Crítica | Armageddon Time

Pelo olhar de quem não viveu

Tem chegado uma safra de filmes de diretores consagrados revelando, em tom autobiográfico, o período da infância. Em pouco tempo já tivemos Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza), Kenneth Branagh (Belfast) e, logo em breve, Steven Spielberg (Os Fabelmans). Com “Armageddon Time”, James Gray fala sobre amadurecimento, relações familiares e como ser uma criança judia na Nova York dos anos 80. O filme, porém, é tudo o que eu não esperava dele. E minha frustração diante da obra não é somente por quebrar minhas expectativas (essa culpa eu carrego comigo), mas por encontrar aqui um cineasta tão incrível como ele reunindo em uma obra, aparentemente tão íntima, inúmeros equívocos.

James Gray aborda o sonho americano em um período eleitoral. Uma época de incertezas, onde o medo reina nas ruas e aflige aqueles que têm crença no “fim dos tempos”. É neste cenário frio e cinzento que uma família – que tem raízes de imigrantes judeus que sobreviveram ao holocausto – busca se estabelecer, apesar das dificuldades. O protagonista é o pequeno Paul (Banks Repeta), que vai mal nos estudos e sonha em ser um artista. Quando se aproxima de Johnny, o único menino preto da escola, ele passa a refletir sobre desigualdades e a hipocrisia dos tantos discursos que ouve sobre o futuro.

“Armageddon Time” sofre de uma séria crise de identidade. Por muitos momentos eu realmente não conseguia entender qual era a intenção das cenas. Durante os encontros de família, que por vezes me parecia uma relação bem tóxica, a direção sempre sugeria algo agradável e leve, mesmo quando o filho apanhava violentamente. Ou em uma das sequências finais, quando o pai faz um discurso no carro, extremamente preconceituoso e cruel, mas logo vem uma trilha emocional ao fundo como se aquilo significasse algo tocante e de grande importância. James Gray me soa muito ingênuo diante de sua própria criação, nunca encontrando o tom ideal e nunca compreendendo o real peso das situações. Tudo isso piora quando ele usa da própria infância para debater algo que nunca viveu, o racismo.

É imensamente equivocado seus discursos raciais e me choca ver essa visão romantizada que o diretor faz. Ele coloca de escanteio o único personagem preto da história, que tem como única função favorecer o crescimento do protagonista. É ele, inclusive, que vai ensinar Paul a fumar e a roubar. Em uma vibe desconfortavelmente semelhante à “Green Book”, vemos aqui o racismo pelo olhar do branco e como a dor e sofrimento do outro ajudou a moldar sua personalidade altruísta.

O que salva “Armageddon Time”, definitivamente, é seu elenco. Anne Hathaway e Anthony Hopkins estão ótimos, mas é nas costas do pequeno Banks Repeta que o filme se escora. Ele é a alma, o brilho e o que nos segura até o fim. A produção tem lá seu charme, assim como em toda filmografia de Gray, mas este é, infelizmente, um de seus piores trabalhos. Longo, entediante e com discussões rasas e equivocadas sobre desigualdade.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Duração: 114 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: James Gray
Roteiro: James Gray
Elenco: Banks Repeta, Anthony Hopkins, Jeremy Strong, Anne Hathaway

Crítica | Pleasure

Lucro e prazer

Enquanto assistia a “Pleasure”, me vi pensando em como é raro o cinema trazer como tema a indústria pornográfica de forma tão realista e sem ser alvo de julgamento ou piada. Inspirado no curta-metragem de mesmo nome da cineasta Ninja Thyberg, ela volta a explorar os bastidores, do qual pesquisou por anos, para construir sua trama. Confesso que a produção me surpreendeu bastante, não só pela ousadia das cenas, mas por seu roteiro que flui tão bem durante seus minutos. Me encontrei imerso em seu universo e na honestidade crua com que tudo é revelado.

A jovem Bella Cherry (Sofia Kappel) sai da Suécia e aterrissa em Los Angeles, onde pretende se tornar a maior estrela da indústria pornô. Em “Pleasure”, vamos acompanhando os passos que ela precisa enfrentar para se tornar alguém nesse meio competitivo. Durante toda a sua trajetória, eu sentia algo como “isso realmente deve acontecer desse jeito”. O filme não romantiza suas ambições e nem julga suas atitudes questionáveis. O que a motiva a estar ali, inclusive, nunca é desvendado. E sinto que isso a deixa ainda mais crível, porque não acho que exista uma justificativa, de fato. Dinheiro e fama definitivamente estão em jogo, mas acima disso, é ela sendo livre para fazer suas próprias escolhas.

Ainda assim, a obra não esconde o grande fato de que a personagem é vítima de uma indústria dominada por homens, que naturaliza a submissão e a violência contra a mulher. Que lucra enquanto confunde assédio com prazer. Por muitas vezes, Bella é bem recebida pelos profissionais, o que torna tudo ainda mais assustador. Porque ela se sente em casa justamente onde é diminuída, onde é silenciada. Nesse sentido, o longa vai seguindo por um viés próximo de um terror, porque a vemos sendo devorada nos locais que sugerem proteção. Em uma das cenas mais poderosas e angustiantes do filme, a jovem se manifesta ao entender o quão vulnerável é estar nesse ambiente, mas logo é forçada a entender que é simplesmente assim como as coisas funcionam. Que para ficar, precisa aceitar.

“Pleasure” é uma obra bastante controversa e pode chocar grande parte do público. Há muita coragem nesta exposição que faz e muito cuidado também. A atriz sueca Sofia Kappel está ótima no papel e torna a experiência ainda mais interessante. É muito sensível e doce os respiros que a trama encontra para revelar as relações pessoais de Línnea, o nome verdadeiro da personagem. É gostoso ver aquelas conversas corriqueiras com suas novas amigas, ao mesmo tempo em que entendemos que se tratam de duas pessoas completamente diferentes que habitam aquele corpo. Para se manter no estrelato, porém, Bella precisa reinar acima de Línnea. E quanto mais ela ganha fama e respeito na indústria – o que ela tanto almeja – mais ela precisa perder de si mesma.

NOTA: 8,5

País de origem: França, Holanda, Suécia
Ano: 2021
Titulo original: The Unbearable Weight of Massive Talent
Duração: 109 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Ninja Thyberg
Roteiro: Ninja Thyberg, Peter Modestij
Elenco: Sofia Kappel, Revika Anne Reustle

Crítica | Não Se Preocupe, Querida

Belo e superficial

Estranho pensar em como a mesma dupla responsável pelo excelente “Booksmart” chegou aqui. Saindo de uma deliciosa e leve comédia, a diretora Olivia Wilde retoma sua parceria com a roteirista Katie Silberman para alcançarem o almejado mundo das premiações. É altamente pretensiosa essa pataquada criada pelas duas, que peca justamente por acreditar piamente ser um experimento artístico que nitidamente não é.

“Não se Preocupe, Querida” ficou marcado por suas tantas polêmicas de bastidores. A sucessão de fofocas aguçou a curiosidade em torno da obra e deixou o público muito mais intrigado com o que aconteceu nas filmagens do que com o filme em si. Infelizmente, esse novo trabalho de Wilde é tão pobre que não consegue apagar essa ideia de que o que rolou por trás dele seja muito mais interessante mesmo. Temos aqui um apanhado de clichês, seja visual ou narrativo, tornando a produção completamente sem personalidade. Teria sido incrível, porém, se não se levasse tão a sério e abraçasse com ironia essa sua breguice.

Em uma vibe semelhante à “Mulheres Perfeitas” (2004), a trama também acontece em uma vizinhança que simula o subúrbio norte-americano dos anos 50. Uma comunidade que visa sempre a felicidade de seus comportados moradores. Nesse lugar, as esposas cuidam do lar enquanto aguardam seus maridos sedentos por sexo chegarem do trabalho. Alice, a protagonista vivida com garra por Florence Pugh, começa a suspeitar dessa realidade, confrontando as crenças de todos e buscando pelos segredos que ali habitam.

Uma estranha sensação de déjà-vu ronda toda a produção, não só porque desde o início já suspeitamos todos os passos da personagem como por todo esse lugar comum do qual a obra leva seus debates. É muito claro onde “Não se Preocupe, Querida” quer ir porque já vimos esse caminho muitas vezes. Suas críticas ao patriarcado e machismo são óbvias e chegam sem relevância quando o texto pouco vai além da superficialidade dessas questões. Ao fim, Olivia Wilde tenta cutucar os incels e essa legião de homens feridos, que acreditam que sexo é um direito deles e que precisam proteger as mulheres de terem desejos próprios. Existem resquícios de algumas boas ideias, mas infelizmente termina sem cavar toda a profundidade que esse terreno permitia.

Florence Pugh se esforça e merece destaque, mas essa narrativa de “mulher que surta quando descobre que esse lugar perfeito não é perfeito” é tão batido que chega a ser triste vê-la dando a alma para algo tão pequeno. É triste também vê-la contracenando com a porta que é o Harry Styles, que mesmo aos gritos, não consegue expressar nenhum sentimento.

A trama de “Não se Preocupe, Querida” não supera as polêmicas de seus bastidores. Para piorar, a direção pomposa de Wilde, que nada lembra sua ótima estreia na função, tem a certeza de que está entregando algo revolucionário, com momentos contemplativos e recortes de exposições de arte, quando na verdade só consegue entregar o que poderia ser um episódio fraco de Black Mirror.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Don’t Worry Darling
Duração: 123 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Olivia Wilde
Roteiro: Katie Silberman
Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan, Nick Kroll

Crítica | O Peso do Talento

Ideia boa, resultado nem tanto

A premissa de “O Peso do Talento” é, de fato, bastante intrigante. Colocar Nicolas Cage interpretando o próprio Nicolas Cage é de uma sacada um tanto quanto genial. Foram tantos projetos ruins que ele escolheu nos últimos anos, que ser ruim se tornou sua marca registrada. Com plena consciência sobre essa sua carreira questionável, ele encontra aqui o cenário ideal para rir de si mesmo. Temos, então, uma comédia que até diverte em alguns instantes, no entanto, deixa a sensação de que o roteiro sofre com o peso dessa genialidade, jamais alcançando o brilhantismo que poderia ter alcançado com tudo o que tinha em mãos.

Com dívidas a pagar e nenhuma perspectiva de encontrar um bom papel no cinema, o astro Nicolas Cage decide aceitar a bela oferta para participar do aniversário de um superfã em uma ilha luxuosa. Porém, as coisas acabam saindo de seu controle quando ele é recrutado pela CIA para desvendar um sequestro e outros perigos que rondam aquele local. O filme consegue tirar algumas boas piadas dessa inusitada situação, colocando o próprio Nicolas Cage a confrontar seus papéis do passado e a forjar uma atuação para descobrir os segredos de seu misterioso antagonista. A verdade é que, ao fim, o que há de melhor aqui é justamente essa troca entre o ator e Pedro Pascal. Ambos se divertem e, como consequência, se torna muito prazeroso vê-los em cena.

Entretanto, falta um roteiro mais cuidadoso e que soubesse brincar com a metalinguagem de forma mais ousada, não indo muito além dessa piada interna feita para os fãs do ator. É um texto que tem muita consciência sobre os rumos que toma, como quando assume que o plot de sequestro é só para engajar o público. Infelizmente, acaba abraçando demais isso, deixando a boa comédia de lado e focando nas perseguições, tiros, carros em alta velocidade e tudo aquilo que consagrou negativamente a carreira do astro. O último ato empobrece a obra imensamente, finalizando como uma produção genérica de ação. Tudo aquilo que “O Peso do Talento” não merecia ser lembrado. Poderia ser o grande momento do Nicolas Cage, mas é só mais um filme do Nicolas Cage.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: The Unbearable Weight of Massive Talent
Duração: 107 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican, Kevin Etten
Elenco: Nicolas Cage, Pedro Pascal, Sharon Horgan, Lily Mo Sheen, Tiffany Haddish, Ike Barinholtz

Crítica | Passagem

O retorno morno de Jennifer Lawrence

Temos aqui quase que um recomeço para Jennifer Lawrence. A atriz acabou saturando a própria imagem depois de estrelar superproduções e os Oscar bait do David O.Russell. Apesar de ter lançado “Não Olhe Para Cima” ano passado, essa pausa e um espaçamento maior entre seus trabalhos, tem feito um bem enorme e hoje seu retorno é extremamente bem-vindo. É muito bom poder vê-la protagonizando novamente histórias mais simples e intimistas, assim como no começo de sua carreira com filmes como “Inverno da Alma”. Infelizmente, porém, “Passagem” não tem muito a oferecer além das boas atuações.

Lawrence interpreta Lynsey, uma engenheira militar que é forçada a voltar para casa depois de sofrer uma lesão cerebral durante uma explosão no Afeganistão. Dirigido por Lila Neugebauer, é bem curioso como a obra trabalha em cima de uma situação já muito comum no cinema – essa narrativa do soldado que volta da Guerra – mas a inverte, colocando uma mulher ao centro. Apesar dessa interessante mudança, o roteiro pouco se esforça para entregar uma visão nova sobre o tema, seguindo, ainda, aquele antigo template de filmes indies com pessoas traumatizadas tentando se reerguer.

“Causeway”, título original, significa ponte e isso muito se relaciona com a trajetória de Lynsey. É ela precisando enfrentar essa passagem até o outro lado. Esse destino futuro em que ela possa encarar seus tantos traumas e recomeçar. Neste seu trajeto, a protagonista acaba esbarrando com o do mecânico James, também ferido por um evento do passado. Ambos acabam criando um vínculo inesperado e sendo o suporte um do outro. O grande brilho da obra vem justamente desse encontro e dessa interessante troca entre os dois personagens e, claro, da excelente performance de Brian Tyree Henry.

Confesso que eu tive uma certa dificuldade em criar empatia pela protagonista e, como consequência, não me conectei ao seu drama. Além de ser, no mínimo intrigante, o fato dela querer voltar para o lugar que lhe causou tantos danos, o roteiro nunca deixa claro essa relação que ela tem com o exército e sua família. Existem muitas lacunas aqui e o texto peca ao acreditar que ao esconder tantas informações do público, o tornaria mais instigante, denso ou até mesmo mais surpreendente, quando na verdade só o torna mais vazio.

“Passagem” é tão minimalista, mas tão minimalista que, ao fim, é difícil extrair alguma emoção dele. A cena da prisão, quando Lynsey conversa com o irmão, me fez entender o que me distanciou do filme, porque todo o sentimento se condensa ali. É uma sequência simples, assim como toda a produção, mas se difere quando apresenta humanidade e sensibilidade que tanto falta ao resto. Ótimo poder rever Jennifer Lawrence, mas muito aquém do que esse retorno merecia. Ficamos no aguardo do próximo.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Causeway
Duração: 92 minutos
Disponível: Apple TV+
Diretor: Lila Neugebauer
Roteiro: Ottessa Moshfegh, Luke Goebel, Elizabeth Sanders
Elenco: Jennifer Lawrence, Brian Tyree Henry, Linda Emond, Stephen Henderson

Crítica | X – A Marca da Morte

O terror slasher teve seu auge nos anos 80 e tem ganhado força, novamente, ao longo dos últimos anos. “X”, desde seu lançamento, tem chamado a atenção justamente porque marca o retorno definitivo do subgênero, entregando uma produção divertida e impactando sem muitos rodeios. O diretor Ti West reúne aqui elementos necessários, desde sua ótima ambientação à sanguinolência, que tornam a experiência bastante saborosa. No entanto, não posso deixar de sentir que houve uma comoção exagerada em torno do filme. É bom e entretém, mas nada tão revolucionário como querem que ele seja.

A introdução de “X” funciona bem, preciso ressaltar. A obra reúne um grupo de jovens atores e produtores em uma fazenda na zona rural do Texas, no final da década de 80, para realizarem um filme adulto. Claro, nem tudo sai bem como planejaram e logo somos apresentados a uma virada violenta. Confesso que gosto mais do primeiro ato, quando vamos conhecendo as motivações dos personagens e a estranheza daquele local. Quando o filme revela, de fato, suas intenções, vai perdendo o brilho. Suas sequências são impactantes e até empolgam, mas sinto que ele vai caindo no lugar comum e termina com uma sensação estranha de: OK, legal. Infelizmente, é tudo tão rápido em seu último ato, que parece que faltou alguma parte importante, soando incompleto. A final girl está ali, inclusive, mas ela pouco faz para sua sobrevivência. O que há no subtexto, porém, é rico e é nele que o filme encontra seu valor.

O cinema de terror, por muitas vezes, teve essa postura de condenação ao sexo, colocando suas vitimas, ativamente sexuais, sendo punidas por seus comportamentos pecaminosos. “X” soa como uma provocação a esse movimento, colocando, principalmente, suas personagens femininas desfrutando dessa libertação e muito seguras sobre como lidam com sexo e relacionamentos. Bobby-Lynne, em uma entrega surpreendente de Brittany Snow, é o arquétipo dessa jovem promíscua ao olhar dos outros, aquela que em outros tempos, seria a primeira vítima, aquela que precisaria ser castigada. A presença de Maxine (Mia Goth) também vem para agregar nesse discurso, sendo essa mulher decidida a romper os padrões de beleza, onde nitidamente, foi reprimida por suas escolhas e precisa se manter firme nessa posição que sempre tentaram diminuir.

“X” lida muito bem com esse paralelo entre libertação sexual e conservadorismo, muitas vezes, entregando de forma literal com suas telas divididas ao meio. A morte vem como reprovação, como necessidade de manter a sociedade limpa, longe da blasfêmia dos novos tempos. Esse conservadorismo é hipócrita e causa medo ao ter como fundamento discursos religiosos. Os assassinos aqui não usam máscaras e assustam quando caminham livremente sob a luz do dia. Ainda assim, me soa bem batido a ideia de reforçar essa imagem de idosos asquerosos, como criaturas nojentas, não dignas do sexo. Entendo a intenção, mas me decepcionou logo de cara, não só por revelar seus vilões rapidamente, como por eles serem essa personificação óbvia da repulsa e o filme nunca procurar uma saída contrária a isso. Aliás, sigo sem entender a necessidade do prequel “Pearl”, visto que nem é uma personagem tão interessante assim ao ponto de ter que contar seu passado.

Muito provável que os comentários emocionados sobre a produção tenham estragado um pouco minha experiência. Encontro aqui um produto divertido, estiloso e, apesar de revitalizar o terror slasher e trazer boas atuações de todo o elenco, falta um brilho a mais, algo que o distancie de ser apenas um compilado de ótimas referências. É bom, mas incompleto. Mesmo que seja o primeiro de uma trilogia, eu termino sem a menor vontade de consumir mais histórias dentro desse universo.

NOTA: 7,0

País de origem: Canadá, Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: X
Duração: 106 minutos
Disponível: –
Diretor: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Mia Goth, Kid Cudi, Jenna Ortega, Brittany Snow, Martin Henderson

Crítica | O Enfermeiro da Noite

Por uma outra perspectiva

À primeira vista, “O Enfermeiro da Noite” pode até soar como um suspense policial inofensivo, mas quanto mais eu penso sobre ele, mas eu compreendo sua grandeza. Em um momento em que narrar histórias de crimes reais se tornou tão comum, o filme dirigido por Tobias Lindholm vem com uma perspectiva bem mais intimista e real. Ele subverte esse conceito de fetichizar a violência e, muito distante do sensacionalismo habitual, constrói sua trama pelo olhar daquela que impede o crime e não por aquele que comete.

Baseado no livro de Charles Graeber, o filme faz um recorte interessante sobre Charles Cullen, interpretado por Eddie Redmayne, um dos serial killers com mais crimes nos EUA. Enfermeiro noturno, ele assassinou dezenas de pacientes nos hospitais em que trabalhava. A trama, no entanto, foca na enfermeira Amy (Jessica Chastain) e em sua relação com Cullen, que mais do que colegas de trabalho, se tornaram amigos e grandes confidentes. Porém, após uma onda de mortes durante seu turno, indo contra tudo o que acreditava, ela passa a suspeitar que ele esteja envolvido nesses crimes.

É muito cuidadoso todo o desenvolvimento do roteiro, que vai preparando sua atmosfera lentamente e sem alarde, costurando uma tensão psicológica fascinante entre os dois personagens. Cullen, aos poucos, vai se tornando extremamente assustador aos nossos olhos, porque ele é comum, porque ele está dentro da casa e cuidando das filhas de Amy. O medo aqui é extremamente palpável e nos coloca, o tempo todo, no lugar da protagonista e imaginando como é descobrir que o seu amigo, a pessoa em que você mais confia, na verdade é um assassino frio. Outro fator que torna essa história verídica ainda mais bizarra é perceber que ele é um criminoso livre, cuidando de pacientes e agindo como se nada tivesse acontecido. É perceber que os próprios hospitais se omitiam diante das tantas evidências. O longa, então, acerta ao denunciar não apenas essas instituições como marcas preocupadas com reputação, como também o descaso dentro da saúde pública.

Os letreiros finais são chocantes, porque nos lembram que casos como esse são possíveis e que assassinos podem estar aí, circulando, vivendo uma vida normal. “O Enfermeiro da Noite” termina e deixa aquele vazio diante de algo que não tem resposta, sem uma razão que justifique o que aconteceu. Me senti aflito com toda a situação e bastante admirado pelas ótimas atuações de Chastain e Redmayne. É muito convincente e poderosa essa troca entre os dois, o que torna os desdobramentos da trama ainda mais intrigantes. É curioso como aquele semblante bondoso e calmo do ator se torna uma máscara arrepiante, enquanto que Chastain, sem exageros, revela o medo, a dor e desespero de estar envolvida em tudo aquilo. Mais uma composição elegante e certeira da atriz. Muito provável que o filme decepcione quem procura produções de true crime, porque esse foge completamente da cartilha do subgênero. Ao meu ver, Tobias Lindholm merece respeito por quebrar tantas fórmulas e, sem altas pretensões, entrega um produto sóbrio, coeso e imensamente interessante de assistir.

NOTA: 8,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: The Good Nurse
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Tobias Lindholm
Roteiro: Krysty Wilson-Cairns
Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Nnamdi Asomugha, Kim Dickens, Noah Emmerich

Crítica | Noites Brutais

Sobre monstros e homens

Sempre fico com o pé atrás quando surgem termos exagerados e emocionados como “o melhor filme de terror do ano”. Para minha surpresa, porém, “Noites Brutais” é sim o melhor filme de terror do ano. É uma obra que me deixou em completo choque, não só por suas cenas fortes, mas também por toda sua ousadia e originalidade. Porque se recusa a ser só mais um, se transformando (e se reinventando) a cada minuto.

Sabe quando aquele filme é tão bom que dificilmente você desgruda os olhos? Pois bem, “Noites Brutais” sabe como fisgar a atenção, revelando uma trama que tem sempre uma carta na manga e está sempre a um passo à frente do público. Apesar dos exageros e da (divertida) forçação de barra, consegue fugir da previsibilidade através de seus personagens que, por vezes são bem estúpidos, mas também sabem ter boas soluções nas horas devidas. A prova de que a história não perde quando a mocinha é inteligente e corajosa, muito pelo contrário, o torna ainda mais empolgante, porque suas viradas são ainda mais saborosas.

Dividido em 3 partes, temos aqui quase que 3 filmes distintos e que, aos poucos, vão se encontrando. Essas quebras podem até causar uma estranheza, mas enriquecem sua estrutura como um todo. A trama inicia-se quando dois estranhos, em uma noite chuvosa, descobrem que alugaram a mesma casa no Airbnb. O diretor Zach Cregger já cria ali uma atmosfera de tensão fascinante, porque nunca sabemos exatamente a índole daquele hóspede misterioso ou até onde aquela desconfortável situação os levará. Aquela casa esconde outros segredos e logo somos apresentados a uma virada assustadora.

Nada é o que parece à primeira vista aqui. “Noites Brutais” brinca justamente com essas fórmulas que já desvendamos com outros exemplares do terror e as subvertem. O monstro não é o que existe de pior dentro daquela casa, assim como os homens – que estão sempre invadindo o espaço da protagonista – não são necessariamente o que seus discursos pregam. O longa, por fim, faz uma inteligente analogia à masculinidade tóxica e ao confortável mundo dos homens brancos, que atravessam limites e tem seus crimes silenciados. É brilhante esses questionamentos que o filme traz sobre quem são realmente os monstros e as vítimas dessa história e quem são aqueles que merecem a salvação ao fim da jornada.

Eletrizante, impactante e saborosíssimo! Gostei demais dos personagens, das boas saídas que a obra encontra e nessa habilidade do roteiro em renascer em todos os instantes em que ameaça cair no óbvio. A produção também é ótima, acertando nesse visual que cada um de seus capítulos possuem e no belíssimo e rico trabalho de maquiagem. Um novo passo para o jovem diretor Zach Cregger, que se torna um nome a prestarmos mais atenção. Sem ninguém esperar absolutamente nada, ele entrega não só o melhor terror, como um dos mais inventivos e divertidos filmes do ano.

NOTA: 9,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Barbarian
Duração: 102 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger
Elenco: Georgina Campbell, Justin Long, Bill Skarsgård

Crítica | Crimes do Futuro

O ensaio inacabado de Cronenberg

David Cronenberg sempre foi um sujeito curioso e seus filmes sempre me despertaram a atenção. Ele retorna à ficção científica, gênero que o consagrou lá nos anos 80 com filmes como “Scanners” e “A Mosca”. Apesar de trazer em sua narrativa um viés mais minimalista, ele volta a desenhar um universo intrigante. Em “Crimes do Futuro”, a espécie humana vai além de seu estado natural e o corpo passa a abrigar novos órgãos.

É o palco perfeito para o cineasta trabalhar o horror corporal, que sempre lidou com maestria, logo que em sua trama, um artista performático, vivido por Viggo Mortensen, decide expor em seus espetáculos a retirada de seus “órgãos-extras”. Aqui, o corpo e suas mutações são a matéria prima para causar espanto. De fato, é tudo bastante grotesco e causa desconforto, não apenas por essa estranha evolução humana, mas por toda a atmosfera que ele cria aqui. O futuro é descrente, vazio e todas as ambientações parecem como um museu. Assim como em “Crash”, aqui as pessoas buscam por novos estímulos e quando o corpo evolui para uma condição que não sente mais dor, o autoflagelo se torna um fetiche e a cirurgia, o novo sexo.

Ainda que seja extremamente fascinante essas criações de Cronenberg, que teve essa ideia há mais de uma década, “Crimes do Futuro” soa como um belíssimo esboço de um filme que ainda não chegou a acontecer. Todos os personagens secundários caminham por ali perdidos, como promessas de algo que nunca se concretiza. É frustrante ver esse universo, que é tão rico, resultando em absolutamente nada. Como se ele pincelasse ali suas intenções, mas não tivesse tido tempo de finalizar nenhuma delas. Infelizmente, toda a trama é bastante tediosa e além dessas transformações do corpo, visualmente impactantes pelo belo trabalho de maquiagem e efeitos visuais, não sobra muita coisa.

Nem mesmo as atuações me parecem inspiradas. Inclusive, fiquei extremamente desconfortável com a atuação da Kristen Stewart, mesmo que a câmera focada em suas expressões tivesse a certeza de que ela estava entregando algo bom ali.

“Crimes do Futuro” não chega a causar indiferença, tem lá seus bons momentos de impacto, mas eu só consegui desejar que ele acabasse. Tem um universo fascinante e que intriga, mas suas boas ideias são desperdiçadas com uma trama extremamente desinteressante de se ver, dentro de um filme inacabado.

NOTA: 6,0

País de origem: Canadá, Grécia, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2022
Titulo original: Crimes of the Future
Duração: 107 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart, Scott Speedman, Don McKellar

Crítica | Athena

A tragédia do confronto

Um dos títulos originais mais interessantes da Netflix em 2022 e que, infelizmente, está passando despercebido. “Athena” é um espetáculo visual que teria sido lindo ter visto em uma tela grande. Dirigido pelo francês Romain Gavras – filho do diretor Costa-Gavras – o longa foi escrito em parceria com Ladj Ly, de “Os Miseráveis” (2019), e é nítido as relações entre os filmes. Ambos revelam este embate entre civis e policiais, mas aqui de uma forma ainda mais visceral e impactante.

Preciso já começar dizendo que a introdução de “Athena” é fodástica! A melhor sequência que tivemos nesse ano. É um plano sequência de tirar o fôlego, com movimentos de câmera que nos deixam extasiados. Já logo de cara, um trabalho formidável de Gavras. Ao longo de toda produção, também, ele rege uma orquestra que nos entrega uma experiência quase que sensorial e que fascina. É um conjunto de elementos ali, desde a montagem, a fotografia e a trilha sonora, que vai construindo este cenário épico e glorioso. Infelizmente, porém, quando entrega o ápice nos primeiros minutos, acaba por deixar uma leve sensação de frustração, porque nada do que vem depois está à altura daquele seu início magistral.

Nos arredores de Paris, a morte de um jovem garoto por um guarda acaba sendo o estopim desta relação entre policiais e os moradores do conjunto habitacional Athena, provocando um embate violento entre os grupos. O longa, então, foca nos três irmãos da vítima e como eles seguem nessa batalha. Cada um defendendo seu interesse, onde nem sempre estão do mesmo lado. Entre os conflitos sociais e fraternos, o texto vai desenhando ali sua própria tragédia grega, com mortes, reviravoltas e muito excesso. É bem interessante, inclusive, a virada no meio do filme, onde há uma troca de protagonistas, nos permitindo seguir na história com outro olhar.

Vindo de uma carreira de clipes musicais, Romain Gavras se mostra muito mais rigoroso nesse espetáculo visual e nessa sua afinidade com a estética do que no roteiro. É uma experiência fantástica sim, mas no fim, sinto que é um filme que não diz muito ou já disse o que já foi dito antes. Todas as discussões políticas e sociais são engolidas por seu fervor, por sua necessidade de impacto, o deixando bem menos profundo do que pretende ser. Ele caminha por aqueles espaços colado em seus protagonistas, mas falta aquela habilidade de imersão, que no meio de gritos, violência e explosões, ainda nos mantém distantes. Ele dita o olhar, mas nem sempre essa intensidade que vemos na tela, pulsa dentro da gente. Ainda assim, uma obra urgente, empolgante e incrivelmente bem produzida. Uma experiência sem igual ali no catálogo da Netflix e que definitivamente merece uma chance.

NOTA: 7,5

País de origem: França
Ano: 2022
Duração: 99 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Romain Gavras
Roteiro: Elias Belkeddar, Ladj Ly, Romain Gavras
Elenco: Sami Slimane, Dali Benssalah, Anthony Bajon