer, que tinha a sensibilidade de entender todo aquele período. Que teve seus sonhos e sua liberdade interrompida apenas porque os outros não aceitavam a forma como ele amava. É sufocante perceber que Cuba passava por uma revolução e que a vida das pessoas estavam sendo transformadas, livres de um regime controlador. A grande questão desta história é por que aquela revolução não acontecia para todos? O que separava Reinaldo dos outros cubanos? Dos outros homens? Se na infância, ele brinca cavado em um buraco de terra, ao crescer, o mundo não o permite saltar para fora. Sempre censurado. Sempre repreendido. Reinaldo continua sendo a criança solitária. Que quer abraçar o mundo com sua arte, mas o mundo te silencia.

O autor deixa suas memórias escritas. Um legado de dor, mas também um legado de resistência. De esperança. Não haveria diretor mais ambicioso que o nova-iorquino Julian Schnabel para comandar tudo isso. Pintor profissional, ele tem a delicadeza de traduzir todos os sentimentos que pulsam neste grande personagem. “Antes do Anoitecer” é um sopro de sensibilidade. Sua poesia ganha vida na tela e Schnabel nos faz navegar por suas cenas e desfrutar da beleza de cada ato. Ele costura uma narrativa muito única aqui, fluída, expressiva e intensamente sentimental. É brilhante como o roteiro consegue contar toda sua trajetória, sem perder a profundidade de cada instante, sem diminuir a força de sua luta, de suas conquistas. Como são belos os momentos em que os artistas se encontram e dançam. Como eles se expressam para existir e combater aquilo que os reprimem. Existe uma sequência, em particular, que me deixou extasiado, quando Reinaldo enfim se assume ao som de Lou Reed. Aliás, me faltam palavras para descrever a presença de Javier Bardem aqui. Ele é grande, é honesto. Se entrega ao personagem e nos faz sofrer e amar ao seu lado. Se tornou, facilmente, uma das minhas atuações masculinas favoritas do cinema. É lindo e de um impacto raro. A obra ainda reserva surpreendentes participações de Johnny Depp e Sean Penn.

“Antes do Anoitecer” é um daqueles filmes que ficarão na minha memória. Assisto agora, 20 anos após seu lançamento e me sinto imensamente grato de ter me dado essa chance. Um filme poderoso por seus discursos e poético em sua forma. A vida de Reinaldo Arenas foi ignorada pela história, que optou por salvar os atos bravos dos homens que lutaram pela revolução. Fidel Castro. Che Guevara. Cuba Livre. A jornada do autor revela um lado da moeda que os livros não contam, a de que revoluções não servem para todos. Me faz pensar e refletir sobre toda a luta dos homossexuais. Das dores e das perdas, até que chegamos aqui. Reinaldo pode ter sido silenciado pela história, mas nunca pela arte.

NOTA: 10

  • País de origem: EUA
    Título origina: Before Night Falls
    Ano: 2000
    Duração: 133 minutos
    Disponível: Belas Artes À La Carte
    Diretor: Julian Schnabel
    Roteiro: Julian Schnabel, Lazaro Gomez Carriles, Cunningham O’Keefe
    Elenco: Javier Bardem, Olivier Martinez, John Ortiz, Sean Penn, Johnny Depp, Diego Luna

Crítica: A Maldição da Mansão Bly

A segunda temporada da série antológica da Netflix vem com um grande peso nas costas: manter a qualidade oferecida na fantástica “A Maldição da Residência Hill”. É natural que essa expectativa exista e, infelizmente, “Mansão Bly” não é apenas inferior à sua antecessora. Sou mais radical nesse caso…não chega aos pés.

Inspirada levemente na obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso”, que por sua vez já foi adaptada outras vezes para a tela como em “Os Inocentes” (1961), “Os Outros” (2001) e mais recentemente em “Os Órfãos” (2020). Acompanhamos a chegada de uma tutora em uma mansão vitoriana para cuidar de duas crianças órfãs. Logo percebemos que algo de assombroso ocorre dentro daquelas paredes e a série, aos poucos, se propõe a dar suas respostas, que nunca surgem de forma clara ou muito óbvia. O que é ótimo, visto que nosso olhar já vai preparado por se basear em um material tão conhecido, e o roteiro, com toda sua liberdade narrativa, se arrisca a trazer novos detalhes, quase como se expandisse esse universo criado por James. No entanto, tudo o que a trama nos oferece de “novo” é mal trabalhado e pouco causa interesse.

A série encabeçada por Mike Flanagan, erra mão ao sair do campo da sugestão, tão brilhantemente proposto na obra original. O roteiro busca saídas tolas como respostas, como dar vida a Dama do Lago ou o insuportável Peter Quint com seus planos vilanescos. Toda essa narrativa que cria para justificar seus bons mistérios ganha traços de um novelão melodramático e mal conduzido, inserindo, ainda, tramas de amor tão forçadas que são dificílimas de engolir. A ideia de construir uma narrativa através de flashbacks e fluindo entre diferentes tempos, funciona quando se tem um material rico a ser explorado, o que não é o caso. A ida e vinda de uma trama tão linear como a que oferece, só transforma o show em algo repetitivo e cansativo, revelando de forma maçante os mesmos eventos.

Falta, principalmente, carisma aos personagens que guiam tudo isso. Não há como torcer, vibrar ou sofrer por ninguém que nos apresenta, tamanha a confusão e enrolação que entrega. Me afasta, ainda, as tantas frases de efeito, que surgem como se cada situação da trama viesse pelo simples ato de deixar uma lição de moral. Os indivíduos ali tem sempre um ensinamento calculado por trás de cada ação. É chato, é pedante. Ao menos, confesso, gosto do elenco, em especial as crianças e a hipnotizante presença de T’Nia Miller como governanta. Victoria Pedretti, por sua vez, tem potencial, mas sua performance é incômoda. Seus tantos trejeitos e expressões de boa moça destoam de todo o resto.

Vale destacar a produção, que segue ainda mais cuidadosa nos detalhes. O terror é construído pela atmosfera e pelos elementos que ilustram cada momento. Das cores opacas e frias – muito presentes na filmografia de Flanagan – à iluminação que traz uma áurea fantasmagórica para suas cenas.

“Não é uma história de fantasmas, mas uma história de amor”. Enquanto que a primeira temporada conseguiu com brilhantismo trilhar entre o drama e o terror, os roteiristas aqui falham nesta missão, onde a série não funciona em nenhum dos tantos gêneros que tenta abraçar. Terror não é feito só de sustos e é fantástico quando uma obra entende isso. Mas essa saída ousada não transforma “A Maldição da Mansão Bly” em algo bom, quando o que oferece além da tensão é tão pobre. O que antes era uma produção promissora na Netflix, morre cedo.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: The Haunting of Bly Manor
    Disponível: Netflix
    Elenco: Victoria Pedretti, T’Nia Miller, Oliver Jackson-Cohen, Henry Thomas

As Mortes de Dick Johnson

De longe, “As Mortes de Dick Johnson” pode parecer macabro. E de perto ele é sim, ainda que a intenção seja fazer algo comovente. A cineasta Kirsten Johnson teve uma mirabolante idéia para seu documentário: criar e filmar diferentes versões da morte de seu pai, como forma de lidar melhor com a iminente despedida deste simpático homem que sofre de demência.

Mesmo que seja nobre a intenção da diretora que tenta, de forma bem humorada, dizer adeus a seu pai – e, por vezes, consegue fazer um delicado relato sobre Alzheimer – incomoda essa exposição de um momento tão delicado para realização de seu filme. Nos faz duvidar o quão sincero é este sentimento exposto, que precisa simular uma câmera desligada para capturar um momento de comoção. É estranho ver aquele homem, que distante do juízo, é colocado em situações desconfortáveis como sangrando até a morte ou reencontrando com a falecida esposa. Na tela é lindo, mas assusta quando usa da dor de tanta gente para a concretização deste ensaio da morte.

É um ato egocêntrico. A interferência e manipulação da cineasta é tanta que a obra se afasta do documental, deixando de imprimir honestidade. A emoção existe, ela é tátil, mas se bem enquadrada, segundo a diretora, é ainda melhor. Parece se divertir com aquilo que diz ter tristeza, criando um jogo sádico e de mal gosto sobre alguém que mal tem controle de suas ações.

NOTA: 6,5

  • Duração: 89 minutos
    Disponível: Netflix
    Direção: Kristen Johnson
    Elenco: Dick Johnson, Kristen Johnson

Vestido Maldito

Retorno do diretor Peter Strickland, depois do elogiado “The Duke of Burgundy”, que aqui cria uma atmosfera única e fascinante dentro do terror. A trama é centrada em um vestido amaldiçoado e item desejável de uma loja de departamentos que traz consequências assustadoras para aqueles que o compram.

Há uma certa comicidade em toda sua concepção e é ótimo quando o filme não se leva tão a sério. Strickland desenha um universo um tanto quanto fascinante aqui, onde através de elementos gráficos tão fortes e de referências visuais certeiras – explorando o retrô – torna possível nossa imersão a sua fantasia. A brilhante trilha sonora composta pela banda Cavern of Anti-Matter, só enriquece a experiência.

No entanto, mesmo com suas qualidades gritantes, “Vestido Maldito” morre muito antes de acabar. O grande equívoco aqui é separar a trama em dois capítulos, principalmente quando a parte final é completamente sem brilho, onde o roteiro jamais justifica sua existência. É assim que o filme que nasce com uma grande premissa cava um buraco que não consegue mais se reerguer. Falta, ainda, um texto que unisse todos esses bons elementos que tem em mãos e construísse algo melhor estruturado, sem que parecesse apenas um refinado rascunho. O resultado final é frustrante porque suas ótimas ideias não chegam a lugar algum.

NOTA: 5

  • Duração: 118 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Peter Strickland
    Elenco: Marianne Jean-Baptiste
    , Fatma Mohamed, Richard Bremmer, Gwendoline Christie

Borat: Fita de Cinema Seguinte

Quatorze anos depois, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” não poderia ter vindo em hora mais oportuna. O ator Sacha Baron Cohen retorna com seu glorioso repórter do Cazaquistão para revelar o atual caos em que vivemos. Ele volta aos Estados Unidos para dar um presente ao vice-presidente Mike Pence e finalmente ganhar o respeito de Trump, beneficiando sua nação depreciada. Devido alguns incidentes, ele decide presenteá-lo com a própria filha.

Em período de eleição, o longa vem com timing perfeito, usando do humor nonsense do personagem para escancarar o ridículo de tantos discursos conservadores que dão palco e ascensão para governantes patéticos. É um texto provocativo, que ainda consegue extrair reações reais de suas “vítimas”, causando um certo impacto pelos absurdos que expõe. 

Um filme repleto de boas sacadas, onde o diretor Jason Woliner consegue amarrar bem o documentário com a trama ficcional que constrói ali. É brilhante sua virada final que envolve ainda a pandemia do coronavírus e a relação do repórter com sua filha, interpretada pela ótima Maria Bakalova. É uma piada que confronta, que incomoda e justamente por isso é tão necessária.

NOTA: 8,5

  • Duração: 95 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Jason Woliner
    Elenco: Sacha Baron Cohen, Maria Bakalova

Crítica: On The Rocks

O laço que se rompe

Mesmo sempre carregada de muita expectativa sobre seus trabalhos, é interessante como a cineasta Sofia Coppola parece nunca ter se rendido a essas tantas apostas. Depois de uma brilhante carreira, ela ressurge em 2020 com um filme extremamente descompromissado, sem a intenção de reafirmar nada, sem a pretensão de provar aquilo que é tão visível, seu talento como diretora e roteirista. Ainda que traga traços de alguns filmes anteriores como o casamento fragilizado de “Encontros e Desencontros” e a relação de pai e filha presente em “Um Lugar Qualquer”. Coppola visita antigos temas da qual ela sempre sentiu grande afinidade sem deixar de entregar algo novo, distante do já entregou. Seu cinema segue leve e confortável, ainda assim, espontaneamente refinado.

Inspirada, mais uma vez, em sua relação familiar, Coppola desenha uma sensível trajetória de redescoberta e rompimentos. Se em “Um Lugar Qualquer”, a filha de um famoso ator sofre por sempre vê-lo partir e pede para que ele finalmente fique ao fim, em “On The Rocks”, a cineasta volta a falar sobre esta forte relação com seu pai, este ser excêntrico e fascinante do qual ela tem dificuldade em se ver distante. Parece um ciclo que se fecha, dela finalmente se libertando, entendendo que chega um instante em que precisa construir sua jornada independentemente. Neste sentido, Laura, interpretada por Rashida Jones – que na vida real é amiga de Sofia e também filha de um famoso, o produtor musical Quincy Jones – soa quase como um alter ego. Da mulher que precisa lidar com a pressão de ser esposa e mãe, cuidar da casa e das filhas e ainda encontrar inspiração para escrever. Enfrentando um forte bloqueio criativo em sua profissão, ela ainda passa a desconfiar que seu marido a esteja traindo. É neste cenário de incertezas que entra em ação seu pai canastrão, marcando mais uma parceria entre a diretora e o ator Bill Murray. Ele alimenta a paranoia da filha para que juntos tracem um plano de perseguição, quase como uma aventura para reafirmar de que ela não precisa de outro homem na vida além dele.

Trata-se de um instante ainda muito maduro de Sofia Coppola. Há sutileza na sua escrita e uma boa dose de sensibilidade. Os acontecimentos fluem de forma natural, sem atropelamentos e sem jamais parecer óbvio. É prazeroso embarcar em seu texto porque mesmo na simplicidade ele nos envolve, nos preenche e emociona mesmo quando não tem a pretensão. É belo essa relação que costura entre Felix e Laura. Pai e filha. Ele que ressurge para fazê-la se sentir especial em um momento de vulnerabilidade, de insegurança. Ao fim, compreendemos que essa jornada que ele cria ao lado dela, motivada por uma suposta traição, nada mais é que seu pedido de desculpas, sua chance de reaproximação diante dos erros que cometeu no passado. Ele cria esta aventura para estar ao seu lado, mesmo que no fim ela entenda que é hora de escrever a sua própria, enfim, distante das escolhas de seu pai.

Um grande prazer se deixar levar por mais este fascinante trabalho de Sofia Coppola. É uma produção deliciosa, que conta ainda com belíssimas paisagens e locações, que só enriquecem a narrativa, além da ótima trilha sonora composta pela banda Phoenix. Bom, ainda, poder ver Rashida Jones ganhando um bom papel no cinema. Ela tem um carisma imenso e merece mais chances como esta. E sem surpresas, Bill Murray entrega mais uma ótima atuação. O filme ainda conta com boas participações de Marlon Wayans e Jenny Slate. “On The Rocks” é, apesar de suas sutilezas, um produto subjetivo, podendo ter significados diversos para cada pessoa. Vejo como um honesto relato sobre solidão e sobre essa nossa busca por ser amado, encontrar aquela pessoa que divida uma aventura ao nosso lado. É assim que acaba por dizer o quanto, as vezes, é exaustivo amar, estar a altura da outra pessoa, aceitar erros e enfrentar nossos tantos receios e inseguranças para se manter em uma relação.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 96 minutos

    Distribuidor: Apple
    Diretor: Sofia Coppola
    Roteiro: Sofia Coppola
    Elenco: Rashida Jones, Bill Murray, Marlon Wayans, Jenny Slate