Crítica | O Último Duelo

A glória falida dos homens

Fazia tempo que não via uma trama medieval tão interessante como esta. Com direção de Ridley Scott, a obra investiga, de forma bastante intrigante, o último julgamento travado por um duelo mortal na França. Por trás do ocorrido, também conhecemos a verídica história de uma mulher que expôs um caso de estupro em 1386, época em que poderia ser condenada à morte se a denúncia não fosse verdadeira.

Com roteiro de Matt Damon, Ben Affleck e da sempre fantástica Nicole Holofcener, o filme se divide em três capítulos. Cada um deles, dedicado a contar a versão dos três envolvidos no caso, que já sabemos, previamente, terminará em um duelo. A trama registra o instante em que Marguerite (Jodie Comer) decide expor o fato de ter sido abusada sexualmente pelo escudeiro Jacques le Gris (Adam Driver), que em épocas passadas, foi grande amigo de seu atual marido, o cavaleiro Jean de Carrouges (Matt Damon). Os dois homens são levados para o combate e deixar com que a morte decida a justiça.

O recurso de mostrar cada lado da história é muito bem empregado. Apesar de mostrar muitas vezes o mesmo evento, o roteiro é esperto o bastante para sempre se renovar, sempre trazer uma carta nova na manga. Sabiamente, o texto deixa claro que a verdade se encontra na versão de Marguerite. E isso, em momento algum, tira o brilhantismo ou a tensão da trama, pelo contrário. Ao se aprofundar no olhar feminino, “O Último Duelo” desenha na tela um conflito potente, porque é a palavra de uma única mulher contra todos. É doloroso enfrentar essa jornada pelos olhos dela, porque é a única que perde, a única a ser julgada. A atriz Jodie Comer está fantástica aqui e nos faz sentir esse peso que carrega.

A sequência do duelo é incrível. É eletrizante, violenta e a prova de que aquele Ridley Scott de “Gladiador” ainda existe. A genialidade deste instante está em nos fazer vibrar quando já não existem mais lados para torcer. Conhecemos cada uma das versões da história, e a cada mudança de perspectiva, mudamos nosso olhar sobre determinado personagem, sobre cada situação. O texto é bastante crítico e atual ao apontar que, ao fim, mesmo quando é a palavra de uma mulher que está em jogo, tudo é sobre a honra e glória dos homens, sobre a postura deles diante dos outros. E isso dói de assistir.

“O Último Duelo” é uma grande surpresa de 2021. Além do excelente roteiro, a produção vem caprichada. As cenas de batalhas, as locações, cenários, figurinos. Tudo chega em estado grandioso e deslumbrante, marcando um dos melhores trabalhos de Ridley Scott dos últimos tempos. Um filme que tem alma, tem força e nos envolve com seus ótimos conflitos.

NOTA: 9,0

País de origem: Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021
Título original: The Last Duel
Duração: 152 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Nicole Holofcener, Ben Affleck, Matt Damon
Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck, Alex Lawther

Crítica | Amor, Sublime Amor

A homenagem tediosa de Spielberg

Sempre fiquei com o pé atrás com esse remake. Revisitar um clássico do cinema é sempre um passo muito arriscado. A questão é que dessa vez temos um diretor competente à frente de tudo isso e Steven Spielberg, que nunca dirigiu um musical para o cinema, surge como se tivesse feito isso a vida toda. É espantoso a qualidade técnica que ele alcança, entregando um filme majestoso e, também, uma homenagem ao original de 1968 e ao compositor Stephen Sondheim, um dos maiores nomes do teatro musical.

“Amor, Sublime Amor”, de fato, parece uma imensa peça de teatro filmada. Seja pelos cenários, ambientações e iluminação, tudo remete a algo feito em estúdio fechado, construído para aquela encenação. Visualmente belo, o longa também chama a atenção pelas ágeis coreografias e pelas surpreendentes movimentações de câmera que passeiam por aqueles espaços.

No entanto, ainda que tudo seja lindo de se ver, a obra segue engessada nessa intenção de homenagem, de respeitar o que um dia foi criado. Spielberg faz uma revisita tão correta que entendia. Sou um grande admirador de musicais e sempre vi o gênero como algo que explode na tela, que inspira e nos faz acreditar no inacreditável. “Amor, Sublime Amor” não traz nada disso. É apenas um quadro bem pintado, mas tão sóbrio e calculado que nunca ganha vida. Tudo bem filmado sim, mas nenhuma cena me fez vibrar ou sentir algo além do tédio.

Confesso que nunca gostei do original e sigo não gostando aqui, ainda que eu ache essa versão menos pior. A trama das gangues na Nova York da década de 50 ainda continua muito datada, onde o roteiro insiste em equiparar, de forma equivocada, a luta dos porto-riquenhos em solo americano, com os jovens brancos imigrantes que estão perdendo oportunidades. E esse retorno à trama ainda me soa completamente fora da validade. Ao menos, acerta ao trazer um elenco, de fato, diverso. A clássica história de amor de Tony e Maria funciona pela entrega dos dois jovens atores Rachel Zegler e Anson Elgort, mas força bastante em situações como quando transam depois de uma grande tragédia familiar. Fica difícil torcer pelos dois. Destaque também para os coadjuvantes Ariana DeBose e Mike Faist, que aqui roubam a cena.

Entendo e respeito a opinião de todos que estão amando a produção. Queria muito fazer parte desse time. Infelizmente, é uma obra que não funciona para mim. Tecnicamente impecável, mas que me causa muito mais cansaço do que paixão.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Título original: West Side Story
Duração: 156 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner
Elenco: Rachel Zegler, Ansel Elgort, Mike Faist, Ariana DeBose, Rita Moreno, Corey Stoll

Crítica | Belfast

Muito Barulho Por Nada

Admirador de Shakespeare e Agatha Christie, Kenneth Branagh se firmou no cinema com suas tantas adaptações e sua visão sobre alguns clássicos da literatura. É bem-vindo então, quando ele (tenta) revelar um lado mais pessoal, recriando sua infância em Belfast. O diretor e roteirista escreve aqui sua carta de amor à cidade e a todos aqueles moradores que precisaram partir dali para terem uma vida melhor. Uma obra feita com muito sentimento sim, mas sem um bom roteiro para amarrar suas boas intenções, ainda que tenha vencido, injustamente, o Oscar.

Filmado em preto e branco, vivenciamos um recorte na vida do pequeno Buddy ao lado de sua família em Belfast. Ele não tem dimensão dos problemas que ali o cercam, brincando pelas ruas sem nunca entender do que são constituídos aqueles tantos muros. Branagh pincela os conflitos religiosos da Irlanda da década 60 sob o olhar ingênuo de uma criança. É bastante compreensível, por essa ótica, que ele não se aprofunde em seus temas. Por outro lado, devido a isso, passamos pelo filme sem nos conectar a nada, avistando de longe, sem nos importar com o que nos é contado.

A primeira cena revela um combate civil depois de uma brincadeira entre as crianças na rua. Uma cena estranha, apressada, sem muita emoção. A sequência seguinte mantém esse mesmo esquema e por aí vai. Branagh vai juntando fragmentos curtos, frases soltas, instantes que até possuem uma certa comoção, mas não nos atinge. São sentimentos do qual não fomos apresentados e ficamos ali só assistindo. Um recorte de belos eventos, mas oco e infértil. Pouco se constrói ali e, como consequência, termina da forma como começou, sem dizer nada.

“Belfast” acaba ganhando força pelas ótimas atuações, com destaque para Caitriona Balfe. A beleza das imagens também chama atenção, entregando sequências visualmente fascinantes. Infelizmente, Branagh perde a chance de revelar um pouco de si, onde se mostra muito mais preocupado com um bom enquadramento do que com a honestidade de seus relatos. É nítido que ele tem muito carinho por sua infância, mas infelizmente, seu texto que traduz tudo isso é fraco, revelando um compilado de memórias genéricas em um Oscar Bait esquecível.

NOTA: 6,0

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021
Duração: 97 minutos
Diretor: Kenneth Branagh
Roteiro: Kenneth Branagh

Elenco: Jude Hill, Caitríona Balfe, Jamie Dornan, Ciarán Hinds, Judi Dench, Lara McDonnell

Crítica | O Beco do Pesadelo

A ilusão que falta

O Oscar chegou ao fim, mas a maratona de assistir aos filmes ainda segue. “O Beco do Pesadelo” marca o retorno de Guillermo del Toro após vencer o prêmio de Direção e Melhor Filme em 2018. Haviam altas expectativas sobre o que ele faria com essa história, baseada no romance de 1946 e que já havia sido adaptada ao cinema em 1947. Ele, que sempre teve afeição aos contos de monstros, usa do terror para investigar a degradação (e transformação) do homem em uma época pós-guerra.

Bradley Cooper interpreta o ambicioso Stanton Carlisle e desde o início ele é uma grande incógnita. Chega, do nada, em um circo e, através de sua boa lábia e carisma, passa a aprender os truques e habilidades especiais daqueles excêntricos habitantes. Ele é uma página em branco sendo preenchida pelo talento dos outros. “O Beco do Pesadelo” nos revela a ascensão desse homem que, inebriado pelas tantas mentiras que aprendeu a contar, passa a acreditar nelas e no poder que podem lhe trazer.

Existem dois atos bem distintos aqui. O primeiro funciona melhor, quando conhecemos os bons personagens do circo. É ali que Willem Dafoe, Toni Collette e David Strathairn trazem o brilho que falta ao longa em sua outra metade. O filme, então, nos apresenta uma virada não muito bem-vinda e desinteressante. Tudo é uma escada para seu protagonista e esses degraus são extremamente frágeis. Nem mesmo a elegância de Cate Blanchett salva o caminho tedioso que passa a seguir.

Como um bom truque de mágica, Stanton ilude seu público, os faz acreditar em suas falcatruas para se dar bem. É justamente isso o que o roteiro de “O Beco do Pesadelo” não consegue. Jamais convence, jamais nos faz comprar seu universo. O texto da obra tem seu início e fim muito bem definidos, mas esqueceu de elaborar todo o resto. Essa relação cíclica, que une suas duas pontas, poderia ser seu brilhantismo, mas só o deixa previsível. É como se soubéssemos, desde o início, as consequências de tudo e as causas, infelizmente, são jogadas às pressas. Todos os seus potentes desdobramentos são lançados na tela sem muito zelo, com pouco desenvolvimento. E isso fragiliza demais a construção dos personagens e nesses laços que um tem com o outro.

“O Beco do Pesadelo” é visualmente fascinante, indicando um trabalho primoroso de direção de arte, com seus belos cenários e figurinos. Infelizmente seu encanto morre aí. A última cena até indica uma ótima sacada e uma excelente interpretação de Cooper, mas veio tarde demais. Ali, já pouco me importava como alguma coisa. O trabalho mais insosso de del Toro, cansativo e sem vida alguma.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos, México, Canadá
Ano: 2021
Título original: Nightmare Alley
Duração: 150 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco: Bradley Cooper, Rooney Mara, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Ron Perlman, David Strathairn

Crítica: Matrix Resurrections

Uma aula de como não retomar uma franquia de sucesso

Passei por uma maratona de “Matrix” antes de chegar nesse quarto capítulo, reassistindo os outros três que tão pouco recordava. O primeiro continua excelente, de fato, um marco. O segundo, assim como o terceiro também, traz grandes ideias jogadas em um roteiro sem muita intenção de desenvolvê-las, revelando, infelizmente, uma filosofia que soa profunda, mas é apenas vazia e preguiçosa.

É assim que, quase vinte anos depois, a criadora Lana Wachowski, agora sem Lilly, retorna ao universo por alguma razão que em duas horas não consegue justificar. E mais uma vez, sua obra pretende ser profunda com seus diálogos extremamente expositivos, quando, na verdade, é só algo tolo e descartável. O filme inteiro é um personagem precisando descrever para outro o que está acontecendo. A aventura nunca flui, apenas é explicada. Parece ter sido escrita por um adolescente fanfiqueiro, que não sabia se faria uma homenagem, um reboot ou só uma paródia mesmo. Uma forma vergonhosa de revisitar algo que tanta gente respeita e admira.

“Pegaram a sua história, algo que significava tanto para as pessoas como eu e transformaram em algo trivial (…) Onde mais enterrar a verdade senão dentro de algo tão comum como um videogame.” A roteirista, através da metalinguagem, busca criticar os grandes estúdios do cinema e essa facilidade que eles possuem em destruir algo com significado apenas para ter uma franquia lucrativa. O discurso de Lana é ousado e afrontoso sim, mas infelizmente se torna patético quando decide ilustrá-lo com uma produção tão genérica. Bater de frente com o cinema blockbuster Hollywoodiano e sua trivialidade entregando um filme trivial me soa apenas preguiçoso. Ela consegue o feito de transformar sua bela criação em uma longa piada de mal gosto e extremamente desrespeitosa com aqueles que admiram a saga. É esperto não entregar o que os fãs querem, mas é decepcionante quando a obra se camufla dentro daquilo que pretende criticar.

Para piorar a situação, o texto aqui é fraquíssimo, deixando o elenco pouco à vontade. Entendo que Keanu Reeves é uma persona adorável, mas que brochante é assistir algo com alguém que nitidamente não tem a menor vontade de estar ali. Com soluções tolas, “Matrix Resurrections” mais parece um episódio ruim de Sense8 (ou uma desculpa para juntar o elenco de novo). O belo visual até desperta nossa atenção, mas aí perde novamente com suas sequências pouco inspiradas de ação e confronto corporal, que nada nos lembra a agilidade presente nos capítulos anteriores.

Houve, no cinema recente, uma saturada necessidade de revisitar franquias de sucesso. Poucas vezes, porém, me vi diante de um retorno tão podre como este. Lana precisava ter se esforçado um pouco mais para fazer um filme ruim. Esse está abaixo disso. Está no nível insulto mesmo.

NOTA: 4,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Duração: 148 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Lana Wachowski
Roteiro: Lana Wachowski
Elenco: Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss, Jonathan Groff, Yahya Abdul-Mateen II, Jessica Henwick, Neil Patrick Harris, Jada Pinkett Smith, Priyanka Chopra Jonas, Lambert Wilson

Crítica | Mães Paralelas

dois filmes que não se encontram

Depois de tantos acertos na carreira, é inevitável não ficar empolgado com os retornos de Pedro Almodóvar. No auge de seus 70 anos, é lindo poder acompanhar esse seu cinema sempre aberto a tratar do universo feminino com tanta sensibilidade. Acontece que, apesar das cores fortes e estampas marcantes que ilustram seus cenários, poucas vezes sua arte foi tão pálida como aqui. “Mães Paralelas” tem boas intenções, mas falta um bom roteiro para unir todas elas.

O roteirista deixa registrado aqui seu manifesto político. Ao falar de herança, Almodóvar diz sobre a importância do resgate histórico na construção de nossa identidade. Ele revela a dívida que a Espanha tem com as mulheres que nunca puderam enterrar dignamente seus entes desaparecidos em tempos de guerra e os reflexos dessa ausência na vida de todas elas. Para desenhar isso, ele coloca em cena Janis, personagem brilhantemente defendida por Penélope Cruz, que decide buscar o corpo do bisavô. A história dessa mulher é uma repetição da de seus ancestrais. Ela carrega a herança de sua casa, mas também a tradição feminina de criar uma filha sem a presença do homem. Entender o passado é ter consciência sobre o presente e instrumento para poder mudar o futuro.

Em “Mães Paralelas”, o diretor constrói dois filmes que até se conectam diante de uma reflexão, mas que não fluem de forma harmônica. Um deles sempre precisa pausar para que o outro prossiga. Duas tramas não paralelas, que jamais caminham juntas. Almodóvar pincela o plot dos corpos enterrados ali no começo e volta ao final de maneira abrupta e sem muito cuidado. Já a história das mães, que se unem depois de realizarem o parto no mesmo dia, preenche grande parte da produção. Infelizmente, porém, o roteirista nunca revela ter muito apreço a ela, a construindo apenas para ilustrar um pensamento, sem jamais dar a alma que merecia. Existe um suspense fascinante ali entre as duas personagens centrais que nunca ganha vida, encerrando-se ainda de forma preguiçosa e sem emoção. Ele cria uma ideia novelesca que intriga, mas a finaliza de qualquer jeito, como se nada, além da escavação, tivesse realmente importância.

É assim que “Mães Paralelas” nunca empolga e nunca demonstra ter um propósito específico. É frustrante demais a maneira como finaliza a história das mães, sem ser justo com as personagens e nem com a belíssima entrega das duas atrizes. O fim até se esforça para ser poético, mas foi tudo guiado de forma tão morna até ali, que foi difícil comprar suas intenções. Tem muitos acertos sim, mas facilmente esquecemos.

NOTA: 6,5

País de origem: Espanha
Ano: 2022
Título original: Madres Paralelas
Duração: 120 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Rossy de Palma

Crítica | Licorice Pizza

O lado B da nostalgia

Paul Thomas Anderson foi responsável por realizar algumas obras-primas do cinema como “Magnólia” e “Sangue Negro” e, desde muito tempo, tornou-se um nome digno de atenção. Com este seu novo filme, o cineasta retorna ao ambiente que cresceu, a Los Angeles da década de 70, para celebrar a liberdade da juventude, enquanto passeia pelos bastidores do entretenimento, algo que rapidamente nos remete a um de seus melhores trabalhos: “Boogie Nights”. O humor ainda se mantém bastante presente, assim como capacidade de inserir diversos personagens em uma narrativa insana. Ainda que exista um certo brilhantismo em sua condução, esse seu resgate de outra época traz consigo uma visão de mundo que deveria ter ficado no passado mesmo.

A obra narra o encontro do jovem Gary Valentine, interpretado por Cooper Hoffman (filho do saudoso Philip Seymour Hoffman) com Alana, interpretada pela cantora Alana Haim (da banda Haim). Ele, que tem um forte dom para o empreendedorismo, decide apostar em uma série de negócios depois de perceber que sua carreira como ator fracassou. Alana é uma espécie de “parceira do crime”, que passa a auxiliá-lo em uma fase do qual não tem muitos planos para si. Um adolescente que quer ser visto como adulto e uma mulher adulta que não se encontra. O homem aqui é muito seguro, mesmo que esse tenha apenas 15 anos de idade (e o roteiro omita de nós como um garoto de sua idade tem tantos recursos para se dar bem na vida) e a mulher nunca parece evoluir, sempre perdida, confusa, presa nas escolhas de seu companheiro. Alana, tanto a atriz como a personagem, tem uma autenticidade que inunda a tela. Merecia voar, mas o texto é antiquado demais para isso. É assim que não consigo enxergar essa trama de “amadurecimento” que muitos apontam e vejo apenas um roteiro reforçando um pensamento machista sobre relacionamentos e como a mulher é vista dentro de um.

Paul Thomas Anderson revisita o passado mas esquece que nem tudo que ficou nos anos que passaram precisa ser trazido de volta. A nostalgia é linda sim, mas a sociedade retrógrada não e é uma pena que ele demonstre ter tanto apreço a isso. Em nenhum momento, o roteirista parece ter vergonha de seu humor datado, não evitando revelar um dos poucos personagens homossexuais de forma caricata, além de suas piadas xenofóbicas (vindas de um personagem que se retirado não faria falta) ou de naturalizar sua protagonista sendo assediada a todo tempo. O saudosismo é belo, mas o cineasta peca quando usa disso como desculpa para perpetuar comportamentos tão ultrapassados. Nada disso é engraçado e é triste que tenha sido um dia.

Teria sido incrível, ainda, se o filme focasse na história do casal imensamente carismático. Alana Haim e Cooper Hoffman são ótimos e trazem naturalidade e alma aqui, apesar do desconforto causado pela diferença de idade. Faltou o roteiro entender que o universo além deles não é tão interessante assim. Nunca é sobre eles e em uma sequência aleatória de eventos, a obra se perde e nos leva para cantos do qual pouco nos importamos. Seja pelos bastidores do mundo do entretenimento, das vendas ou da política, o texto nunca se encontra e cansa. “Licorice Pizza” até tem alguns momentos divertidos como os do “caminhão”, mas nada que acrescente na trajetória dos personagens ou que os leve para alguma outra direção. É assim que suas tantas “participações especiais” se tornam puro excesso e capricho do diretor. Que chatice toda a passagem de Sean Penn e Tom Waits. Serviu de alguma coisa tudo aquilo? É um trabalho repleto de referências, trazendo em cena figuras reais de Los Angeles mas que, infelizmente, nada agregam à narrativa.

Claro que apesar dos tantos pesares, a boa marca de Paul Thomas Anderson ainda está ali. Ele continua um grande diretor, trazendo cenas visualmente poderosas. Toda essa viagem no tempo é muito bem conduzida, seja pelos figurinos, cenários e principalmente pela potente trilha musical que traz nomes como Nina Simone, Paul McCartney e David Bowie. “Licorice Pizza” diverte mas é muito abaixo do que eu esperava vindo do diretor. Suas qualidades técnicas continuam impecáveis, mas é muito incômodo essa visão quadrada de mundo que ele tenta naturalizar com seu humor ultrapassado, mas que ele prefere vender como “nostalgia”.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Duração: 133 minutos
Diretor: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Alana Haim, Cooper Hoofman, Ben Safdie, Bradley Cooper, Sean Penn

Crítica | Nove Dias

A experiência única e milagrosa de viver

Venho falar sobre o primeiro filme que assisti em 2022. Por alguma razão, achava que poderia encontrar algo especial aqui e encontrei. Dirigido pelo brasileiro Edson Oda, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Sundance, este é apenas seu primeiro longa-metragem. Apesar de ser um projeto, claramente, muito pessoal, ele traz temas universais e que podem conversar com muita gente. Me senti tocado por “Nove Dias”. Mais do que isso, me senti abraçado, acolhido e são poucos os filmes com esse poder.

A vida após a morte é uma questão muito indagada, mas existe um outro tema ainda não muito debatido no cinema: a pré-vida. A obra nos leva para uma realidade mística, ilustrada por uma casa em um imenso deserto. Ali vive o solitário Will (Winston Duke) que observa atentamente as pessoas na Terra. Quando uma vida “vaga”, ele precisa entrevistar algumas almas durante nove dias para decidir qual delas é digna de viver.

Ao decorrer do filme, vamos acompanhando uma série de testes e dinâmicas que nos farão refletir o que nos torna, realmente, aptos a estarmos aqui. Nessa realidade proposta, somos aqueles que venceram e estamos vivos por alguma razão. “Nove Dias” nos faz pensar muito em nossa existência aqui na Terra e sobre o quanto somos peculiares a nossa forma, diferentes de todos os outros que aqui habitam. A nossa chegada nesse solo vem composta de uma singularidade que somente nós podemos alcançar, um espaço apenas nosso, jamais substituível. Seja pelo senso de justiça, curiosidade, insegurança, seja pela simples admiração pela farra. Cada pessoa traz consigo algo único. E viver é uma experiência única.

Essa persona desmotivada de Will, em uma surpreendente atuação de Winston Duke, rodeado de itens antigos em um ambiente escuro, diz muito sobre esse ser que já viveu e cansou. Seu encontro com Emma (Zazie Beetz, fantástica), uma das almas na disputa, cria uma ruptura em sua existência. Sedenta por entender o mundo, ela o faz enxergar o que havia sido perdido. A sequência no deserto, ápice dessa relação, é libertadora. É o grito aprisionado. O recado da obra de que não estamos sozinhos nessa imensidão e de que não devemos subestimar as pequenas ações rotineiras e tudo aquilo que preenche nosso constante vazio.

Com um elenco bastante diverso, “Nove Dias” encanta por essas situações que narra, pela construção desses personagens tão intrigantes e pela sensibilidade de falar sobre a vida. A trilha sonora de Antonio Pinto, o mesmo de Central do Brasil, é a cereja do bolo. Um trabalho fantástico, que traz som para a poesia que é esse filme. Me faltam palavras para descrever instantes como quando o entrevistador precisa forjar a experiência humana para as almas desclassificadas. É lindo e poderoso. Tudo muito pequeno, mas que nos atinge, porque encontra beleza nessa simplicidade, porque fala diretamente com nosso coração e nos relembra o milagre que é estar aqui.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2020
Título original: Nine Days
Duração: 110 minutos
Diretor: Edson Oda
Roteiro: Edson Oda
Elenco: Winston Duke, Zazie Beetz, Benedict Wong, Bill Skarsgård, Tony Hale, Perry Smith

Crítica | King Richard: Criando Campeãs

O homem que projetou sonhos

Existe algo de atraente em filmes de esporte e essas tramas inspiradoras de superação e de vitória. “King Richard” busca trazer lições valiosas ao narrar a história real de ascensão de duas das maiores tenistas do mundo, Venus e Serena Williams. A questão aqui é que a obra não se importa muito por elas e sim por aquele que as projetou, o pai Richard Williams, interpretado por Will Smith. Também mentor e treinador, ele usa de métodos próprios e nada convencionais para tornar suas filhas campeãs.

O roteiro aproveita esse cenário para trazer boas mensagens de dedicação, persistência e emociona nesse relato de um pai fazendo o impossível por trazer um futuro digno para suas filhas. O sucesso delas é a quebra de uma barreira solidificada nessa sociedade que sempre fechou portas para jovens negros. Torcemos por essa vitória porque ela é a ruptura de um sistema cruel.

Antes mesmo de Venus e Serena nascerem, Richard já havia traçado o rumo de sucesso das duas. Nada pode estragar esse seu plano. Claro que tudo isso vem recheado de frases de efeito e um papo entediante de coach, viés que o próprio Will Smith sempre adorou abraçar no cinema. É bastante incômodo essa romantização que “King Richard” faz desse pai controlador, que pouco ouve sua esposa e que pouco se importou com os sonhos reais das filhas. Elas são o projeto dele e o filme, em nenhum momento, se preocupa em tornar Serena e Venus em personagens. Elas não possuem voz e nem mesmo desejos próprios. Claro que as garotas nunca parecem descontentes com o rumo que seguem, pelo contrário, mas teria sido ótimo entender mais o lado delas e não tanto do homem que construiu os sonhos e ditou todas as vontades que ambas precisariam ter.

Apesar desse desconforto causado por essa premissa, o diretor Reinaldo Marcus Green entrega um trabalho muito seguro e uma atmosfera que seduz. Além de Will Smith, que está ótimo em cena, o filme ainda nos brinda com boas atuações dos coadjuvantes Jon Bernthal e da revelação Aunjanue Ellis, que brilha e merecia mais diálogos. A trilha sonora composta por Kris Bowers é outro ponto alto da produção. É bela e engrandece cada momento.

“King Richard” falha nessa romantização do pai controlador e por nunca dar voz à quem realmente gostaríamos de ouvir. Ainda assim, é uma obra bastante correta em sua forma, muito bem conduzida pelo diretor, o que a torna uma produção envolvente e facilmente recomendável.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: King Richard
Duração: 138 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Reinaldo Marcus Green
Roteiro: Zach Baylin
Elenco: Will Smith, Aunjanue Ellis, Jon Bernthal, Saniyya Sidney, Demi Singleton, Tony Goldwyn

Crítica | A Filha Perdida

o peso da maternidade

Estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, “A Filha Perdida” é uma adaptação do elogiado livro de Elena Ferrante. Lançado pela Netflix, o texto do filme é potente, foge da obviedade e ecoa em nossa mente, justamente porque ficamos remoendo tudo aquilo que não é dito, não é claramente exposto.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” A obra acerta ao construir personagens complexas e em nenhum momento busca justificar suas ações ou julgar qualquer movimento questionável. Vem com coragem para discutir o peso da maternidade e esses sentimentos tão velados pela sociedade. A protagonista é Leda (Olivia Colman), uma mulher de meia-idade que vive atormentada pelas escolhas que teve enquanto mãe. Ela revisita seu passado quando, ao passar suas férias em um balneário grego, passa a observar atentamente Nina (Dakota Johnson), uma jovem que perde a filha na praia. A hóspede se torna seu escape, seu lembrete doloroso de família e também sua tão aguardada penitência.

O filme se divide em dois tempos e temos a chance de conhecer a personagem no passado e presente. Essa divisão acaba quebrando um pouco o ritmo da trama, mas funciona quando, aos poucos, se aprofunda nas difíceis decisões de Leda. Tudo caminha para um evento trágico e ficamos presos neste thriller psicológico. Maggie constrói uma atmosfera sensual e altamente desconfortável. Há uma sensação de perigo envolvendo todas as relações e nos traz agonia quando a protagonista tem uma série de atitudes um tanto quanto bizarras. Nada é justificável e o brilhante roteiro nem procura por isso. As coisas são porque são. Intriga e apesar da longa duração, nos mantém atentos.

“Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. A citação da escritora Simone Weil é dita em certo momento e fiquei com ela na mente. Há algo de muito poderoso nessa conexão que existe entre as mulheres da obra. A forma como elas se olham, como se procurassem uma compreensão. Em um ato de solidariedade, elas identificam a dor e a solidão sem precisar dizer. “A Filha Perdida” emociona de forma sutil nesse relato sensível e extremamente honesto sobre maternidade, sobre ser mãe e se sentir sufocada pelas obrigações. Quando nem todos esses sentimentos encontram palavras, entra em cena grandes atrizes que revelam tanto em suas expressões. Olivia Colman, Jessie Buckley, Dagmara Dominczyk e Dakota Johnson estão fantásticas!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Lost Daughter
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Ed Harris