A versão que melhor contamos

Poucos casos tiveram tanta repercussão no Brasil como o Richthofen. Foi em 2002 quando o país parou para ver a chocante história da jovem que matou os próprios pais, ao lado do namorado. Era de grande espera do público ver o acontecimento ganhando as telas e isso finalmente veio. De uns anos para cá, o “true crime” vem ganhando mais espaço na produção audiovisual brasileira e é assim que o longa dirigido por Maurício Eça dá um passo significativo nesse subgênero tão pouco explorado por aqui. Claro que vem recheado de falhas, mas ainda assim é ótimo ver o cinema nacional se arriscando em um projeto nada convencional. Aqui, separado em dois filmes, vemos mais do que apenas duas perspectivas sobre o mesmo crime, vemos duas histórias completamente diferentes que, ao se contradizerem, revelam o brilhantismo da produção.

É interessante como as histórias se completam e como, ao ser narrado por cada um dos réus, Suzane (Carla Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt), cada versão tem sua vítima. Com falas e situações retiradas dos depoimentos reais, a obra acerta nessa divisão, porque nos permite ver os dois lados do acontecimento.

Nunca é exatamente sobre o planejamento do crime, mas como ao contá-lo, naturalmente, ambos tentam endomonizar o outro, como forma de defesa. O grande acerto do texto é ter essa fluidez em cada um dos filmes, seja dessa memória falha, seja dessas contradições. Você acredita em cada uma dessas versões, você compra o que lhe é contado, porque ambos são espertos e narram da forma que melhor os beneficiam. Eles não estão apenas contando, estão se defendendo de nós, o público. A obra nos coloca na pele de um juiz, ouvindo atentamente, permitindo que o julgamento seja feito por nós. A sentença é dada, mas nos permite escolher em que lado acreditar.

Ainda que seja uma experiência nova no nosso cinema, o roteiro peca, muitas vezes, por jogar as cenas sem muito contexto, sempre dependente da outra versão. A trama não é desenvolvida de forma natural, sempre jogando os atos sem qualquer tipo de preparo. São puramente relatos filmados, sem o cuidado de se aprofundar nas situações e nos protagonistas. Acaba saindo tudo muito seco, sem a emoção necessária para nos jogar para dentro da ação. O filme não sabe criar tensão e aquela atmosfera de pavor. Inclusive, o próprio planejamento do assassinato tem pouco espaço aqui e surge às presas. Como consequência de tudo isso, entrega um final anticlimático, estranhamente linear. Que espanta sim e nos choca pelo caso real, mas não por mérito da produção.

O elenco, por sua vez, é esforçado. A real potência de Carla Diaz e Leonardo Bittencourt está em construir dois personagens completamente diferentes em cada versão e nos convencer dessa visão de cada um. Ainda assim, sinto que falta direção que dosasse melhor certos comportamentos que soam exagerados. Aliás, a mão de Maurício Eça em todo o projeto vem com pouca inspiração. Não sei se pela pressa em finalizar dois filmes ao mesmo tempo, mas faltou capricho e cuidado em muitas sequências. A fraca caracterização é um exemplo dessa ausência de refinamento. A peruca usada por Carla Diaz nas cenas do tribunal é vergonhosa.

Apesar das falhas, “A Menina Que Matou Os Pais” e “O Menino Que Matou Meus Pais” é uma experiência interessantíssima, que intriga e nos deixa refletindo sobre o que é real e o que não é. Nossa memória é falha e ela vem com julgamentos. Nada que contamos possui a verdade extrema, porque simplesmente não somos os mesmos na história que contamos e na que os outros contam sobre nós.

NOTA: 7,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 85 / 87 minutos
Diretor: Maurício Eça
Roteiro: Raphael Montes, Ilana Casoy
Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann

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