Crítica: O Mauritano

Memórias da dor

Não é de se espantar o porquê “O Mauritano” não tenha feito sucesso nas premiações deste ano. Não que o filme seja ruim, bem pelo contrário, mas porque ele vai complementarmente na contramão desse cinema “pós 11 de setembro” que os americanos gostam de ver (ou de fingir que acreditam). Poucas vezes, nesse período, me deparei com uma produção tão corajosa em seus discursos e tão consciente sobre o papel do governo Bush-Obama e dessa desastrosa campanha da “guerra ao terror”.

A prisão secreta de Guantánamo, localizada em Cuba, foi a saída do Governo dos Estados Unidos em manter em detenção qualquer suspeito de envolvimento com o terrorismo. É uma grande atrocidade e, justamente por isso, torna este filme tão necessário, por escancarar a crueldade e manter viva essa lembrança dolorosa que não deve ser ignorada. Baseado no livro “Diário de Guantánamo”, escrito a mão pelo mauritano Mohamedou Slahi enquanto esteve preso, o longa narra a jornada deste homem comum que ficou encarcerado durante 14 anos sem ter cometido crime algum.

O roteiro é bem pontual, jamais perdendo o foco ou o interesse do público diante dos acontecimentos. A trama se dá início quando o caso de Slahi vai parar na justiça, em um interessante embate entre a advogada de direitos humanos, vivida pela ótima Jodie Foster, e o Governo, que precisa, a qualquer custo, encontrar algum culpado. Essa trajetória acaba por questionar essa justiça impiedosa, que precisa ver alguém pagando pelo o que fez. A ausência de provas, a busca por respostas, tudo vai criando um ambiente sufocante dentro da obra, que nos deixa inquietos e desesperados por alguma solução.

O diretor Kevin McDonald opta por revelar as lembranças do acusado em um formato mais fechado, intensificando esse sentimento de aprisionamento. Ainda que esses flashbacks não funcionem tão bem dentro da narrativa, “O Mauritano” entrega um registro necessário e ousado ao revelar as torturas, o assédio, a violência e tudo o que se manteve, por tantos anos, em silêncio. Desse Governo que usa o medo como controle. Poucas vezes, aliás, ler os letreiros finais de um filme doeu tanto. É, de fato, angustiante e revoltante.

No mais, vale destacar as ótimas atuações do elenco. Jodie Foster é aquela atriz que aparece pouco no cinema, mas quando aparece entrega o seu melhor. Tahar Rahim está fantástico também. É bela essa conexão que vai sendo construída entre os dois personagens. Dela que precisa acreditar na inocência do acusado e ele que precisa acreditar na humanidade dela, diante desse mundo que só lhe trouxe dor.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
Ano: 2021
Título original: The Mauritanian
Disponível: Net Now
Duração: 129 minutos
Diretor: Kevin Macdonald
Roteiro: Michael Bronner, Rory Haines, Sohrab Noshirvani
Elenco: Jodie Foster, Tahar Rahim, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi

Crítica: Saída à Francesa

O surreal mundo dos ricos

“French Exit” é um filme estranho. Às vezes, nos encanta por sua peculiaridade, mas também nos afasta por nunca entendermos claramente o que ele quer ser. É uma mistura nem sempre harmoniosa de Woody Allen com Wes Anderson, que pode até não ter o brilhantismo dos dois, mas tem maturidade o suficiente para tal comparação.

O grande destaque da obra, com toda a certeza, é a forte presença de Michelle Pfeiffer. Ela constrói uma personagem interessante, que poderia cair na caricatura mas ela faz com tanta maestria que conquista o impossível, nos fazer nos apaixonar por ela. Isso porque ela interpreta uma mulher que vive em uma realidade muito distante da nossa, no surreal mundo dos ricos. Uma socialite falida que tem a chance de ir sofrer em Paris, ao lado do filho.

Baseada na obra de Patrick deWitt, que aqui também escreve o roteiro, a trama vai crescendo em uma estranheza nem sempre cativante, mas curiosa e imprevisível. É uma comédia refinada com toques de realismo fantástico sobre encontros de pessoas em um apartamento na França, onde a família deslocada acaba se reunindo com uma desconhecida carente, uma cartomante e um detetive para juntos encontrarem o gato possuído pelo espírito do falecido marido. Nada faz muito sentido e, no fim, essa acaba sendo sua maior graça. Abraça o nonsense mas sem deixar de se preocupar com seus bons personagens e de buscar essa humanidade existente em cada um deles.

A primeira hora é bem desgastante e demora a se encontrar, mas quando isso acontece, entrega alguns momentos mágicos, principalmente por extrair o melhor de Pfeiffer. Lucas Hedges já tem vindo no piloto automático há um tempo e pouco faz aqui. Dos coadjuvantes, Valerie Mahaffey se destaca e entrega instantes adoráveis. O cuidado na direção de Azazel Jacobs é notável, assim como a bem conduzida trilha sonora.

“French Exit” é aquela comédia que nem sempre faz rir ou agrada, mas causa um certo fascínio por sua esquisitice. Todos os personagens ali soam como pessoas perdidas, que chegaram em um momento da vida que não sabem mais qual a direção seguir. E assim somos nós. Crescemos e somos como crianças que, em um profundo estudo de observação, aprendemos o comportamentos dos adultos e estamos em um constante ato de simulação, agindo como se soubéssemos o que estamos fazendo.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido, Canadá
Ano: 2020
Título original: French Exit
Disponível: Net Now
Duração: 100 minutos
Diretor: Azazel Jacobs
Roteiro: Patrick deWitt
Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Valerie Mahaffey, Imogen Poots, Danielle MacDonald

Crítica: Cruella

Sobre vingança, moda e punk

“Cruella” é um acontecimento. Alcança um nível tão alto de qualidade que torna todos os outros live-actions da Disney menos interessantes. É tudo o que os anteriores tentaram mas não conseguiram ser. Esse tem alma, tem vida própria e não se contenta em ser apenas um favor confortável aos fãs. Como é bom encontrar um produto que prometia pouca coisa e entregou absolutamente tudo.

Existe um brilho a mais em Emma Stone e aqui compreendemos o quão poderosa é sua presença. Uma atriz versátil, carismática e que nos seduz a acompanhar a divertida trajetória de sua personagem. O filme tem como intuito mostrar os eventos antes daqueles que conhecemos em “101 Dálmatas” e a peculiar ascensão de sua adorável vilã. Claro que com uma roupagem completamente diferente e, felizmente, sem se apegar à obra original. É uma trama nova e que acaba, por fim, humanizando Cruella. Poderia ter dado bem errado se não fossem as mãos dos roteiristas Dana Fox e Tony McNamara (A Favorita). É um trabalho brilhante realizado pela dupla, que entrega um filme hipnotizante, que flui muito bem por suas mais de duas horas de duração.

O diretor Craig Gillespie constrói, com sua direção, uma narrativa ainda mais imersiva e consistente daquela apresentada em “Eu, Tonya”. Tem movimento, velocidade e nos mantém atentos a cada detalhe. A produção vem caprichadíssima também, com seus deslumbrantes figurinos e uma impecável direção de arte. Destaque, claro, para a empolgante trilha musical – com nomes como The Clash, Blondie e The Rolling Stones – que nos leva à fascinante Londres dos anos 70. É uma junção de elementos que funcionam perfeitamente bem em cena, sendo uma experiência revigorante de vingança, moda e punk. O único detalhe que causa um certo estranhamento é o uso de CGI nos cachorros, ainda que bem realizado. Porém, acaba sendo justificado quando ganhamos instantes como o doguinho Wink vestido de rato.

Assumindo o papel de Cruella como uma anti-heroína, o roteiro não nos deixou de nos apresentar uma grande vilã. A Baronesa vivida pela veterana Emma Thompson é impagável. O embate entre as duas personagens é saborosíssimo, nos lembrando rapidamente da troca entre Andrea e Miranda Priestly de “O Diabo Veste Prada”. É, ainda, incrível como todos os coadjuvantes funcionam e todos possuem uma função importante ali. Existe química entre todos eles e nos afeiçoamos a essas relações e nos engenhosos planos que desenvolvem. Momentos como os do caminhão de lixo, o show na passarela ou o do vestido de insetos ficarão na memória de tão icônicos que foram. E a grande verdade é que o cinema atual carece disso, desses grandes momentos. Dessas grandes escolhas. “Cruella” é inventivo, tem personalidade e uma energia que vibra. Um espetáculo a ser apreciado!

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Disney Plus
Duração: 134 minutos
Diretor: Craig Gillespie
Roteiro: Tony McNamara
, Dana Fox
Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Mark Strong

Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim