Crítica: Uma Noite em Miami

Um encontro fictício, dores reais

Estreia da atriz Regina King na direção de um longa-metragem, “Uma Noite em Miami” encena um encontro fictício entre quatro ícones afro-americanos: Muhammad Ali, Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown em uma noite de 1964, durante um período importante para o movimento civil no país. O argumento, bastante curioso, é baseado na peça teatral de Kemp Powers, que aqui também assina o roteiro.

A obra demora um pouco a engatar quando nos introduz aos quatro personagens centrais. Não é muito claro sobre onde pretende chegar. Quando as cartas já estão na mesa, porém, é que Powers revela o poder de seu jogo. É uma trama que se sustenta por diálogos e nas atuações de seu elenco. Das discussões acaloradas às conversas sobre a luta e resistência negra no país. Existe força nas palavras e na presença de cada personagem e tudo o que eles representam. Essa transição do teatro ao cinema é primorosa e não é toda produção que alcança esse mérito. Funciona não apenas pelo belíssimo texto, mas também pela elegante direção de Regina King. É um trabalho de estreia incrível, limpo, honesto e, mesmo sem altas pretensões, causa impacto.

E mesmo nesta simplicidade, a diretora consegue revelar instantes gloriosos, como a sequência do show a capella de Sam Cooke ou a canção que ele canta ao final encerrando essa jornada de forma precisa. Ela também extrai o melhor dos atores que, distantes da caricatura, entregam sentimento e honestidade em cena, destacando Leslie Odom Jr. e Kingsley Ben-Adir que renasce na pele de Malcolm X. Os figurinos, direção de arte e som também chamam a atenção na produção.

Malcolm X, que estava à frente do movimento negro da época, os recruta para o encontro por acreditar que os três poderiam ser as vozes da revolução, o futuro dessa luta. A dor de “Uma Noite em Miami” vem porque esse momento nunca aconteceu e porque Malcolm seria brutalmente assassinado um dia depois. A obra encena o que ele poderia ter dito, o que ele poderia ter tentado. Diferente do que ele imaginava, ele se tornou símbolo dessa batalha e nunca deixou de estar presente. Nesse encontro, quatro homens revelam suas próprias dores e receios, seus pensamentos sobre o futuro e desta sociedade que eles almejam viver. Livres e seguros.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: One Night in Miami
    Disponível: Prime Video
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Regina King
    Roteiro: Kemp Powers
    Elenco: Kingsley Ben-Adir, Leslie Odom Jr., Eli Goree, Aldis Hodge

Crítica: Minari

Florescendo em nova terra

O diretor Lee Isaac Chung trouxe à “Minari” muito de sua vida que, de origem coreana, precisou se mudar aos Estados Unidos na infância. É nítido o quão pessoal são os relatos narrados. É íntimo, honesto e escrito por alguém que tem muito carinho pela própria jornada. Na trama, o pai Jacob (Steven Yeun, indicado ao Oscar pelo papel), é um imigrante coreano que deseja alcançar o sonho americano. Na intenção de dar início a uma fazenda em solo fértil, ele traz toda a família, que precisa se adaptar ao novo país.

O grande ponto de ruptura acaba sendo com a chegada da avó, que vem para ajudar no cuidado com os dois filhos pequenos. A atriz Yuh-Jung Youn é fantástica e constrói uma personagem adorável em cena. Sua relação com o pequeno David é o ponto alto do filme. É divertido e gostoso de acompanhar, principalmente porque o ator Alan Kim é a coisa mais fofa do universo. Difícil esconder o sorriso quando os dois estão em cena.

Com um tom naturalista, Lee Isaac Chung constrói uma obra agradável e calorosa. Um recorte na vida de uma família que luta para se manter unida mesmo diante das dificuldades. Neste sentido, é interessante o uso da planta Minari, que nesta habilidade de germinar em qualquer solo, diz muito sobre os personagens e neste processo que enfrentam de adaptação, de ter que recomeçar em uma nova terra.

“Minari” é feito para encantar e tudo é muito articulado para isso. As paisagens, a trilha, tudo soa como uma jornada contemplativa. Temos aqui uma obra doce, mas que não assume muitos riscos. É tão sutil, mas tão sutil, que acaba sendo difícil criar algum envolvimento com aquilo que narra. É bonito e leve, mas não nos atinge. É aquela emoção que fica distante, confortável de acompanhar, mas que pouco se mantém na memória.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Minari
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Lee Isaac Chung
    Roteiro: Lee Isaac Chung
    Elenco: Alan Kim, Steven Yeun, Yuh-Jung Youn, Will Patton

Crítica: Amor e Monstros

A assustadora decisão de crescer

Me sinto bem tiozão falando frases como “não fazem mais filmes como antigamente”, mas quando se trata de boas aventuras é justamente isso que penso. Por isso é tão prazeroso encontrar “Amor e Monstros” em pleno 2021. Sua pureza chega a ser nostálgica, estampando um sorriso tonto em meu rosto durante seus minutos. Roteiro esperto, personagens carismáticos, belas mensagens e efeitos especiais incríveis que, diferentemente do que tem sido comum do cinema blockbuster, é usado de forma equilibrada, entregando um visual limpo e bastante inventivo.

Brian Duffield tem se especializado nessas histórias incomuns – e com um toque literalmente explosivo – sobre amadurecimento. Depois dos ótimos “A Babá” e “Espontânea”, ele escreve este belo roteiro sobre Joel (Dylan O’Brien, ótimo) que vive agora em um mundo pós-apocalíptico dominado por monstros e que decide traçar uma perigosa jornada para encontrar sua namorada que não vê há sete anos. Nesse caminho imprevisível, ele é obrigado a lutar pela sobrevivência mesmo não tendo habilidade alguma para isso. O texto é bem inteligente, divertido e ganha vida pela ótima direção de Michael Matthews, que acerta a mão ao entregar a tensão necessária para um filme violento de monstros e a sensibilidade de construir uma doce e madura comédia romântica. São duas linhas completamente opostas mas que funcionam perfeitamente aqui.

“Amor e Monstros” é uma espécie de coming of age da fase adulta. Essa jornada de auto descobertas geralmente é a base para ilustrar o amadurecimento de um adolescente. Aqui, nosso protagonista tem vinte e quatro anos e ele precisa enfrentar a vida de gente grande que ele tanto evita. Confesso que me identifiquei mais do que queria com essa sua aventura. De travar completamente diante de um desafio, de temer os tantos monstros que existem do lado de fora. Esse momento de acabar os estudos e ser cobrado por um bom plano de vida é assustador. Ter que decidir qual caminho seguir mesmo quando não fazemos ideia do que queremos para o futuro. Este lugar tão obscuro e incerto. A obra traz uma mensagem otimista sobre tudo isso, sobre encontrarmos coragem de enfrentar nós mesmos, a confiar em nossos próprios instintos e nos permitir errar para aprender a sobreviver. De arriscar ir para o lado de fora e procurar, enfim, nosso espaço.

(Spoiler) “Não aceite pouco, nem mesmo no fim do mundo”. É muito fácil se identificar, também, com essa história de amor narrada no filme. Apesar da fantasia, ela parece ilustrar muito bem o que muitos de nós enfrentamos em um relacionamento. Não apenas por falar sobre esse amor de migalhas que aceitamos pelo medo da solidão, mas por revelar essa distância que muitas vezes estamos da pessoa que amamos, onde acreditamos que estamos no mesmo passo, que a outra pessoa faria por nós o que faríamos por ela. Joel e Aimee se amam, mas isso não é suficiente, nem mesmo no fim dos tempos. E ninguém está errado nesse jogo, é apenas uma questão de que ambos tiveram experiências e vivências diferentes, logo, passaram a ter sentimentos e expectativas diferentes. Joel esperava de Aimee algo que ela não estava pronta para ceder. E tudo bem.

“Amor e Monstros” é uma bela aventura à moda antiga e muito maior do que parece ser. A saga do herói aqui é incrivelmente bem construída e conduzida. É um filme que respeita seu valente protagonista, a boa ação, os respiros que tão bem acrescentam à trama – não tenho nem palavras para a sequência de Mav1s – e principalmente, que respeita seu público. Um produto raro, nostálgico e um tanto quanto especial.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Love and Monsters
    Disponível: Netflix
    Duração: 109 minutos
    Diretor: Michael Matthews
    Roteiro: Brian Duffield
    Elenco: Dylan O’Brien, Jessica Henwick, Michael Rooker, Ariana Gleenblatt

Crítica: Fuja

Suspense dinâmico com história rasa

Retorno do jovem cineasta Aneesh Chaganty, depois do excelente “Buscando…”, temos aqui um suspense bastante conciso, que prende a atenção durante seus rápidos 90 minutos. Esse ritmo acelerado pode trazer uma certa empolgação, mas definitivamente, enfraquece sua ideia, pobremente desenvolvida.

Ainda que não seja, oficialmente, inspirado em nenhum caso real, a trama rapidamente faz lembrar da assombrosa história de Gypsy Rose, a filha refém da própria mãe que a fez acreditar ser doente a vida toda e que foi encenada, recentemente, na fantástica minissérie “The Act”. É muito difícil analisar “Run” sem fazer essa ligação, ainda mais quando o roteiro traz diversas similaridades. O início das desconfianças, o roubo dos doces, o uso escondido da Internet e a sequência no cinema de rua. São inúmeras situações já narradas em um produto muito fresco em nossa memória, o que torna suas criações bastante previsíveis, prejudicando a construção do suspense, que já vem entregue em seus primeiros minutos.

O grande erro de “Fuja” é já começar, pela pressa, desconstruindo um universo que não foi estabelecido previamente. A trama começa com um clima de desconfiança entre mãe e filha sem antes sabermos (e sentirmos) a importância dessa conexão. É frágil esse cenário que cria quando não há indícios da vida que elas levavam, principalmente porque o roteiro é extremamente raso ao desenhar essas duas personagens e essa vida de isolamento e sacrifícios que, supostamente, enfrentaram por 17 anos. Não há nada na personalidade delas que seja reflexo disso.

O suspense pode ser bem armado pelo diretor, mas o texto enfraquece a experiência como um todo, tendo escolhas absurdamente tolas, como quando a mãe prende a filha no escritório com todos os segredos “guardados” ali bem à sua frente para serem revelados. Ao menos conta com boas atuações das duas atrizes, Kiera Allen e Sarah Paulson e acerta ao apresentar uma grande última cena.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Run
    Disponível: Netflix
    Duração: 90 minutos
    Diretor: Aneesh Chaganty
    Roteiro: Aneesh Chaganty
    Elenco: Kiera Allen, Sarah Paulson

Crítica: Alma de Cowboy

Cultura ocultada

A temporada do Oscar acaba ofuscando boas produções que chegam nesta época do ano e “Alma de Cowboy” é uma delas. O longa revela a história real dos Cowboys negros da Filadélfia, que ainda nos tempos atuais traçam uma caminhada de luta e resistência. É desta forma que o filme se torna bastante necessário, por dar visibilidade a uma cultura tão ocultada e abrir campo para discutir gentrificação e como os espaços urbanos vão sendo alterados tendo o racismo como condutor.

A trama, baseada no livro de Greg Neri, tem como base uma premissa comum, a do filho que retorna para a casa do pai e precisa se adequar às novas regras. O que deixa essa jornada intrigante é que o jovem em questão é inserido em uma realidade incomum, tendo que dividir seu espaço com um cavalo e os Cowboys da Rua Fletcher. Há um descompasso entre aquela comunidade e o tempo em que o garoto vive. O filme acaba sendo sobre este encontro, dele perceber que enquanto ele busca por um lar, aquelas pessoas buscam o refúgio delas também, diariamente, mantendo os estábulos vivos e se mantendo firmes enquanto a cultura delas estão sendo apagadas.

Apesar da previsibilidade desta relação entre pai e filho e da superficialidade com que encerra alguns conflitos, a obra acerta bastante na ambientação e neste poder de nos conduzir para dentro de seu universo tão único e inesperadamente poético. O filme vê beleza na rotina, no trabalho, nas conversas corriqueiras. É belo a forma em que o diretor Ricky Staub ilustra tudo isso, trazendo, inclusive pessoas reais em cena, criando uma atmosfera ainda mais realista e honesta. Um trabalho sensível e que merece destaque no extenso catálogo da Netflix.

NOTA: 8

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2021
    Título original: Concrete Cowboy
    Disponível: Netflix
    Duração: 101 minutos
    Diretor: Ricky Staub
    Roteiro: Ricky Staub
    Elenco: Caleb McLaughlin, Idris Elba, Lorraine Toussaint

Crítica: Nomadland

As histórias que ficam pelo caminho

Existe uma linha tênue que separa o documental e a ficção no cinema de Chloé Zhao. Eles se misturam em suas narrativas e dentro delas não é mais possível separá-los. Em “Nomadland”, ela faz um registo bastante íntimo sobre o fenômeno crescente de pessoas que, em território norte-americano, buscam por trabalhos sazonais em uma viagem sem rumo por todo o país. Somos levados a conhecer um pouco dessa vida nômade pelo singelo olhar de Fern, brilhantemente interpretada por Frances McDormand, que após ficar viúva e enfrentar um colapso econômico em sua cidade, passa a morar em sua Van, traçando uma jornada sem destino e se mantendo em empregos temporários.

A cada novo ponto de parada em sua viagem, a protagonista constrói uma nova história. Ela é a soma de muitas conversas, encontros e ciclos que nunca se fecham. É lindo quando Fern se mantém em silêncio, apenas ouvindo o que os outros têm a dizer. É lindo, ainda, em como “Nomadland” nos permite, ao seu lado, vivenciar tudo isso, nos conectar com tantas jornadas e sentimentos. Chloé Zhao traz poesia e honestidade em cada minuto de seu filme, imensamente tocante e realista.

“Lar é só uma palavra ou algo que carrega dentro de você?”. Cada indivíduo ali relatado traz consigo uma história muito forte, algo que os conecta ao mundo. Em um dos momentos mais emocionantes do longa, uma das figuras reais – Robert Wells – revela que o que mais admira nessa vida nômade é nunca precisar dizer adeus, diferente das grandes perdas que já sofreu na vida. A viagem segue sem destino, mas o que houve de mais significativo retorna, se mantém vivo dentro de cada um. O rumo é solitário, mas a alma é cheia de muito sentimento.

“Nomadland” encontra beleza nesses encontros, nessas histórias. As belas imagens, a encantadora trilha sonora e a fluida e hipnotizante montagem fazem desta viagem ainda mais prazerosa. Frances está incrível aqui, completamente entregue aos tantos sentimentos de sua adorável personagem. Ela é real e nos faz querer abraçá-la a cada instante. David Strathairn também merece destaque. A troca entre os dois atores é grandiosa, um dos pontos altos da trama. Chloé Zhao merece o reconhecimento que está tendo. Ela realiza um filme único e especial, que transita de forma primorosa entre a ficção e o documental. Tudo é história, tudo é sentimento e tudo é real. “Nomadland” é imenso.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 108 minutos
    Diretor: Chloé Zhao
    Roteiro: Chloé Zhao
    Elenco: Frances McDormand, David Strathairn

Crítica: Verão 1993

Recorte da infância

Representante da Espanha na corrida pelo Oscar de 2018, “Verão 1993” é um registro primoroso e íntimo da cineasta Carla Simón, que retorna à sua própria infância para mostrar a dura transição que precisou enfrentar. A protagonista aqui é Frida, uma menina de apenas seis anos que, após o falecimento de sua mãe, é obrigada a viver no interior da Catalunha com seus tios, agora seus responsáveis legais.

O recorte de uma vida guiado com muita sensibilidade pela diretora. Acompanhamos essa mudança drástica na vida de uma criança e como ela precisa lidar com seus “novos pais”, a difícil adaptação e com o luto. A dor de perder alguém é um sentimento indecifrável e é interessante em como ela fala sobre isso pelo olhar de uma garota tão pequena, que não tem a dimensão da vida, da morte, que não tem a compreensão clara do que de fato está acontecendo. Mas a ausência é perceptível e “Verão 1993” é sobre sentir essa ausência e preencher, jamais substituir, mas se deixar abrir às novas possibilidades que nos abraçam.

Carla Simón entrega um filme delicado, duro ao falar da perda e saudade, mas imensamente afetuoso. Ela constrói sua história através de um tom extremamente realista. A atmosfera, o cotidiano, os diálogos, as reações tão possíveis e naturais que soam com um belo improviso. É lindo as relações que se costuram aqui e desta nova família que nasce. Ao assistir “Verão 1993” percebi o quanto é raro a gente chorar pela felicidade dos outros. E no fim, lá estava eu, em prantos pela força com que fui tocado. A última cena é de uma grandeza indescritível. Carla Simón não retorna ao passado para decifrar e traduzir o que sentia, retorna para dizer a si mesma que tudo bem não entender.

NOTA: 9

  • País de origem: Espanha
    Ano: 2017
    Título original: Estiu 1993
    Duração: 90 minutos
    Diretor: Carla Simón
    Roteiro: Carla Simón
    Elenco: Laia Artigas, Bruna Cusí, David Verdaguer

Crítica: Mulheres ao Poder

Grande história, pequeno filme

Nem sempre uma história incrível resulta em um grande filme. “Mulheres ao Poder” traz uma trama fantástica inspirada em eventos reais e, infelizmente, acaba entregando um produto morno, pequeno demais diante do riquíssimo material que tem em mãos.

A obra narra um passo importante na luta feminista, quando ativistas do Movimento de Liberação das Mulheres protestaram contra o concurso de Miss Universo nos anos 70. Em uma época em que elas não tinham (ainda menos) voz, se uniram para questionar essa objetificação do corpo feminino como entretenimento. O grande conflito aqui, porém, nasce quando o longa oferece um outro lado dessa mesma história, quando a primeira mulher negra estava prestes a vencer esse mesmo concurso.

Infelizmente, o roteiro jamais consegue fazer bom proveito dessa dualidade. Existe espaço para tantas discussões relevantes, mas o texto, tão quadrado e sem coragem, não ousa expor nada além daquele discurso feminista de cartilha que a gente tanto vê. Quando uma mulher preta alcança um espaço que tantas vezes lhe foi negado, ela inspira crianças como ela, mostra que é possível chegar lá. A luta que as ativistas pregam é válida, mas ela não abraça o coletivo quando usam como base suas vivências individuais, que não olham os grupos minoritários. É ainda muito interessante a rápida conversa que a líder das ativistas, vivida por Keira Knightley, questiona as escolhas da própria mãe, tão submissa na vida doméstica. Seu ponto tem fundamento, mas ela jamais teria os privilégios que tem sem os sacrifícios daquela que a criou. São pontos delicados e que mostram as tantas camadas que a luta feminista tem, mas quando opta por não se aprofundar em nada, esses ótimos debates morrem.

Na intenção de contar diversos fatos, o roteiro acelera o passo, pincela sem muito cuidado essas tantas questões e termina sem nunca valorizar a grandeza da história e dessas grandes mulheres que a protagonizaram. Seja a força do movimento ou o glamour do concurso. Nada traz impacto, envolve ou traz sequer um sinal de honestidade. A direção de Philippa Lowthorpe é pouco inspirada, salvando apenas o momento em que ela revela as pessoas reais por trás dos eventos narrados. A sorte da produção é ter um forte elenco que segura o nosso interesse, com destaque para Gugu MBatha-Raw, Jessie Buckley e a surpreendente presença de Greg Kinnear.

NOTA: 6,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2020
    Título original: Misbehaviour
    Disponível: Telecine Play
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Philippa Lowthorpe
    Roteiro: Rebecca Frayn, Gaby Chiappe
    Elenco: Keira Knightley, Jessie Buckley, Gugu Mbatha-Raw, Rhys Ifans, Greg Kinnear, Lesley Manville, Emma Corrin

Crítica: Bela Vingança

Demorei para escrever sobre esse filme porque o final me causou um grande desconforto. Tal desconforto que não consegui compreender de imediato, precisei de um tempo para digerir. Aliviar a dor no peito que me deixou. Indicado nas principais categorias do Oscar neste ano, “Bela Vingança” é daquelas obras com potencial para sobreviver ao tempo, sendo muito mais do que só um destaque da temporada.

Carey Mulligan está incrível em cena e aqui ela dá vida à Cassandra, uma grande incógnita que vai se revelando aos poucos. O que descobrimos ao início é que ela frequenta bares à noite e se finge de bêbada para atacar homens assediadores que exploram a vulnerabilidade da mulher nessas condições. O que a motiva é um sentimento de vingança, devido a traumas vividos em seu passado.

O roteiro é bastante esperto e vai nos entregando as respostas no devido tempo. E mesmo quando pouco sabemos da trama, é sadicamente divertido acompanhar este jogo perverso criado pela protagonista. A obra sai constantemente do lugar comum ao falar sobre vingança e reformula por completo filmes que já abordaram o mesmo tema. Com trilha musical pop – com direito a Toxic de Britney Spears em um dos momentos cruciais – e uma trama muito bem costurada, a diretora Emerald Fennell nos seduz a este universo, que segue por rumos inesperados e transita de forma harmoniosa e bastante original por diversos gêneros. Se no começo a obra tem o poder de nos fazer sorrir diante de uma inusitada comédia romântica, logo em seguida nos faz temer pelos caminhos obscuros que segue. No fim, compreendemos a força de seus relatos. É doloroso, cruel e impactante. É uma obra que cresce, ganhando proporções cada vez mais insanas.

“Promising Young Woman” é um título mais interessante, que traduz bem o olhar que os outros tem sobre a personagem. A mulher que tinha uma carreira promissora como médica, mas fracassou. Que chegou aos 30 anos e não tem perspectivas sobre o futuro. Todos a julgam pois acreditam saber muito bem como uma mulher deve investir seu tempo, como ela deve ocupar seu espaço. Ela carrega em si um peso que ninguém mais vê e que somente o público tem acesso. Ainda que ela tenha métodos bastante questionáveis, é impossível não vibrar por sua jornada. Neste sentido, é interessante como a diretora a enquadra em cena, sempre com um tom celestial, como se fosse uma santidade, devota em sua missão, com cores e figurinos leves que ilustram uma aura de fragilidade e submissão, exatamente como a sociedade encaixa essas jovens mulheres promissoras. O que não deixa de ser um contraste sarcástico e bem-vindo.

Cassandra viu algo que a sociedade parece rejeitar. Crimes de assédio cometidos por homens “de bem” são silenciados na mesma proporção que a dor das mulheres enquanto vítimas. De que o futuro desses jovens são promissores e uma barbaridade “qualquer” não pode defini-los. Os vilões desta história usam calça mocassim e sapatênis. Estão na faculdade e amanhã serão os chefes. São cavalheiros, educados e românticos. E não há nada mais assustador que isso, porque nos lembra dessa realidade que vivemos, de que esses homens estão ao nosso redor, vitoriosos, invisíveis sobre qualquer julgamento.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Promising Young Woman
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Emerald Fennell
    Roteiro: Emerald Fennell
    Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Laverne Cox, Jennifer Coolidge, Chris Lowel, Adam Brody, Alfred Molina