Crítica: Os 7 de Chicago

O espetáculo da fórmula

O roteirista Aaron Sorkin chamou a atenção da crítica, há dez anos atrás, quando usou do tribunal para investigar a mente de Mark Zuckerberg no irreparável “A Rede Social”. Ele retorna a este ambiente para contar mais um evento real, desta vez, focando no longo e histórico julgamento dos “7 de Chicago”, quando um grupo de ativistas foi acusado de incitar tumulto enquanto protestava nas ruas contra a Guerra do Vietnã.

O filme quase todo é centrado dentro do tribunal, com alguns pouquíssimos flashbacks que nos situam ao que realmente aconteceu. Sorkin é mestre nessas longas discussões, contando sempre com um texto verborrágico e de poucas pausas. Ainda que narre um acontecimento do final da década de 60, os debates que consegue extrair de tudo isso é extremamente atual e relevante. É assustador e causa incômodo, não apenas pela postura violenta da polícia, como o despreparo do juiz diante do caso, criando um espetáculo do qual ele já tem certo sobre quem são os culpados e as vítimas da história.

Apesar das boas reflexões que deixa, “Os 7 de Chicago” é formulaico e frustra ao se deixar cair nas armadilhas do subgênero. O falatório é calculado e mais clama por um Oscar do que por honestidade. O grande pecado do texto é se apegar ao julgamento e esquecer daqueles que estão sendo julgados. Passamos o filme todo vendo detalhes ricos das discussões sem jamais conhecer os verdadeiros personagens da história. Aaron Sorkin pode demonstrar grande conhecimento de tribunais, mas esquece das vidas que preenchem aquele espaço. Sabemos o que eles fizeram, mas jamais sabemos quem eles foram.

Como diretor, Sorkin também segue as fórmulas e não reinventa aquele ambiente, sendo visualmente tedioso. Ao menos ele acerta na condução do elenco, extraindo ótimas atuações principalmente de Sacha Baron Cohen, Yahya Abdul-Mateen II, Frank Langella e Mark Rylance. Eddie Redmayne me surpreendeu também. Havia tempo que não o via tão livre de seus tantos trejeitos.

Ao fim, o diretor ainda nos presenteia com um momento surpreendentemente piegas, com trilha sonora pesada e bastante desconexo com o que havia apresentado até ali, optando por uma dramaticidade desastrosa que diminui a força de seus bons discursos.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 129 minutos
    Título original: The Trial of the Chicago 7
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Aaron Sorkin
    Roteiro: Aaron Sorkin
    Elenco: Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, Alex Sharp, Frank Langella, Michael Keaton, Yahya Abdul-Mateen II
    , John Carroll Lynch

Crítica: Dunkirk

O Som que a Guerra Tem

Nolan é daqueles cineastas que vale a pena esperar. Ele erra pouco, é audacioso, pretensioso ao máximo e talvez o diretor mais corajoso ainda em atividade. Não faz nada pela metade. Em sua brilhante jornada, que já trouxe obras-primas como “Dark Knight”, “Amnésia” e “Inception”, Nolan sempre soube trazer um equilíbrio entre entretenimento e inteligência, construindo uma linha interessante de blockbusters de alta qualidade. “Dunkirk” é, definitivamente, seu produto mais refinado. E isso não quer dizer o melhor.

A trama, que se baseia na Evacuação de Dunquerque, acontece na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de soldados britânicos são encurralados pelos alemães e não conseguem mais retornar para a casa. Sem contar sua história em ordem cronológica, o filme não foca em personagens, mas sim em diferentes planos e pontos de vista. Dessa forma, descobrimos o que acontecia no mar, na terra e no ar. Em um conjunto geral, por fim, “Dunkirk” aborda a luta de cada indivíduo ali dentro daquele ambiente extremamente vulnerável, fazendo o impossível para sobreviver. É bonito neste sentido, em como ele nos revela este instinto dos soldados em salvar o próximo, onde o tempo inteiro uma ação solidária está em ação. Nolan consegue criar um universo assombroso pelo caos da Guerra, mas também consegue transmitir este tom esperançoso, que emociona. O mundo pode estar no fim, mas a vontade de viver não. Ele acerta, também, ao trazer uma perspectiva diferente de todos os outros filmes de combate. Seus soldados não estão mais na batalha e não são mais heróis. O texto destrói este glamour que o cinema criou sobre a Guerra. Aqui ninguém quer estar nela e os que restam, não se sentem vitoriosos e patriotas, apenas desolados, corrompidos e o pior de tudo, fracassados.

É nítido que não há um roteiro aqui e isto não é um defeito. Nolan, pela primeira vez, esqueceu os personagens, diálogos fortes e reviravoltas mirabolantes. Focou nas sensações, mostrando sempre de um plano maior um único evento. Seu grande trunfo é que “Dunkirk” é sim uma grande experiência. Conseguiu com maestria nos colocar ali dentro da ação. Da primeira a última sequência, estamos completamente imersos em sua proposta. Com sua trilha sonora constante e épica, marcando mais uma bela parceria com Hans Zimmer, a movimentação de sua câmera que não nos permite fugir e principalmente seu alto e eloquente som que nos faz ouvir e, consequentemente, sentir o peso, a dor e a pressão de estar naquela Guerra. Batalhas não são silenciosas e a equipe de som não poupou nossos ouvidos. É estrondoso e, confesso, incomoda. Faz parte da proposta, torna a sensação ainda mais real. E tudo gira em torno disso. Nos colocar ali. Funciona. É doloroso, desconfortável, assustador.

Preciso dizer, porém, não ter um protagonista a quem seguir os passos diminui a força da obra. São personagens jogados, que estão sempre assistindo. Não sofremos e torcemos por alguém específico e isso querendo ou não, faz falta, principalmente quando os tantos indivíduos ali retratados ou não saem do lugar, como um dispensável Tom Hardy que permanece a trama inteira no ar – e cansa pela repetividade -, ou são insignificantes e não tem muito a dizer ou fazer em cena. Nolan, que sempre tão bom em construir e desenvolver personagens esqueceu de dar vida a todos eles que soam insignificantes na maior parte do tempo. Mesmo não existindo papéis a altura de talentos como os ótimos Cillian Murphy e Mark Rylance, ainda consegue entregar algumas boas revelações, como o jovem Fionn Whitehead e a grande surpresa, Harry Styles.

Visualmente, a obra choca pelo nível de realismo que alcança. Christopher Nolan é um diretor brilhante e domina cada sequência, nos fazendo sempre nos perguntar como tudo aquilo foi feito. É bonito de ver. Por outro lado, estranhamente, dentre os clássicos do diretor, “Dunkirk” pode até ser o mais refinado, no entanto, é um dos menos marcantes de sua carreira. Como experiência dentro de um cinema, é maravilhoso. Fora dele, não tem vida muito longa como seus outros trabalhos. É um filme excelente que se destaca, mas falta algo. Existe um vazio que permeia por toda a obra, que ao mesmo tempo que nos aproxima pelo realismo, nos afasta pela ausência de conteúdo, de uma história, de alma.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Duração: 106 minutos
    Título original: Dunkirk
    Distribuidor: Warner Bros.
    Diretor: Christopher Nolan
    Roteiro: Christopher Nolan
    Elenco: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, Harry Styles, Barry Keoghan, Tom Hardy, James D’Arcy

Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman

Crítica: Fim de Século

A vida que não tivemos juntos

Não há nada mais doloroso em nossa vida do que olharmos para trás e bater aquela dor diante da reflexão “e se”. E se tivéssemos feito diferente? Tomado outro rumo? O que teria sido de nós? De fato, cada oportunidade perdida nos leva para outra direção e é essa a interessante premissa de “Fim de Século”, filme LGBT argentino. Ao começo da trama, Ocho, um poeta que vive em Nova York, está viajando por Barcelona e desvendando a cidade com toda sua solidão e liberdade. Seu caminho acaba se cruzando com o de Javi, um belo jovem que logo desperta seu interesse. Entre conversas, ambos se dão conta de que esta não é a primeira vez que se encontraram e que, há 20 anos atrás, antes da virada do século, a história deles já tinha dado um início.

Um dos personagens, metaforicamente, é cineasta e tem dificuldades em finalizar seu projeto justamente porque se deu conta de que uma obra ilustrada por experiências pessoais é mais rica do que aquela que almeja alcançar sua inspiração. Primeiro longa-metragem dirigido por Lucio Castro, é nítido, em cada cena, o quanto aquele universo é particular à ele e o quanto o que vemos faz parte de uma experiência pessoal. Talvez não por completo, mas grande parte daquilo. Há muita honestidade em cada instante, em cada conversa jogada fora. Até mesmo a forma como Barcelona é registrada, há intimidade. Diante de tamanha naturalidade em captar sua história, nos sentimos parte daquilo. Parte daquele tempo.

O tempo aqui é dividido em dois. Diante de épocas tão distintas, é interessante o quanto a evolução dos anos, da mente de uma sociedade e da tecnologia acaba influenciando em nosso modo de vida. Se em 1999, época em que as pessoas vislumbraram a virada do século e uma iminente vida nova, homens agiam como héteros para serem aceitos, buscavam um esconderijo para serem eles mesmos. Ocho e Javi se encontram em um momento de ruptura, de novas descobertas e, inconscientemente, ambos se ajudam neste processo de auto aceitação, de que amor é possível. 20 anos depois, o sexo ganha a tecnologia como ferramenta principal, onde aplicativos tornam relações mais práticas. Ainda que Ocho procure na vitrine virtual algo que sacie seu tesão, é belo quando ele encontra alguém na rua, offline. Como se Javi fosse mais do que uma foto de perfil, fosse algo real. Mas nem tudo o que é real é alcançável.

“Fim do Século” diz muito sobre como amor não é o suficiente, mesmo quando se quer tanto aquela outra pessoa. Ocho e Javi parecem terem sido feitos um para o outro. E mesmo com duas ótimas oportunidades para que a história deles acontecesse, a vida simplesmente acontece de outra forma, o ciclo se move e eles não caminham juntos. É muito real esse desencontro. O sentimento mútuo existe, só não estão no mesmo passo, no mesmo momento. É lindo quando ao final, Ocho visualiza sua vida caso aquele encontro, 20 anos atrás, tivesse dado em alguma coisa. Talvez eles tivessem sido felizes, talvez não. Talvez eles teriam escrito a mais perfeita jornada para que no final eles se dessem conta de que sonhavam em estar em outro lugar. Porque a vida é isso. Nossa realidade nunca é suficiente. Talvez a grande história de amor entre Ocho e Javi era para ser esses pequenos encontros. Um conto breve. Dois capítulos apenas. Melhor lembrar como algo rápido e bom do que viver para sempre e ver o fim.

Ao optar por colocar seus atores fisicamente muito parecidos entre os dois tempos, enfraquece um pouco seus discursos. Pode até existir a intenção de mostrar o quão falha pode ser nossa memória, mas essa escolha torna um tanto quanto confusa essa alteração, ainda mais quando nem mesmo a fotografia ou a própria Barcelona são diferentes. Me pareceu uma opção preguiçosa da produção, que preferiu simplificar elementos cruciais para a narrativa. No mais, os dois atores se mostram bem a vontades em cena, se entregando a provocativas e bastante sensuais cenas de sexo. É bom ver esse ato tão natural em qualquer relacionamento ser mostrado sem muita censura, de forma crua e de gosto assertivo. Aliás, é ótimo poder ver uma trama tão madura e gostosa de se ver protagonizada por um casal gay. Poderia ser um casal hétero ali e é belo sentir que o cinema evoluiu o bastante para entender que dois homens ou duas mulheres também podem amar e também podem construir suas próprias histórias de amor. Que bom ter cineastas com esta coragem de captar isso com tamanha honestidade e sensibilidade. É aquela questão de representação que há anos atrás tanto fazia falta.

NOTA: 8

  • País de origem: Argentina
    Ano: 2019
    Duração: 84 minutos
    Título original: Fin de Siglo
    Distribuidor: –
    Diretor: Lucio Castro
    Roteiro: Lucio Castro
    Elenco: Juan Barberini, Ramón Pujol

Crítica: Cats

Desastre anunciado

Grande sucesso no teatro, é até estranho pensar o porquê “Cats” demorou tanto para ganhar uma adaptação ao cinema. Lançado na década de 80, o premiado musical conta a história de uma tribo de gatos, os Jellicle Cats, que todo ano precisa realizar uma performance para o líder que dará ao vencedor a entrada para o Paraíso e a chance de uma vida melhor.

Com direção de Tom Hooper (Os Miseráveis), o longa recebeu uma enxurrada de críticas negativas em seu lançamento, principalmente devido ao seu visual. De fato, o resultado de “Cats” é bem desastroso, chegando a ser triste ver um produto com tamanho potencial, receber tal tratamento na tela grande. Os efeitos especiais são bizarros, causando estranhamento pela proporção dos elementos de cena – que ora são grandes demais, ora são pequenos demais – e principalmente pela opção de misturar os traços dos gatos com os dos atores. É tudo involuntariamente assustador, tirando o brilho das apresentações e, infelizmente, de todo o elenco.

Os mais prejudicados, com certeza, foram Jennifer Hudson, que apesar de impressionar pela potente voz, é ofuscada pelo visual e Idris Elba que precisa se esforçar para dar vida para um projeto mal feito de vilão. Rebel Wilson, por sua vez, precisa encarar o pior momento do filme, em um número musical assombroso envolvendo ratos e baratas. O roteiro jamais ajuda, onde tudo é narrado com pressa e um péssimo desenvolvimento. Nenhum personagem parece ter alguma importância, onde todos surgem como um mero adereço de luxo, sem meio e fim, o que enfraquece nosso envolvimento com a trama e com esta mísera trajetória de todos eles.

Nem tudo, aliás, é um desastre. Vale citar a bela performance dos atores novatos e bailarinos aqui, como Francesca Hayward, Robert Fairchild e Steven McRae, que realiza o mais belo instante de “Cats” com o sapateado do gato da estação de trem. Há, ainda, alguns bons respiros como as empolgantes apresentações de “Jellicle Song For Jellicle Cats” e “Mr. Mistoffelees“. Existe boas intenções e isso é nítido em diversos momentos. Mesmo que tudo tenha dado errado, sei que existe uma equipe talentosa por trás de tudo isso que, talvez, vítima de uma produção apressada e gananciosa, foi impedida de realizar algo melhor finalizado.

NOTA: 5

  • Duração: 110 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Roteiro: Tom Hooper, Lee Hall
    Direção: Tom Hooper
    Elenco: Francesca Hayward, Robert Fairchild, Jennifer Hudson, Laurie Davidson, Idris Elba, Judi Dench, Ian McKellen, James Corden, Rabel Wilson, Jason Derulo, Taylor Swift

Os 25 melhores filmes de terror da década

O terror foi um dos gêneros que mais nos trouxe filmes interessantes nesta última década. Foi notável a melhora na qualidade das produções que inovaram e conseguiram explorar todas os caminhos possíveis. Seja por um viés mais dramático, por um mais cômico. Seja pelo terror psicológico que ganhou belíssimos exemplares nesses 10 anos que passaram. O terror deixou de ser uma única coisa, de seguir uma fórmula e foi lindo como todas essas obras que cito aqui redefiniram, de alguma forma, o medo. Algumas pessoas até gostam de acreditar que nasceu uma nova fase: o post-horror, mas é apenas uma questão de denominação. O gênero continua o mesmo.

Com um prazer enorme, listo agora os 25 melhores filmes de terror que tivemos nesta década (2010 – 2019). Se lembrarem de outro título que merecia estar aqui, deixem nos comentários. Espero ter sido justo e espero que gostem da seleção. E caso não viram algum, deixo aqui como minhas dicas!

25. Garota Sombria Caminha Pela Noite
2014 | Ana Lily Amirpour

Nada é mais gótico que uma vampira de burca andando de skate pela noite. O terror iraniano revelou o talento da diretora Ana Lily Amirpour e nos mostrou uma nova forma de encarar os vampiros no cinema. O longa nos revela os ataques de uma jovem selvagem contra aqueles que desrespeitam mulheres no silêncio da noite. Filmado em preto e branco, o filme traz algumas sequências desconfortáveis de violência mas, ao mesmo tempo, encanta pela delicadeza ao narrar o romance entre a garota e um adolescente perdido.

24. Amizade Desfeita
2014 | Levan Gabriadze

“Amizade Desfeita”, no mínimo, oferece uma experiência diferente para o público. Apesar de não negar completamente os estereótipos do “terror adolescente”, a produção encontra inovação em sua técnica, narrando toda sua trama através de uma tela, deixando seus personagens interagirem por suas redes sociais e permitindo que o seu “vilão” se mantenha no anonimato. É um produto atual que dialoga com a nova geração, explorando o medo no ambiente online.

23. Pânico 4
2011 | Wes Craven

“Pânico 4” é aquela sequência que ninguém pediu mas veio para dar uma bela lição, no meio de suas tantas ironias e metalinguagens, que Hollywood deve parar de fazer continuações que desrespeitem as obras originais. O longa também marca o último registro de Wes Craven e seu belíssimo legado para o gênero. É um produto divertido, irreverente, que mesmo brincando com os clichês do slasher consegue nos entregar uma trama interessante, com boas sacadas e um final surpreendente.

22. A Morte Te dá Parabéns
2017 | Christopher Landon

Uma garota mesquinha do colégio é brutalmente assassinada por um indivíduo mascarado. Acontece que depois ela acorda e percebe estar vivendo em um eterno looping, no mesmo dia, até descobrir quem está por trás de sua própria morte. O filme resgata com louvor o slasher, subgênero que fez sucesso na década de 90, e brinca com inteligência com a fórmula. Um roteiro divertido, empolgante e que traz sempre ideias criativas para dentro das cenas.

21. O Babadook
2014 | Jennifer Kent

O filme independente de Jennifer Kent foi um dos títulos que marcaram esta nova era do gênero. Com poucos recursos, ela redefiniu o terror psicológico ao colocar em cena uma das criaturas mais assustadoras desses últimos anos: o babadook. O pesadelo que ganha vida e transforma a conturbada relação entre um garoto e sua mãe, que sofre pela morte de seu marido. Há muitas metáforas aqui e o pavor acaba sendo uma representação dos traumas vividos por seus protagonistas.

20. Vingança
2018 | Coralie Fargeat

A grande força de “Vingança” está em seu visual. Com cores vibrantes e uma fotografia estonteante, a diretora Coralie Fargeat constrói um produto sensorial e uma experiência de tirar o fôlego. A história nos revela a busca de vingança de sua protagonista, que luta por matar friamente aqueles que a assediaram. As mortes aqui são extremamente gráficas e chocam pela violência explícita.

19. Kill List
2011 | Ben Weathley

“Kill List” é um dos raros exemplares do terror britânico e facilmente entra na lista dos filmes mais perturbadores da década. É aquele tipo de produto que não deixa ninguém ileso e nos faz ficar remoendo em teorias por conta das tantas respostas que não nos dá. Definitivamente serviu de referência para algumas obras posteriores ao inovar na forma como revela uma seita pagã. Na trama, um pai de família aceita o serviço de matar três pessoas por dinheiro mas logo percebe que nada é o que parece. Um filme violento, brutal e explícito, que choca por diversos instantes e nos deixa atordoados por sua sequência final.

18. A Visita
2015 | M.Night Shyamalan

O mestre M.Night Shyamalan deixou sua marca no terror na década com uma das obras mais simples e caseiras que ele já realizou em sua carreira. Utilizando a técnica de found footage – que deixou de ser explorada nesses últimos 10 anos -, o filme coloca duas crianças como protagonistas enquanto elas visitam seus avós em uma remota fazenda, não demorando muito até elas perceberem que algo de muito estranho acontece por ali. Uma obra divertida e incrivelmente tensa, que nos reserva alguns bons sustos e instantes sufocantes.

17. It – A Coisa
2017 | Andy Muschietti

Baseado no livro de Stephen King, o filme de Andy Muschietti foi um grande sucesso de bilheteria, quebrando alguns recordes para o gênero. A trama gira em torno de um grupo de crianças que são aterrorizadas por um ser sobrenatural, o palhaço Pennywise, que se tornou uma das figuras mais emblemáticas desta década no cinema, graças a boa performance do ator Bill Skarsgård. A obra traz uma vibe nostálgica deliciosa de assistir e causa bastante impacto com suas belas sequências de terror.

16. Midsommar
2019 | Ari Aster

Um dos filmes mais bizarros que tivemos o prazer (ou desprazer) de assistir nesta década. O diretor e roteirista Ari Aster vai além do limite e explora com extrema perversão um misterioso culto pagão. O pavor aqui é entregue à luz do dia e nos deixa completamente aterrorizados e desconfortáveis por suas sequências. O roteiro tenta investigar os traumas e complexidade de sua forte protagonista, defendida com garra pela jovem Florence Pugh, enquanto ela imerge em uma nova e assustadora cultura.

15. Nós
2019 | Jordan Peele

O fascínio de “Nós”, criação do mestre Jordan Peele, vem justamente por ele ter conseguido criar, em seus belos minutos, toda uma mitologia que explique suas invenções. São inúmeras saídas inteligentes que fazem com que a trama ganhe cada vez mais complexidade e proporções imprevisíveis. O filme investiga a invasão das “cópias” que saem do submundo para matar sua matéria original, focando na jornada de uma família que precisa lutar contra seus respectivos duplos. É um produto original, divertido, que explora bem seu universo e sua grande protagonista, revelando uma potente atuação de Lupita Nyong’o.

14. Invasão Zumbi
2016 | Sang-ho Yeon

Grande sucesso do cinema sul-coreano, a trama toda, basicamente, acontece dentro de um trem, enquanto uma epidemia transforma os habitantes em zumbis. Mistura bem orquestrada de ação, terror e drama, a obra é daquelas que nos prende a atenção do começo ao fim. Um produto divertido, empolgante e satisfatoriamente eletrizante. Definitivamente, um ótimo exemplar de filme com zumbi.

13. Um Lugar Silencioso
2018 | John Krasinski

“Um Lugar Silencioso” foi uma grande surpresa. O som, que sempre foi a muleta do gênero, é retirado para que a tensão seja encontrada no silêncio. É genial acompanharmos seus protagonistas atravessando uma longa jornada sem se expressar verbalmente, fugindo de criaturas que atacam quando percebem algum ruído. É simplesmente agonizante essa situação e o filme faz bom proveito disso, entregando sequências eletrizantes e de pura tensão. De certa forma, surpreendentemente, ainda emociona quando seus personagens precisam encarar o luto mas jamais podem expressar o que sentem. Há sensibilidade em cada relação e este é o grande trunfo da obra.

12. A Bruxa
2015 | Robert Eggers

“A Bruxa” marcou uma grande ruptura do gênero nesta década, dando início a uma nova forma do cinema encarar o terror. Robert Eggers foi um dos maiores e mais relevantes nomes revelados nesses últimos anos e isso se deve pela riquíssima qualidade de seu trabalho. Ele basicamente nega as fórmulas que conhecemos e constrói algo novo, único e de grande impacto. O medo está presente em sua atmosfera densa, nos diálogos e em tudo o que seus personagens representam. A trama nos mostra uma Inglaterra Medieval, quando uma família é deserdada da Igreja e passa a suspeitar de forças malignas pelo sumiço do filho mais novo.

11. Rua Cloverfield, 10
2016 | Dan Trachtenberg

Sequência “espiritual” de Cloverfield de 2008 e produzido por J.J.Abrams, o filme merece respeito por conseguir criar uma atmosfera inquietante mesmo se utilizando de pouquíssimos recursos e espaços. O medo vem pela incerteza do que há no mundo de fora daquelas paredes e pela tensão existente entre seus três protagonistas, que vivem isolados dentro de um bunker. Mary Elizabeth Winstead é uma das mais respeitadas Scream Queen do cinema e prova seu talento aqui, ao lado dos ótimos John Goodman e John Gallagher Jr. A relação entre eles é o que torna a obra tão rica, assim como o belíssimo roteiro.

10. Corrente do Mal
2014 | David Robert Mitchell

Uma força maligna que é transmitida através do sexo parecia uma ideia bem bizarra e com grandes chances de dar errado. Felizmente não deu e o diretor e roteirista David Robert Mitchell soube muito bem como fazer isso funcionar e acabou por realizar uma das obras mais originais e fascinantes dentro do gênero que tivemos nesta década. Com uma deliciosa vibe oitentista e uma atmosfera de filme indie, o roteiro acerta ao compor sua forte protagonista e no dilema moral que enfrenta.

09. Você é o Próximo
2012 | Adam Wingard

Um reencontro de família é arruinado quando estranhos usando máscaras de animais começam a atacá-los. Com muita violência, sangue e boas surpresas, “Você é o Próximo” revelou o talento do diretor Adam Wingard dentro do gênero, que soube trazer frescor mesmo utilizando fórmulas tão batidas e recuperando com força elementos do terror da década de 90. A protagonista é excelente, se firmando com uma das grandes final girls que tivemos nos últimos anos.

08. O Lamento
2016 | Na Hong-jin

Uma grande pérola do cinema sul-coreano, “O Lamento” busca no folclore e na cultura do país para narrar uma história cheia de simbolismos e de possíveis interpretações. O filme fala sobre uma comunidade que passa a enfrentar uma praga após a chegada de um misterioso homem no local. Apesar de trazer elementos do terror, não aposta no medo e na tensão para nos manter atentos, mas sim em seu roteiro bem elaborado e em seus personagens carismáticos. Há bastante humor também, o que só nos aproxima ainda mais ao seu peculiar universo.

07. O Convite
2015 | Karyn Kusama

Uma reunião entre amigos. Um convite desconfortável. O filme dirigido por Karyn Kusama narra o retorno de um homem, em meio a um jantar entre conhecidos, à casa que dividia com sua, agora, ex-esposa. Há algo de incômodo em cada instante deste evento e nesta nossa paranoia que nasce por querer compreender o que existe ali, ficamos presos nas situações que revela, tentando decifrar seus mistérios. Muito bem dirigido e atuado, “O Convite” é a prova que a simplicidade também pode nos impactar.

06. O Segredo da Cabana
2011 | Drew Goddard

A paródia excepcional de Drew Goddard. A intenção era ser apenas um produto divertido que faz sátira ao terror, reunindo diversos clichês que fazem parte do gênero. No entanto, a piada foi tão bem elaborada que acabou dando muito certo. Entregaram um roteiro genial, original e bastante intrigante, onde um grupo de jovens bonitos se reúnem em uma cabana e acabam despertando a vida dos mais diversos vilões.

05. O Homem nas Trevas
2016 | Fede Alvarez

Três adolescentes decidem bolar o plano perfeito para assaltar a casa um homem idoso e cego. A simples premissa é apenas o início de um filme eletrizante e surpreendente. A grande reviravolta aqui é que os protagonistas acabam se deparando com um psicopata habilidoso, tornando o espaço limitado de uma casa em um cenário claustrofóbico de uma caçada hipnotizante. Um filme, definitivamente, de tirar o fôlego. Tem bons personagens, roteiro bem construído e uma direção fascinante de Fede Alvarez.

04. Invocação do Mal
2013 | James Wan

Se James Wan deixou um legado nos anos 2000 com “Jogos Mortais”, na década passada ele deixou sua marca com “Invocação do Mal”, provando ser um dos grandes nomes do terror. Uma casa mal-assombrada e afastada da civilização, uma família traumatizada e um casal de demonologistas. Tem susto, possessão e uma tensão hipnotizante presente em todas as cenas. O filme conseguiu recuperar diversos elementos do terror mais clássico e entregou um produto refinado, empolgante e prazeroso de ver pelo simples fato de ser bem escrito, bem dirigido. O grande destaque, também, vai pelo roteiro que desenvolveu tão bem suas ideias e seus personagens, nos fazendo acreditar em seu assustador universo.

03. Boa Noite, Mamãe
2014 | Veronika Franz, Severin Fiala

O filme austríaco que pegou muita gente de surpresa. A trama é tão interessante que aos poucos foi ganhando fama na época de seu lançamento. Ao mostrar a relação conturbada entre uma mãe e seus dois filhos gêmeos, o longa provou ser um rico exemplar do terror psicológico. Poucos cenários, cenas impactantes e um final absurdamente genial. O plot twist é um dos mais brilhantes que tivemos nos últimos anos. É possível prever antes, mas a graça mesmo é deixar ser enganado.

02. Hereditário
2018 | Ari Aster

Gosto de afirmar que se o demônio tivesse a chance de fazer um filme, ele faria algo como “Hereditário”. Ari Aster, outra grande revelação no gênero, redefiniu o terror e construiu, em seus belos minutos, uma obra impactante e perturbadora. É simplesmente assombroso cada instante e nos choca ao colocar uma família precisando viver no mesmo espaço depois de presenciarem eventos tão traumáticos. Como um pesadelo que dificilmente esquecemos, o longa ainda nos deu o presente de ver uma das mais incríveis atuações da década: Toni Collette arrebenta.

01. Corra
2017 | Jordan Peele

“Corra” foi um grande marco nessa década e isso é inegável. O comediante Jordan Peele surpreendeu a todos e se revelou um grande diretor e roteirista. O filme é uma mistura interessante de comédia, terror e com umas boas pitadas de crítica social, revelando com ousadia o racismo estrutural presente em nossa atual sociedade. A história que envolve um jovem negro conhecendo a família branca de sua namorada nos deixou incrivelmente tensos e maravilhados por saídas tão inteligentes.

Qual seu filme de terror favorito desta década?

Crítica: The 40-Year-Old Version

A voz da mulher preta

Comédia premiada no Festival de Sundance, “The 40-Year-Old Version” é facilmente uma das produções mais interessantes que a Netflix lançou recentemente. Esta é a estreia de Radha Blank na direção, que entrega aqui algo extremamente pessoal, imprimindo, em seu fascinante texto, sua luta diária como mulher, preta e artista. Ela se coloca como protagonista da própria história e traz honestidade em cada um de seus fortes relatos.

Filmada em preto e branco, a obra faz um recorte na vida de Radha que, próxima de completa 40 anos, começa a refletir sobre o rumo de sua carreira como escritora, que mesmo tendo vencido um importante prêmio da literatura – aos 30 anos – nunca teve, de fato, espaço para realizar sua arte. O longa narra este momento em que ela busca por renascimento e, principalmente, ter finalmente sua voz ouvida. “The 40-Year-Old Version” é o manifesto desta grande mulher. De forma ousada e sincera, Radha aponta uma ferida antiga dentro da arte, seja no cinema, seja no teatro, onde o preto apenas tem espaço para ilustrar uma pobreza estereotipada e servir de troféu para histórias de brancos salvadores. Ela traz humor em seu relato, sem jamais diminuir o impacto de seu poderoso e necessário discurso.

Debute na direção, Blank entrega um produto fascinante, bem conduzido. Seus discursos transbordam naturalidade e encanta ao colocar em cena, instantes tão prazerosos de assistir, guiados por personagens tão carismáticos. Um filme brilhante que, definitivamente, precisava existir.

NOTA: 9

  • Duração: 129 minutos
    Disponível: Netflix
    Roteiro: Radha Blank
    Direção: Radha Blank
    Elenco: Radha Blank, Peter Y. Kim, Reed Birney

Crítica: Culpa

O som que uma história tem

“Culpa” é aquele produto simples, pequeno mas que nos leva à lugares inimagináveis. Um belo exercício cinematográfico, que mesmo filmado em um único espaço, consegue entregar um thriller potente, envolvente, hipnotizante e com surpreendentes reviravoltas.

É sempre interessante quando o cinema nos apresenta este tipo de ideia. Um conceito sempre arriscado mas fascinante se bem realizado. Um personagem de destaque, um cenário fechado e nada além disso. Aqui temos o policial Asger (Jakob Cedergren), que aparentemente está sofrendo um processo judicial e trabalha como atendente no setor de emergência. O plot principal se dá início quando ele recebe a ligação de Iben, uma mulher desesperada que está sendo vítima de um sequestro. Com pouquíssimas informações sobre o caso, Asger precisa correr contra o tempo para que uma tragédia maior não aconteça.

A experiência de ver “Culpa” é tão intrigante e mágica como a que temos ao ler um livro. O roteiro, tão rico e brilhantemente bem escrito, nos permite viajar em suas ideias, construindo em nossa mente tudo aquilo que o filme não nos revela. Tudo acontece através de ligações e o som que cada evento emite é aquilo que ativa nossa imaginação. Sequestro, fuga, dramas familiares. Um mundo inteiro dentro daquela chamada e é fantástico como o filme não decai nunca, sempre nos mantendo atentos aos acontecimentos e sempre nos levando para uma nova direção. As reviravoltas são ótimas e muito bem conduzidas pelo texto. E claro, destaque para o ator Jakob Cedergren, que é nosso ouvido e nosso olhar diante de tudo. É um ator carismático e que nos leva junto em sua jornada. Trata-se, aliás, de um grande personagem, cheio de dúvidas e dilemas morais que precisa enfrentar dentro daquele tempo e espaço limitado.

“Culpa” surpreende por alcançar proporções enormes mesmo dependente de pouquíssimos recursos. Tudo é trabalhado através de sugestões. Uma história tensa que cresce sem a necessidade de mostrar seus reais protagonistas. A única imagem que temos é a do herói, que diferente das perseguições hollywoodianas, ele está incapaz de encarar as ruas e resolver por suas próprias mãos. Sua voz é sua única arma. É incrível, neste sentido, como a direção precisa buscar na montagem, som e fotografia os artifícios necessário para nos manter atentos. E consegue. Temos aqui, no fim, um thriller fascinante, incrivelmente bem conduzido e um exercício de linguagem prazeroso. É brilhante. É o cinema independente em sua melhor forma.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Dinamarca
    Ano: 2018
    Duração: 85 minutos
    Título original: Den skyldige
    Distribuidor: California Filmes
    Diretor: Gustav Möller
    Roteiro: Gustav Möller
    Elenco: Jakob Cedergren

Crítica: Beast

Contra todos

Lançado em 2017, “Beast” soa como uma fábula adulta e moderna, quase como aquelas versões originais e obscuras que descobrimos sobre os contos de fadas. A produção captura essa atmosfera do realismo fantástico para contar uma trama densa, guiada por protagonistas ambiguos. Em uma comunidade rural e afastada, conhecemos Moll (Jessie Buckley), uma mulher que demonstra impotência diante do controle e pressão de sua família conservadora. Claramente insatisfeita com sua vida, ela acaba conhecendo aquele que parece ser sua salvação de sua prisão, Pascal (Johnny Flynn), com quem logo se apaixona. Fascinada pelo misterioso forasteiro, ela precisa lidar com o fato de que ele é o principal suspeito de uma série de assassinatos brutais.

O filme conta com a direção e roteiro do estreante Michael Pearce, que surpreende por conseguir construir um produto que navega, de forma harmoniosa, por diversos gêneros. É brilhante como quando aquilo que começa como um drama familiar e um romance doce se transforma em um potente thriller psicológico, sem jamais parecer inconsistente ou sem provar tamanho domínio sobre essas tantas formas de narrativa. O roteiro, ao inicio, vai te conquistando, te introduzindo àquele universo único e te afeiçoado ao casal protagonista. É belo aquela relação porque os dois se completam, um entende a loucura do outro, a estranheza, o descontentamento. É poderosa essa conexão estabelecida entre eles, o que torna seus desdobramentos ainda mais perturbadores e interessantes.

A mente complexa de nossa protagonista é revelada por um estranho discurso sobre baleias sendo mantidas em cativeiro e como elas se machucam, propositadamente, para que percam seus próprios dentes pois cansaram de sorrir. Essa analogia vem como ilustração de tudo o que nos é mostrado posteriormente. Seja o forasteiro que caça animais silvestres, sejam as garotas brutalmente assassinadas. Curiosamente, essa fera da qual Moll demonstra simpatia, diz muito sobre ela, sobre se sentir enclausurada em sua realidade domesticada. Ela é vista como selvagem pelas pessoas da comunidade e se fascina por aquele homem grosseiro, mesmo quando ele é descrito como assassino. Essa identificação é bastante conturbada, nos fazendo questionar a todo instante o real caráter da protagonista. Seria ela a vítimas ou seria ela o verdadeiro monstro da história? Ela é a fera aprisionada ou é a fera que ataca? É curioso quando a própria Moll teme duvidar de sua bondade, precisando a todo momento reafirmar suas atitudes de boa cristã, cantando no coral e se limitando a viver para cuidar do pai. Essa tensão psicológica ganha cada vez densidade porque nunca vem com respostas fáceis e termina sem nos esclarecer completamente. A brecha que deixa, torna o filme ainda mais poderoso, justamente porque indica aquilo que evitamos acreditar durante toda a história.

Jessie Buckley é uma atriz intrigante. Ela revela essas tantas camadas de sua personagem com garra, com honestidade. Ao mesmo tempo em que ela é doce, nos amedronta, nos faz querer entendê-la. É fantástico o momento em que ela, no limite de sua repreensão, expulsa sua dor aos gritos ou quando ela se enterra, assim como as vítimas que foram mortas. São atitudes bizarras de uma alma solitária, que jamais é ouvida, compreendida, completamente avulsa à realidade. É assustador esse seu fascínio por Pascal, mesmo quando é visto como criminoso. Ela não teme ser igual à ele, pelo contrário, parece se afeiçoar à sua suposta rebeldia, quase como se o entendesse, como se buscasse na violência, na brutalidade, sua vingança contra o mundo, contra todos que a diminuíram. Buckley entrega alma e sentimentos a toda essa complexidade e brilha em cena. Sua parceria com Johnny Flynn funciona, sendo imensamente prazeroso vê-los contracenando. O filme ainda acerta na estética, entregando sequências visualmente poderosas, além da potente trilha sonora. “Beast” é um belíssimo achado. Um projeto audacioso, original e que nega a obviedade a todo instante.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2017
    Duração: 107 minutos
    Título original: Beast
    Distribuidor: –
    Diretor: Michael Pearce
    Roteiro: Michael Pearce
    Elenco: Jessie Buckley, Johnny Flynn

Crítica: Boyhood – Da Infância à Juventude

Em um piscar de olhos

Dirigido por Richard Linklater, “Boyhood” pode ser citado como uma das obras mais ambiciosas dos últimos tempos. Filmado durante 12 anos, a sensação que temos ao assisti-lo e ver seu elenco envelhecendo, ali na tela, é uma experiência única, de uma coragem e genialidade ímpar.

Ao longo de 12 anos, o diretor Richard Linklater reuniu sua equipe para rodar seu filme, uma vez a cada ano, para mostrar a jornada e o crescimento de seus personagens. Ellar Coltrane, que interpreta o protagonista Mason, inicia as filmagens aos 6 anos e termina aos 18. Não haveria forma melhor para Linklater, que também assina o roteiro, relatar sobre o que pretendia, o tempo. É muito curioso pensar como tudo isso foi feito. Parece aquelas ideias malucas que alguém para e pensa: “e se gravarmos um filme durante vários anos? Como seria o resultado?”. Penso que foi preciso muita coragem, disposição em fazer o melhor, dedicação em se doar a um único projeto, não só do diretor, mas de todos os envolvidos. O resultado é mágico. Muito mais do que ver os atores envelhecendo no mesmo filme, é presenciar este milagre em nos transportar ao passado, reviver uma vida que não foi a nossa, mas que poderia muito bem ter sido.

“Boyhood” é sobre a vida, sobre a rotina, sobre momentos. Por isso, não encontramos reviravoltas, surpresas, lições de moral, muito menos um clímax ao seu final. Acompanhamos de perto a jornada de Mason e todas as fases que enfrenta, da infância à juventude. Vemos na tela partes da nossa própria vida. As brincadeiras, os vícios, os gostos musicais e principalmente os questionamentos do protagonista. Pelo menos algum instante ou algum diálogo é sobre nós, sobre o que vimos e presenciamos. Cada sequência é como voltar no tempo, é sentir aquele sorriso bobo saltando em nosso rosto ao relembrar detalhes tão banais da nossa antiga rotina, como aquela satisfação imensa em irritar o irmão ou a concentração máxima diante de um video-game. Muito mais do que nos dar essa chance de reviver, Richard Linklater consegue, com toda sua maestria, fazer o mais honesto e mais brilhante relato de uma geração, mais precisamente, a geração dos anos 2000, mostrando seus gostos e suas excentricidades, apostando na memória e no repertório cultural daqueles que viveram aqueles anos. Como foi bom começar o filme ouvindo “Yellow” do Coldplay e terminando ao som de Arcade Fire. A trilha musical, assim como tudo no longa, parece respeitar todos as preferências, sem julgamentos e sem níveis de importância, tudo é apontado como partes de uma história, de Britney Spears à Foo Fighters, de Lady Gaga à The Black Keys. Além das tantas citações da cultura pop, situando sempre a trama à época em que acontecia, como Dragon Ball, Harry Potter, Star Wars e Cavaleiro das Trevas, entre tantas outros.

É muito curioso essa experiência de ver como os personagens estão em cada ano e isso é mostrado no longa de forma muito natural. Às vezes, mal percebemos o quanto Mason ou Samantha haviam crescido. Não há choque, o tempo apenas flui diante de nossos olhos e mal nos damos conta do quanto todos estão envelhecendo. Tudo é tão rápido, quase que imperceptível. Acredito que seja por isso que o filme consiga emocionar tão fácil, por vezes, sem a intenção. É doloroso sentir e ver a vida passando, ver o quanto não temos controle sobre o tempo. É cruel ver tudo o que deixamos para trás. Como num piscar de olhos, tudo é passado, tudo é lembrança. Se na trilogia do “Amanhecer”, Linklater havia inovado ao falar sobre o tempo, em “Boyhood” ele leva essa máxima a outro nível. É mágico ver Ellar Coltrane em cena. Vê-lo criança e depois de duas horas vê-lo se tornando um adulto, sem maquiagem ou qualquer efeito. É ele, apenas ele, suas próprias mudanças, sua própria evolução.

Em certo momento, o protagonista discute sobre sua ida a faculdade e sobre não achar que este seja o grande passo da sua vida. Dentre tantas coisas que “Boyhood” diz, a mais marcante acredito que seja exatamente esta. Esta visão de que tudo o que nós vivenciamos é apenas um passo. A vida não é como um filme repleta de reviravoltas e provações, é apenas um passo de um caminho que seguimos às cegas, sem jamais saber para onde vamos ou que iremos fazer. E não importa o que façamos, estaremos sempre perdidos. O filme ainda debate sobre esta “padronização” da vida. O fato de nos identificarmos com a vida de Mason é porque todos nós somos levados a realizar as mesmas coisas. O colégio, a faculdade, o trabalho, é tudo como o personagem diz, é apenas um “espaço pré-determinado” reservados para nós, e nada disso definirá o que somos ou nos libertará da confusão que é a nossa mente. E que talvez passado e futuro não importam, nada adianta refletir sobre o que aproveitamos ou que aproveitaremos, os momentos são o agora, as chances estão no presente. É válido dizer, porém, “Boyhood” pode representar algo diferente para cada pessoa, cada um mergulhará nas histórias a sua maneira e retirará o melhor para si. Uma experiência única, dolorosa, mas ao mesmo tempo, tão doce, tão delicada, tão honesta.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2014
    Duração: 165 minutos
    Título original: Boyhood
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Richard Linklater
    Roteiro: Richard Linklater
    Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater