Crítica | Memórias de Um Amor

como poeira de estrelas

Somos todos feitos de poeira de estrelas. E como todas as estrelas, também temos nosso ciclo de vida. É com a analogia de uma Supernova que conhecemos a jornada de Tusker (Stanley Tucci), escritor e admirador de astronomia que, ao ser diagnosticado com demência em estado precoce, decide fazer uma última viagem ao lado de Sam (Colin Firth), com quem está casado há vinte anos. É uma jornada de agradecimento, de revisitar lugares em que estiveram juntos e apreciar este momento presente, do qual sua memória ainda tem controle.

Escrito e dirigido pelo estreante Harry Macqueen, o filme cria uma atmosfera melancólica e doce, tratando com bastante sensibilidade está união entre os dois homens. Durante uma viagem com belíssimas paisagens, eles precisam encarar este medo que enfrentam, de que a vida deles não será mais a mesma. De que eles não serão mais os mesmos.

Colin Firth e Stanley Tucci estão fantásticos aqui e apenas pela entrega dos atores conseguimos entender essa forte conexão que há entre os personagens. Há muito sentimento nos olhares, nos toques e principalmente no silêncio. A cena do brinde é o ponto alto do filme. Quando um fala através das palavras do outro em em um texto comovente sobre agradecimento.

Ainda que tenha muitas qualidades, é decepcionante o rumo que o filme vai tomando ao fim. Ao mesmo tempo em que o roteiro coloca seus personagens em situações difíceis, não deixa de ser caminhos fáceis para a narrativa, sem muita coragem. Tenta comover, mas falha quando o que nos revela é desconfortavelmente previsível. É extremamente delicado falar sobre demência e me surpreende o quão irresponsável emocionalmente acaba sendo no ato final, se distanciando daquela sensibilidade e maturidade que havia anunciado ao início. Mesmo assim, vale assistir pelo casal principal e pela força dos dois atores em cena.

NOTA: 7,0

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 202
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Título original: Supernova
Duração: 93 minutos
Diretor: Harry Macqueen
Roteiro: Harry Macqueen
Elenco: Colin Firth, Stanley Tucci

Crítica | 7 Prisioneiros

A liberdade do homem preso

Segundo longa-metragem de Alexandre Moratto, depois de sua ótima estreia com “Sócrates” em 2018. Agora com “7 Prisioneiros”, ele volta a abordar questões sociais em filme reflexivo e com poder de continuar em nós, mesmo depois de acabar. Uma produção simples e que, apesar de não trazer uma trama tão original em uma narrativa já discutida em outras obras recentes, choca ao trazer como cenário o nosso país, em uma realidade assustadoramente possível.

O que você é capaz de fazer para ter uma vida melhor? Esse é o primeiro questionamento que o filme nos traz ao revelar a trajetória de Mateus (Christian Malheiros) e mais três jovens que saem da roça para uma grande oportunidade de trabalho em um ferro velho de São Paulo. Sob o comando de Luca (Rodrigo Santoro), um chefe rigoroso e controlador, eles logo percebem que foram vítimas de uma rede de trabalho escravo, suando para pagar dívidas infinitas e sem chance de escapatória. Entendendo a situação, Mateus passa a ser o braço direito de seu captor para salvar a pele de seus aliados. No entanto, esta arriscada escolha o faz deparar com um grande conflito moral.

“Se você quer subir, tem lugar pra tu”. A obra faz uma interessante análise sobre o que o homem é capaz de fazer para escalar ao topo e até que ponto ele carrega consigo seus valores. Mateus queria a liberdade, mas o preço é sempre alto demais. Fascinante esse dilema do protagonista que, ao mesmo tempo em que nos causa ódio, também compreendemos suas duras escolhas. Há algo cíclico nesse sistema corruptível que o filme narra e quanto mais o roteiro mergulha nessa situação, mais conseguimos enxergar Mateus em Luca, e esse homem que é apenas uma peça de um jogo sujo mas que um dia foi o menino que só queria lutar por algo melhor, e Luca em Mateus, e essa pessoa que precisou abrir mão de seus ideais pela mísera possibilidade de vencer. Os dois são prisioneiros de um sistema que não oferece saída. E os dois cederam a vida para construir um país que ninguém vê.

Quando a câmera passeia pelos fios elétricos de São Paulo, um peso bate no peito. É o trabalho de gente sem preço que está ali, de gente sem nome, sem rosto. É o fio que dá vida à cidade e ninguém percebe. O filme fala de sete prisioneiros do trabalho escravo, mas ficamos reflexivos sobre quantos mais deles são. É tão possível a realidade que mostra, que nos choca e traz angústia. A obra não tem um fim, ela continua em nós e sabemos que ela continua pelas ruas silenciosas da cidade também.

Alexandre Moratto é um ótimo diretor e apesar da simplicidade da produção, entrega mais um trabalho notável. Rodrigo Santoro é o grande destaque aqui, revelando um personagem repleto de camadas. Confesso que ainda tenho ressalvas quanto a atuação de Malheiros, que tem potencial, mas ainda falta. A produção de Ramin Bahrani traz um peso também. Tem muito do cinema social que ele investe e dos temas que ele já debateu outras vezes em sua excelente filmografia.

“7 Prisioneiros” revela esse Brasil que evitamos ver e surpreende pela forma como conclui. É uma visão pessimista, mas absurdamente real e humana. Termino dizendo o quão bom é ver a Netflix apostando nesse cinema nacional de qualidade. Uma porta necessária que se abre e espero que venham outros no mesmo nível.

NOTA: 8

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Duração: 93 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Alexandre Moratto
Roteiro: Alexandre Moratto, Thayná Mantesso

Elenco: Christian Malheiros, Rodrigo Santoro

Crítica | tick, tick…BOOM!

O som da bomba-relógio

Lin-Manuel Miranda foi uma grande revelação ao escrever e protagonizar a peça da Broadway “Hamilton” e hoje tem trazido frescor aos musicais no cinema. Com “tick, tick…BOOM!”, ele faz sua declaração de amor ao gênero, enquanto homenageia seu grande ídolo, Jonathan Larson, a mente brilhante por trás de “Rent”. Dramaturgo nova-iorquino, ele revolucionou o teatro nos anos 90, mas infelizmente nunca pôde ver o sucesso de seu legado. É então que a obra se torna tão especial e, ao mesmo tempo, tão dolorosa. Larson é a personificação dos sonhos, mas também da efemeridade da vida.

Há algo de metalinguístico que fascina aqui. É Larson escrevendo o próprio rumo, transformando sua estrada em um ato musical. O escritor decidiu fazer esta autobiografia como um relato de sua crise dos 30 anos, no período em que temia não ter alcançado o sucesso, enquanto escrevia o musical Superbia e trabalhava meio período em uma lanchonete. É o instante que antecede sua glória e, também, sua morte. O roteiro é brilhante e não entrega esse recorte com sensacionalismo nem força uma dramaticidade. Encanta na simplicidade e na honestidade de cada instante, acreditando na força e poder daquilo que narra. Há dinamismo nas transições e empolga nesse musical que vai ganhando vida nas situações mais corriqueiras. Um belo trabalho de Miranda, que com talento de sobra na escrita faz um debute fantástico na direção.

Tick, tick. O som da bomba-relógio. O tempo correndo, a idade passando e os nossos medos nos devorando vivos. Como é fácil ter 30 anos e se ver ali na tela. Mais do que os dramas de um artista frustrado, criando mundos dentro do cubículo de seu apartamento, o longa é um retrato poderoso dessa geração ansiosa. Que teme não ter o tempo necessário, teme não conquistar quando todos ao redor estão desfrutando do sucesso. Teme envelhecer e não ter tido a chance de fazer algo com significado. Andrew Garfield está incrível aqui e rapidamente nos faz abraçar esses seus anseios, emociona e surpreende pela voz. Robin de Jesús, que já havia trabalhado com Miranda no teatro, se mostra um coadjuvante de peso. Sua passagem é linda e entrega um dos discursos mais poderosos do filme.

Sou apaixonado por musicais e sempre sou suspeito para falar, mas termino “tick, tick…BOOM!” com as melhores sensações. Uma obra sensível, honesta e com músicas que contagiam e emocionam na medida. É original ao fazer uma cinebiografia que nega os estereótipos do gênero, contando uma história sem enaltecer o que já é naturalmente grande. Não glamouriza essa vida de “arte”, muito pelo contrário, revela a alta competitividade e pressão que é estar ali. E não romantiza o que é viver por um sonho, porque é também sobre fracassos, sobre tudo o que se perde enquanto se luta por algo. Nos faz pensar na passagem que temos aqui na Terra e nessa imprevisível jornada que passa por nós como um sopro. Fato é que precisamos aproveitar enquanto há tempo. Viver enquanto há tempo.

NOTA: 9

País de origem: EUA
Ano: 2021
Duração: 115 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Lin-Manuel Miranda
Roteiro: Steven Levenson

Elenco: Andrew Garfield, Alexandra Shipp, Robin de Jesus, Vanessa Hudgens, Bradley Whitford, MJ Rodriguez

Crítica | Sweat

A existência além de um perfil no Instagram

Ao mergulhar na rotina de uma influencer fitness, o drama polonês “Sweat” consegue fazer um estudo extremamente atual sobre os reflexos dessa cultura digital em nossa vida. O roteiro tenta desvendar o que há por trás daquilo que não vimos, dessa existência além de um perfil do Instagram. Acaba sendo perturbador acompanhar a jornada da protagonista porque diz muito sobre essa estranha obrigação que construímos para nós mesmos. A de registrar como forma de existir.

Acompanhamos, então, três dias na vida de Sylwia (Magdalena Koleśnik), a influencer de milhões de seguidores que, para manter seu projeto fitness, acaba sendo o rosto de diversas marcas e vivendo, aparentemente, uma vida dos sonhos. Um desconforto em sua carreira nasce, porém, quando decide postar um vídeo se abrindo publicamente sobre sua solidão e sobre querer encontrar um homem. É muito curioso esse conflito porque ele mostra o quanto a vida digital precisa ser uma encenação de ânimo e sucesso e Sylwia se vê estremecida quando abre essa porta, quando permite ser honesta com aqueles que a seguem. É como se ela quebrasse uma regra, revelasse ao mundo algo que a torne frágil e isso é inadmissível.

“Sweat” faz um registro muito real sobre o que é estar presente nas redes sociais. Em nenhum momento o roteiro julga sua protagonista, que é escrita com muita originalidade, e nem busca por conclusões fáceis sobre o assunto, tanto que se encerra com um sentimento amargo. Magnus Von Horn, que aqui escreve e dirige, coloca sua personagem em um ponto de reflexão. Até que ponto ela é capaz de aguentar essa pressão e as demandas exaustivas de se viver virtualmente. Visualmente, o filme traz cores fortes e alegres, ilustrando essa contradição entre a rotina projetada para os outros verem e aquela em que realmente se vive. Aquela em que se é vulnerável, solitário. Aquela que se esconde.

Em tom documental, o longa nos causa bastante desconforto e alcança momentos de brilhantismo como quando Sylwia visita sua família. Infelizmente, sinto que a trama acaba focando demais no plot do stalker, quando poderia usar desse tempo para explorar outras questões mais interessantes. Sinto, também, que o discurso final foi um pouco desnecessário, onde poderia ter sido mais sutil nas revelações da protagonista.

“Sweat” termina e nos deixa em silêncio, pensativos sobre essas armadilhas que as redes sociais nos pregam. Não acredito que o filme se aprofunde tanto no tema, por vezes, é até bastante vago, mas causa algo em nós. Diz muito sobre solidão, sobre a vida além daquela que postamos e tudo aquilo que é tão frágil em nós e omitimos. No virtual, os outros não querem ouvir e nós não queremos que eles saibam.

NOTA: 8,0

País de origem: Polônia, Suécia
Ano: 2020
Duração: 100 minutos

Disponível: Mubi
Diretor: Magnus von Horn
Roteiro: Magnus von Horn
Elenco: Magdalena Koleśnik

Crítica | The Trip

A armadilha do fator surpresa

“The Trip” é uma comédia norueguesa que repete a parceria entre o diretor Tommy Wirkola com a atriz Noomi Rapace depois do subestimado “Onde Está Segunda?”. É uma produção sanguinolenta, que causa impacto por sua violência gráfica e por trilhar caminhos inesperados nesta sua assustadora e cômica jornada. Apesar de ter, a todo o tempo, uma surpresa na manga, esse recurso nem sempre se mostra tão positivo assim.

Um casal, que já não vive a melhor fase do relacionamento, decide viajar para uma casa nas montanhas, em uma área afastada e que pudesse trazer paz. Essa é apenas a introdução de uma série de infortúnios que começam a acontecer com os dois nessa viagem. Ambos possuem segundas intenções e nada vai seguir como o planejado. A esperteza da obra é nos lançar a um clímax logo em seu início e não deixar a empolgação cair em seu decorrer. É uma narrativa ágil, ácida, que flui por diversos gêneros em uma mistura inesperada de Tarantino com Irmãos Coen.

Tudo é muito insano em “The Trip” e, infelizmente, a obra acaba se sustentando demais na violência gratuita, sem um bom texto para amarrar suas ideias. Há uma necessidade extrema de causar impacto e isso o deixa, por vezes, apenas vazio. O fator surpresa, também, que deveria ser uma arma do roteiro acaba sendo sua maior armadilha. Quer ser surpreendente a todo custo e para isso aposta no Deus Ex Machina nos momentos mais convenientes possíveis. Para tudo se tem uma solução e força muito a barra para salvar seus personagens. Ao fim, deixa de ser inesperado justamente porque sabemos que em algum momento terá uma intervenção salvadora. Dito e feito.

Em minha saga de evitar ver trailer antes do filme, tenho a possibilidade de mergulhar na história sem expectativas. Aconselho ir sem saber nada sobre, porque é o tipo de história que qualquer informação prévia que tenha, pode estragar a experiência. A obra ainda reserva uma ótima sacada para o final e, apesar dessas falhas que cito, vale muito a pena arriscar. E claro, sempre bom rever a fantástica Noomi Rapace em cena.

NOTA: 7,5

País de origem: Noruega
Ano: 2021

Título original: I Onde Dager
Duração: 113 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Tommy Wirkola
Roteiro: John Niven, Nick Ball
, Tommy Wirkola
Elenco: Aksel Hennie, Noomi Rapace

Crítica | Um Lugar Silencioso – Parte II

Quando o fascínio pelo desconhecido se perde

É tão bom quando uma sequência de um filme nos prova necessária, onde através de uma boa trama percebemos que estávamos enganados por desconfiar. Isso é o que não acontece aqui. Do começo ao fim, “Um Lugar Silencioso – Parte II” não prova ser uma boa decisão. Não que seja ruim, muito pelo contrário, continua tendo uma ótima condução do diretor John Krasinski, mas é claramente uma escolha gananciosa de um estúdio, vindo de uma história que nitidamente não foi pensada para uma continuação.

Enquanto assistia essa “parte II” me via refletindo sobre o poder da imaginação que o cinema nos permite. O quanto a sugestão é, algumas vezes, muito mais interessante do que aquilo que é explícito, revelado. Quando o primeiro filme encerrou em “aberto”, um caminho promissor abriu em nossa mente, fechando-se com excitação. É decepcionante quando aquilo que era apenas uma possibilidade ganha vida, onde eles desenham um rumo de ideias tão simplórias que o lucro era ter ficado na imaginação mesmo. O grande lance do bom suspense que nos fisgava antes era aquilo que não podíamos ver. As criaturas que andavam às sombras e caçavam pelo som omitido por suas próximas vítimas. A tensão ainda existe, mas esse fascínio pelo desconhecido se perde quando vemos tão claramente como são esses monstros. Tudo é revelado aqui e perde a força e o interesse.

As primeiras cenas, quando nos revela os acontecimentos anteriores ao ataque mostrados no primeiro filme, são fantásticas e rapidamente nos reconectamos ao universo. Infelizmente, logo em seguida, cai no marasmo, trilhando caminhos tão comuns em filmes pós-apocalípticos. O herói desesperançoso, o pior lado da humanidade que emerge nesse novo mundo e tudo aquilo que já esperamos de uma obra desse tipo. Pouco oferece de novidade, se utilizando dos mesmos recursos do primeiro filme, reciclando ideias descaradamente. Seja por esse quarteto que é separado e precisa se unir, seja por resoluções já exploradas como a questão dos ruídos que servem de defesa. Nada é novidade aqui e isso frustra. Os personagens pouco saem do lugar, mais parecendo um bom episódio de uma série do que um filme propriamente dito.

Aqui, a mãe (Emily Blunt) continua por esse caminho desolador, buscando proteção ao lado dos três filhos. Apesar dessa simplicidade da trama, a grande força dessa sequência ainda se concentra no bom elenco, que agora conta com a bela adição de Cillian Murphy. Todos estão ótimos e extraem o melhor mesmo com pouco em mãos. Os efeitos visuais também continuam incríveis, assim como o belíssimo trabalho de som. É, também, muito bem costurado esse rumo dos personagens que, ao se dividirem, paralelamente, o filme consegue manter uma união, sempre interligado. Há, ainda, muito sentimento em cena e isso nos envolve a esses indivíduos e esse desespero do silêncio quando há tanta dor a ser exposta.

“Um Lugar Silencioso – Parte II” está longe de ser uma ofensa. É bem produzido, envolve e conta com ótimas atuações. No entanto, é pequeno demais como sequência de um filme que foi tão bom e poderia ter ficado nele mesmo. Não prova ser necessário e, infelizmente, termina indicando uma terceira parte. Não tem fôlego e é uma decisão estúpida prolongar aquilo que já deixou de respirar.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: A Quiet Place Part II
Duração: 96 minutos
Diretor: John Krasinski
Roteiro: John Krasinski
Elenco: Millicent Simmonds, Cillian Murphy, Emily Blunt, Noah Jupe, John Krasinski, Djimon Hounsou

Crítica | Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

A surpresa despretensiosa da Marvel

Dando a largada na fase 4 do MCU, “Shang-Chi” é uma boa surpresa e entrega tudo sem prometer. Temos aqui um filme despretensioso, mas muito bem amarrado, correto e simpático. Por muitas vezes, enquanto o assistia, me esqueci que estava vendo algo da Marvel e, sim, isso é um elogio. Foge da fórmula óbvia e mesmo que traga algumas características em comum com os filmes do estúdio, esse tem vida própria e escapa de ser “só mais um”.

Shang-Chi (Simu Liu) é filho de um líder de um exército poderoso e milenar, mas quando jovem, decidiu fugir da obrigação de ser um guerreiro e viver uma vida comum na cidade. No entanto, após um ataque, entende que é hora de voltar e enfrentar seu passado. Toda a trama é guiada com muito cuidado pelo roteiro, que sabe inserir os flashbacks nos momentos certos, além de saber dosar humor, ação e a boa construção do universo e personagens. Tudo em cena é muito equilibrado e flui de maneira prazerosa. Ganha nossa atenção no início e jamais perde a empolgação.

Os efeitos especiais também chegam na medida e entregam sequências visualmente fantásticas. Ousaria dizer que é o filme mais bonito, graficamente, do estúdio. A maneira como eles exploram esse universo fantasioso entrelaçado à cultura chinesa garante momentos de pura contemplação. Ainda que seja um filme que fuja completamente desse cinema que Destin Cretton (Temporário 12, Luta por Justiça) tenha construído, ele se mostra à vontade aqui e surpreende.

“Shang-Chi” funciona, principalmente, porque introduz muito bem seus personagens e embarcamos ao lado de todos eles. A construção do vilão – se é que podemos chamá-lo assim, tamanha camadas que revela – tem brilhantismo e nunca é guiado pelo caminho mais fácil. É ótimo, também, poder ver Tony Leung, um grande ícone do cinema chinês, em um papel como esse e livre para falar sua própria língua, algo muito raro em Hollywood. Awkwafina é daquelas atrizes que tem uma presença forte e traz naturalidade e um humor raro. São eles a grande força do filme que, por vezes, acabam ofuscando o protagonista, que nem sempre tem destaque na própria história. Mas, ainda assim, toda a jornada da família funciona, onde o texto não esquece dessa dramaticidade e, mesmo que sempre de forma muito sutil, sabe trabalhar bem esses conflitos existentes.

Ninguém estava esperando nada e por isso é tão bom poder afirmar que “Shang-Chi” é um grande acerto. É o cinema pipoca que funciona. É a Marvel no melhor estado.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings
Duração: 132 minutos

Disponível: Disney +
Diretor: Destin Cretton
Roteiro: David Callaham; Destin Daniel Cretton; Andrew Lanham
Elenco: Simu Liu, Awkwafina, Tony Leung, Meng’er Zhang, Michelle Yeoh, Ben Kingsley
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Crítica: Coração Errante

Paixão e fúria

O cinema argentino, por vezes, nos brinda com pérolas como esta. Fui sem saber do que se tratava e terminei de vê-la inundado de muitos sentimentos. “Coração Errante” é aquele filme simples, genuíno, mas que fala inteiramente com coração e nos alcança. Este é apenas o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Leonardo Brzezicki, que já entrega algo notável e imensamente humano.

Aqui, o astro Leonardo Sbaraglia dá vida à Santiago, pai de uma adolescente com quem tem uma relação conturbada. Adentramos em sua vida em um momento de grande angústia, quando ele se lança à uma crise emocional fortíssima, principalmente pelo recente rompimento com Luis, alguém que amava profundamente. O vemos, então, lutando para se manter firme, enquanto se perde em outros amores, buscando se conectar, ser preenchido.

Na primeira cena de “Coração Errante”, um amigo embriagado de Santiago diz que deseja amar, mas não pode. Quer amar, mas não sabe. Essa afirmação melancólica diz muito sobre a jornada do protagonista, que se entrega verdadeiramente aos outros mas sempre está só. Ele é o passageiro que se lança a um trem em alta velocidade, experimentando de tudo um pouco, sem nunca ter alguém que o espera ao fim. Santiago é um misto de medo e excitação, de paixão e loucura. É responsável por diversos equívocos e por muitas vezes opta pelas piores decisões, como quando desconta suas frustrações em sexo vazio e compras. É um pessoa intensa, impulsiva mas que está sempre agindo pelo coração, mesmo quando erra.

Existe poesia no texto de “Coração Errante”, que flui com uma naturalidade absurda. É um recorte sensível de uma vida, que durante seus belos minutos, nos conectamos a ela e a todas as suas imperfeições. Uma obra que fala de tesão, solidão e esse nosso constante medo da rejeição. Somos o fruto de muitas desilusões e ao expor isso pelo olhar de um homem homossexual ganha tons ainda mais profundos. É incrível quando o filme expõe essas nossas inseguranças e esse medo de envelhecer e não se estabelecer, de ter tanto o que dizer e não ter a quem ouvir. Santiago está sempre rompendo, desfazendo laços, mas sempre na espera, na expectativa de se manter.

Leonardo Sbaraglia entrega aqui uma das minhas atuações favoritas do ano. Ele incorpora por completo o personagem, comovendo tamanha honestidade que imprime em cada cena. Um estudo de personagem interessante e muito bem conduzido pelo roteiro. Santiago nos causa desconforto, riso nervoso, mas também nos faz sofrer ao seu lado, sentir essa paixão que vibra na forma como ele conduz sua vida. “Coração Errante” é uma obra tocante, sedutora e extremamente prazerosa de assistir. Aquele filme que eu adoraria abraçar, se eu pudesse.

NOTA: 9

País de origem: Argentina / Brasil / Espanha / Holanda / Chile
Ano: 2021

Título original: Errante Corazón
Duração: 105 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: Leonardo Brzezicki
Roteiro: Leonardo Brzezicki
Elenco: Leonardo Sbaraglia, Miranda de la Serna, Iván González, Thalita Carauta, Tuca Andrada

Crítica: A Casa Sombria

A força que nos leva para baixo

O terror psicológico, quando bem conduzido, nos permite ter diversas leituras. “A Casa Sombria” desenha dois caminhos interessantes e, quase como uma via bifurcada, nos permite escolher qual rumo vamos seguir. Traz, em cena, elementos de uma trama sobrenatural enquanto discute, com sensibilidade, sobre luto e depressão.

Rebecca Hall é uma atriz potente e graças a sua bela performance nos envolvemos em sua dolorosa jornada. Ela interpreta Beth, uma mulher que tenta se manter firme depois da morte do marido. Vivendo em uma casa à beira de um lago que ele mesmo construiu, ela se vê cercada de lembranças e alucinações que a fazem ficar obcecada pelos segredos guardados pelo falecido.

Confesso que me vi tocado por diversas vezes, mesmo se tratando de um filme de terror, por essa força que Beth tenta buscar, mas é sempre dominada pelo medo, pela dor, por esse sentimento que a afunda, a torna distante da realidade. É curioso como ela fica fascinada pela possibilidade de sentir a presença de um fantasma. A protagonista nunca está fugindo, pelo contrário, ela encara, ela o abraça, mesmo quando se mostra tão cética. Isso dá um tom perturbador à obra, que sempre caminha longe da obviedade. A direção de David Bruckner é essencial também, nunca se prendendo a sustos fáceis e se concentrando mais em construir uma atmosfera. Um belo trabalho, que nos faz querer ficar de olho em seus próximos projetos.

O que enfraquece “A Casa Sombria”, infelizmente, é por se contentar em revelar seu complexo e inteligente universo em uma simples revelação ao final, quando poderia ter explorado suas ótimas ideias de forma mais aprofundada. Ainda que, como possível leitura, tudo não passe de uma metáfora para a depressão enfrentada pela protagonista e esse mundo sombrio que ela cria para si, também deixa uma sensação de frustração por não desenvolver esse outro caminho que abre, o do sobrenatural, que é tão amplo e que nos fascina pela originalidade.

A obra termina e nos deixa com dúvidas inquietantes e por isso, faz a sessão valer a pena. Fiquei por um tempo ainda tentando juntar as peças e seus possíveis significados. É poderoso porque é aquele tipo de filme que continua em nossa mente, sendo reformulado e refletido. E quanto mais eu penso nele, mais eu gosto.

NOTA: 7,5

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021

Título original: The Night House
Duração: 108 minutos
Diretor: David Bruckner
Roteiro: Ben Collins, Luke Piotrowski
Elenco: Rebecca Hall, Sarah Goldberg, Stacy Martin, Evan Jonigkeit

Crítica: Duna

Ambicioso e sem alma

Projeto dos sonhos do cineasta Denis Villeneuve, “Duna” tem como base uma obra de extrema complexidade e um dos pilares da ficção científica. Escrita por Frank Herbert em 1965, a história já teve algumas outras adaptações sem sucesso. É assim que o filme chega com grandes expectativas, porque é um universo que merecia esse cuidado e sabíamos que não haveria diretor mais competente a estar a frente de tudo isso que Villeneuve. Ele entrega um produto épico e que precisa ser vivenciado em uma tela grande.

Este primeiro filme nos introduz muito bem ao universo, que acontece em um futuro distante e tem suas próprias leis. Ainda que algumas passagens soem enigmáticas, logo essas peças vão ganhando significado. O herói dessa jornada é Paul Atreides (Timothée Chalamet) que tem sua vida transformada quando seu pai, o duque Leto (Oscar Isaac), aceita administrar o perigoso planeta Arrakis, que é fonte de uma especiaria valiosa. Além de ter inúmeras visões com nativos do local, Paul passa a carregar consigo o peso de ser o herdeiro de sua família e Messias para o novo povo.

“Duna” é uma experiência hipnotizante. Villeneuve constrói uma obra ambiciosa, que choca por sua beleza majestosa. É aquele filme que dá gosto ver em uma tela grande, tamanha imersão que entrega. Diferente da megalomania presente no gênero, aqui o cineasta propõe um jogo de pura contemplação, de caminhar pelos espaços, de dar tempo ao tempo. Todas as cenas são potentes e revelam o belo trabalho de toda a equipe. Dos efeitos visuais, aos figurinos e claro, a fascinante trilha de Hans Zimmer, que traduz muito bem esse novo mundo e nos lança para dentro dele.

É uma pena, porém, quando há toda essa ambição e pouco o que se fazer com ela. Sinto que é um filme que nunca decola, nunca acontece de fato, sendo aquele eterno “vem aí”. Tudo é uma preparação para o que está por vir. Tanto a história como seus personagens estão neste campo de espera, do que acontecerá no futuro. “Duna” nunca é sobre o agora, e é então que nos perde, porque tudo não passa de uma promessa.

Gosto muito do Villeneuve, mas sinto ele seguindo um rumo na carreira muito semelhante ao Nolan e isso não é bom. Ambos cineastas ambiciosos, rigorosos na técnica, mas falta sentimento, falta vida que torne essa grandiosidade próxima de nós. Falta alma. Para uma primeira parte de uma franquia, ele estabelece o universo bem, mas não há carisma nos personagens. Acima de tudo, isso é o que nos faz aguardar os próximos passos e pouco nos importamos com esses indivíduos que ele narra, onde o roteiro é incapaz de criar essa conexão. A maior prova disso é que quando algum deles morre, não sentimos. Falta, ainda, aquela adrenalina pulsando nas sequências de ação. Os embates corpo a corpo são decepcionantes. Nada nos deixa apreensivos ou esperançosos.

Dito tudo isso, não consigo destacar alguém do elenco porque não vejo nenhum personagem sendo trabalhado ali na tela. Todos ficam na superfície, inclusive o protagonista, que tão pouco conhecemos. Para um filme de duas horas e meia é bastante frustrante sentir que o roteiro não soube desenvolver nenhum deles. “Duna” é lindo, hipnotizante e, como franquia, promete muito para o futuro. Mas, por enquanto, ficamos só na promessa.

NOTA: 7

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021

Título original: Dune
Duração: 155 minutos

Disponível: Cinemas
Diretor: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Roth, Jon Spaihts, Denis Villeneuve
Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Jason Momoa, Javier Bardem, Dave Bautista, Chen Chang, Zendaya, Charlotte Rampling