As 20 melhores cenas de 2020

Como todo ano que passa, gosto de relembrar e reunir tudo o que teve de bom durante os doze meses que se passaram. É assim que chego agora com o post de “Melhores Cenas” de 2020, revelando meus momentos favoritos que tive o prazer de ver no cinema.

Selecionei os 20 instantes que mais me marcaram, seja por um diálogo, uma atuação, seja pela direção primorosa que tiveram. Lembrando que os filmes selecionáveis eram apenas aqueles lançados no Brasil de janeiro a dezembro, seja na tela grande ou VOD.

Espero que gostem das escolhas e caso lembrarem de outra cena que vale destacar, deixem nos comentários.

[CONTÉM SPOILERS NOS TEXTOS]

20. Oceano
“Soul” | Direção: Pete Docter

Na reta final de “Soul”, o protagonista consegue conquistar todos os sonhos e se vê diante de um novo dilema: “É só isso? O que mais acontece”? A cena em questão é quando a líder da banda de jazz lhe diz uma bela passagem sobre como somos tão obcecados por nossos propósitos e sobre como vamos sempre querer algo além do que já temos. Somos insaciáveis.

19. Parque de diversão
“Aves de Rapina” | Direção: Cathy Yan

“Aves de Rapina” traz uma energia contagiante dos desenhos animados através de seu ritmo e visual. A batalha final é incrivelmente bem orquestrada, divertida, colorida e sintetiza bem este poder da obra em criar algo simples e eficaz. Nossas heroínas enfrentam os vilões em um parque temático e o resultado é deslumbrante.

18. Nobody Knows I’m Here
“Ninguém Sabe Que Estou Aqui” | Direção: Gaspar Antillo

Neste momento, o roteiro nos permite, finalmente, entender o conturbado passado de nosso protagonista recluso. Em um programa de TV e com as câmeras desligadas, ele abre seu coração através de sua música, a belíssima “Nobody Knows I’m Here“. Ele se expõe e se permite viver daquilo que ele tanto negou, mesmo que por pouquíssimos minutos.

17. Dançando na Chuva
“Babenco” | Direção: Bárbara Paz

No documentário sobre o fim da vida do diretor Héctor Babenco, o próprio desenhou o que seria a última cena perfeita para este registro. A diretora e sua esposa Bárbara Paz se entrega a um belíssimo e singelo número musical, nua e na chuva. É um momento libertador e poético.

16. O resumo de Olaf
“Frozen 2” | Direção: Jennifer Lee, Chris Buck

“Frozen 2” é, sem querer fazer trocadilhos infames, uma animação fria. Embora entregue uma sequência sem graça, ao menos fomos presenteados com o instante em que Olaf, rodeado por novos personagens, decide contar toda a trajetória de Anna e Elsa, fazendo um divertidíssimo resumo de tudo o que aconteceu no primeiro filme.

15. 4 de julho
“Mulher-Maravilha 1984” | Direção: Patty Jenkins

Patty Jenkins realiza em “Mulher Maravilha 1984” um filme de herói com inúmeras pausas e respiro. Em um desses instantes, Diana (Gal Gadot) e Steve (Chris Pine) sobrevoam Londres em uma noite iluminada pelos fogos de 4 de Julho. É bonito não apenas pelo visual mas, principalmente, porque Jenkins traz um pouco de si ali e sua singela homenagem a seu pai, que foi um combatente de guerra e aviador.

14. Coca-Cola
“A Voz Suprema do Blues” | Direção: George C.Wolfe

Ma Rainey era conhecida por seu comportamento difícil nas gravações de seus discos. Na pele da irreparável Viola Davis, é um momento icônico dentro do filme quando, cansada de cantar, surta ao descobrir que não há Coca-Cola no local, interrompendo o trabalho de todos para que pudessem comprar sua bebida favorita.

13. Filtro
“Host” | Direção: Rob Savage

Mesmo com baixo orçamento, o terror “Host” não nos poupou de belas sequências. Na cena em questão, uma das garotas caminha pela casa para averiguar os sons estranhos que ouve e aponta o celular para enxergar, no entanto, sem querer, ativa um filtro engraçadinho, que para o nosso desespero, reconhece uma face assustadora em sua sala.

12. O legado
“Queen & Slim” | Direção: Melina Matsoukas

Uma das cenas mais impactantes do ano. No maior clima Bonnie e Clyde, o casal protagonista (Daniel Kaluuya e Jodie Turner-Smith) chega ao fim da linha depois de uma longa fuga. Eles trocam belas palavras enquanto são cercados por policiais que, violentamente, atiram e os dois morrem ensanguentados no chão de uma pista de avião.

11. A dança da vida
“Estou Pensando em Acabar com Tudo” | Direção: Charlie Kaufman

A viagem de Charlie Kaufman alcança o ápice neste deslumbrante e inventivo instante, que mais parece um sonho dentro do filme. Antes de compreendermos a verdadeira identidade de nosso protagonista, ele assiste o show da sua própria vida através de um número musical.

10. Restaurante
“O Homem Invisível” | Direção: Leigh Whannell

Quando todos passam a duvidar de sua sanidade, Cecília (Elizabeth Moss) convida sua irmã para jantar em um restaurante. Buscando sua última chance de ser compreendida, ela é surpreendida por uma faca “voadora”, que mata sua irmã em sua frente. Obra de seu perseguidor invisível, que logo encaixa a faca em suas mãos, a fazendo parecer criminosa.

9. Rodovia
“Tenet” | Direção: Christopher Nolan

Difícil escolher o melhor momento de “Tenet”. Mesmo que eu não goste tanto do filme, as sequências de ação, comandadas por Christopher Nolan, são soberbas. Em uma de suas missões, o Protagonista (John David Washington) se vê preso em uma perseguição em plena rodovia. Um instante eletrizante.

8. Tour pela cidade
“A Vastidão da Noite” | Direção: Andrew Patterson

Belíssima produção de baixo orçamento, a ficção científica do estreante Andrew Patterson encanta pelo hipnotizante plano sequência, quando sua câmera caminha por toda a cidade onde a trama ocorre, passeando pelas ruas escuras, os bosques, entrando e saindo em uma escola onde acontece um jogo de esporte, até voltar ao seu ponto de origem. É lindo de ver.

7. Com que frequência?
“Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” | Direção: Eliza Hittman

Depois de viajar para Nova York ao lado de sua prima para realizar um aborto, a jovem Autumm (Sidney Flanigan) é submetida a uma série de perguntas bem pessoais antes de realizar o procedimento. Nesse momento conhecemos um pouco mais sobre este universo recluso de dor e assédio que a personagem havia enfrentado em sua vida. É uma sequência poderosa, dilacerante.

6. Confronto reverso
“Tenet” | Direção: Christopher Nolan

A produção de “Tenet” choca pela forma como exploraram visualmente este “universo reverso”. Na batalha final, soldados entram em combate em um terreno vasto e precisam lidar com a nova forma de tempo que ali é aplicada. Estruturas são reconstruídas e explosões são engolidas para dentro da terra. O resultado é empolgante de se assistir. A boa edição e trilha enaltecem as boas escolhas de Nolan.

5. Corrida contra o tempo
“1917” | Direção: Sam Mendes

Outro filme difícil de escolher um só momento é “1917”. Seleciono este que, para mim, é impecável e revela o poder da direção do veterano Sam Mendes. Em seu hipnotizante plano sequência, acompanhamos o soldado escapando da trincheira lotada em pleno combate para chegar a tempo de dar suas informações valiosas. Ele precisa desviar de explosões, tiros e soldados que correm pela sobrevivência. É chocante a qualidade desta cena, assustando pelo realismo que alcança.

4. Em chamas
“Retrato de Uma Jovem em Chamas” | Direção: Céline Sciamma

A cena que dá nome ao filme e ao quadro de uma bela história de amor. Quando Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant) visitam uma comunidade afastada de mulheres, elas cantam em volta de uma fogueira na escuridão da noite. Héloïse caminha perto do fogo e a pintora observa de longe o vestido de sua amada em chamas. Um instante simbólico e de uma beleza hipnotizante.

3. O som de dentro
“O Som do Silêncio” | Direção: Darius Marder

Existe uma beleza imensurável nesta cena que faltam palavras para descrever. É o momento final de uma jornada repleta de perdas, angústia e, principalmente, de recomeços, adaptação. É o fim e começo para Ruben (Riz Ahmed) que depois de realizar a cirurgia para recuperar sua audição, nota que os novos sons que assimila não são mais os mesmos. Ele finalmente se liberta de sua inquietação, senta, observa a cidade e o silêncio que a nova vida pode ter.

2. Cidade em ruínas
“1917” | Direção: Sam Mendes

Algumas vezes o cinema alcança seu estado mais primoroso. Aquele momento em que você assiste e tem a certeza de aquilo é arte e foi construído na mais perfeita condição. Seja pelo belo trabalho de Sam Mendes, Roger Deakins, Thomas Newman e toda a equipe de som. O instante em que o soldado caminha por uma cidade em ruínas é impecável. Fugindo dos sons que o assombram, avista ainda sinalizadores que explodem na noite. “1917” é uma aula de cinema e esta cena representa bem esta ideia.

1. A dança da liberdade
“Jojo Rabbit” | Direção: Taika Waititi

“Qual a primeira coisa que você fará quando for livre”? Pergunta Jojo (Roman Griffin Davis) à sua nova amiga judia Elsa (Thomasin Mckenzie) durante a ocupação nazista na Alemanha. Quando chega o fim da ditadura, ela caminha pela rua, finalmente, livre. Os dois amigos se olham e realizam aquele antigo desejo: dançar! Ao som de “Heroes” de David Bowie, temos aqui a melhor cena de 2020. Comovente, fofa e boa demais de se ver.

Crítica: Soul

O propósito da vida

Sem dúvidas, a melhor animação da Pixar desde “Divertida Mente”. É um momento muito especial para o estúdio, que entrega aqui o que há de melhor em suas criações.

O filme nos leva a uma jornada emocional quando seu protagonista se depara com o mundo das almas. Na tentativa desesperada de fugir da morte e realizar seu grande sonho como músico de jazz, se passa por instrutor no local, precisando encontrar um propósito de vida para 22, uma alma em treinamento desmotivada pela vida dos humanos.

Este encontro entre os dois personagens nos permite grandes reflexões. É interessante essa busca por um propósito, a vocação como item necessário para se ter uma vida. Somos naturalmente tão obcecados por isso. “Soul” é um lembrete sensível de que nossa existência vai além desta conquista, de que nossos sonhos é que nos impulsiona, mas não é o todo. O que nos faz querer estar vivos envolve tanta coisa, pequenos detalhes muitas vezes não perceptíveis na nossa correria de buscar um sentido. Somos aqueles que querem o oceano, quando a água já nos rodeia.

O filme é, ainda, visualmente belíssimo. Todas as cenas causam impacto, tamanha perfeição e deslumbre que alcança. É inventivo, original e o mais importante, feito de coração. Um estudo complexo e profundo sobre os desejos humanos, valendo uma revisita e podendo ter diversas interpretações. As crianças podem se divertir, mas recomendo fortemente aos adultos.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Disponível: Disney Plus
    Duração: 100 minutos
    Diretor: Pete Docter
    Roteiro: Pete Docter, Kemp Powers

Crítica: Belle Époque

A beleza dos inícios

“Belle Époque” é o filme que eu precisava e nem sabia. Comédia francesa leve e incrivelmente apaixonante, que marca o retorno de Nicolas Bedos como roteirista e diretor depois do excelente “Monsieur e Madame Adelman”.

A trama tem um toque mágico e facilmente nos leva para uma viagem encantadora e de boas reflexões. Somos apresentados a uma empresa que, através de riquíssimos cenários e uma reconstituição histórica, permite que seus clientes vivam a época específica que desejarem. É assim que conhecemos Victor, um senhor desiludido, que escolhe reviver o ano de 74, no dia exato em que conheceu o grande amor de sua vida. Este encontro do protagonista com o passado é emocionante, nostálgico e nos faz abraçar suas lembranças como se fossem nossas. Há algo de Show de Truman e essa reconstrução da vida, mas neste caso o personagem tem total consciência do que acontece e opta por viver aquele instante que o fez tão completo, tão feliz.

A produção é deslumbrante e causa fascínio ao transitar entre passado e presente, entre realidade e ficção. O roteiro é brilhante e acerta ao envolver tantos universos ao mesmo tempo.

“Belle Époque” é poesia aos saudosistas. Se o cinema é a arte que nos permite sonhar acordados, Nicolas Bedos nos presenteia, mais uma vez, com um universo mágico, tão belo quanto um sonho que não queremos despertar. E nesta reencenação do começo de uma história de amor – que no futuro perdeu-se o encanto – a obra nos faz pensar sobre como ficamos presos ao início quando se trata de uma relação. Os inícios são sempre os melhores e criamos a ilusão, presos em uma falsa expectativa, de que a perfeição daqueles instantes se prolongarão. Precisamos nos desprender disso, encontrar a beleza no hoje, com todas as suas falhas, caso contrário, ficaríamos trancados nas nossas lembranças, buscando no outro aquilo que um dia foi. A gente muda e a nossa forma de amar também.

NOTA: 9

  • País de origem: França
    Ano: 2019
    Título Original: La Belle Epoque
    Duração: 115 minutos
    Diretor: Nicolas Bedos
    Roteiro: Nicolas Bedos
    Elenco: Daniel Auteuil, Doria Tillier, Guillaume Canet, Fanny Ardant

Crítica: Tenet

o Espetáculo apático de nolan

O mais recente trabalho de Christopher Nolan veio com um peso gigantesco nas costas. Quase como aquele produto que salvaria os cinemas durante a pandemia. Foi um lançamento arriscado e claramente não alcançou os objetivos que pretendia, muito menos causou o impacto que almejava. “Tenet” é um filme difícil e este, definitivamente, não era seu momento.

Nolan é um dos diretores mais ambiciosos de nosso tempo. Seu cinema é grandioso, alcançando um patamar difícil de se manter. “Tenet” é um sinal nítido de seu desgaste, de que ele precisa recuar, se afastar um pouco de sua megalomania. Ele ainda entrega um produto original, novo e interessante, no entanto, falta emoção, aquilo que já em “Dunkirk” demonstrava ter perdido. Ter um bom conceito não é suficiente se você não consegue colocar seu público para dentro da ação. Ele nos priva da experiência, o que torna sua criação sem muitos propósitos.

Nenhum personagem é devidamente apresentado e dificilmente nos importamos com qualquer coisa que eles enfrentam. O protagonista é vazio, o que nos afasta ainda mais de sua missão. Ele é uma peça de um plano maior que nunca temos acesso, seguindo regras que nem mesmo ele compreende. Não tem vida própria e nunca é colocado a fazer escolhas ou a encarar um dilema. John David Washington nitidamente não entendeu o que fazia ali, entregando uma performance desconfortavelmente fraca. Sem carisma algum, sua jornada é guiada por diálogos expositivos e sem emoção. Assim como ele e tudo o que o cerca, não tem alma.

Nolan tem uma direção pomposa como sempre, entregando aqui algumas das cenas mais belas deste ano. Todo o conceito do “universo reverso” é visualmente muito bem explorado, chocando pelas saídas que encontra. O uso controlado de efeitos visuais e sua ousadia de apostar naquilo que é prático, tornam suas sequências de ação absurdamente incríveis. Apesar de ser inventivo, a intenção (e soberba) de Nolan de confundir seu público é maior do que a intenção de nos conectar ao que cria. Sua narrativa é ambiciosa, mas nada disso nos atinge quando o que desenvolve é tão confuso e tão apático. Você passa grande parte sem entender e quando entende, simplesmente não se importa.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 150 minutos
    Diretor: Christopher Nolan
    Roteiro: Christopher Nolan
    Elenco: John David Washington, Kenneth Branagh, Elizabeth Debicki, Robert Pattinson, Michael Caine, Aaron Taylor-Johnson

Mulher-Maravilha 1984

Depois de tantas datas de lançamento, “Mulher-Maravilha 1984” finalmente ganhou vida. Com um tom leve e descompromissado, é aquela aventura que o 2020 conturbado precisava. A diretora Patty Jenkins retorna com a ousadia de entregar um produto distante do que os fãs esperam e distante do que os filmes de heróis costumam oferecer.

Aqui, os vilões não querem acabar com a raça humana e nada se resolve com destruições e guerras colossais. O roteiro se importa com os indivíduos que compõem esta jornada e o tempo que cada desdobramento necessita. É um filme que tem pausa, tem respiro, tem alívio. São elementos que se perderam ao longo do tempo e que se diferem do que o gênero tem nos acostumado. Sua trama é ingênua, remetendo as produções da década de 80 mesmo, com toda sua leveza e simplicidade. Existe carisma nos personagens, nos fazendo vibrar até mesmo pelos oponentes. Isso funciona, claro, pelo ótimo elenco também. Kristen Wiig é a grande surpresa e eu facilmente veria um filme só com ela.

Desde a estética, os efeitos visuais, a trilha sonora. É um conjunto de acertos que fazem “WW84” valer a pena. Derrapa, assim como quase todos os filmes da DC, nos embates finais. Além das cenas escuras, luzes que ofuscam tudo, somos obrigados a presenciar um longo e vergonhoso discurso da protagonista. O filme se encerra como um comercial de Natal, bonito mas bem forçado. Traz boas mensagens, mas decepciona por não estar à altura do que havia apresentado até então.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título Original: Wonder Woman 1984
    Duração: 151 minutos
    Diretor: Patty Jenkins
    Roteiro: Patty Jenkins, David Callaham, Geoff Johns
    Elenco: Gal Gadot, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Chris Evans