Crítica | Não! Não Olhe!

As aleatoriedades trágicas da vida

Jordan Peele segue sendo um dos raros cineastas atuais a movimentar uma multidão para uma ideia original. Sim, ele tem uma mente brilhante e facilmente nos faz ter interesse sobre suas novas criações. “Nope” é mais uma prova de que “Corra!” não foi um acidente de percurso e o cara sabe exatamente onde está indo. É um trabalho maduro, de um diretor ainda em seu auge e nos oferecendo uma experiência sem igual. Aquele tipo de filme que, além de nos causar fascínio diante de seus misteriosos símbolos, também nos empolga nesse cinema eletrizante, bom demais de ver em uma tela grande.

Mesmo que o diretor, claramente, tenha fortes inspirações em Spielberg, ele sabe como conduzir suas referências para algo definitivamente novo e único. Seja quando constrói incrivelmente a tensão, seja quando abraça a aventura pura. A forma como Peele vai nos introduzindo a seu universo – tão mágico e peculiar – é fascinante. Ele sabe como plantar aquela semente de que algo estranho está interrompendo a normalidade e nos mantém atentos a qualquer movimento em falso, curiosos sobre onde pretende chegar. Dessa vez, o palco para o terror está nas alturas e é no céu que o medo habita.

Não existe palavra que defina um milagre ruim. Mas eles existem e é esse o fio condutor de “Nope”. É através de uma aleatoriedade absurda que dois irmãos perdem o pai, morto por uma chuva de objetos. Emerald (Keke Palmer) e OJ (Daniel Kaluuya) precisam continuar cuidando do rancho herdado, treinando cavalos no interior da Califórnia. Quando pessoas passam a desaparecer e uma série de acontecimentos estranhos passam a rondar o local, eles decidem gravar algo que prove a ameaça que acreditam estar vindo do céu e essa provável invasão alienígena. É eles indo atrás de fazer parte da história, aquela do qual seus ancestrais foram apagados.

Não muito longe dos protagonistas, está Jupe (Steven Yeun), um ex-astro mirim que teve sua vida artística marcada por uma tragédia. Existe uma conexão entre esses personagens que, de certa forma, vivem suas vidas pacatas após terem sido descartados. Todos eles alimentaram a indústria do entretenimento, mas como tudo dentro da mídia faminta, perderam o valor logo o show principal. “Eu jogarei imundície sobre você, e a tratarei com desprezo; farei de você um espetáculo.” Jordan Peele desenha, através de seus simbolismos, essa espetacularização da dor e a midiatização do sofrimento. “Aqueles de fora” são os observadores, aqueles que se alimentam de uma tragédia, sugando o que é possível e descartando o que resta. Não é à toa que a principal arma aqui é a câmera e tudo aquilo que registra.

“Nope” permite muitas leituras e, como dentro de qualquer obra de arte, todas elas são possíveis. Nada precisa ter um significado exato, mas é fato que o filme vai deixando lacunas que deixam nosso cérebro fritando. E ao meu ver, isso só o enriquece, porque ele não acaba quando termina e se mantém vivo mesmo após os créditos finais. E não é apenas por essas possíveis interpretações que o novo trabalho de Peele funciona. Funciona, principalmente, porque é muito bem feito, porque encanta e diverte um bocado. O roteiro é ótimo e encontra, diferente de outros textos do cineasta, equilíbrio entre comédia e tensão. É brilhante como o filme não perde a força mesmo quando aquilo que é mistério ganha rosto. Além disso, a relação entre os personagens torna a experiência ainda mais interessante. É belo quando temos esses dois irmãos que, diante de uma tragédia que não se pode olhar para cima, encontram no olhar do outro a força para se manterem firmes. Vale citar, o trabalho absurdo de som que é feito aqui e a belíssima trilha sonora assinada por Michael Abels. Tudo isso torna a obra um entretenimento formidável.

Nem tudo em “Nope” precisa fazer sentido e não entender algo não torna sua experiência menos fascinante, muito pelo contrário. Inclusive, aquele sapato flutuante me soa como uma baita provocação do cineasta. Que não só vem pra dizer que nem todos os elementos precisam ter uma resposta como para somar nesse seu discurso de que a vida é feita dessas aleatoriedades absurdas. Milagres ruins acontecem e por mais que queiramos uma justificativa, nem tudo tem uma razão para ser. Aconteceu porque aconteceu. Simples assim. Como uma moeda que atravessa uma cabeça, um macaco que tem um dia de fúria ou um sapato que recusa a gravidade.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2022
Título original: Nope
Duração: 130 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Keke Palmer, Daniel Kaluuya, Brandon Perea, Steven Yeun

Crítica | Louca Obsessão

Fanatismo doentio

O cinema sempre teve apreço pelas obras de Stephen King e “Louca Obsessão” entra para o seleto grupo das melhores adaptações já feitas. É aquele thriller que funciona, que nos mantém atentos a cada instante. Me encontrei rindo de nervoso, tenso ao me colocar no papel do protagonista e na situação improvável em que ele se mete. Aqui, um famoso escritor, Paul Sheldon (interpretado por James Caan), após sofrer um acidente de carro, é socorrido por Annie, uma ex-enfermeira que se diz ser sua fã número um. Ela, que cuida da saúde do escritor em uma casa isolada, passa a ter estranhas atitudes quando descobre que sua personagem favorita irá morrer em seu próximo livro, o torturando para que ele reverta essa história.

É curioso como a trama de “Louca Obsessão” parece fazer ainda mais sentido atualmente, mais de 30 anos de seu lançamento. Hoje, grupos se manifestam com ódio nas redes sociais quando seus personagens e histórias favoritas não são desenvolvidas como gostariam. É então que os grandes estúdios sempre acabam caindo naquele fan service, para que a audiência – fiscal de adaptações – não saia decepcionada. Claro, Annie é uma versão distorcida e exagerada desse público rigoroso, mas deixa explícito o quanto esse fanatismo pode ser doentio.

Kathy Bates, que venceu o Oscar por sua interpretação, está fantástica. É uma personagem complexa, intrigante e que ela domina com maestria. Caan também está ótimo aqui. Esse embate entre os dois chega a ser eletrizante, porque sempre esperamos pelo pior e nunca sabemos o quão bizarro tudo ainda pode se tornar.

Lá pelos anos 80 e 90, o diretor Rob Reiner tinha a mão boa e deixou registrado alguns clássicos do cinema. Ele também é responsável por filmes como “Conta Comigo”, “Harry e Sally” e “A Princesa Prometida”. Aqui, ele construiu uma outra obra atemporal, tão bem conduzida e insanamente divertida. Reiner, que sempre entendeu bem dos comfort movies, entregou um terror de altíssima qualidade. Seja pela excelente montagem, pela trilha e, principalmente, pelas grandes atuações…não há como desgrudar os olhos e não vibrar até o fim.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 1990
Título original: Misery
Duração: 107minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Rob Reiner
Roteiro: William Goldman
Elenco: Kathy Bates, James Caan, Lauren Bacall

Crítica | Zola

Quando a tela do twitter ganha vida

Sucesso no último Independent Spirit Award, “Zola” tem como base uma thread de Twitter. Sim, isso mesmo. A história nada mais é que um relato de um rolê muito errado e que em 2015 foi minuciosamente narrado em cerca de 150 tuítes pelo perfil de @_Zolarmoon. A cineasta Janicza Bravo, que também assina o roteiro, entrega uma encenação inventiva sobre o caso, que envolve perseguições, muito sexo e pessoas estranhas.

O texto é bastante original ao colocar suas protagonistas narrando a história dentro da própria cena. Mais do que uma ousada quebra da quarta parede, essa saída rapidamente nos remete a uma pessoa interrompendo sua realidade para postar sobre. É, de fato, como se o Twitter ganhasse vida ali. Genial, então, quando tudo parece tão fake e exagerado, ganhando, ainda, distintas versões de seus locutores, onde cada um narra da forma que melhor lhe convém. Janicza acerta nesse visual pop, granulado, cheio de cores e filtros. Desenha uma atmosfera muito nova e que dialoga muito bem com suas intenções. Até mesmo os divertidos efeitos sonoros agregam na experiência.

A loucura inicia-se quando Zola (Taylour Paige) conhece Stefani (Riley Keough) em um restaurante onde trabalha como garçonete. Uma rápida amizade nasce entre as duas e logo Zola é convidada para ir até a Flórida ganhar dinheiro fácil dançando em uma boate de strip. O problema é que no caminho ela se vê presa em uma armação que envolve prostituição e um cafetão ganancioso. Apesar da trama causar bastante curiosidade, o filme termina com a sensação de que deve ter sido muito insano viver aqueles momentos, mas o público acaba não tendo acesso a esses sentimentos. É tudo muito bizarro e alucinante, mas acontece sem nos colocar para dentro.

“Zola” é exatamente como a timeline de rede social. Diverte assistir de fora, mas acompanhamos com distância, sem nunca fazer parte. Falta aquela condução que nos coloque para dentro da ação. Também sinto que pouco se aprofunda nas personagens, onde Zola e Stefani, ao fim, não passam de duas incógnitas. Ao menos, Taylour Paige e Riley Keough estão fantásticas em cena e enchem a tela de carisma. Uma obra provocativa, insana e muito fora do comum.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Duração: 90 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Janicza Bravo
Roteiro: Jeremy O. Harris, Janicza Bravo
Elenco: Taylour Paige, Riley Keough, Nicholas Braun, Colman Domingo

Crítica | Lightyear

O voo baixo de um estúdio que sempre foi além

Buzz Lightyear sempre foi um dos personagens mais icônicos da Pixar. O boneco, que apareceu lá em Toy Story (1995), retorna nesse spin off que tem como intuito, bem divertido por sinal, nos revelar o filme favorito de Andy, aquele que tornou o brinquedo tão famoso dentro desse universo fictício. Apesar do bom propósito, pouca coisa funciona aqui. Falha não só porque é difícil imaginar como esse blockbuster teria sido adorado por crianças nos anos 90, como por nunca entregar algo que justificasse sua criação.

A própria Pixar nos acostumou mal, essa é bem a verdade. Depois de entregar tantas produções incríveis ao longo desses anos, automaticamente a colocamos como nosso mais alto padrão de qualidade. Agora, como subsidiária da Disney, quando eles não alcançam esse alto patamar do qual sempre esperamos, vem a frustração. Apático e sem alma, “Lightyear” segue em uma zona de conforto estranhamente atípica do estúdio e entrega algo muito abaixo de tudo o que já fora criado por eles. O filme, infelizmente, nunca abraça esse lado mais fantasioso e criativo da ficção científica como, inclusive, fez tão bem em “Wall-e”. Apesar de trabalhar com elementos comuns do gênero, e do qual rapidamente nos identificamos, como viagem no tempo e novas tecnologias, aqui tudo é mais pautado no real, entregando uma trama pouco inventiva e distante daquela inteligência narrativa do qual sempre tiveram tanto cuidado. Logo, a obra mais se aproxima de um blockbuster atual genérico do que dos bons tempos da Pixar.

“Lightyear” tem, ainda, uma infeliz semelhança com “Up – Altas Aventuras”. Assim como no filme de 2009, este entrega uma introdução tão eficaz e emotiva que torna tudo o que vem depois menos interessante. Em seus instantes iniciais, o longa acerta ao construir a relação entre Buzz e Alisha, sua comandante, que acaba sendo a base de toda a trama. Aqui, o patrulheiro espacial precisa levar sua tripulação de volta para casa, logo que devido a um erro seu, todos ficaram presos em um planeta hostil. No entanto, em sua procura por combustível, entre o tempo e espaço, o protagonista vê sua vida avançar de forma diferente das dos demais. Buzz acaba carregando um fardo grande em si mesmo, indo a todo custo salvar os danos que tanto acredita que cometeu. Isso torna o personagem interessante e permite que o roteiro explore temas até bem maduros como obsessão e egocentrismo. Ainda assim, apesar de despertar atenção por uma breve reviravolta ao final, nada empolga muito. Depois da bela introdução, o filme entra em um eterno marasmo. Inclusive, os coadjuvantes que poderiam trazer algum brilho para a aventura são fracos e estão ali apenas para entregar algumas piadinhas bobas. Sobra apenas o gatinho Sox. Este sim, a melhor coisa aqui.

Claro, tecnicamente, a animação alcança um nível de perfeição assustador. É um trabalho admirável e que encanta pelo cuidado nos detalhes. Entretanto, não me recordo de ter visto uma trama tão sem graça em uma animação da Pixar. Nada empolga, diverte ou nos faz criar alguma conexão com essa fraca jornada solo de Buzz. Pouco inventivo, temos um roteiro com muito mais medo de arriscar do que ir ao infinito e além. O texto pouco entende o que é isso e, indo na direção contrária do lema do protagonista, se mantém com os pés no chão o tempo todo.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 105 minutos
Disponível: Disney+
Diretor: Angus MacLane
Roteiro: Jason Headley, Angus MacLane
Elenco: Chris Evans, Keke Palmer

Crítica | Casa Gucci

Preciso começar dizendo que “Casa Gucci” é uma pataquada divertida. Peca pelos excessos, mas não é aquele entretenimento que nos faz ter a sensação de tempo perdido. Achei tudo muito curioso, bizarro e me vi querendo saber até onde tudo aquilo poderia chegar. Claro, é um produto muito aquém de todos os envolvidos e a sensação de frustração vem justamente por nunca alcançar o grande potencial que tinha. O filme investiga, de forma pobre, a ascensão do império da família Gucci e como ele foi interrompido de forma trágica.

Gucci é uma grife italiana e uma das mais importantes do mundo da moda. Sua história, por trás dos holofotes, é recheada de ganância, intrigas familiares e um assassinato. Temos um material riquíssimo aqui, mas que nunca resulta em um grande filme. A trama nos apresenta esse universo com a entrada da socialite Patrizia Reggiani (Lady Gaga), ao se casar com o herdeiro Maurizio Gucci (Adam Driver). As interferências dela na condução da marca, acabam por abalar os negócios e as relações desse clã.

Apesar da belíssima produção, que choca pelo incrível trabalho de maquiagem e figurinos, “Casa Gucci” falha em seu roteiro. Tudo muito picotado e atropelado mesmo com uma longa duração. Até conseguimos ver uma evolução sendo contada ali, mas nunca deixa claro seus desenvolvimentos. Em uma cena, por exemplo, Patrizia é só uma mulher apaixonada, na outra ela é a gananciosa. O texto nunca se aprofunda, de fato, nos acontecimentos, deixando uma sensação de ter exibido apenas a superfície do iceberg, existindo uma história inteira não contada dentro do filme. É um roteiro que parece não ter passado por uma revisão, que tinha tudo ali nas mãos, mas não soube explorar nada com muito cuidado.

O elenco grandioso é apagado por esse texto atrapalhado, sobrando apenas os sotaques italianos exagerados e a caricatura. Lady Gaga, por sua vez, acaba sendo o grande destaque. Quando sai de cena, o filme rapidamente enfraquece (ainda mais). É ela quem mais acerta o tom e mais tem consciência sobre o que faz ali. Em contrapartida, Jared Leto entrega um dos papéis mais esquisitos que vi em um longa neste ano. É tanto equívoco que não sei bem por onde começar. Mas não é só culpa de sua atuação, é de direção também, por nunca entender a função daquele personagem na trama. Ele é distante de todo o resto, cômico no nível paródia. Tão bizarro de assistir que eu me contorcia quando ele aparecia.

Talvez nunca tenhamos acesso a versão completa de Ridley Scott. Mas essa que vemos aqui é uma bagunça. Ao menos, entrega um entretenimento divertido, onde seu exagero e cafonice desperta atenção. E claro, uma Lady Gaga inspirada e é ela quem faz a sessão valer a pena.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021
Título original: House of Gucci
Duração: 157 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston, Roberto Bentivegna
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Camille Cottin, Jeremy Irons, Jack Huston

Crítica | O Predador: A Caçada

A presa e o Caçador

Um dos meus pecados cinéfilos foi nunca ter visto “O Predador”. Aquele clássico de 1987, protagonizado por Arnold Schwarzenegger. A verdade é que só com a chegada de “Prey”, que o original me despertou atenção. Uma mistura boa de ação, terror e ficção científica e que volta a funcionar aqui. A direção é de Dan Trachtenberg, que tinha a difícil missão de agradar uma legião de fãs que nunca puderam ver um bom retorno desse personagem icônico da cultura pop. Ele foi também responsável por outra continuação bem sucedida: Rua Cloverfield, 10.

A história antecede tudo o que conhecemos do Predador e nos leva para o Oeste Americano dos anos de 1700. É lá que nos deparamos com nossa brava protagonista, Naru. Ela vive em uma tribo Comanche e foi educada, assim como todas as mulheres, para ser uma cuidadora. “Prey”, então, se estabelece como um rito de passagem dessa jovem que precisa quebrar essa cultura enraizada e provar para todos que é capaz de ser uma caçadora.

Existe uma certa beleza nessa sinergia da narrativa. Ignorando a tradução do título, “Prey”, em português, significa “presa”. O encontro da protagonista com o Predador é bastante curioso. Ela quer ser a caçadora, mas ele não a vê por ser a presa. A fraqueza do qual ela sempre foi definida é justamente o que a torna tão perigosa no meio dessa cadeia alimentar selvagem. Porque ninguém a vê como ameaça. E ela é.

Toda a ambientação da obra é bastante original e nos fisga pela bela produção. No entanto, esse universo, que de imediato parece tão bom e novo, logo perde a força quando os personagens abrem a boca. O texto beira o lamentável, o que não só impede as atuações de funcionarem, como também impede nossa crença diante dessa realidade que tenta construir. Nada passa verdade.

“O Predador: A Caçada” também não sabe como explorar o Predador dentro da trama, que vem como um artigo de luxo e nunca como peça essencial. Ele é tão pequeno dentro da narrativa que se torna até menos interessante que os animais selvagens que aparecem, onde a perseguição do urso, inclusive, entrega muito mais tensão e medo que suas aparições. Perde também quando sua caça sangrenta depende mais de suas habilidades para manusear os apetrechos tecnológicos do que de sua força e fúria. O embate entre ele e Naru enfraquece ainda mais quando o roteiro aposta em conveniências excessivas. Ele sempre tem uma carta na manga e ela é sempre salva por uma coincidência tola.

“Prey” é bem menos interessante do que querem que ele seja, mas ainda assim é um entretenimento empolgante e bonito de se ver. Ao trazer o protagonismo feminino para a franquia, coloca em pauta discursos sempre válidos como empoderamento, ainda que o fraco texto nunca saiba como explorar isso de forma menos óbvia. Dan traz uma proposta bem diferente do que conhecemos do Predador, em uma jornada mais intimista e menos extravagante. Suas intenções são boas, mas perde demais com o roteiro mal acabado e por se levar muito mais a sério do que a trama exigia.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Prey
Duração: 99 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Dan Trachtenberg
Roteiro: Patrick Aison
Elenco: Amber Midthunder, Dakota Beavers

Crítica | O Acontecimento

Tudo o que a mulher carrega sozinha

Baseado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, “O Acontecimento” venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2021. Apesar dos eventos do filme acontecer nos anos 60, o que vemos aqui é uma retrato doloroso e, infelizmente, ainda muito atual sobre aborto. Em uma época em que o procedimento não era legalizado na França, uma jovem se vê diante de uma jornada solitária após uma gravidez indesejada.

Annie é uma garota com um futuro promissor, mas sua vida se transforma quando recebe a notícia de que está grávida. Sem coragem de se abrir para a família, ela é julgada e menosprezada pelas amigas quando decide não ter o filho, além de nunca conseguir uma orientação devida nos consultórios médicos, onde apenas homens conservadores a examinam. Annie é atacada de todas as formas possíveis em um tempo em que informações são escassas e não há lugar para pedir socorro. “Não há opção, tem que aceitar”. A frase dita por um especialista ecoa em nós como um soco. Dói vê-la desprotegida e sem rumo.

Dirigido por Audrey Diwan, a câmera não desgruda da protagonista e a acompanhamos extremamente de perto nesse caminho torturante. O formato quadrado limita nossa visão e traz uma sensação claustrofóbica ainda maior. É sufocante e soa como um verdadeiro thriller psicológico, onde a personagem precisa enfrentar dores físicas e emocionais constantes. O uso de estampas floridas e cores como o azul turquesa – presente em todas cenas – que imprimem um sentido de paz e divindade, contrastam com essa atmosfera aterrorizante do qual Annie enfrenta. É ela precisando manter uma postura e ser socialmente aceita, enquanto que por dentro, está completamente dilacerada.

“O Acontecimento” traz ainda uma grande atuação de Anamaria Vartolomei, que carrega em seus olhares toda essa dor silenciosa do qual Annie não pode expressar. É um peso grande demais que a protagonista carrega sozinha. Que as mulheres carregam. Não poder escolher pelo próprio corpo e não poder ter voz para decidir por si mesma é o verdadeiro crime. O filme entende o quão aterrorizante e solitário é estar nessa posição, encerrando-se com grande impacto e uma sensação estranha diante da calmaria da “vida que segue”. Nos faz pensar o quão atual ainda são seus discursos e quantas histórias parecidas como essa ainda existem ao nosso redor e nem nos damos conta.

NOTA: 9

País de origem: França
Ano: 2021
Título original: L’évènement
Duração: 100 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Audrey Diwan
Roteiro: Audrey Diwan, Marcia Romano
Elenco: Anamaria Vartolomei, Pio Marmaï, Sandrine Bonnaire, Louise Orry-Diquero

Crítica | Treze Vidas: O Resgate

A visão ampla de um acontecimento

Em 2018, no norte da Tailândia, um jovem time de futebol e seu treinador ficaram presos em uma caverna depois de ser inundada pelas fortes chuvas locais. O evento chocou o mundo e pessoas de diversos países se mobilizaram para salvá-los. Ainda que muito recente, já tivemos outras versões do ocorrido como no documentário “Rescue” e no drama “Milagre na Caverna”. “Treze Vidas” é a visão de Ron Howard que, apesar de ser mestre nesse cinemão hollywoodiano, consegue fugir das armadilhas do gênero e se recusa, constantemente, a ser mais um filme sobre homens brancos salvadores.

A obra vem com tom bem realista, acertando nessa construção do tempo e nos fazendo acompanhar o passo a passo de uma calamidade como essa. Os trâmites, as burocracias e toda essa comoção que o evento acaba tendo, principalmente quando, em uma necessidade de extrema urgência, as autoridades locais passam a aceitar ajuda de mergulhadores profissionais de outros países na operação do resgate. É então que conhecemos nossos protagonistas, aqui vividos por Viggo Mortensen, Colin Firth e Joel Edgerton. Mas o filme acerta ao não colocá-los ao centro e entende que são tão importantes como qualquer outro voluntário. Ron Howard foge do sensacionalismo habitual e daquela antiga glorificação do herói. Ele amplifica o olhar e nos faz ter noção do ao redor. De todas as vidas envolvidas.

É impossível não se manter apreensivo ao assistir “Treze Vidas”. A câmera do diretor passeia pelos espaços apertados e nos traz uma sensação desesperadora de estar presente em cada instante. É claustrofóbico, imersivo e consegue, com maestria, criar essa atmosfera de urgência, de puro medo. Arriscaria dizer que é um dos melhores trabalhos de Howard dos últimos anos. Não apenas por saber construir a tensão necessária, mas também por trazer uma visão honesta sobre o ocorrido, respeitando, ainda, a etnia dos envolvidos e revelando a cultura local de forma autêntica e cuidadosa.

O que emociona nessa história e o que a torna tão forte é assistir essa mobilização das pessoas, em um ato de extrema bondade, sem exigir nada em troca. É ver essa força que nasce na humanidade diante de uma crise. Ainda assim, “Treze Vidas” narra tudo isso de maneira sutil. O filme não está interessado em criar um clímax glorioso ao final. As vitórias vão ocorrendo aos poucos, assim como os percalços que enfrentam. Tal qual como acontece na vida.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Thirteen Lives
Duração: 149 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ron Howard
Roteiro: William Nicholson
Elenco: Colin Farrell, Viggo Mortensen, Joel Edgerton, Tom Bateman

Crítica | Eduardo e Mônica

A razão que existe no coração

Sabe aquela sensação boa de ver um filme e sair dele com o coração aquecido e uma sensação de ter vivido algo especial? Nem é a nossa história, mas ficamos apaixonados. Isso porque “Eduardo e Mônica” nos coloca ali dentro, vivendo os amores de outras pessoas, sofrendo junto, torcendo junto. A trajetória comum, de indivíduos comuns e que rapidamente nos identificamos.

Depois de “Faroeste Caboclo”, o diretor René Sampaio retorna para dar vida a outro clássico do Legião Urbana. Atemporal, a letra que contava os encontros e desencontros de Eduardo e Mônica há muito tempo merecia o cinema e finalmente isso aconteceu. Só não esperava, sinceramente, que pudesse dar tão certo. Isso porque na trama que, teoricamente, já conhecemos, não há clímax e nem um grande momento além do recorte ordinário de duas pessoas que se amam. Talvez esteja aí a beleza desse projeto. De fazer uma simples história de amor funcionar nos tempos dos desafetos. É sobre dividir a vida com alguém e abraçar e aceitar todo o caos que vem junto com essa decisão.

Alice Braga faz de Mônica uma mulher intrigante. Descolada, independente e alguém que não queremos desgrudar os olhos e conhecer mais a fundo. Gabriel Leone, bela revelação da TV, faz bonito no cinema e traz a Eduardo um charme genuíno, alguém que facilmente nos apaixonamos. Ver os dois esbanjando química em cena não é apenas muito gostoso de se ver, como também nos faz sentir uma certa dor ao decorrer do filme. São os opostos que se atraem, que estão sempre em uma direção diferente. Enquanto ela fala alemão, ele ainda está nas aulinhas de inglês. Ambos precisam ceder e achar o ponto no meio do caminho. O longa nos faz pensar justamente o quão fácil é desistir de uma relação, ressaltar o que não faz dar certo. Difícil mesmo é estar presente, entender esse desequilíbrio e persistir naquilo que, no fundo, traz um bocado de felicidade. Eles foram feitos um para o outro, mas eles mesmos não enxergam isso.

Da nostalgia dos anos 80 às referências afetivas que nos remetem à letra de Renato Russo, “Eduardo e Mônica” é uma viagem irresistível ao passado e à juventude. Tudo nele emociona porque é construído com muito sentimento e honestidade. Que delícia ver Eduardo cantando “Total Eclipse of The Heart” no karaokê ou Mônica usando de sua arte para expressar seu amor em uma exposição. São instantes delicados e ao mesmo tempo tão poderosos. A gente sai acreditando no amor e aceitando o fato de que, apesar dos percalços, existe sim razão para as coisas feitas pelo coração.

NOTA: 8,5

País de origem: Brasil
Ano: 2022
Duração: 114 minutos
Disponível: Globoplay
Diretor: René Sampaio
Roteiro: Michele Frantz, Matheus Souza, Jessica Candal, Claudia Souto
Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Victor Lamoglia, Otavio Augusto

Crítica | Influencer de Mentira

As motivações vazias da cultura digital

Quando as redes sociais passaram a dominar por completo a rotina de todos, emergiu, nesse tempo, indivíduos que geram influência sobre os demais. Rosto de marcas. Vozes que representam um pensamento. “Influencer de Mentira” causa identificação ao se aprofundar no universo digital, satirizando essa cultura nociva que se estabeleceu e provocando desconforto ao desenhar, com precisão, essa geração que se tornou refém de suas motivações vazias.

Logo de cara, descobrimos que nossa protagonista está sendo cancelada na internet e o filme se desenvolve para revelar os motivos dela ter se tornado a piada da nação. Danni Sanders (Zoey Deutch), em uma busca por ser notada pelos demais e chamar atenção de um macho, inventa uma viagem à Paris. Sua mentira acaba ganhando proporções inimagináveis quando acontece um ataque terrorista “durante sua viagem”. Enquanto forja ter presenciado o ocorrido, ela passa a ser reverenciada por todos aqueles que antes a ignoravam, além de criar o movimento #notokay, dando voz para todos aqueles que vivenciaram algum tipo de trauma.

“Influencer de Mentira” navega por temas extremamente delicados sem perder a força do humor. Caminha sem medo nessa linha tênue entre a provocação e o ofensivo, mas é corajoso o suficiente para se manter ali, cutucando sem utilizar-se de um discurso panfletário e sendo incisivo para causar desconforto. É curioso como o texto vai na contramão de um roteiro clássico. Ele não defende sua protagonista, não a protege e não força uma redenção. Justamente por isso, seu final deixa um vazio em nós. Não há lições aprendidas e, sinceramente, por mais que doa, acredito que a realidade seja assim também. Danni Sanders não tem voz no fim de sua história e, brilhantemente, o longa se encerra entregando, literalmente, o palco a quem tem o que dizer. (Inclusive, Mia Isaac…que revelação!)

Danni é detestável, fútil e, através dela, o roteiro consegue traçar um estudo instigante sobre essa necessidade que se construiu nos novos tempos de ser notado, de ser alguém seguido por razão alguma, simplesmente por ser. O texto é inteligente, onde seus absurdos são tão plausíveis que faz refletir o quão tóxico, muitas vezes, esse universo das mídias sociais pode ser. É possível traçar tantos paralelos com essa “realidade” virtual. Nesse universo onde nada é real e, ao mesmo tempo, tanto nos afeta. Gente de todo canto precisando dar uma opinião sobre alguma coisa importante, ou se apropriando de movimentos para caçar likes. Um atacando e diminuindo o outro, protegidos em suas fotos de perfis. O grande vilão do filme não tem rosto, porque ele pode ser qualquer um. Inclusive nós.

Não haveria atriz mais competente que Zoey Deutch para esse papel. Ela nos fisga, mesmo quando sua personagem só nos revela motivos para detestá-la. Cativante, ela trabalha bem no humor, provocando riso sem deixar de tornar Dani possível e estranhamente humana. Existe uma parte dela que busca por uma conexão, fazer parte de algo, mesmo que ela se afunde tentando alcançar essas necessidades que ela nunca soube como começou e nunca soube como lidar. A estranha identificação que o roteiro nos cria com a personagem vem justamente desse ponto. Estamos presos nesse abismo que as redes sociais construíram em nossa realidade, buscando por algo que nos preencha mesmo quando, por todos os dias, tudo o que elas nos deixam é ausência.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original:
Not Okay
Duração: 103 minutos
Disponível: Star+
Diretor:
Quinn Shephard
Roteiro:
Quinn Shephard
Elenco:
Zoey Deutch, Mia Isaac, Nadia Alexander, Dylan O’Brien