Belo e imoral
Segundo longa-metragem escrito e dirigido por Emerald Fennell depois do elogiado “Bela Vingança”. Diria que é um retorno bastante bem-vindo e um tanto quanto audacioso. Ao invés de se manter no conforto, a cineasta lança uma obra provocativa que pode até não fazer tanto barulho nas próximas premiações, mas certamente mexerá com os ânimos do público, estando presente em muitas discussões – logo que alguns vão odiar e outros amar – e sobrevivendo muito bem ao tempo.

“Parasita”, lançado em 2019, acendeu um forte interesse no cinema por histórias sobre “devorar os ricos”. “Triângulo da Tristeza”, “O Menu” e até mesmo a série “The White Lotus” exploram a decadência dos milionários, enquanto satirizam essas figuras tão arrogantes e cheias de si mesmas, mas que não possuem a esperteza para detectar um intruso. Ainda que “Saltburn” não esteja interessado em se aprofundar nesta luta de classes, utiliza do bom humor e do grotesco para expor a fragilidade e ignorância nesse universo, provocando uma experiência perturbadora, sádica e divertidíssima.
O filme ganha ao aceitar ser camp. Abraça o exagero, o artificial e o cafona com muita graça e inteligência. É uma mistura de Teorema de Pasolini, e o fascínio de uma família por um desconhecido, com “O Talentoso Ripley”. Emerald reformula a trajetória de Tom Ripley e adiciona um ingrediente essencial: o tesão. Gosto como ela se diverte com a trama, ignorando qualquer lógica, sem medo do absurdo e sem vergonha alguma de ser pop. O interesse por “Saltburn” não está em suas tantas reviravoltas (que nem são tão surpreendentes assim), mas na forma como o roteiro nos leva até elas. Mesmo quando acontece o que já imaginávamos, a sensação é de que fomos recompensados.

Na trama, Oliver (Barry Keoghan) é convidado por seu novo amigo (Jacob Elordi) a passar as férias de verão em uma mansão com sua família. Somos, então, apresentados aos indivíduos excêntricos deste lugar e os eventos estranhos que de ali se iniciam. Digo que achei imensamente fascinante como o filme nos leva a viver essa experiência. Seja pela beleza das cenas, cenários e figurinos, seja pela perspicácia dos diálogos, que contam com um humor ácido delicioso. Todos os personagens funcionam muito bem em cena, até mesmo aqueles que pouco aparecem. O texto é bastante intrigante e nos mantém apreensivos o tempo todo, sempre curiosos sobre onde toda aquela loucura vai parar.
Emerald Fennell acerta ao construir esse jogo perverso, violento e estranhamente sexy. “Saltburn” é imoral, atrevido e entrega sequências que não esqueceremos tão cedo. Funciona ainda mais quando existe um ator como Barry Keoghan, que se desnuda por completo. É impressionante a habilidade dele em se transformar em cena. Um papel difícil e que ele domina com maestria. Confesso que encontro aqui o típico filme que eu detestaria – e fui já preparado por uma bomba – mas me surpreendi positivamente. É irresistível demais. Saboroso demais. Hipnotizante demais para não se entregar.
NOTA: 9,5

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2023
Duração: 127 minutos
Diretor: Emerald Fennell
Roteiro: Emerald Fennell
Elenco: Barry Keoghan, Rosamund Pike, Jacob Elordi, Alison Oliver, Archie Madekwe, Richard E. Grant, Carey Mulligan
