Crítica: O Mauritano

Memórias da dor

Não é de se espantar o porquê “O Mauritano” não tenha feito sucesso nas premiações deste ano. Não que o filme seja ruim, bem pelo contrário, mas porque ele vai complementarmente na contramão desse cinema “pós 11 de setembro” que os americanos gostam de ver (ou de fingir que acreditam). Poucas vezes, nesse período, me deparei com uma produção tão corajosa em seus discursos e tão consciente sobre o papel do governo Bush-Obama e dessa desastrosa campanha da “guerra ao terror”.

A prisão secreta de Guantánamo, localizada em Cuba, foi a saída do Governo dos Estados Unidos em manter em detenção qualquer suspeito de envolvimento com o terrorismo. É uma grande atrocidade e, justamente por isso, torna este filme tão necessário, por escancarar a crueldade e manter viva essa lembrança dolorosa que não deve ser ignorada. Baseado no livro “Diário de Guantánamo”, escrito a mão pelo mauritano Mohamedou Slahi enquanto esteve preso, o longa narra a jornada deste homem comum que ficou encarcerado durante 14 anos sem ter cometido crime algum.

O roteiro é bem pontual, jamais perdendo o foco ou o interesse do público diante dos acontecimentos. A trama se dá início quando o caso de Slahi vai parar na justiça, em um interessante embate entre a advogada de direitos humanos, vivida pela ótima Jodie Foster, e o Governo, que precisa, a qualquer custo, encontrar algum culpado. Essa trajetória acaba por questionar essa justiça impiedosa, que precisa ver alguém pagando pelo o que fez. A ausência de provas, a busca por respostas, tudo vai criando um ambiente sufocante dentro da obra, que nos deixa inquietos e desesperados por alguma solução.

O diretor Kevin McDonald opta por revelar as lembranças do acusado em um formato mais fechado, intensificando esse sentimento de aprisionamento. Ainda que esses flashbacks não funcionem tão bem dentro da narrativa, “O Mauritano” entrega um registro necessário e ousado ao revelar as torturas, o assédio, a violência e tudo o que se manteve, por tantos anos, em silêncio. Desse Governo que usa o medo como controle. Poucas vezes, aliás, ler os letreiros finais de um filme doeu tanto. É, de fato, angustiante e revoltante.

No mais, vale destacar as ótimas atuações do elenco. Jodie Foster é aquela atriz que aparece pouco no cinema, mas quando aparece entrega o seu melhor. Tahar Rahim está fantástico também. É bela essa conexão que vai sendo construída entre os dois personagens. Dela que precisa acreditar na inocência do acusado e ele que precisa acreditar na humanidade dela, diante desse mundo que só lhe trouxe dor.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
Ano: 2021
Título original: The Mauritanian
Disponível: Net Now
Duração: 129 minutos
Diretor: Kevin Macdonald
Roteiro: Michael Bronner, Rory Haines, Sohrab Noshirvani
Elenco: Jodie Foster, Tahar Rahim, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi

Crítica: Saída à Francesa

O surreal mundo dos ricos

“French Exit” é um filme estranho. Às vezes, nos encanta por sua peculiaridade, mas também nos afasta por nunca entendermos claramente o que ele quer ser. É uma mistura nem sempre harmoniosa de Woody Allen com Wes Anderson, que pode até não ter o brilhantismo dos dois, mas tem maturidade o suficiente para tal comparação.

O grande destaque da obra, com toda a certeza, é a forte presença de Michelle Pfeiffer. Ela constrói uma personagem interessante, que poderia cair na caricatura mas ela faz com tanta maestria que conquista o impossível, nos fazer nos apaixonar por ela. Isso porque ela interpreta uma mulher que vive em uma realidade muito distante da nossa, no surreal mundo dos ricos. Uma socialite falida que tem a chance de ir sofrer em Paris, ao lado do filho.

Baseada na obra de Patrick deWitt, que aqui também escreve o roteiro, a trama vai crescendo em uma estranheza nem sempre cativante, mas curiosa e imprevisível. É uma comédia refinada com toques de realismo fantástico sobre encontros de pessoas em um apartamento na França, onde a família deslocada acaba se reunindo com uma desconhecida carente, uma cartomante e um detetive para juntos encontrarem o gato possuído pelo espírito do falecido marido. Nada faz muito sentido e, no fim, essa acaba sendo sua maior graça. Abraça o nonsense mas sem deixar de se preocupar com seus bons personagens e de buscar essa humanidade existente em cada um deles.

A primeira hora é bem desgastante e demora a se encontrar, mas quando isso acontece, entrega alguns momentos mágicos, principalmente por extrair o melhor de Pfeiffer. Lucas Hedges já tem vindo no piloto automático há um tempo e pouco faz aqui. Dos coadjuvantes, Valerie Mahaffey se destaca e entrega instantes adoráveis. O cuidado na direção de Azazel Jacobs é notável, assim como a bem conduzida trilha sonora.

“French Exit” é aquela comédia que nem sempre faz rir ou agrada, mas causa um certo fascínio por sua esquisitice. Todos os personagens ali soam como pessoas perdidas, que chegaram em um momento da vida que não sabem mais qual a direção seguir. E assim somos nós. Crescemos e somos como crianças que, em um profundo estudo de observação, aprendemos o comportamentos dos adultos e estamos em um constante ato de simulação, agindo como se soubéssemos o que estamos fazendo.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido, Canadá
Ano: 2020
Título original: French Exit
Disponível: Net Now
Duração: 100 minutos
Diretor: Azazel Jacobs
Roteiro: Patrick deWitt
Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Valerie Mahaffey, Imogen Poots, Danielle MacDonald

Crítica: Cruella

Sobre vingança, moda e punk

“Cruella” é um acontecimento. Alcança um nível tão alto de qualidade que torna todos os outros live-actions da Disney menos interessantes. É tudo o que os anteriores tentaram mas não conseguiram ser. Esse tem alma, tem vida própria e não se contenta em ser apenas um favor confortável aos fãs. Como é bom encontrar um produto que prometia pouca coisa e entregou absolutamente tudo.

Existe um brilho a mais em Emma Stone e aqui compreendemos o quão poderosa é sua presença. Uma atriz versátil, carismática e que nos seduz a acompanhar a divertida trajetória de sua personagem. O filme tem como intuito mostrar os eventos antes daqueles que conhecemos em “101 Dálmatas” e a peculiar ascensão de sua adorável vilã. Claro que com uma roupagem completamente diferente e, felizmente, sem se apegar à obra original. É uma trama nova e que acaba, por fim, humanizando Cruella. Poderia ter dado bem errado se não fossem as mãos dos roteiristas Dana Fox e Tony McNamara (A Favorita). É um trabalho brilhante realizado pela dupla, que entrega um filme hipnotizante, que flui muito bem por suas mais de duas horas de duração.

O diretor Craig Gillespie constrói, com sua direção, uma narrativa ainda mais imersiva e consistente daquela apresentada em “Eu, Tonya”. Tem movimento, velocidade e nos mantém atentos a cada detalhe. A produção vem caprichadíssima também, com seus deslumbrantes figurinos e uma impecável direção de arte. Destaque, claro, para a empolgante trilha musical – com nomes como The Clash, Blondie e The Rolling Stones – que nos leva à fascinante Londres dos anos 70. É uma junção de elementos que funcionam perfeitamente bem em cena, sendo uma experiência revigorante de vingança, moda e punk. O único detalhe que causa um certo estranhamento é o uso de CGI nos cachorros, ainda que bem realizado. Porém, acaba sendo justificado quando ganhamos instantes como o doguinho Wink vestido de rato.

Assumindo o papel de Cruella como uma anti-heroína, o roteiro não nos deixou de nos apresentar uma grande vilã. A Baronesa vivida pela veterana Emma Thompson é impagável. O embate entre as duas personagens é saborosíssimo, nos lembrando rapidamente da troca entre Andrea e Miranda Priestly de “O Diabo Veste Prada”. É, ainda, incrível como todos os coadjuvantes funcionam e todos possuem uma função importante ali. Existe química entre todos eles e nos afeiçoamos a essas relações e nos engenhosos planos que desenvolvem. Momentos como os do caminhão de lixo, o show na passarela ou o do vestido de insetos ficarão na memória de tão icônicos que foram. E a grande verdade é que o cinema atual carece disso, desses grandes momentos. Dessas grandes escolhas. “Cruella” é inventivo, tem personalidade e uma energia que vibra. Um espetáculo a ser apreciado!

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Disney Plus
Duração: 134 minutos
Diretor: Craig Gillespie
Roteiro: Tony McNamara
, Dana Fox
Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Mark Strong

Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim

Crítica: Desculpe Te Incomodar

A voz do homem branco

Crítica mordaz ao capitalismo, “Desculpe Te Incomodar” seria cômico se não fosse tão triste. Ainda que nos faça rir de desespero diante das situações que narra, também nos deixa pensativos sobre essas relações que traçamos com a realidade. O diretor e roteirista estreante Boots Riley desenvolve uma obra única, peculiar e mesmo que preze pela estranheza, nos faz conectar com essas situações e dilemas tão comuns da vida adulta, acertando ao transformar essa comédia em um intrigante terror distópico. É um caminho arriscado mas que funciona perfeitamente no seu brilhante texto. Um filme provocativo e essencial.

Lakeith Steinfeld está ótimo na pele de Cassius, um cara comum que mora em uma garagem e não vê muitas perspectivas sobre vencer na vida. Até que ele consegue um emprego como operador de telemarketing em uma empresa sombria e começa a se destacar pelo seu dom em vendas e por saber falar com a voz de um homem branco. O grande conflito nasce quando um grupo de funcionários decide reivindicar melhorias no trabalho e, pelo receio de perder a oportunidade de crescimento profissional, Cassius vira as costas para a luta de seus iguais.

Eles queriam que Cassius fosse a voz da revolução, mas ele é bom demais desenvolvendo a voz dos brancos. O protagonista literalmente desenvolve esse poder, pois somente assim poderia vencer sendo um homem negro. Ele é seduzido para estar no topo da cadeia alimentar, se vendendo para ter, iludido por conquistar tudo o que jamais teria, seguindo exatamente o script. Sendo como todos os outros, querendo possuir o que todos buscam. É muito rico esse conflito que se desenha, pois por mais incômodo que seja as escolhas do personagem, o compreendemos, faz sentido diante de toda sua trajetória. E, de certa forma, vibramos para que ele finalmente se encontre.

Com claras referências ao cinema de Michel Gondry, a obra traz uma arquitetura lúdica, de efeitos práticos e uma narrativa surreal, rapidamente nos remetendo a filmes como “A Espuma dos Dias” e “Rebobine, Por Favor”. Exige um nível de abstração grande do público, mas se permitir levar pela sua bizarrice, a experiência pode ser extasiante. Diante de suas criativas invenções e uma montagem ágil, a obra flui como um sonho esquisito, onde nem tudo possui uma sequência lógica. Diverte e nos faz ter a certeza de que estamos diante de algo muito novo e único. Alguns instantes são impagáveis como a participação de Cassius em um programa de TV ou quando um grupo de brancos pede para ele cantar rap. Sim, é tudo assustador nesse nível.

“Desculpe Te Incomodar” vai ganhando tons cada vez mais obscuros. Surpreende e termina de forma brilhante, acentuando suas belas críticas. É uma obra poderosa, que nos deixa reflexivos diante de suas fantasias, diante de suas indagações. O texto revela essa escravidão que se mantém presente mas com novas nomenclaturas, dentro dessas corporações que vendem discursos inspiradores sobre time e dedicação quando visam apenas a exploração e lucro. Nesse sistema, todos estamos no andar de baixo, seguindo ordens e produzindo as conquistas daqueles que já venceram.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2018
Título original: Sorry To Bother You
Disponível: Telecine Play
Duração: 105 minutos
Diretor: Boots Riley
Roteiro: Boots Riley
Elenco: Lakeith Stanfield, Tessa Thompson, Armie Hammer, Steven Yeun, Danny Glover

Crítica: Estados Unidos vs. Billie Holiday

Sobre os frutos incomuns

Pouco mais de oitenta anos após sua gravação, a canção “Strange Fruit” ainda nos choca porque ela ainda diz muito sobre a violência racial. Na voz de Billie Holiday, a música sobreviveu ao tempo e ela se tornou símbolo de um movimento civil que jamais teve fim. Com direção de Lee Daniels, “Estados Unidos vs Billie Holiday” faz um recorte nos últimos anos da vida da cantora e como ela foi, durante esse período, perseguida pelo FBI por cantar uma canção considerada antiamericana, que incitava a rebeldia na população.

De fato, a grande força da obra está concentrada na atuação de Andra Day. E não estamos falando de uma atuação qualquer. Na pele de Billie Holiday, a jovem atriz entrega – desde já – uma das melhores e mais impressionantes interpretações do ano. É de uma potência e garra espantosa. Seja pelo timbre de voz, a postura, tudo nela indica um trabalho rico que merece ser ovacionado.

O diretor Lee Daniels tem certo fascínio por esses melodramas históricos e entrega a essa dolorosa trajetória um tom novelesco e cheio de excessos. Até soa estranho, ao início, mas são traços que dialogam muito com essa assinatura pesada do diretor, nos remetendo a obras como “A Última Ceia”, no qual ele foi produtor e “Preciosa”, seu trabalho mais marcante. É piegas em muitos momentos, mas é também repleto de muito sentimento, de honestidade.

“Estados Unidos vs Billie Holliday”, por vezes, se perde nas próprias intenções, pincelando os amores da cantora, seus vícios e a constante batalha contra os federais. Nem sempre é claro qual o caminho que obra deseja seguir e isso nos afasta. A questão da operação do FBI, principalmente, é enfraquecida com um texto um tanto quanto maniqueísta. Eles são vilões e ponto. Ainda que emocione e deixe claro essas injustiças que ocorreram na época, é lamentável a forma preguiçosa com que esse conflito é desenhado pelo roteiro.

Apesar das falhas, termino a sessão inundado de sentimento. Tanto pelo prazer que é assistir o trabalho primoroso de Andra Day, como pela revolta e angústia de conhecer mais de perto essa poderosa história. Mais do que a força de Billie Holiday, enquanto artista, mulher, preta, vemos a força da arte e como o protesto dela em forma de música jamais foi silenciado, infelizmente, assim como ocorreu com aqueles frutos incomuns nas árvores do sul.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The United States vs. Billie Holiday
Disponível: Prime Video
Duração: 130 minutos
Diretor: Lee Daniels
Roteiro: Johann Hari, Suzan-Lori Parks
Elenco: Andra Day, Trevante Rhodes, Garrett Hedlund, Tyler James Williams, Da’Vine Joy Randolph, Natasha Lyonne

Crítica: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Sem freio

A Sony Pictures Animation parece ter, finalmente, se encontrado. Três anos depois do lançamento do vencedor do Oscar, “Homem-Aranha no Aranhaverso”, o estúdio retorna com uma produção tão inventiva quanto, reforçando uma bela identidade. Um primor de animação 3D, que mistura traços bidimensionais, excesso de cores e uma edição ágil, capaz de manter a atenção dos pequenos e garantir o riso dos mais crescidos. É aquele filmão pipoca para a família toda, bem intencionado e divertido.

Em “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” somos apresentados a uma família disfuncional através dos olhos da jovem talentosa Katie, que tem uma relação difícil com seu pai. Antes que ela inicie os estudos na faculdade, seus pais decidem reunir a família pela última vez em uma viagem. No entanto, acontece a revolução das máquinas, que ao ganharem vida, decidem expulsar os humanos do planeta. É então que os Mitchells se tornam a única salvação da humanidade.

Katie sonha em ser cineasta e a grande sacada da produção é fazer desta aventura como se tivesse a assinatura dela, com seus rabiscos invadindo as cenas e memes como parte da edição. Tudo isso traz uma atmosfera bastante atual e exige dos criadores extrema criatividade. Por outro lado, esse exagero de informação por segundo o torna megalomaníaco, sendo difícil, às vezes, de acompanhar o raciocínio.

É assim que “A Família Mitchell” peca pelo excesso. A longa duração, inclusive, que poderia dar mais espaço para a construção da trama é lotada de cenas ininterruptas de ação. E isso cansa. Vemos uma família fugindo das máquinas e isso nunca gera algum debate além do velho discurso “não seja normal” e da força da família unida. Falta introduzir essa relação dos humanos com a tecnologia e o quanto isso, de fato, afetava as relações. Essa base dada pelo roteiro é muito simplória, colocando as máquinas ali como meros vilões, sem jamais explorar a força desse tema. É um campo rico, mas o filme sempre opta pelo humor barato de memes, gritarias e coisas sendo esmagadas. No fim, tudo não passa de uma justificativa para uma ação desenfreada. A trama nos é apresentada em uma velocidade tão absurda que se torna impossível criar algum envolvimento ou identificação com que nos revela.

É uma diversão fácil que vale ver com a família sim! Um belo trabalho de animação e que apesar de ter me frustrado diante do hype que nasceu, também me deixou curioso pelos próximos passos do estúdio. Vale a pena, mas é muito abaixo dessa “obra-prima instantânea” que estão pintando por aí.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Mitchells vs. the Machines
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Jeff Row, Michael Rianda
Roteiro: Jeff Row, Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Olivia Colman

Crítica: Druk – Mais Uma Rodada

Uma dose diária de vida

Apesar de ter vencido o Oscar de Melhor Filme Internacional no Oscar, fui sem grandes expectativas, talvez porque a premissa não tenha me agradado. Mas aí aconteceu que encontrei uma obra muito diferente do que esperava, maior do que eu esperava. “Druk” me preencheu.

Quatro amigos e professores, vivendo pela inércia da rotina, decidem provar uma tese de que, ao ingerir uma quantidade específica de álcool todos os dias, se tornariam mais bem sucedidos, mais confiantes em suas ações. A partir deste inusitado experimento, Martin (Mads Mikkelsen), em meio a suas crises da meia idade, renasce, buscando se reconectar com a vida e com a juventude que deixou para trás.

O cineasta Thomas Vinterberg cria aqui uma obra ousada, que caminha por rumos delicados. Sem endemonizar o álcool e sem ignorar o lado maléfico do ato, ela encena uma revigorante celebração da vida. Saiba beber com moderação, mas viva o máximo que puder. Ele sabe como conduzir esse discurso sem cair em um campo perigoso e irresponsável, entregando um produto elegante, divertido e sutilmente comovente. É um dos projetos mais pessoais da carreira do diretor e que ganha um tom ainda mais sensível pela triste história por trás dele. Vinterberg faz um filme festivo quando perdeu o mais precioso que é sua filha. “Druk” é seu grito, sua força, sua razão de ainda estar em pé.

O roteiro é fantástico e nos convida a cada passo. É interessante como cada capítulo da tese escrita pelos amigos se torna um capítulo à parte no filme. Desta forma, há uma dinâmica muito bem conduzida pelo diretor, que nos instiga a ficar, a querer ver a conclusão dessa loucura. Somando a isso, Mads Mikkelsen é imensamente carismático e nos traz ao seu lado nesta jornada libertadora. A obra, que se inicia com um grupo de jovens se divertindo, nos faz a todo tempo nos questionar em qual fase da vida desistimos desse parque de diversões, quando foi que decidimos sermos tão sóbrios, tão descrentes. A cena final é gigante! Nos faz querer dançar por aí, acreditar mais em nós mesmos. Uma bela celebração aos dias que nos restam.

NOTA: 9,5

  • País de origem: Dinamarca
    Ano: 2020
    Título original: Druk
    Duração: 117 minutos
    Diretor: Thomas Vinterberg
    Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
    Elenco: Mads Mikkelsen, Lars Ranthe, Magnus Millang, Thomas Bo Larsen

Crítica: Raya e o Último Dragão

Um voto de confiança de mundo

Lançado no Disney Plus, “Raya e o Último Dragão” é mais um daqueles filmes que fariam bonito em uma tela grande. A animação é mais um grande acerto do estúdio, que acalenta nossos corações em tempos tão tenebrosos. Por isso espero que alcance muita gente ainda. Mais do que uma experiência agradável e empolgante, o longa traz reflexões necessárias.

Inspirado em contos e lendas do Sudeste Asiático, a obra nos apresenta o universo mágico e fictício de Kumandra, que há anos atrás era um reino que venerava a existência dos dragões que traziam riqueza para as civilizações, mas que desapareceram com a chegada de uma força maligna. Ao encontrar o último dragão vivo, a jovem guerreira Raya, traça uma longa aventura para unir as partes de uma poderosa jóia que pode, enfim, salvar a espécie.

Temos como base algo semelhante a muitas outras obras que colocam uma jovem guerreira em uma aventura para salvar sua comunidade. Ainda assim, o resultado é bastante positivo, principalmente pelo carisma dos personagens e pelo texto que está sempre se renovando, sempre trazendo elementos novos para a narrativa. Ao nos apresentar o universo mágico e fictício de Kumandra, o longa explora de forma bastante rica a cultura e tradições de diversos povos, permitindo, assim, que a história sempre cresça, jamais perdendo aquele ar de novidade. Visualmente, cada pedaço da aventura é um deleite. É belo, criativo e nos faz embarcar de coração em uma aventura épica muito bem elaborada, algo tão raro no cinema atual.

Esqueça as músicas e o romantismo tão presentes nas histórias de princesas da Disney. É um passo acima daqueles já iniciados por Frozen e Moana, dialogando bem com a nova geração. Raya é corajosa, mas o roteiro acerta por não esconder suas fraquezas e sua falta de fé no mundo que é aquilo que ela irá conquistar ao longo de sua jornada pessoal. Emociona, envolve e traz sentimentos ainda mais convincentes que os filmes citados. Vale ainda destacar, a dinâmica da protagonista com Sisu que é divertidíssima e ganha pontos, quando na versão original, traz as ótimas performances de Kelly Marie Tran e Awkwafina.

“Raya e o Último Dragão” traz conforto no meio de nossas crises e pessimismo pandêmico. A obra vem para nos lembrar sobre o quanto perdemos quando desistimos do mundo, quando não depositamos fé no próximo. Um voto de confiança é necessário porque ele traz poder, ele transforma, nos permite evoluir.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Raya and the Last Dragon
    Disponível: Disney Plus
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Carlos López Estrada, Don Hall
    Roteiro: Adele Lim, Qui Nguyen
    Elenco: Kelly Marie Tran, Awkwafina

Crítica: À Espreita do Mal

Tem sido interessante acompanhar esse movimento da Netflix de lançar filmes recentes e que não tiveram o devido reconhecimento na época pela pouca (ou nula) distribuição. Aconteceu recentemente com “Upgrade”, “País da Violência” e agora com “À Espreita do Mal”. É uma produção que pode até ter suas falhas, mas facilmente se destaca no catálogo. Apesar de ter lido algumas duras críticas, confesso que super funcionou comigo. 

A obra já nos instiga em seus primeiros minutos. Seja pelos ruídos da trilha sonora ou pela boa atmosfera de tensão que se constrói, somos fisgados pela curiosidade de compreender essa inquietação que nos causa. É interessante como o filme, no início, traz indícios de um mistério sobrenatural, apostando naquele velho conceito de acontecimentos estranhos dentro de uma casa, ambientada por uma família nitidamente fragilizada. Ganha quando não usa o mistério como muleta para sua revelação final, indicando uma reviravolta intrigante que prefiro não comentar por aqui. Causa desconforto e soa como uma saída ainda melhor do que aquela que prevíamos no início. 

Acredito que o pecado de “À Espreita do Mal” é se justificar demais. Mesmo com uma boa ideia em mãos, o roteiro falha ao querer deixar tudo muito bem explicado ao público, chegando ao ponto de revelar a mesma narrativa por pontos de vistas diferentes, quando na sugestão sua trama era mais interessante. 

Ainda que não alcance por completo o potencial que tinha, é uma obra que vai se tornando cada vez mais intrigante, oferecendo um ótimo final. Subverte o terror e surpreende com os bons caminhos que segue. Funciona, principalmente, porque todos seus personagens escondem algo, uma peça crucial que, até o ato final, não sabemos dizer quais deles são os vilões e os heróis da história.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: I See You
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Adam Randall
    Roteiro: Devon Graye
    Elenco: Jon Tenney, Owen Teague, Helen Hunt, Judah Lewis