Crítica | Eduardo e Mônica

A razão que existe no coração

Sabe aquela sensação boa de ver um filme e sair dele com o coração aquecido e uma sensação de ter vivido algo especial? Nem é a nossa história, mas ficamos apaixonados. Isso porque “Eduardo e Mônica” nos coloca ali dentro, vivendo os amores de outras pessoas, sofrendo junto, torcendo junto. A trajetória comum, de indivíduos comuns e que rapidamente nos identificamos.

Depois de “Faroeste Caboclo”, o diretor René Sampaio retorna para dar vida a outro clássico do Legião Urbana. Atemporal, a letra que contava os encontros e desencontros de Eduardo e Mônica há muito tempo merecia o cinema e finalmente isso aconteceu. Só não esperava, sinceramente, que pudesse dar tão certo. Isso porque na trama que, teoricamente, já conhecemos, não há clímax e nem um grande momento além do recorte ordinário de duas pessoas que se amam. Talvez esteja aí a beleza desse projeto. De fazer uma simples história de amor funcionar nos tempos dos desafetos. É sobre dividir a vida com alguém e abraçar e aceitar todo o caos que vem junto com essa decisão.

Alice Braga faz de Mônica uma mulher intrigante. Descolada, independente e alguém que não queremos desgrudar os olhos e conhecer mais a fundo. Gabriel Leone, bela revelação da TV, faz bonito no cinema e traz a Eduardo um charme genuíno, alguém que facilmente nos apaixonamos. Ver os dois esbanjando química em cena não é apenas muito gostoso de se ver, como também nos faz sentir uma certa dor ao decorrer do filme. São os opostos que se atraem, que estão sempre em uma direção diferente. Enquanto ela fala alemão, ele ainda está nas aulinhas de inglês. Ambos precisam ceder e achar o ponto no meio do caminho. O longa nos faz pensar justamente o quão fácil é desistir de uma relação, ressaltar o que não faz dar certo. Difícil mesmo é estar presente, entender esse desequilíbrio e persistir naquilo que, no fundo, traz um bocado de felicidade. Eles foram feitos um para o outro, mas eles mesmos não enxergam isso.

Da nostalgia dos anos 80 às referências afetivas que nos remetem à letra de Renato Russo, “Eduardo e Mônica” é uma viagem irresistível ao passado e à juventude. Tudo nele emociona porque é construído com muito sentimento e honestidade. Que delícia ver Eduardo cantando “Total Eclipse of The Heart” no karaokê ou Mônica usando de sua arte para expressar seu amor em uma exposição. São instantes delicados e ao mesmo tempo tão poderosos. A gente sai acreditando no amor e aceitando o fato de que, apesar dos percalços, existe sim razão para as coisas feitas pelo coração.

NOTA: 8,5

País de origem: Brasil
Ano: 2022
Duração: 114 minutos
Disponível: Globoplay
Diretor: René Sampaio
Roteiro: Michele Frantz, Matheus Souza, Jessica Candal, Claudia Souto
Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Victor Lamoglia, Otavio Augusto

Crítica | Influencer de Mentira

As motivações vazias da cultura digital

Quando as redes sociais passaram a dominar por completo a rotina de todos, emergiu, nesse tempo, indivíduos que geram influência sobre os demais. Rosto de marcas. Vozes que representam um pensamento. “Influencer de Mentira” causa identificação ao se aprofundar no universo digital, satirizando essa cultura nociva que se estabeleceu e provocando desconforto ao desenhar, com precisão, essa geração que se tornou refém de suas motivações vazias.

Logo de cara, descobrimos que nossa protagonista está sendo cancelada na internet e o filme se desenvolve para revelar os motivos dela ter se tornado a piada da nação. Danni Sanders (Zoey Deutch), em uma busca por ser notada pelos demais e chamar atenção de um macho, inventa uma viagem à Paris. Sua mentira acaba ganhando proporções inimagináveis quando acontece um ataque terrorista “durante sua viagem”. Enquanto forja ter presenciado o ocorrido, ela passa a ser reverenciada por todos aqueles que antes a ignoravam, além de criar o movimento #notokay, dando voz para todos aqueles que vivenciaram algum tipo de trauma.

“Influencer de Mentira” navega por temas extremamente delicados sem perder a força do humor. Caminha sem medo nessa linha tênue entre a provocação e o ofensivo, mas é corajoso o suficiente para se manter ali, cutucando sem utilizar-se de um discurso panfletário e sendo incisivo para causar desconforto. É curioso como o texto vai na contramão de um roteiro clássico. Ele não defende sua protagonista, não a protege e não força uma redenção. Justamente por isso, seu final deixa um vazio em nós. Não há lições aprendidas e, sinceramente, por mais que doa, acredito que a realidade seja assim também. Danni Sanders não tem voz no fim de sua história e, brilhantemente, o longa se encerra entregando, literalmente, o palco a quem tem o que dizer. (Inclusive, Mia Isaac…que revelação!)

Danni é detestável, fútil e, através dela, o roteiro consegue traçar um estudo instigante sobre essa necessidade que se construiu nos novos tempos de ser notado, de ser alguém seguido por razão alguma, simplesmente por ser. O texto é inteligente, onde seus absurdos são tão plausíveis que faz refletir o quão tóxico, muitas vezes, esse universo das mídias sociais pode ser. É possível traçar tantos paralelos com essa “realidade” virtual. Nesse universo onde nada é real e, ao mesmo tempo, tanto nos afeta. Gente de todo canto precisando dar uma opinião sobre alguma coisa importante, ou se apropriando de movimentos para caçar likes. Um atacando e diminuindo o outro, protegidos em suas fotos de perfis. O grande vilão do filme não tem rosto, porque ele pode ser qualquer um. Inclusive nós.

Não haveria atriz mais competente que Zoey Deutch para esse papel. Ela nos fisga, mesmo quando sua personagem só nos revela motivos para detestá-la. Cativante, ela trabalha bem no humor, provocando riso sem deixar de tornar Dani possível e estranhamente humana. Existe uma parte dela que busca por uma conexão, fazer parte de algo, mesmo que ela se afunde tentando alcançar essas necessidades que ela nunca soube como começou e nunca soube como lidar. A estranha identificação que o roteiro nos cria com a personagem vem justamente desse ponto. Estamos presos nesse abismo que as redes sociais construíram em nossa realidade, buscando por algo que nos preencha mesmo quando, por todos os dias, tudo o que elas nos deixam é ausência.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original:
Not Okay
Duração: 103 minutos
Disponível: Star+
Diretor:
Quinn Shephard
Roteiro:
Quinn Shephard
Elenco:
Zoey Deutch, Mia Isaac, Nadia Alexander, Dylan O’Brien

Crítica | Competição Oficial

Rivalidade, ego e metalinguagem

A metalinguagem de “Competição Oficial” já inicia-se no título com uma clara alusão às mostras competitivas de festivais de cinema. É ficção dentro de uma ficção, em uma obra que satiriza, com brilhantismo, Hollywood e toda a “batalha” de egos que existe no meio artístico. Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat (O Cidadão Ilustre), o longa utiliza-se de pouquíssimos cenários e ambientações, mas é aquela produção tão absurda e fascinante, que vai se tornando gigantesca aos nossos olhos. O texto é fantástico, um dos mais geniais deste ano, e reunir o melhor elenco, não só engrandece sua brincadeira – justamente porque conta a sobre o melhor elenco já reunido – como também coloca Penélope Cruz, Antonio Banderas e Oscar Martínez no pódio que eles merecem.

Existem três filmes aqui. O primeiro, chamado “Rivalidade”, é um livro que será adaptado para o cinema por uma renomada diretora, Lola (Pénelope). Para isso, ela reúne dois grandes astros, Félix (Banderas) e Iván (Martínez), para interpretar dois irmãos distintos que vivem um confronto. Ao longo da trama, vamos acompanhando os severos ensaios de Lola, que não só abalam o ego dos atores como os tornam grandes rivais. É bastante curioso como o roteiro trabalha essas personalidades tão distintas entres os personagens e como eles são o completo oposto daqueles que irão interpretar na história. O texto é brilhante e nos engana, onde em determinados instantes, não sabemos mais o que separa interpretação da verdade. Félix e Iván não são confiáveis aos nossos olhos, o que torna esse embate ainda mais saboroso e complexo. O segundo filme é “Competição Oficial”, esse que vemos. O terceiro, é aquele que se mantém vivo em nós, muito tempo depois que ele acaba.

A obra satiriza de maneira sagaz a glamourização das premiações e como o cinema, por muitas vezes, se torna refém delas. Essa arte como espetáculo, que é colocada em competição como se fosse um esporte. O que define um ator melhor que outro, um filme melhor que outro? Existe inteligência nesses discursos, que sempre chegam com muito humor, e nos faz traçar paralelos com a realidade e com esses egos que necessitam estar no topo a qualquer custo.

Interessante, ainda, como este confronto existe tanto entre os atores como entre os personagens que irão interpretar É então que eles se fundem, se tornam a mesma coisa. É bastante divertido as cenas dos estudos, dessa diretora excêntrica buscando a verdade de seus astros. Tudo é tão bizarro, insano, mas estranhamente adorável de assistir. A sequência em que ensaiam a cena final do filme é fascinante. A história é boa e a história dentro da história é muito boa também.

“Competição Oficial” é uma surpresa deliciosa, que revela, através de um texto crítico e bastante atual, o cinema de nosso tempo. Ri de nervoso, mas também me deixou reflexivo sobre seu excelente final. E claro, valeu por ver esse trio de atores arrebentando em cena. O texto exige bastante dos três e eles devoram cada oportunidade. Eles brilham.

NOTA: 9,0

País de origem: Argentina, Espanha
Ano: 2022
Título original: Competencia Oficial
Duração: 115 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Roteiro: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas e Oscar Martínez

Crítica | Boa Sorte, Leo Grande

O prazer como parte necessária da vida

Prazer é uma coisa maravilhosa. E todo mundo deve ter a chance de sentir isso. Essa é a premissa de “Boa Sorte, Leo Grande”, que quebra tabus ao explorar a vida sexual na terceira idade. O texto é ousado e acerta ao falar de sexo com naturalidade em um produto bastante acessível.

A obra se mostra necessária, não apenas por tocar em assuntos intocáveis, mas por falar do universo feminino com propriedade. A direção, roteiro e produção são assinados por mulheres e isso, nitidamente, torna seus discursos ainda mais poderosos. Porque são pessoais, honestos e revelados por quem de fato os vivenciam. Durante o filme, acompanhamos alguns encontros entre Nancy (Emma Thompson), uma viúva aposentada, e Leo Grande (Daryl McCormack), um garoto de programa. Ela o contrata porque entende que precisa, depois de anos de casada, ter uma noite de sexo prazerosa, explorando seu corpo e tendo, finalmente, um orgasmo de verdade.

Confesso que gosto bastante desses filmes que acontecem em um único local, permitindo que dois personagens se conheçam profundamente. “Boa Sorte, Leo Grande” se desenvolve, quase que inteiramente, dentro de um quarto. Nesse sentido, sinto que a direção de Sophie Hyde é pouco inventiva, explorando aquele pequeno ambiente de forma burocrática. Aqui, o que deveria ser apenas uma noite de sexo, se torna uma longa sessão de terapia, entre conversas e lembranças íntimas de cada um. Ainda que seja curioso esse encontro entre uma viúva e um garoto de programa e tudo o que duas pessoas tão distintas têm a dizer uma à outra, o texto, por vezes, divaga por diálogos não tão interessantes e que só nos afastam de seus protagonistas. Inclusive, quando tenta criar um background para Leo, vai na contramão de sua intenção, o deixando menos fascinante aos nossos olhos.

Falta equilíbrio no roteiro, que nem sempre caminha de forma harmônica entre comédia e drama. Ainda assim, preciso dizer que “Boa Sorte, Leo Grande” é um filme adorável de se ver. É sexy, provocativo e sai do lugar comum. A nudez choca porque vem sem muito preparo ao longo do filme, mas também revela um propósito. É Nancy alcançando sua liberdade e seu autoconhecimento. Ela vai se desconstruindo ao longo dessa jornada e a produção se desconstrói ao lado dela, alcançando o ápice ao final.

Emma Thompson se desnuda por completo em uma protagonista um tanto odiável, mas extremamente humana. Sua entrega é absurda e comove. Daryl McCormack é uma revelação e facilmente nos apaixonamos por seu Leo. Aos pequenos tropeços, a obra acerta mais do que erra, e abre espaço para inúmeras discussões necessárias. É preciso falar de sexo na terceira idade, sobre corpos distintos, sobre prazer. Até mesmo o cinema parece se esquivar de tais assuntos e é belo quando uma comédia, que parece tão inofensiva ao início, é aquela a falar (e mostrar) abertamente tudo aquilo que, até então, parecia intocável.

NOTA: 8,0

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2022
Título original: Good Luck to You, Leo Grande
Duração: 97 minutos
Disponível: Cinemas
Diretor: Sophie Hyde
Roteiro: Katy Brand
Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack

Crítica | Blue Bayou

o peixe estrangeiro no próprio rio

O cinema, recentemente, tem dado mais visibilidade aos asiáticos-americanos e é ótimo poder ver – mesmo que tardiamente – suas história sendo contadas. “Blue Bayou”, que teve seu lançamento no Festival de Cannes ano passado, vem para expor a triste realidade de imigrantes adotados por famílias nos Estados Unidos que, mesmo enquanto adultos, são forçados a serem deportados do país.

Escrito, dirigido e protagonizado por Justin Chon, ele teve a ideia para o filme enquanto lia uma notícia em uma jornal sobre uma criança asiática nesta situação e sendo obrigada a voltar ao país em que nasceu. Aqui ele interpreta Antonio LeBlanc, coreano-americano que encontra dificuldades em conseguir um emprego devido a sua ficha criminal. Tudo piora quando ele recebe a notícia inesperada de que, mesmo adotado, ele está ilegal e pode ser colocado para fora do país em que construiu toda sua vida.

A condução de “Blue Bayou” é extremamente melancólica. Arriscaria dizer que é o filme mais triste que vi esse ano. A jornada do protagonista nunca parece ter uma solução e ficamos ali, com dor no peito, ao compreender que muitas histórias silenciadas caminham dessa mesma forma. Antonio é americano. Esta é sua casa. Mas nessa terra ele sempre é visto como estrangeiro, como alguém não merecedor desta vida. É doloroso ver esse encontro dele com o passado que nem ele mesmo se lembra. De que estar ao lado de sua família, do qual ele ama intensamente, pode estar com os dias contados.

Visualmente, a obra é riquíssima, com frames hipnotizantes de tão belos. Chon se mostra um diretor muito atento e, definitivamente, um nome a se prestar mais atenção. Como ator, ele entrega uma atuação notável e comovente, assim como sua parceira de cena, Alicia Vikander. Sou sempre suspeito por elogiá-la, mas ela é aquela atriz que se despe de qualquer vaidade e se transforma a cada papel.

O que enfraquece, infelizmente, a dramaticidade aqui é a inserção dos policiais na trama e essa estranha necessidade de construir vilões quando a trama por si só já é tão pesada. Esse acaba sendo justamente o pecado da obra, nunca entender o quão densa é naturalmente. O fim, aliás, excede o tom, forçando um dramalhão que o próprio filme não pedia. Ainda assim, apesar desses exageros na narrativa, confesso que não pude evitar as lágrimas. É doloroso pensar que existem histórias interrompidas como essa, de pessoas que tem suas raízes cortadas, vivendo como se não pertencessem a solo algum. “Blue Bayou” é um retrato urgente e seus letreiros finais vêm como um soco.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Duração: 119 minutos
Disponível: Aluguel na Apple TV, Google Play, Youtube
Diretor: Justin Chon
Roteiro: Justin Chon
Elenco: Justin Chon, Alicia Vikander, Sydney Kowalske, Mark O’Brien, Emory Cohen

Crítica | Elvis

O pássaro que não para de voar

Elvis Presley foi uma das figuras mais emblemáticas do século XX. Sua importância na história da música, que o consagrou como o Rei do Rock, se reflete até hoje. Ainda que ele já tenha se tornado personagem em outros filmes, nunca o cinema teve a coragem de fazer uma cinebiografia dessa magnitude. Baz Luhrmann, mais conhecido por sua estética espalhafatosa, surpreendentemente, prova ter sido a escolha mais adequada para esse projeto. É uma obra autoral, onde seus truques e exageros dialogam perfeitamente com suas intenções, sem nunca ofuscar a vida do astro. Ele abrilhanta sua trajetória e entrega uma homenagem, finalmente, a sua altura. 

Aqui, Baz Luhrmann flerta com o musical contemporâneo e costura a vida de Elvis em meio a colagens e batidas que nunca pausam. É música pulsando na veia em uma montagem criteriosa e soberba. Navegamos em um ritmo alucinante pelos altos e baixos de sua carreira, desde sua infância até sua morte. É incrível como o roteiro consegue, em suas duas horas e meia, dar um overview sobre tudo, sem nunca perder o fôlego e sem nunca largar nossa mão. Ainda que mereça louvor pelo feito de condensar toda a jornada – porque é uma tarefa cruel e quase que impossível – isso, também, enfraquece, em partes, sua dramaticidade. A história do casal, por exemplo, nunca ganha profundidade e nunca entendemos, de fato, o que os torna distantes. Ou sua vida em Hollywood, ou vício nas pílulas. Tudo ali, ao fim, vira um detalhe, quando havia tanto a dizer. 

“Elvis”, entretanto, não está só interessado na carreira do ícone, mas em como o mundo e a sociedade vivia em sua época. Seja por revelar suas raízes mais humildes em Memphis e como a cultura negra teve grande influência em sua música, seja por mostrar esse país que vivia as dores da segregação e em chamas pelos assassinatos de seus líderes. “Quando as coisas estão perigosas demais para dizer, cante!” A voz de Elvis vem com o peso de representar muita história e ele sentia que esse dom tinha um propósito. Sua presença despertava um senso de rebeldia, de força, mesmo quando por dentro, ele era tão frágil. 

É então que temos Austin Butler para dar vida ao ídolo. Longe de qualquer imitação, o ator se entrega de corpo e alma em cena. É comovente ver seu trabalho vocal e corporal. Ele deu o sangue ali e é nítido em cada instante. Tom Hanks, ainda que entregue uma atuação distante de tudo o que ele já fez em sua carreira, seu personagem me incomoda. O filme foca bastante nessa relação tóxica entre Elvis e seu agente Tom Parker, mas este me soa extremamente caricato, quase como um vilão cartunesco. Ficou difícil acreditar nessa inocência do cantor e como ele entregou a própria vida para um ser que, desde o primeiro momento, se mostrou tão desprezível. Ainda assim, o roteiro deixa claro o quão complexo é esse relacionamento e o quão difícil era o astro se ver livre da gaiola que criaram para ele. 

Elvis, assim como ele mesmo acreditava, era um pássaro que só possuía asas. Ele não podia pousar, logo, só voava. Para o astro que nunca teve os pés no chão, Baz Luhrmann entrega um espetáculo a sua altura, que caminha com uma batida ininterrupta, nos permitindo viver o caos e agitação de alguém que nunca pôde aterrissar. Uma obra energética, revigorante e que explode em nós. É belo, empolgante e musicalmente formidável. O show que Elvis merecia. O filme que nem sabíamos que precisávamos.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 159 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Baz Luhrmann
Roteiro: Craig Pearce
Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Dacre Montgomery, Luke Bracey

Crítica | Sempre em Frente

A espontaneidade calculada

A honestidade na fala de uma criança diz muito sobre a coragem que perdemos com a maturidade. “Sempre em Frente”, escrito e dirigido por Mike Mills, desenha a diferença existente entre a visão dos pequenos com o pessimismo e cansaço da vida adulta. As imagens em preto e branco trazem um tom melancólico à obra e ilustram bem esse contraste.

O protagonista é Johnny (Joaquin Phoenix), um jornalista que tem um projeto social que visa entender as perspectivas de futuro na infância, enquanto precisa cuidar, por um breve período, de seu sobrinho, Jesse, no qual nunca conseguiu construir uma relação. Um envolvimento tardio, mas revelador. É dessa troca que ele passa a ver o mundo com outros olhos, a entender o poder da escuta e absorver todas as lições que aquele garoto tem a lhe ensinar. O roteiro revela conversas corriqueiras entre os dois e desses pequenos momentos em que se tornam, enfim, família. Tudo bastante delicado, ganhando pelas boas atuações de Phoenix e Woody Norman.

No entanto, sinto que esse universo que Mike Mills tenta construir é muito frágil. Quando se esforça demais para parecer espontâneo, perde seu brilho. Os diálogos, pensamentos e reflexões que giram em torno dos personagens são poéticos, mas distantes demais de qualquer realidade. É estranho como esses indivíduos que narra são extremamente conscientes sobre seus problemas, suas falhas. Inclusive a criança, que parece entender muito bem sobre solidão e todo o peso que se tem na vida adulta. É claramente um texto vindo de uma pessoa experiente, tentando dar vida para alguém que não é.

“Sempre em Frente” me soa bastante prepotente. Quer ser poesia e tem coração, mas às vezes parece não compreender a complexidade humana. Tudo ali tem uma razão, uma resposta, onde seus personagens compreendem demais a si mesmos. Ainda assim, preciso dizer que a produção me encanta. A beleza das cenas, junto com a ótima montagem, revelam, mais uma vez, o cuidado de Mills por trás das câmeras. Vale, também, pelas entrevistas reais com as crianças durante o filme, que nos lembram as coisas incríveis que elas podem falar quando são escutadas. Vejo ali a honestidade que falta a todo o resto e a espontaneidade que a produção tenta capturar, mas falha.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: C’mon C’mon
Duração: 108 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Mike Mills
Roteiro: Mike Mills
Elenco: Joaquin Phoenix, Woody Norman, Gaby Hoffmann, Scoot McNairy

Crítica | Great Freedom

A liberdade relativa

Vencedor do prêmio “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes de 2021, “Great Freedom” conta uma história dolorosa. Não é baseada em nenhum caso específico, mas ilustra com extrema delicadeza o período em que amar era considerado um crime. Parece uma trama distópica e nos sufoca quando entendemos a vida opressora que muitos tiveram que enfrentar. Quando sentimos o peso que muitos tiveram que suportar.

Escrito e dirigido por Sebastian Maise, o filme nos revela a jornada de Hans Hoffman (Franz Rogowski) que, em um período pós-guerra na Alemanha, é encarcerado repetidas vezes ao longo dos anos por ser homossexual. A obra, então, acerta na montagem ao intercalar as três vezes em que ele esteve atrás das grades, alternando entre os anos e nos fazendo compreender os sacrifícios e atitudes do protagonista e tudo o que ele vai perdendo de si nesse tempo. Hans ainda tenta se manter firme, buscando, mesmo diante das dificuldades, alcançar algum tipo de afeto ali dentro. Burlando regras para, ao menos, sentir o toque do outro.

Franz Rogowski está impecável como protagonista. Me vi o tempo todo sofrendo ao seu lado, querendo poder abraçá-lo. Hans é o doloroso retrato de tantas pessoas que tiveram suas identidades apagadas. Nunca podendo viver, nunca podendo amar. “Great Freedom” choca ao recontar esse momento da história em que homens foram perseguidos e castigados pela forma como eles amavam. O fim, então, vem como um soco ao falar de liberdade e o quanto ela é relativa. O que é ser livre para você pode também ser a minha prisão.

NOTA: 9,5

País de origem: Alemanha, Áustria
Ano: 2021
Duração: 117 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Sebastian Meise
Roteiro: Thomas Reider, Sebastian Meise
Elenco: Franz Rogowski, Georg Friedrich, Anton von Lucke

Crítica | Cha Cha Real Smooth – O Próximo Passo

Responsabilidade afetiva

Vencedor do Grande Prêmio do Público no último Festival de Sundance, “Cha Cha Real Smooth” alia drama e comédia de forma harmônica e entrega umas das produções mais sensíveis e encantadoras do ano. Eu realmente acredito que alguns filmes podem ter um significado mais profundo quando aparecem na hora certa em nossas vidas. Esse aqui foi de encontro comigo e com o que sinto, me fazendo desabar ao final.

Escrito, dirigido e estrelado por Cooper Raiff, o longa muito me lembra as narrativas agridoces de Judd Apatow sobre amadurecimento na fase adulta. O texto é ótimo e mesmo que tudo seja extremamente leve e gostoso de assistir, caminha com os pés no chão, revelando personagens e sentimentos extremamente possíveis. Cooper interpreta Andrew, jovem de 22 que acabou de se formar e não tem perspectiva alguma sobre o que fazer da vida. Sem muitas habilidades mas com carisma de sobra, o destino acaba o colocando como animador de Bar Mitzvah (cerimônia judaica para jovens de 13 anos). São nessas festas que ele acaba conhecendo Domino (Dakota Johnson) uma mulher casada com quem se apaixona.

“Cha Cha Real Smooth” revela como o amor funciona em cada estágio da vida. É curioso como na primeira sequência, Andrew, ainda criança, tem seu coração partido ao se apaixonar por uma mulher mais velha. 10 anos depois, ele se encontra na mesma posição, pronto para se entregar. Andrew e Domino se completam. Ainda que ambos estejam perdidos na própria existência e nesta necessidade de estabelecer algo na vida adulta, a idade que os separa também os coloca em instantes muito distantes dentro do que esperam de um relacionamento. Os anos passam e, quase que automaticamente, passamos a buscar coisas distintas dentro de uma relação. O que hoje precisamos está longe do que buscávamos há anos atrás. A obra sabiamente faz um interessante paralelo entre essas gerações e como, independente da idade, no fim das contas, todos enfrentam um processo de amadurecimento, de entender a si mesmo e de como encarar o outro. É aqui que o texto vem para dizer muito sobre responsabilidade afetiva e a importância de ser honesto com o próximo. Vale, ainda, citar a deliciosa química entre os atores. Me vi com um sorriso no rosto durante o filme todo, torcendo e vibrando por cada simples conversa entre o casal.

Nos minutos finais, porém, me encontrei chorando e tentando entender o porquê tudo aquilo me afetava tanto. Penso que o que há de mais poderoso aqui é a honestidade entre os personagens e essa coragem que todos têm em dizer o que sentem. Vivemos em um mundo que isso parece tão difícil quando estamos tentando algo com alguém. Se expressar é sempre um passo arriscado e que triste que seja. Andrew é destemido e sua persona adorável vem como inspiração. É motivador assistir pessoas sendo gentis umas com as outras. É motivador ver como é possível ouvir o outro, falar em alto e bom som sobre paixão. Se permitir se entregar e achar que tudo bem bater na porta de alguém e dizer que a ama. A verdade é que vivemos fechados a tudo isso e o filme vem para dizer que sentimentalismo não é crime e chorar é só uma prova de que estamos vivos. E está tudo bem. “Cha Cha Real Smooth” diz coisas que eu precisava ouvir e nem sabia. É lindo, acolhedor e faz um bem enorme pra alma.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Cha Cha Real Smooth
Duração: 107 minutos
Disponível: Apple TV+
Diretor: Cooper Raiff
Roteiro: Cooper Raiff
Elenco: Cooper Raiff, Dakota Johnson, Vanessa Burghardt, Leslie Mann, Brad Garrett

Crítica | Top Gun: Maverick

A era da nostalgia

Queria muito vir aqui e fazer parte desse grupo que amou demais “Top Gun: Maverick” e dizer, tranquilamente, que ele já é um dos melhores filmes do ano. Provavelmente minhas altas expectativas estragaram um pouco minha experiência, mas, definitivamente, nada estragou mais do que entrar na sala de cinema e ver uma obra tão calculada e tão produzida para ser algo que já foi. Tudo muito bem feito, com certeza, e isso é inegável. Mas não consigo me emocionar, assim como muitos, com algo tão imensamente desnecessário e que, com plena consciência disso, se contenta em ser apenas uma bela peça de museu.

“Top Gun: Maverick” é mais uma dessas produções que ganharam fôlego nos últimos anos, que tem como o grande intuito fisgar a audiência pela nostalgia. Matrix, Caça Fantasmas, Jurassic Park, entre outros clássicos estão tendo seus túmulos cavados para tentar resgatar alguma chance de sucesso. O processo parece sempre o mesmo: trazer o elenco original de volta e apostar tudo no saudosismo. Se não tem nada de novo para contar – e a maioria desses filmes não tem mesmo – sou do time que prefiro que não mexam. O primeiro “Top Gun” foi lançado em 1985 e é mais conhecido por alavancar a carreira de Tom Cruise do que por ter o carinho do público. Dessa forma, o sucesso dessa sequência nem diz tanto sobre a fama da franquia, mas sim pela qualidade dela e pela maneira especial com que a produção desenha esse cinema dos anos 80. É gostoso de ver e nos transporta para essa época onde os grandes blockbusters ganhavam vida. Nos faz vibrar e brilha nossos olhos pela qualidade imensa de cada sequência.

Ainda que tudo seja incrivelmente bem conduzido pelo diretor Joseph Kosinski, que já tem no currículo bons filmes de ação como “Tron: O Legado” e “Oblivion”, o longa me parece muito preso nessa intenção de homenagem. Tudo muito arquitetado para ser exatamente como foi o primeiro filme. Fiquei surpreso em ver um roteiro que segue basicamente os mesmos passos do original, como se qualquer fuga do que já foi um dia pudesse estragar a memória dos fãs. Maverick quebrando regras e por isso indo parar na Top Gun. Temos. Rivalidade entre alunos que logo sabemos que finalizará em admiração. Temos. Sequência musical com “Great Ball on Fire”. Temos. É um filme que segue passo a passo o que precisa ser, mais parecendo um remake do que uma continuação propriamente dita. Eu conseguia prever exatamente o caminho dos personagens, inclusive quando dois deles iriam cruzar olhares e fazer algum tipo de expressão. Todos os indivíduos ali estão presentes apenas para preencherem arquétipos. Seja do macho alfa, do antagonista valentão, da donzela compreensiva. Todos são carismáticos, de fato, e o bom elenco ajuda. Mas nenhum deles tem vida além daquela função específica.

Cenas de ação impecáveis, trilha sonora, montagem. É realmente um espetáculo para ver na tela grande e isso é inegável. Mas nada disso preenche um filme se ele não tem muito a dizer. E quando eu tiro o saudosismo de “Top Gun:Maverick”, não sobra muita coisa. É sobre aquele herói valentão, másculo, que precisa provar que é foda o tempo todo, enquanto todos ao seu redor o acham foda o tempo todo. Confesso que não tenho muito saco para tanta bajulação. Divertido sim, empolgante e lindamente produzido. Mas para um filme que tem tanto fascínio pelo voo, era natural esperar um texto com mais frescor, que respirasse liberdade e não se contentasse em ser somente a peça de um museu e aquele item perfeitamente lapidado para preencher – calculadamente – o que as almas nostálgicas precisavam. Não sei se essa leva de sequências/reboots/remakes são reflexos da crise dos roteiristas ou apenas medo dos grandes estúdios de se arriscarem. Mas ver essa aclamação em cima de Top Gun em 2022 me assusta um tanto sobre os novos caminhos que o cinema tem a seguir.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 131 minutos
Disponível: Cinemas
Diretor: Joseph Kosinski
Roteiro: Ehren Kruger, Eric Warren Singer, Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Miles Teller, Glen Powell, Jennifer Connelly, Val Kilmer, Jon Hamm, Lewis Pullman