Crítica: Sombras da Vida

Um melancólico conto sobre a morte

“A Ghost Story” me pegou de surpresa. Não sabia o que esperar, apesar de já ter ouvido inúmeros elogios de outras pessoas. Foi um baque. Um choque lento, doloroso e que me fez ter a certeza de que estava diante de algo diferente de tudo o que já vi. Ora drama, ora um assombroso conto de terror. O diretor David Lowery (Amor Fora da Lei), que tem ainda uma carreira curta em longas-metragens, traz alguns traços curiosos que remetem a autenticidade de uma HQ e esta liberdade cartunesca. Seu protagonista é um fantasma que usa um lençol com buracos nos olhos e o filme caminha praticamente todo em silêncio. O poder da obra está em seu visual e é um jogo que funciona. Suas sequências flutuam com a mesma facilidade que nosso olhar flutua pelas páginas em quadrinhos. É um produto feito de belas imagens e que nos atinge fortemente. Que nos impacta com o vazio, nos faz refletir sobre a vida e nos faz sentir tão pequenos diante dela.

A jornada do protagonista (Casey Affleck) se inicia com sua morte. Um acidente de carro o leva para um outro plano, porém, sem conseguir se ver longe de sua esposa (interpretada por Rooney Mara), ele retorna a casa em que viveram juntos e passa a assistir sua vida sem ele. Como um fantasma sem rumo, o tempo passa diante de seus olhos a caminho de outros ciclos, outros fins. É estranho e incômodo ver o que ele vê, assistir passo a passo o vazio deixado por sua ausência. Estar perto e tão distante, inacessível a própria vida. Por isso é tão triste sua caminhada, porque nos faz sentir esse mesmo vazio. Olhar para o lado e perceber que nada é eterno. Que onde pisamos amanhã não pisaremos mais. Aonde depositamos amor, amanhã será só lembrança. Um convite para a bad, “A Ghost Story” fala um pouco sobre este legado que queremos deixar no mundo. Sobre deixar uma prova que um dia passamos por aqui.

O começo da obra é lento. Muito lento. Quase parando. Não desista. Talvez demore para embarcar, mas acredite, faz parte da proposta da obra e tudo terá um sentido para ser. Nesta ausência de diálogos e ações, percebemos o quão potente é sua trilha sonora, que é quem nos convida a entrar neste peculiar universo. Assinada por Daniel Hart, as composições que ouvimos fazem bem para alma. É lindo e a forma como elas mesclam nas sequências, muito bem filmadas, tornam “A Ghost Story” um produto sensorial, mágico, que nos transporta a um cinema nada convencional. É o trabalho mais consistente e mais marcante de David Lowery como diretor. Curioso o formato que usa, quadrado e com os cantos arredondados, remetendo a registros antigos. É uma pena que não tenha ido para os cinemas aqui no Brasil. No entanto, é um filme que tem aos poucos conquistado o público. Um dia ele será grande, tem tudo para ser.

No fim, tudo se encaixa, tudo faz sentido. E digo que é bonito demais de ver. Senti meu coração apertado com os ciclos criados aqui, como tudo se desenvolve lentamente e termina de um jeito devastador. Ainda que não seja de fácil digestão, é bom demais de assistir. É comovente, humano e extremamente sensível em cada saída que encontra. É como um sonho absurdo, fascinante, bizarro, melancólico e que ecoa em nossa mente como poesia. Parece estúpido o fantasma usar um lençol sobre o corpo. Poderia até ser difícil levar a obra a sério, mas não é. Talvez não ver o rosto do protagonista é o que a torna tão dolorosa, porque ao não vê-lo sentimos sua alma, sua dor e mais do que isso, sentimos que poderia ser qualquer um de nós. Vendo o fim de perto, desaparecendo, nos tornando memória.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Título original: A Ghost Story
    Duração: 92 minutos
    Distribuidor:
    Diretor: David Lowery
    Roteiro: David Lowery
    Elenco: Rooney Mara, Casey Affleck

30 ótimos filmes com temática LGBT

Neste mês do Orgulho LGBT, nada mais justo do que fazer um compilado de várias obras com essa temática, tanto para indicar como para relembrar esses filmes incríveis que já passaram pelo cinema e, claro, para celebrar a diversidade! A ordem é apenas uma questão de organização, não significa que um é melhor, pior ou menos relevante que outro.

Alguns filmes falam sobre a descoberta, do processo de aceitação ou até mesmo do preconceito que os personagens enfrentam. No fim, acredito que muitos deles querem dizer uma única coisa e esta é a real beleza dessas produções: a de que todos merecem uma história de amor, independente do gênero ou da opção sexual.

30. Imagine Eu e Você
de Ol Parker / 2005 / Reino Unido

De longe, até parece um filme leve e açucarado. No entanto, se olharmos para trás, perceberemos o quão a frente do seu tempo foi. Falar sobre um relacionamento entre duas mulheres não era nada comum na época e eles resolveram falar sobre isso em uma obra familiar, doce…uma comédia romântica pura. É uma proposta ousada e deu muito certo, ainda que poucas pessoas o conheçam. É lindo e muito gostoso de assistir.

29. Má Educação
de Pedro Almodóvar / 2003 / Espanha

A filmografia do cineasta Pedro Almodóvar sempre teve espaço para histórias de mulheres e para o público LGBT. É muito comum ver em seus filmes personagens homossexuais e mesmo com seus exageros narrativos, ele sempre deu voz para debater questões de gênero e todos os tipos de relações. “Má Educação” é uma de suas obras mais surpreendentes e coloca o ator Gael García Bernal em um dos papéis mais provocantes e interessantes de sua carreira. Há muita metalinguagem envolvida, então sempre há dúvidas sobre o que de fato acontece em cena, o que é real ou imaginação.

28. Jonas
de Christophe Charrier / 2018 / França

Lançado pela Netflix aqui no Brasil, o filme mergulha nas lembranças dolorosas de um jovem homossexual que tenta seguir em frente após eventos que o traumatizaram. Em dois tempos, acompanhamos sua fase adulta e, adolescente, quando descobre um grande amor. É muito sensível ao falar sobre a descoberta e sobre como esta paixão definiu toda a vida do protagonista.

27. Weeekend
de Andrew Haigh / 2012 / Reino Unido

Leve e descompromissado, “Weekend” é muito real em sua proposta de mostrar dois homens que se conhecem e vivem uma história de amor com prazo de validade já marcado. Entre festas, bebidas e novos amigos, os dois vão vivendo sem saber como o fim poderia os afetar. A naturalidade das cenas o faz parecer um documentário sobre as relações modernas.

26. Rafiki
de Wanuri Kahiu / 2018 / Quênia

Releitura moderna do clássico “Romeu e Julieta”, esse romance queniano traz uma leveza adorável ao narrar os desencontros entre duas garotas que, além de viverem em uma região conservadora, seus pais são grandes inimigos políticos. Cheio de cores, romance e um clichê que a gente tanto ama assistir.

25. The Normal Heart
de Ryan Murphy / 2014 / EUA

Apesar de não ter chegado nos cinemas, o filme com produção da HBO é tão incrível que merece estar na lista. Com direção de Ryan Murphy, o longa conta a história real de um ativista que luta pela cura da AIDS enquanto seu próprio parceiro enfrenta a doença. Com atuações marcantes de Matt Bomer, Mark Ruffalo e Julia Roberts, somos surpreendidos por uma trama pesada, dolorosa e intensamente comovente.

24. Tomboy
de Céline Sciamma / 2011 / França

Produção francesa traz a curiosa jornada de uma criança trans. A menina que se identifica como garoto e precisa enfrentar o dia a dia ao lado de novos amigos causa uma certa tensão, devido o segredo que o protagonista carrega consigo e essa vida dupla que decide viver. No entanto, encanta por essa noção que tem sobre si e deste processo de amadurecimento que precisa encarar. É, definitivamente, um dos filmes mais relevantes sobre o assunto.

23. Queda Livre
de Stephan Lacant / 2013 / Alemanha

Aquele filme que torcemos demais para o casal principal dar certo! No filme, dois policiais se apaixonam e lutam contra este sentimento, não apenas pela profissão que seguem e que jamais seriam aceitos mas, também, porque um deles é casado com uma mulher. É bonito como é mostrado essa descoberta dos dois, como aquela troca de olhares acaba se transformando em uma paixão intensa. Boatos de que teria sequência, mas nunca mais tive notícias.

22. Pecado da Carne
de Haim Tabakman / 2009 / Israel

Filme israelense sobre um homem que trabalha em um açougue e passa a ser discriminado por passar muito tempo com seu jovem empregado. Os dois vivem um romance proibido dentro de um bairro ortodoxo de Jerusalém. É o tipo de trama triste de ser ver por nos lembrar dessas histórias de amor que não são possíveis mas ao mesmo tempo encanta por revelar esses dois homens que lutam para estarem juntos.

21. Selvagem
de Camille Vidal-Naquet  / 2018 / França

“Selvagem” revela a vida de um jovem que mora na rua e ganha a vida sendo prostituto. Vira os dias em baladas e em casas de clientes, pessoas desconhecidas com quem divide todo sua intensidade e tesão. A obra mostra sua rotina sem muita censura, nos colocando bem próximo da intimidade do protagonista e suas tantas noites de sexo. Há bastante nudez aqui, reveladas por um olhar naturalista e sem muito glamour, o que torna o produto bastante provocativo e impactante.

20. Direito de Amar
de Tom Ford / 2009 / EUA

Com uma direção deslumbrante de Tom Ford, “Direito de Amar” traz Colin Firth na pele de um professor que, abalado pela morte de seu marido, decide cometer um suicídio, porém, antes, acaba se envolvendo com um de seus alunos. Se trata de uma obra fascinante sobre este homem que, em um momento de fraqueza, acaba redescobrindo razões para viver. Um filme sexy, sensível e lindamente filmado.

19. Girl
de Lukas Dhont / 2019 / Bélgica

Lançado aqui no Brasil pela Netflix, o longa belga faz um recorte doloroso na vida de uma garota trans, que enquanto luta para ser aceita em uma rigorosa escola de balé, precisa enfrentar a ansiedade que sente diante da mudança definitiva de gênero. É uma obra complexa, sensível e muito honesta em cada sentimento exposto.

18. E Então Nós Dançamos
de Levan Akin / 2019 / Geórgia

Para aqueles que gostam de filmes que exploram o universo da dança e uma boa história LGBT. A trama gira em torno de um dançarino que se apaixona por seu grande rival no palco e esta luta interna que ele trava dentro de si mesmo, por se apaixonar profundamente e por viver em um ambiente extremamente conservador que jamais aceitaria este romance. Um filme doce, apaixonante e que nos encanta da primeira à última cena.

17. Uma Casa no Fim do Mundo
de Michael Mayer / 2004 / EUA

Aquele filme confortável, gostoso de assistir, com linguagem acessível e que traz naturalidade a temas tabu. O longa debate homossexulidade e bissexualidade em uma história doce e cativante. Na trama, acompanhamos e excêntrica jornada de um homem adoravelmente enigmático, que acaba se relacionando com seu melhor amigo e uma espirituosa mulher que entra em suas vidas.

16. Tangerine
de Sean Baker / 2015 / EUA

Filmado com Iphone, “Tangerine” é uma experiência cinematográfica única e que revelou, na época, o talento do diretor Sean Baker. A obra acompanha a vida de duas prostitutas transexuais e as batalhas diárias que enfrentam enquanto trabalham nas ruas. É um produto exuberante, energético e cheio de afeto. Há muito humor também, que surge naturalmente diante de um texto livre de improvisos.

15. Corações de Pedra
de Guðmundur Arnar Guðmundsson / 2016 / Islândia

É bastante delicado falar sobre a homossexualidade na infância e “Corações de Pedra” faz isso com extrema sensibilidade e responsabilidade. Na trama, dois garotos que vivem inseridos em uma sociedade conservadora e bruta, começam a entender a própria sexualidade. O filme questiona o quão doloroso é silenciar e repreender a verdade de uma criança. Além das boas intenções, a obra surpreende pela técnica, entregando sequências visualmente deslumbrantes.

14. Praia do Futuro
de Karim Aïnouz / 2014 / Brasil, Alemanha

Filme nacional que colocou o ator Wagner Moura em um dos papéis mais ousados de sua carreira. Se trata de alguns recortes na vida de dois homens que vivem um relacionamento conturbado ao longo de vários anos. Com texto poético, há muito sentimento nas entrelinhas e nem todo detalhe da relação é exposto na tela. É um filme que fala muito sobre solidão, sobre fuga, sobre fugir para se encontrar. Uma obra fascinante.

13. Me Chame Pelo Seu Nome
de Luca Guadagnino / 2017 / EUA, Itália

O diretor Luca Guadagnino traz toda a elegância do cinema italiano para revelar o momento de descoberta do jovem Elio, interpretado por um inspirado Timothée Chalamet, e sua relação com um homem mais velho. É muito delicado cada gesto e cada ato desse filme. A excitação do início de um romance, a liberdade da juventude, a necessidade de se ter alguém nos braços. Somos invadidos por tudo isso e por inúmeros sentimentos que somente um roteiro tão impecável poderia nos proporcionar. É lindo, é comovente e incrivelmente prazeroso de se ver e sentir.

12. A Criada
de Park Chan-Wook / 2016 / Coréia do Sul

Filme sul coreano do renomado Park Chan-Wook (OldBoy), temos aqui uma história mirabolante envolvendo um vigarista, uma criada e uma herdeira. Original e inteligente, o longa surpreende por suas tantas reviravoltas e por suas provocantes cenas de sexo. Um produto deslumbrante, brilhantemente bem escrito e realizado.

11. Hoje eu Quero Voltar Sozinho
de Daniel Ribeiro / 2014 / Brasil

No cenário nacional, é uma das produções mais conhecidas sobre o tema. E mais importantes também. O romance entre um jovem cego e um garoto novo na escola é de uma sensibilidade absurda. Além de toda a nostalgia que traz com aquela liberdade da adolescência em um período de amadurecimento, o filme trata a relação dos dois garotos de forma cativante e delicada. É apaixonante e nos faz terminar de vê-lo querendo viver um grande amor por aí.

10. Maurice
de James Ivory / 1987 / Reino Unido

Dois homens que vivem na alta sociedade britânica do século XiX se apaixonam. É incrível como um filme lá da década de 80 conseguiu falar sobre amor entre dois homens de maneira tão delicada e natural. A obra, claro, diz muito sobre o conservadorismo da época e como esta paixão é constantemente silenciada para que seus protagonistas sejam aceitos. Lindo e com um final de aquecer o coração.

09. Fim do Século
de Lucio Castro / 2019 / Argentina

O filme diz muito sobre as chances perdidas, sobre as histórias que não vivemos. Acompanhamos os encontros de dois homens em Barcelona, em eventos separados por 20 anos. A história nos questiona o que teria sido da vida deles se tivessem ficados juntos. É muito natural os diálogos, as situações e faz um retrato muito honesto sobre ser gay na era digital.

08. Rocketman
de Dexter Fletcher / 2019 / Reino Unido

Belíssimo musical que conta a trajetória de excessos de Elton John. Visualmente criativo, temos aqui uma produção que, diferentemente de outras cinebiografias, não esconde a verdade de seu protagonista. Pelo contrário, tem orgulho de suas escolhas e entrega sentimento e beleza a todas elas. O filme diz muito sobre como o cantor lutou a vida inteira por ser aceito e emociona por esses relatos.

07. Com Amor, Simon
de Greg Berlanti / 2017 / EUA

Leve, teen e despretensioso. “Com Amor, Simon” poderia até ser um simples filme de sessão da tarde se o recado dele não fosse tão poderoso e tão necessário. Ao falar sobre um jovem que vive atormentado por guardar o segredo de sua homossexualidade, a obra acaba por dar, sem grandes pretensões, um enorme passo. Isso porque o cinema comercial nunca ousou colocar um protagonista gay em uma trama romântica e otimista. Uma obra que inspira porque conversa com aqueles que querem ouvir, porque é um sinal que evoluímos.

06. Orgulho e Esperança
de Matthew Warchus / 2015 / Reino Unido

O filme acompanha a união de duas minorias da sociedade: os homossexuais e os mineiros. A junção entre aqueles que só tinham compaixão e solidariedade com um grupo de preconceituosos e conservadores é brilhante. Diverte com seu delicioso humor britânico e personagens extremamente cativantes. É lindo do começo ao fim, necessário e inspirador!

05. Moonlight – Sob a Luz do Luar
de Barry Jenkins / 2016 / EUA

O vencedor do Oscar de Melhor Filme 2017 é forte, denso e marcante. Dividido em três partes, acompanhamos a dolorosa jornada de Chiron, um homem preto da periferia que desde criança enfrentou a humilhação por ser quem é e, ao longos anos, precisou assumir seus verdadeiros desejos. Com direção impecável de Barry Jenkins, temos um produto visualmente impactante e algumas cenas que ficam na memória.

04. Antes do Anoitecer
de Julian Schnabel / 2000 / EUA

O filme narra a dolorosa jornada do autor cubano Reinaldo Arenas, em uma excepcional interpretação de Javier Bardem, desde sua infância pobre, aos anos em que foi perseguido e torturado pelo Regime de Fidel Castro por ser homossexual, até ser exilado em território norte-americano. Um retrato poderoso e angustiante sobre uma vida cheia de repressão e que nos faz refletir sobre a luta e resistência daqueles que vieram antes de nós.

03. C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor
de Jean-Marc Vallée / 2006 / Canadá

Esse filme me marcou de formas que nem consigo descrever. Início da carreira do, hoje renomado, Jean-Marc Vallée (Big Little Lies), o longa canadense narra a extraordinária jornada de Zachary, desde seu nascimento até seu renascimento, anos depois, quando finalmente aceitou quem era. É curioso as referências religiosas, ainda mais vindo de um protagonista que tem uma certa simpatia pelo diabo. As músicas, as cenas, o brilhante roteiro que guia cada acontecimento com muito vigor e um delicioso toque de fantasia. É tudo incrível de ser ver e sentir.

02. Retrato de Uma Jovem em Chamas
de Céline Sciamma  / 2019 / França

Um dos mais belos filmes que tivemos o prazer de ver neste ano, “Retrato de Uma Jovem em Chamas” revela a história de amor de duas mulheres no século 18. Íntimo, sensível e extremamente apaixonante. Cada cena parece uma pintura e facilmente nos encantamos pela trama e por esta jornada tão sentimental, tão poética.

01. O Segredo de Brokeback Mountain
de Ang Lee / 2005 / EUA

Virou um clássico. Fato. O encontro entre dois cowboys no meio de uma região distante marcou o cinema. Se trata de um dos mais belos trabalhos do diretor Ang Lee, que revelou uma das histórias de amor mais dolorosas. É triste a trajetória dos protagonistas e desse amor impossível que vivem. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal estão fantásticos. Há muita química entre os dois atores que se entregam à seus belos papéis.

Crítica: As Golpistas

Como furacões

“As Golpistas” é tudo o que não esperávamos da cineasta Lorene Scafaria. Ela vem de obras leves, sutis e cheias de comoção. Do musical descontraído “Nick e Norah” à dramédia sentimental “Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo”. Há beleza e inteligência em seus roteiros e é lindo ver onde ela tem chegado. Seu novo trabalho difere de tudo o que já fez, ainda que nunca esqueça de humanizar as situações que narra, trazendo sempre personagens honestos e que sempre tem muito a dizer. Existe uma agilidade, esperteza e ela domina as tantas técnicas que fazem os “filmes de crime” tão interessantes. Além de trazer um frescor para este subgênero, a obra, enquanto arte, prova que vivemos novos tempos e o cinema teve um avanço significativo. Temos aqui um produto majoritariamente realizado por mulheres. Escrito, dirigido, produzido e com um elenco feito por elas. Nada mais justo quando se fala sobre o universo feminino e é ótimo poder ver as histórias delas sendo, finalmente, contado pelas vozes de quem realmente as entende. É aquele famoso espaço de fala que há pouco tempo atrás parecia não existir.

O filme nos leva ao ano de 2008 e como um grupo de strippers decide se unir para aplicar um golpe nos banqueiros da Wall Street, que na época eram os grandes clientes da boate em que trabalhavam, e como elas se reergueram quando uma das maiores crises econômicas assolou o país. Poderia ser um típico “filme de crime”, com planos mirabolantes e muita câmera lenta enquanto tudo de mais insano acontece, se não fosse o olhar da diretora e roteirista Lorene Scafaria, que além de trazer toda a elegância e dinamismo que um produto como este requer, também traz um olhar terno e verdadeiro sobre seus personagens e todas as situações que enfrentam. Existe alma em cada diálogo, em cada indivíduo e, de alguma forma muito especial, nos afeiçoamos a este universo tão belo que cria, nos apaixonamos por todos os relatos e nesta parceria e cumplicidade existente entre essas mulheres tão fantásticas. O longa ainda se destaca pela belíssima produção, pela montagem caprichada e acelerada e neste ritmo que nos mantém atentos do começo ao fim. Nunca decai e parece sempre ter algo interessante para contar. É um roteiro fascinante, escrito por alguém que sabe como trazer a audiência para dentro de sua ação.

O roteiro, muito bem escrito, traz uma jornalista (a sumida Julia Stiles) que através de entrevistas tenta entender o lado daquelas que foram consideradas criminosas. É assim que conhecemos Destiny (Constance Wu), uma jovem que tenta crescer como dançarina e stripper na boate comandada pela espirituosa Ramona (Jennifer Lopez), que se torna uma espécie de mentora ali. A relação entre as duas personagem é muito forte e ganha traços complexos ao final da obra. É intrigante essa linha tênue entre interesse financeiro e esta amizade fraternal. Existe um senso de proteção, de família, amizade mesmo quando o dinheiro é o que as motiva. Neste sentido, é lindo instantes como uma espontânea festa de Natal entre as garotas ou como uma tenta compreender a outra mesmo quando coloca todo o jogo a perder. Tudo se torna ainda melhor quando atrizes tão competentes entram em cena. Constance surpreende e revela um lado que jamais poderia imaginar vindo dela. No entanto, quem brilha mesmo é Jennifer Lopez. É um papel de uma carreira e é comovente como ela se entrega a sua Ramona. É simplesmente hipnotizante todas as sequências em que aparece. Sua postura, seu sotaque e sua garra que engrandece cada instante. Fiquei feliz de testemunhar essa reviravolta dela e como provou, enfim, ser a grande atriz que é. E apesar de aparecerem pouco, as participações das cantoras Lizzo e Cardi B são ótimas.

“As Golpistas” é um surpreendente evento. Luxuoso, elegante, insano e divertidíssimo. Que lindo poder ver as histórias dessas mulheres, livre de qualquer julgamento e feito por outras mulheres tão interessadas em encontrar humanidade em todas as situações reveladas. Quando as divulgações começaram, parecia apenas um entretenimento barato com mulheres fazendo pole dance. É muito mais do que isso. É uma obra potente, incrivelmente bem realizada e que nos faz sair do cinema com um sorriso largo no rosto. O corte final do filme não poderia ser mais perfeito. Jennifer Lopez nos encara e nos faz entender que vivemos em uma grande boate de striptease. Tem aqueles que jogam dinheiro e tem aqueles que dançam conforme a música.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: Hustlers
    Duração: 110 minutos
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Lorene Scafaria
    Roteiro: Lorene Scafaria
    Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Keke Palmer, Julia Stiles, Lili Reinhart, Madeline Brewer, Cardi B, Lizzo, Trace Lysette

Crítica: A Vastidão da Noite

O futuro que nos espera

“A Vastidão da Noite” é uma ficção científica de baixo orçamento que acabou fazendo sucesso pelos Festivais de cinema em que passou, chegando a vencer o prêmio de Melhor Primeiro Roteiro no prestigiado Independent Spirit Award. Lançado pela Amazon Prime, o filme vem com um bom respiro às grandes e megalomaníacas produções, que se apoiam em efeitos visuais para causar algum impacto. O que se destaca aqui é a simplicidade e em como o diretor estreante, Andrew Patterson, se utilizando de tão poucos elementos, construiu sua obra. Sua tensão não depende do visual, mas sim dos longos diálogos existentes entre seus poucos personagens.

Filmado como se fosse um episódio de uma série antiga de TV, intitulada Paradox Theather, o programa nos convida a investigar o desconhecido. No melhor estilo de “Twilight Zone” e com ótimas referências ao cinema mais clássico de Spielberg, o diretor opta por nos lembrar, em alguns instantes, de sua metalinguagem. Deste seu paradoxo. Curiosamente, o cineasta assina o roteiro com um pseudônimo, James Montague, quase como um personagem que escreve este seu programa. A sua ficção dentro da ficção. Com chiados, ruídos e uma iluminação natural que por vezes, quase não capta os detalhes das cenas, Patterson acerta ao criar este ambiente retrô e saudosista. A grande ironia vem quando seus personagens, vivendo sob as incerteza da Guerra Fria, sonham com o futuro e todo o universo tecnológico que os esperam.

Pela vastidão da noite, caminham pelas ruas, de uma cidade pequena, Everertt (Jake Horowitz) e Fay (Sierra McCormick), dois jovens aficionados por rádio e gravações de áudio. Ao captarem um som estranho, os dois decidem investigar aquela desconhecida frequência e passam a ter auxílio de algumas pessoas que tem muito a revelar sobre o novo passo da humanidade. É muito interessante como o diretor consegue nos transportar à época, seja pelos belos figurinos e locações, seja pela naturalidade com que aqueles personagens vivem aquela rotina. Acompanhamos, então, em tempo real, os acontecimentos bizarros daquela noite, guiados pelos bravos protagonistas enquanto toda a população da cidade se junta para assistir um jogo. As ruas estão vazias, silenciosas e parte da tensão do filme vem justamente disso. Dessa incerteza que virá quando tudo retornar. A vida daquelas pessoas seriam as mesmas? O que pode acontecer naquele lugar já que ninguém está olhando? Vale destacar o incrível plano-sequência de Petterson, quando sua câmera viaja pela cidade. É tão belo e bem orquestrado que chega a arrepiar.

A tensão se sustenta nos diálogos. Ainda que o roteiro mereça reconhecimento por isso, parte da frustração vem exatamente disso também. Ao demorar muito tempo de tela introduzindo seus personagens – cheguei ao ponto de torcer para os personagens ficarem quietos – nos afasta de suas verdadeiras intenções, justamente porque demora demais para se revelar. É verborrágico, com diálogos intermináveis e, muitas vezes, desinteressantes. O grande pecado de “A Vastidão da Noite” é ser prolixo. É se estender quando não precisa, é dar voltas gigantescas para dizer pouca coisa. O roteiro ainda aposta em alguns monólogos que duram uma eternidade e mesmo que sua intenção seja nos intrigar e nos manter atentos, só nos afasta, nos deixa mais entediados. Nos últimos minutos, finalmente, o filme ganha fôlego, mas já era tarde. Minha mente e coração já estavam distantes demais para me importar com qualquer coisa.

“A Vastidão da Noite” é um belo exemplar da ficção científica recente. Andrew Patterson é, definitivamente, um nome a se prestar atenção nos próximos anos. Há algo de novo em seu olhar e merece destaque. No entanto, ainda que suas qualidades seja evidentes e eu admire suas escolhas, me senti frustrado diante de sua obra. O roteiro fala mais do que transmite, fala incansavelmente quando o silêncio é seu maior triunfo. Foge do lugar comum em sua forma, mas no fim acaba dizendo mais do mesmo.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: The Vast of Night
    Duração: 91 minutos
    Distribuidor: Amazon Prime
    Diretor: Andrew Patterson
    Roteiro: James Montague, Craig W.Sanger
    Elenco: Sierra McCormick, Jake Horowitz

Crítica: O Livro de Henry

Quando a indiferença é o grande vilão

O diretor Colin Trevorrow começou sua empreitada no cinema com o singelo e independente “Sem Segurança Nenhuma” (2012). Um primeiro passo interessante de quem, nitidamente, tinha muito o que dizer. Seu sucesso veio rápido e logo tomou frente da sequência de “Jurassic World” (2015). Distante do blockbuster, “O Livro de Henry” é uma obra menor, quase como um retorno às origens, mas ainda assim de boas ideias.

O filme é, praticamente, dividido em duas partes. Separadas por um evento desolador e que transforma a vida de seus personagens. É curioso porque no começo não compreendemos aonde a trama pretende chegar ou o que tudo aquilo pretende nos dizer. Quando a reviravolta chega, ao mesmo tempo que nos surpreende por levar o filme para uma direção não prevista, também traz sentido à obra. O lado ruim disso é que a primeira parte é melhor, perdendo o fôlego ao seu decorrer, mesmo que entregue um bom final. Outro ponto negativo é que quando o longa revela suas verdadeiras intenções, acaba prometendo um desfecho grandioso que nunca chega, suas ações são belas mas são finalizadas com muita simplicidade.

“- Violência não é a pior coisa no mundo.
– O que é, então?
– Apatia”

No filme, Susan (Naomi Watts) é mãe solteira de duas crianças, viciada em vídeo games e que conta com a ajuda do filho mais velho, Henry (Jaeden Lieberher), para cuidar das burocracias da casa. Ele, por sua vez, é uma criança dotada. Um pequeno gênio que usa seu tempo livre para algumas invenções, além de ser o pilar maduro que a família tanto precisa. Esta estrutura perfeita, porém, é abalada quando ele é diagnosticado com um tumor. Antes que algo de pior aconteça, Henry decide colocar sua última invenção em prática, escrever um livro para salvar sua vizinha (Maddie Ziegler) dos abusos de seu padrasto (Dean Norris).

Acima de qualquer coisa – ou de qualquer defeito que a obra venha a apresentar – existe algo em “O Livro de Henry” muito forte, algo especial que o torna, de certa forma, único. Há uma comoção presente nas cenas que faz com que cada um desses instantes sejam doces e sutilmente delicados. Me emocionei em diversos momentos, até mesmo nos mais simples e corriqueiros. O texto é inspirado e encanta por esta beleza que traz a seu universo tão peculiar. E nestes pequenos detalhes, percebemos suas boas intenções e como ele conversa tão bem com os dias de hoje. Nos dias em que pessoas são abusadas e sofrem caladas, nos dias em que vítimas e abusadores vivem ao nosso redor, estão diante de nossos olhos. Nos dias que a crueldade nos cerca e que acaba sendo mais fácil dizer um “deixa para lá, não é nossa vida”. É doloroso quando Henry, uma criança, compreende que está em suas mãos salvar o mundo e não mais viver nesta desesperadora indiferença que tanto vê nos outros.

A presença de Naomi Watts é fantástica, emociona e convence na pele desta mulher tão envolvida com seus filhos. O elenco mirim é o grande destaque da obra, onde tanto Jaeden Lieberher e Jacob Tremblay (por que tão fofo?) surpreendem em cena, entregando atuações incrivelmente sólidas. Há uma interessante surpresa aqui, a performance de Maddie Ziegler, conhecida por interpretar as canções de Sia em seus cliples, surge contida, mas entrega uma sequência poderosa onde dança e diz muito com seu silêncio e seus movimentos. Outro acerto é a belíssima trilha sonora composta por Michael Giacchino. O fim, como disse anteriormente, ainda que emocione, deixa um pouco a desejar, no entanto, no geral, se trata de um filme adorável, sensível e bastante tocante – sim, preparem os lenços! -, que nos pega de surpresa com seu desenvolver e suas boas reviravoltas.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Título original: The Book of Henry
    Duração: 105 minutos
    Distribuidor: –
    Diretor: Colin Trevorrow
    Roteiro: Gregg Hurwitz
    Elenco: Naomi Watts, Jacob Tremblay, Jaeden Lieberher, Dean Norris, Sarah Silverman, Lee Pace, Maddie Ziegler

Crítica: 1917

Contra o tempo

Guerra já foi tema de muitos filmes no cinema e é interessante quando surge uma obra que tem algo novo a mostrar, um olhar único sobre um mesmo evento. “1917” facilmente se destaca neste subgênero e merece reconhecimento por suas tantas qualidades técnicas. Um trabalho de produção admirável, que resgata um período histórico com precisão e nos faz viver, durante seus belos minutos, o desespero em estar na pele de seu protagonista, vivendo sob o caos e a tensão de tudo aquilo. O novo longa de Sam Mendes é uma experiência sem igual, imersiva, angustiante e extremamente bem realizada. A opção por gravar suas ações em um quase que ininterrupto plano sequência, torna tudo ainda mais fascinante de assistir. É um deleite visual e um exercício narrativo e cinematográfico altamente ousado.

“1917” acontece quase que em tempo real e justamente por isso nos coloca para dentro da ação, ao lado de seu bravo protagonista. É a história de um herói de Guerra e os sacrifícios que enfrenta para finalizar sua honrada missão. O roteiro é bem direto, evita firulas e dramatizações e mesmo com esse excesso de realismo, a trama emociona e nos envolve, logo que somos convidados, a todo instante, a estar presente ali, vivenciando cada passo, cada obstáculo. Seja nos corpos mortos pelo ambiente, seja nas cidades em ruínas, nas trincheiras devastadas. O filme comove nesses relatos, nesses detalhes e vestígios que deixa pelo caminho. Neste sentido, é muito rico todo esse esforço da produção em redesenhar todo esse período e traçar, de forma bastante calculada, todo o percurso do personagem e todos os elementos e histórias que ele esbarra. É muito natural toda sua jornada e espanta pela precisão de cada ato. Os figurinos, objetos de cena e toda essa reconstrução dos ambientes nos transportam ao tempo. É lindo essa preocupação da equipe em tantos detalhes e na escolha por não abusar de efeitos especiais e permitir que exista, de fato, muita coisa prática ali em cena. É simplesmente surreal pensar em como tudo foi feito. O resultado final é absurdo, gigante, deslumbrante.

O filme narra a jornada de dois soldados britânicos que precisam correr contra o tempo e atravessar o território inimigo em um momento crucial da Primeira Guerra Mundial. O desafio é enviar uma mensagem que impedirá uma terrível armadilha e a possível morte de milhões de combatentes. É interessante em como o protagonista, Schofield, é inserido nesse contexto, escolhido ao acaso, obrigado a lutar por uma missão que não é necessariamente sua. Ao decorrer do filme, ele que tem o perfil de um coadjuvante, se torna protagonista da batalha, abraça a história que lhe é dada mas que de alguma forma, aquilo se torna seu propósito, sua razão em estar ali. Apenas ao final ouvimos seu nome. Ele é como tantos outros soldados ali no meio do caos, o herói sem identidade, o homem que troca sua medalha de honra por um segundo de dignidade. É assim que George MacKay prova ser um grande ator, conseguindo transmitir essas transformações do personagem e emociona. É uma entrega bastante física também e ele se doa com garra. Merece mais reconhecimento em sua carreira. A obra conta ainda com boas participações de Dean Charles-Chapman, Andrew Scott, Richard Madden, Mark Strong, Colin Firth e Benedict Cumberbatch.

Sam Mendes consegue imprimir em “1917” este estado de calamidade, de urgência. Sentimos o drama de estar ali, o vazio deixado pela destruição, o barulho que anuncia a morte e o silêncio deixado por ela. É impactante, devastador e intenso. O diretor deixa de lado o espetáculo comum do gênero para focar na história de um homem comum e seu ato heróico. Com sua câmera constantemente em suas costas, atravessamos um longo caminho ao seu lado, conhecemos sua coragem mas também sua inocência, vulnerabilidade e seus raros instantes de fraqueza. Há humanidade em suas ações e justamente por isso é tão doloroso estar ali com ele. Com a direção de fotografia impecável assinada pelo mestre Roger Deakins e a trilha de Thomas Newman, o show está completo. Há diversas cenas incríveis aqui e que ecoam na mente mesmo depois que termina. Um trabalho absurdamente bem realizado, que justifica nossa paixão pelo cinema.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2019
    Duração: 118 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Sam Mendes
    Roteiro: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
    Elenco: George MacKay, Dean Charles-Chapman, Andrew Scott, Richard Madden, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, Colin Firth

Crítica: Expresso do Amanhã

Alguns vagões são mais iguais que outros

Baseado na grafic novel francesa “Le Transperceneige“, o longa marca o primeiro filme falado em inglês do sul-coreado Bong Joon-ho (Parasita, 2019), que conta ainda com a produção de Chan-wook Park (Oldboy, 2003). Visualmente estilosa, a obra traz um olhar bastante original sobre um mundo pós-apocalíptico, que consegue, com seu roteiro extremamente inteligente, fazer duras críticas à sociedade atual.

Em um futuro pouco distante, o governo falha em uma missão de cessar o aquecimento global, culminando no congelamento total do planeta. Wilford (Ed Harris) é um engenheiro que elaborou a construção de um trem que acabou por salvar toda a população, e em uma espécie de “Arca de Noé”, a embarcação levou os últimos sobreviventes. Sem destino, os passageiros são separados de acordo com suas classes sociais, e aqueles que não conseguiram comprar sua entrada, vivem na “cauda”, ou seja, nos últimos vagões, vivendo em situações precárias e se alimentando de uma pequena barra de proteína. A trama se inicia, quando, 18 anos depois, a população da cauda resolve começar mais uma rebelião, liderados por Curtis (Chris Evans), afim de chegarem até os primeiros compartimentos, no local onde poderão controlar as máquinas, onde finalmente iniciarão a tão almejada revolução.

O diretor Bong Joon-ho realiza aqui um excelente trabalho. Sempre fica aquela expectativa de como um diretor se comporta fora de seu país de origem e aqui ele não decepciona. Muito pelo contrário, traz frescor e originalidade para um tema já muito explorado pelo cinema, o mundo pós-apocalíptico. A presença do produtor Chan-wook Park fez diferença também. Alguns instantes remetem ao seu clássico “Oldboy”, principalmente nas sequências mais violentas, esteticamente bem interessantes, com forte apelo visual, que abusa da câmera lenta e não poupa nosso olhar de nada. Aliás, grande parte desta originalidade de “Snowpiercer” está em seu visual, logo que, ao seu decorrer, acompanhamos uma rebelião que se inicia na ponta do trem e caminha até sua frente. A cada vagão que nos deparamos, vemos um novo universo, representando cada classe social, cada grupo. Esta diferenciação faz parte de sua dura crítica, já que na teoria todos vivem em uma “mesma sociedade”, e assim, a obra nos revela o belíssimo e complexo trabalho da direção de arte. Curioso e ao mesmo tempo fascinante a descoberta desses “mundos”. Passamos pelo visual da classe baixa, que remete ao steampunk, sombrio e caótico, até a alta sociedade, com seu exagero de cores e texturas. Esta viagem que o filme nos proporciona é o que o torna mais interessante, por centrar sua trama num local fechado, e deixar que as diferenças e conflitos aconteçam ali. A cada novo vagão, uma nova surpresa. E é isso que torna a experiência de assisti-lo tão revigorante, tão surpreendente, e por diversos momentos, tão tensa, eletrizante.

Dentre essas boas surpresas que “Expresso do Amanhã” nos presenteia é seu elenco. Já de cara, nos deparamos com um renovado Chris Evans, que se mostra, pela primeira vez, um grande ator. Ainda encontramos com a forte presença de John Hurt, Jamie Bell, Octavia Spencer, Alison Pill e Ed Harris. Ao decorrer da trama, Tilda Swinton surge em uma surpreendente aparição, onde sua comicidade e sua atuação um tanto quanto caricata torna as críticas feitas pelo roteiro ainda mais aguçadas, mais provocativas. Dentre os protagonistas, vemos ainda os sul-coreanos Kang-ho Song e Ah-sung Ko, que trabalharam juntos com o diretor no terror “O Hospedeiro”.

“Expresso do Amanhã” peca um pouco em seu ato final, onde com sua longa duração e com sua trama, até então, bem detalhada, me pareceu apressada em sua conclusão, Apesar de ser um bom final, não ficou a altura da incrível trama que construiu até ali. Seu término é bem pessimista, de certa forma, deixa um vazio. O filme revela este trem como um ecossistema, onde tudo precisa estar no seu devido lugar, onde a ordem é necessária, onde a fuga e a liberdade causará a morte. Ainda há a existência deste ser místico, Wilford, que salvou a população do sofrimento, que controla tudo e onde a população do trem aprendeu a adorá-lo. É a ficção, mais uma vez, usando de uma trama futurística para denunciar nosso presente. E são críticas escancaradas, duras, que relata sobre esta humanidade com classes sociais tão divididas, do poder e manipulação que aqueles que estão na frente exercem sobre os demais. Simplesmente brilhante!

NOTA: 8,5

  • País de origem: Coreia do Sul, EUA, França
    Título original: Snowpiercer
    Ano: 2013
    Duração: 126 minutos
    Distribuidor: Playarte Pictures
    Diretor: Bong Joon-ho
    Roteiro: Bong Joon-ho, Kelly Masterson
    Elenco: Chris Evans, Song Kang-ho, Jamie Bell, Tilda Swinton, Ed Harris, Octavia Spencer, Alison Pill, John Hurt

Crítica: Retrato de Uma Jovem em Chamas

A beleza dos detalhes

O cinema da francesa Céline Sciamma sempre tentou desvendar, com extrema sensibilidade, o universo feminino e questões interessantes como identidade e gênero. “Retrato de Uma Jovem em Chamas” é mais do que uma preciosidade em sua filmografia. É sua mais completa obra de arte. É o seu produto definitivo. Um trabalho que alcança um nível de perfeição extremo, que nos deixa sem palavras ao seu fim e encantados por todas as belas decisões que ali foram tomadas.

Somos levados à França do século 18, quando a pintora Marianne (Noémie Merlant) é contratada para fazer o retrato de Héloïse (Adèle Haenel), uma jovem que está prestes a ter um casamento forçado. A grande questão é que ela não pode saber que será pintada e por isso, Marianne surge com o pretexto de ser uma companheira de caminhadas. São, então, nesses instantes que as duas passam juntas que ela passa a capturar os detalhes de sua nova musa. Ao decorrer dos dias, ambas se tornam confidentes e se entregam a paixão que logo nasce ali.

“Senti na solidão a liberdade que você falou.
Senti também sua ausência.”

Para pintar seu quadro, a protagonista precisa, sigilosamente, aprender os traços de Héloïse, os contornos e sua mais verdadeira essência. Desta forma, a diretora constrói uma obra altamente contemplativa, encontrando beleza nos detalhes, nos corpos e principalmente nos olhares. As duas estão sempre se olhando, inteiramente. Buscando entender as falas de seus corpos, os significados de cada postura. É lindo quando, deste ato puro de observação, nasce uma história de amor. Neste estudo íntimo de olhar e entender o próximo, sem julgamentos, sem receios, vivendo na necessidade de ser a expansão daquela existência. De ser parte uma da outra. Mais do que as lembranças de como elas se apaixonaram, o filme se propõe a ser o conto de como aquele quadro foi realizado. A memória daquele registo íntimo. O registro de um sentimento que somente elas viveram, somente elas sentiram. E não há nada mais poético que isso.

Céline Sciamma entrega um produto elegante, pausado e que encontra fascínio nesta observação. E como é gratificante para nós, enquanto público, desfrutar de cada instante que ela constrói. Das mais belas paisagens aos cenários cuidadosamente montados. Tudo ali nos remete a uma pintura. Os figurinos, a iluminação, a posição que encontra suas personagens. É um deleite para os olhos e um presente para a alma. A escolha por não ter uma trilha instrumental dá ainda mais voz e destaque para seus elementos cênicos.

“Retrato de Uma Jovem em Chamas” é um convite à apreciarmos a beleza dos detalhes. Aceitamos com facilidade porque é um prazer grande demais vivenciar o que o diretora tem a nos oferecer. Que bom quando histórias de mulheres são contadas por uma mulher, que as compreende e expõe esse universo da forma mais honesta possível. Por fim, me senti completamente emocionado pela forma com que tudo foi guiado, pela sensibilidade de traduzir sentimentos tão puros. Assim como as imagens, visualmente tão poderosas, as sensações que o filme nos permite sentir ecoa dentro de nós. Lindo, apaixonante, a obra de arte que 2020 precisava.

NOTA: 10

  • País de origem: França
    Título original: Portrait de la Jeune Fille en Feu
    Ano: 2019
    Duração: 120 minutos
    Distribuidor: Supo Mungam Films
    Diretor: Céline Sciamma
    Roteiro: Céline Sciamma
    Elenco: Noémie Merlant
    , Adèle Haenel, Valeria Golino, Luàna Bajrami

Crítica: Entre Facas e Segredos

Minha casa, minhas regras.

Se Agatha Christie, um dia, tivesse a chance de escrever um filme, este filme seria exatamente como “Entre Facas e Segredos”. Uma mansão luxuosa, um crime misterioso e um detetive pronto para desvendar a história por trás de uma morte não solucionada. São ingredientes que se tornaram partes da escrita da renomada autora e que retornam neste intrigante e fascinante novo trabalho do diretor Rian Johnson (Star Wars: Os Últimos Jedi). É, também, como se o jogo “detetive” ganhasse vida e os personagens, muito bem interpretados por este grande elenco, fossem as peças de um tabuleiro. O jogo aqui é inteligente, bem conduzido, com saídas improváveis e soluções plausíveis. 

Uma reunião de família que termina de forma trágica. O patriarca (Christopher Plummer), aparentemente comete um suicídio, mas alguns indícios mostram que pode ter acontecido um terrível e calculado assassinato. É então que entra em cena o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), que volta ao local do provável crime para entrevistar os membros desta família disfuncional, onde todos são grandes suspeitos para ter cometido tal ato. Entre conversas e flashbacks, vamos conhecendo os grandes segredos por trás daquela noite. A linhas temporais aqui não são retas, indo e voltando nos mesmos acontecimentos mas sempre revelando uma informação nova. É simplesmente delicioso acompanhar a solução deste mistério ao lado desses personagens tão imprevisíveis e juntar, em nossa mente, todos os ricos detalhes deste quebra-cabeça engenhoso. A grande sacada aqui, porém, é sempre seguir por caminhos não convencionais, como por exemplo, não se apoiar ao “quem matou quem” e revelar muito antes aquilo que poderia ser a muleta até o final. São saídas inteligentes e que dão ao filme aquela sensação boa de se ler um bom livro. Uma narrativa muito bem conduzida e que amarra muito bem suas tantas ideias. 

O grande destaque aqui, assim como já nos adiantava em sua divulgação, é o forte e já bastante premiado elenco. De escolhas sempre assertivas como os ótimos Michael Shannon, Toni Collette e Christopher Plummer, à boas surpresas como Chris Evans e Jamie Lee Curtis. Os destaques, no entanto, ficam para Daniel Craig e a jovem Ana de Armas. Depois de encarar por tantos anos James Bond, acho que esquecemos do quão bom ator ele é. E Armas demonstra uma evolução admirável no cinema. É seu melhor momento como atriz até agora, conseguindo oscilar por diversos gêneros ali e construindo uma mocinha bastante intrigante. É muito bom ver este grande elenco reunido, dando vida para diálogos tão espertos como estes e trazendo um humor único, nada apelativo e que só tornam as situações ainda mais interessantes de se ver. Quando achamos que sabemos o caminho em que o roteiro vai seguir, ele vem e nos surpreende, estando sempre a um passo a frente do público. A produção também vem caprichada, desde o design aos belíssimos figurinos que remetem ao luxo vitoriano. A direção de Rian Johnson também é certeira, conseguindo dar ritmo, elegância e, sem grandes pretensões, entrega um dos melhores filmes que tivemos no ano de 2019.

“Entre Facas e Segredos” aproveita, no meio de sua comédia e mistérios, para trazer uma bem-vinda crítica ao governo de Trump e esses muros construídos que separam aqueles que vem de fora ou até mesmo sobre como os próprios norte-americanos diminuem os latinos ou a cultura além da deles mesmos. É assim que o final vem como um grande presente. É divertido e ainda deixa nosso coração aquecido. Saí da sessão com um sorriso no rosto, foi justo e melhor do que qualquer um poderia prever. Um baita filme.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Título original: Knives Out
    Ano: 2019
    Duração: 130 minutos
    Distribuidor: Paris Filmes
    Diretor: Rian Johnson
    Roteiro: Rian Johnson
    Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Chris Evans, Toni Collette, Michael Shannon, Jamie Lee Curtis, Don Johnson, Christopher Plummer, Lakeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Martell

Crítica: A Caçada

A arena virtual ganha vida.

“O filme mais falado do ano é o filme que ninguém viu”. É assim que a divulgação de “A Caçada” nasceu, principalmente depois que o presidente Trump demonstrou estar incomodado com a obra em sua conta do twitter. Ainda que seja bem menos polêmico do que se vendeu, o longa traz uma sátira política que pode, digamos, ofender muitos lados e esta é sua grande ousadia. Ao ironizar tanto os republicanos quanto os democratas, é possível que um grande grupo saia um tanto quanto ofendido de seus discursos. Mesmo que seja uma piada, a carapuça pode servir em alguém.

Em nenhum momento a obra se leva a sério ou tenta discutir algo com profundidade. Isso não é negativo principalmente por deixar claro, desde a primeira sequência, de que estamos diante de algo forçado e com intenção de sarcasmo. Logo no começo, algumas pessoas acordam em um local desconhecido e percebem que são alvos de caça de um grupo fortemente armado. Em uma vibe bem Bacurau e sem entender bem o que está acontecendo, todos passam a lutar pela sobrevivência. Entre cabeças explodindo e uma perseguição eletrizante, é interessante como o roteiro vai destruindo – através de mortes inesperadas – vários arcos narrativos que previamente vamos construindo em nossa cabeça. Da mocinha indefesa ao iminente casal romântico. A imprevisibilidade é a grande arma e nos deixa apreensivos sobre qual será exatamente o rumo daquela jornada. É assim que o filme demora a revelar sua verdadeira protagonista, que ganha força pela expressiva Betty Gilpin.

O extermínio, logo se explica, foi organizado por um grupo da elite liberal que decide matar, de forma gratuita, uma classe rural menos favorecida, todos eles assumidamente republicanos. Assim que as peças desse tabuleiro ganham nomes e seus ideais são expostos, “A Caçada” acaba por trazer um certo desconforto, principalmente quando não é a forma como vemos a situação política atual, sendo incômodo ver os “liberais” em tal posição. É uma obra provocativa, que faz piada daquilo que evitamos ver. Que satiriza a hipocrisia que nem sempre olhamos. Os democratas revelados aqui vivem na elite, distantes das imperfeições do mundo que tanto gostam do apoiar. Praticam com voracidade aquele típico ativismo de sofá. Eles querem salvar a sociedade mas estão confortáveis demais na redoma de vidro em que vivem. Os republicanos também não surgem como vítimas e de certa forma, as ironias expostas aqui se assemelham e muito ao movimento de direita que temos no Brasil. São pessoas agressivas no mundo virtual, que criam teorias incabíveis, compartilham informações tolas e criam batalhas em um simples comentário de internet. Ainda que o roteiro se apoie em estereótipos e em versões caricatas desses dois grupos, a piada funciona e deixa um gosto amargo por suas provocações. O embate final é ridículo, no bom sentido, pois expõe com toda sua ironia como seria esse confronto real entre esses “monstros politizados” que nascem nas redes sociais.

A cabeça por trás desse audacioso projeto é Damon Lindelof, conhecido por séries como Lost, The Leftovers e Watchmen. Apesar dos ótimos discursos, “A Caçada” soa quase como um bom esboço. Nenhuma ideia cresce ou ganha a atenção devida. A protagonista nasce e termina como um grande enigma e justamente por isso é difícil criar alguma empatia por ela ou tentar desvendar esse universo ao seu lado. Apesar da boa atuação, estamos sempre distantes dela, nunca no mesmo passo. A violência e impacto de seus minutos iniciais também somem e dão lugar a uma jornada sem a mesma força que seu poderoso e imprevisível começo. A adrenalina, a aflição e tudo aquilo que poderia crescer e se tornar um grande baque na obra, segue um rumo instigante sim, mas longe do caos que anuncia lá em sua poderosa introdução.

A sequência final é divertidíssima e facilmente nos remete a um dos embates mais marcantes de Kill Bill. Tem umas reviravoltas interessantes e apesar de não ser tão potente quanto prometia, temos aqui um entretenimento que vale a pena, que consegue prender a atenção e nos manter atentos à suas ótimas sacadas. Vejo que a intenção aqui não é atacar nenhum idealismo político mas sim criar um cenário satírico onde é colocado em combate todos os valentões politizados da internet que vomitam versões de uma verdade que somente eles acreditam. Nesse universo protegido onde não possuem nome, apenas a coragem de usar caps lock sem nenhum senso de justiça.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Título original: The Hunt
    Duração: 107 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Craig Zobel
    Roteiro: Damon Lindelof, Nick Cuse
    Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Wayne Duvall, Ike Barinholtz, Emma Roberts