Crítica: Amizade Adolescente

A geração que cansou de tentar

Um dos filmes que eu mais curti ano passado foi “A Arte de Ser Adulto”, estrelado por Pete Davidson, obra que traça um interessante paralelo com esse “Amizade Adolescente”, protagonizado pelo mesmo ator. Ele, novamente, personifica esse jovem adulto sem perspectivas sobre o futuro, estagnado no vazio que construiu para si. Também narrado com muito humor, o longa é agridoce ao olhar para a juventude com doçura, mas sem apagar esse sentimento triste que permeia por toda a obra.

Mo (Griffin Gluck) é um jovem de 16 anos que, em uma fase de amadurecimento e de tentar encontrar seu lugar no mundo, passa a seguir os exemplos de Zeke (Davidson), oito anos mais velho, pois o enxerga como um cara descolado, mesmo que ele seja apenas irresponsável e autodestrutivo. O filme nos leva a conhecer essa divertida conexão que nasce entre os dois, que vindos de universos tão distantes, se entendem.

O grande lance de “Amizade Adolelescente” é dessa união que nasce de uma necessidade de “fazer parte”. Enquanto Mo se sente descolado por andar com os mais velhos e ter experiências que os outros de sua idade não possuem, Zeke encontra nesta parceria uma chance de reviver seus anos de glória, enquanto era alguém pelos corredores de uma escola, mas que foi diminuído pelo mundo real. Mo é a última pessoa a achá-lo especial e ele abraça isso. São duas linhas que caminham paralelas mas que uma hora ou outra precisam se romper. Esta é a beleza da obra. O protagonista parece sugar todo o aprendizado naquela agitação proporcionada por seu mentor, buscando uma identidade que não é sua. Ele o vê como um Deus e essa idealização vai sendo gradativamente destruída assim que vai atingindo maturidade e coragem de seguir o próprio caminho. A última cena sintetiza brilhantemente tudo isso. São duas gerações diferentes, uma que quer abraçar as oportunidades e a outra que cansou de tentar.

Estreia na direção e roteiro de Jason Orley, ele entrega um filme sutilmente sentimental e incrivelmente adorável de se assistir. A trama flui de forma prazerosa e convidativa, entregando humor, mas sem diminuir o peso de sua bela trama e dessas reflexões que nos deixa.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2019

Título original: Big Time Adolescence
Disponível: Telecine Play
Duração: 90 minutos
Diretor: Jason Orley
Roteiro: Jason Orley
Elenco: Pete Davidson, Griffin Gluck
, Sydney Sweeney, Oona Laurence

Crítica: Ammonite

Paixão silenciosa

Retorno do diretor Francis Lee, depois de sua ótima estreia em 2017 com o filme “God ‘s Own Country”. Aqui ele volta a fazer um romance bastante íntimo, onde seus personagens vivem em um universo gélido e grosseiro. Existem muitas semelhanças entre as duas obras, mantendo o cineasta em uma área de conforto, sem cometer grandes riscos.

“Ammonite” conta com uma atuação incrível de Kate Winslet e ela, com certeza, é o que há de melhor aqui. Ela interpreta a paleontóloga Mary Anning, que faz importantes descobertas científicas de fósseis de amonite, no Reino Unido do século 18. Ela vive reclusa ao lado de sua mãe e não recebe o devido reconhecimento profissional. Sua vida ganha uma nova possibilidade com a chegada de uma jovem casada (Saoirse Ronan) e que se recupera de um grande trauma. São duas mulheres introspectivas, que ao longo de poucas semanas, vão desvendando essa paixão que nasce entre elas.

Frances Lee captura os detalhes de cada ação. Acompanhamos, de perto, as curvas dos corpos, os gestos, os ricos objetos de cena. Ele constrói esse universo fechado, íntimo, que aos poucos se abre com a chegada de uma nova pessoa. “Ammonite” é um filme silencioso, que diz mais nos olhares que nos próprios diálogos.

Apesar do cineasta estabelecer bem esse universo, falta alma ao filme. Falta sentimento. Não existe química alguma entre as duas atrizes e isso quebra a magia do romance que jamais atravessa a tela. É tudo tão frio e distante, que ele nos deixa apenas como espectadores de uma história que nunca nos atinge. Saoirse Ronan que, mesmo sendo a atriz mais completa de sua geração, parece desconfortável, sem entender essa personagem que some em cena. Ao menos, o belo visual compensa nossa contemplação. As cenas são lindas, auxiliadas pela sempre competente trilha de Dustin O’Halloran.

“Ammonite” tenta ousar com suas fortes cenas de nudez e sexo, mas acaba sendo vazio quando não há sentimento envolvido. Trata-se de uma produção linda, cuidadosa nos detalhes, mas tão fria que pouco nos importamos com o que relata e que facilmente esquecemos.

NOTA: 6,5

País de origem: Austrália, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2020
Disponível: Net Now / Para locação no Youtube, Apple TV, Google Play e Looke.
Duração: 120 minutos
Diretor: Francis Lee
Roteiro: Francis Lee
Elenco: Kate Winslet, Saoirse Ronan, Fiona Shaw, Gemma Jones

Crítica: A Guerra do Amanhã

O futuro que nos espera

Às vezes, eu tenho um prazer sádico de assistir algo que tenho certeza de que será ruim. O lado bom disso é que vou com expectativas zeradas e tudo o que me apresentam pode ser uma surpresa. É assim que me deparo com “A Guerra do Amanhã”, que é sobre o ex-militar norte-americano que vai salvar a Terra. Chris Pratt é o valentão da vez e ele é convocado, assim como muitos cidadãos comuns, a lutar em uma guerra no futuro, logo que daqui há 30 anos, o planeta será dizimado por aliens famintos.

Faz sentido? Não faz. E a cada vez que o filme segue adiante mais nos deixa inconformados sobre como certas ideias foram aprovadas no roteiro final. Seja o pobre treinamento dos novos soldados, a forma como eles simplesmente retiram pessoas do presente para morrer no futuro, além dessa “viagem no tempo” que desafia qualquer lógica. No entanto, por trás dessas pataquadas, existe um produto divertidíssimo de assistir e que se você deixar se levar por essas bizarrices, pode ser uma experiência válida, empolgante em uma sessão com pipoca e cérebro desligado. Funcionou para mim que não senti suas mais de 2 horas passarem.

“A Guerra do Amanhã” peca, porém, ao se levar a sério demais. O humor existe mas é apenas um escape rápido de um filme que acredita mesmo nesse tom heróico e dramático que desenha. É assim que a presença de Chris Pratt acaba sendo um grande desperdício, justamente porque ele poderia ser a peça ideal para trilhar esse pastelão. Mas o diretor pouco explora esse talento do ator para a comédia, estando um verdadeiro canastrão em cena, pouco inspirado. Destaque para a boa presença de Yvonne Strahovski, que consegue extrair algo de bom do texto. Aliás, nota-se uma bela diversidade no elenco, sendo um passo significativo em filmes do gênero.

Quando o filme se liberta dessa seriedade e abraça o clichê sem vergonha alguma, nasce um produto empolgante e que bebe de ótimas referências dos anos 80, como a parte final no gelo. É um produto que vai se renovando a cada novo ato, se redescobrindo e jamais perdendo o fôlego. O diretor Chris McKay acerta ao nos colocar frente à ação, nos permitindo sentir, ao lado de seus personagens, essa sensação de pavor, adrenalina e urgência. E são poucos os filmes atuais com esse poder. Aliás, os aliens são incríveis aqui. Espantam não apenas pela tensão que nos causa, mas principalmente pelo belíssimo visual e efeitos especiais que lhes dão vida.

“A Guerra do Amanhã” traz questões óbvias mas um tanto quanto válidas a serem discutidas. Sabemos que nosso planeta corre riscos grandes lá na frente e somos nós, aqui no presente, responsáveis por escolher qual é esse mundo que queremos encontrar no futuro. Cabe a nós essa direção. Cabe a nós refletir se vale a pena lutar por uma guerra que ainda não vivemos, porque diferente da fantasia, não teremos uma segunda chance para reparar nossos erros.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Tomorrow War
Disponível: Prime Video
Duração: 138 minutos
Diretor: Chris McKay
Roteiro: Zach Dean
Elenco: Chris Pratt, Yvonne Strahovski, J.K.Simmons, Sam Richardson, Betty Gilpin

Crítica: Depois a Louca Sou Eu

Nem tudo está bem.

É muito fácil estar perto dos 30 e se identificar com alguma passagem de “Depois a Louca Sou Eu”. Baseado no livro de Tati Bernardi, que narrou grande parte de suas próprias experiências, a trama é uma costura de seus causos de vida, narrando com humor e sensibilidade seus traumas e paranoias que poderiam muito bem ser de todos nós. Essa geração atarefada, cansada, ansiosa e bombardeada de tanta informação.

Dani, vivida pela ótima Débora Falabella, é uma mulher com muitas aspirações, no entanto está sempre em descompasso com seu mundo interior, sempre sendo sabotada por si devido suas crises de pânico e ansiedade. A obra busca revelar como ela lida com isso desde a infância e hoje no campo profissional, familiar e amoroso, em uma narrativa esperta e ágil, que mistura diversos tempos, realidade e imaginação.

Visualmente é um filme bem inventivo, que busca diversas formas de ilustrar essa colisão da protagonista consigo mesma, de quem ela é e quem ela gostaria de ser. O verde e vermelho saturados estão sempre presentes nas cenas, indicando esse conflito interno. Com direção de Júlia Rezende, no entanto, existe uma desarmonia dessa linguagem infanto juvenil, que nem sempre conversa com o teor da obra, expondo um conteúdo adulto que pode surpreender os desavisados. É um filme que, definitivamente, dialoga com um público mais velho, mas em alguns momentos a direção não parece muito ciente disso.

O longa acerta em cheio, porém, em não cair no humor caricato e nem no texto piegas motivacional. E é aqui que ele encontra seu equilíbrio. A esperteza do roteiro está em reconhecer que Dani, assim como todo mundo que enfrenta algum tipo de transtorno, é uma junção de muitas partes, as tais bolas de gude que não se podem desprender. É preciso acertar essa balança de viver com todos esses fragmentos. O filme não procura uma cura para a protagonista e nem encontra respostas fáceis para isso. Nem mesmo o amor que provavelmente seria a resposta se ele fosse escrito há uns dez anos atrás. A protagonista segue seu caminho com medo, mas ela segue porque precisa seguir. E todos nós precisamos. “Depois a Louca Sou Eu” é um retrato responsável sobre esse longo processo pessoal em reconhecer que as coisas não estão bem. No mais, uma obra escrita, dirigida, protagonizada, produzida por mulheres…então bora prestigiar!

NOTA: 8,0

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Disponível: Prime Video
Duração: 86 minutos
Diretor: Júlia Rezende
Roteiro: Gustavo Lipsztein
Elenco: Débora Falabella, Gustavo Vaz, Yara de Novaes, Cristina Pereira, Débora Lamm

Crítica: Love, Victor (segunda temporada)

A referência que não tivemos

Spin-off do filme “Com Amor, Simon”, a ideia dessa série demorou a me convencer. A primeira temporada nos apresentou Victor (Michael Cimino), que seguindo os conselhos de Simon, enfrentou uma jornada de aceitação e confiança para se assumir gay. Havia algo de muito honesto naquele roteiro – apesar da simplicidade de um produto teen – e que me fez apostar nessa segunda temporada. Aqui, a série finalmente se encontra e acerta o tom, revelando desdobramentos bem mais interessantes daqueles apresentados anteriormente.

Houve uma melhora significativa na narrativa, trazendo temas relevantes de forma madura e sem cair no lugar comum. Traz conflitos reais e situações que finalmente desafiam seus personagens, os colocando de vez no mundo real. Bipolaridade, diferenca entre classes sociais, a visão das crianças sobre homossexualidade. É válido, ainda, a passagem dos pais do protagonista, que traz questionamentos interessantes sobre raça e sobre o peso da religião em suas atitudes. O texto acerta e é bastante corajoso neste discurso contra ideias tão ultrapassadas da igreja.

Brilhante em como o seriado debate como a própria comunidade nem sempre se apoia, como quando um dos personagens é rejeitado por ser feminino demais. “Love, Victor” fala bastante sobre como pessoas LGBTQIA+ são colocadas em “caixas”, onde todos ao redor sabem exatamente como você deve agir ou ser. Victor é muito gay para o vestiário masculino, mas pouco gay para frequentar certos lugares. Esse embate provoca questões interessantes, criando camadas mais complexas para o protagonista e sua jornada.

Por falar em protagonista, Victor ainda é a peça que ainda menos funciona aqui, apesar da melhora do roteiro. Não apenas pela fraca atuação de Michael Cimino, mas também pela junção com Benji (George Sear), que é extremamente sem sal e nos faz vibrar pela possibilidade de separação, o que enfraquece a série como um todo. A sorte (e muita sorte) é que os coadjuvantes são realmente muito bons e os roteiristas, felizmente, entenderam isso. Felix teve uma trajetória fantástica nesse segundo ano e segue como melhor personagem, destacando a carismática performance de Anthony Turpel, assim como sua dupla de cena. Lake (a ótima Bebe Wood) tem tido um rumo semelhante à Summer Roberts de “The O.C”: de figurante fútil, tem se tornado a presença mais adorável da trama. Todos do elenco funcionam muito bem juntos e isso é o grande trunfo do programa. Tem um texto que respeita essas relações, a humanidade de cada um. É divertido, teen, mas imensamente sensível ao revelar a caminhada de todos eles.

Em suas entrelinhas, “Love, Victor” diz muito sobre referência. Se no primeiro capítulo dessa caminhada, Victor seguia os passos de seu mentor, aqui ele procura a própria voz para aprender a lidar com as tantos obstáculos que encontra, passando a ser, posteriormente, inspiração para outro jovem no colégio, a bela adição de Rahim (Anthony Keyvan). E no fundo, é justamente o que a série é: um ponto de referência para jovens que, assim como o protagonista, sentem esta insegurança em se assumir. Victor, vive muitos dilemas aqui e nunca sabe exatamente como agir, como falar, como ser esse “jovem gay” que todos esperam que ele seja. A verdade é que, desde que nascemos, vemos histórias de amor entre homens e mulheres. Não tivemos a referência, nunca foi tratado com a naturalidade que precisávamos ver na mídia, no cinema, nos livros que consumíamos. É desesperador encontrar as respostas sozinho e o show, de certa forma, vem para nos lembrar que não, não estamos completamente sozinhos.

Ps: o final foi ótimo e me fez querer demais uma terceira temporada.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: em agosto no Star+
Duração: 10 episódios / 288 minutos
Elenco: Michael Cimino, Anthony Turpel, Bebe Wood, Ana Ortiz
, James Martinez, Mason Gooding

Crítica: Shiva Baby

A nova definição da vergonha

Fantástico trabalho de estreia da canadense Emma Seligman. “Shiva Baby” revela algumas experiências pessoais da cineasta enquanto jovem, bissexual e vivendo em uma comunidade judaica de Nova York. É um retrato bastante íntimo e um tanto quanto transgressor ao discutir temas tabus dentro de uma cultura tão conservadora.

Na primeira cena, Danielle (Rachel Sennott) se arruma para um evento enquanto é paga depois de transar com um homem mais velho. Ela vai participar de um Shivá, cerimônia judaica de sete dias de luto, onde encontra com sua família, a ex-namorada e este seu atual Sugar Daddy, que não apenas conhece seus pais como também é casado e com um filho. É através desta embaraçosa reunião, que o longa nos provoca um riso nervoso, nos fazendo acompanhar uma série de saia-justas, onde a protagonista precisa manter uma aparência que definitivamente não é a sua.

Sabe quando nos deparamos com uma situação tão vergonhosa, onde só queremos cavar um buraco na terra e desaparecer? “Shiva Baby” nos traz a experiência de desfrutar deste incômodo sentimento por uma hora e meia. É uma comédia que desperta desespero e, somado ao violino que toca ao fundo, mais o faz parecer um filme de terror, do qual tememos a todo instante os próximos acontecimentos.

Toda a ação acontece em um único ambiente e a diretora domina aquele pequeno espaço com maestria. O roteiro, também assinado por Seligman, é esperto, tem dinamismo e conta com diálogos ácidos que provocam neste inesperado embate entre práticas sexuais e ritual religioso. O filme tem ritmo, diverte e nos faz adentrar aquele peculiar universo. É claustrofóbico estar na pele da protagonista que precisa lidar com todos interferindo em suas escolhas e palpitando sobre seu futuro. Danielle, interpretada pela ótima Rachel Sennott, enfrenta este período de difíceis decisões da fase adulta e se vê rodeada por uma sociedade que espera algo dela, que a pressiona por viver as conquistas que todos viveram em sua idade. É um peso grande que ela carrega nas costas, que todos nós carregamos.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2020
Disponível: Mubi
Duração: 71 minutos
Diretor: Emma Seligman
Roteiro: Emma Seligman
Elenco: Rachel Sennott, Molly Gordon, Polly Draper, Fred Melamed, Danny Deferrari

Crítica: Mare of Easttown

Investigando as dores do passado

Quando uma minissérie, não muito acessível até então (agora está disponível no HBO Max), começa a fazer sucesso no boca a boca, alguma coisa boa tem ali. Ainda assim, não esperava encontrar o show mais completo do ano, onde dificilmente surgirá algo tão bom quanto em 2021. São 7 episódios precisos, que seguem uma narrativa absurdamente bem amarrada.

Nos subúrbios de Filadélfia, Mare (Kate Winslet) busca solucionar o assassinato de uma jovem, enquanto tenta impedir que sua própria vida desmorone. É um grande estudo de uma personagem que só cresce aos nossos olhos. Mare é aprisionada por um constante sentimento de culpa e está cercada de luto, de perdas e seus traumas caminham juntos em suas investigações. Tudo, no fim, vira uma questão pessoal, de acertos com o passado, de perdão próprio. Neste sentido, é interessante como o ótimo texto explora o acontecimento em uma cidade pequena, onde os moradores se conhecem, sabem um do outro e grande parte deles são suspeitos de cometer um crime. Melhor ainda, é quando todos esses personagens recebem atenção do roteiro e todos ali possuem uma função, um momento.

Em “Mare of Easttown” nada parece excesso, uma sobra. Cada pequeno detalhe terá sua importância na trama, mais cedo ou mais tarde. É, ainda, brilhante em como a minissérie consegue abraçar essa pluralidade de histórias e sentimentos, conseguindo ser doce, engraçada e ao mesmo tempo tão sensível, tão emocionante. O roteiro não se perde e sabe trazer cenas do cotidiano, sem esquecer de seus mistérios e da humanidade de cada indivíduo. Tudo tem seu tempo em cena e flui perfeitamente bem. Se tudo isso não fosse o bastante, a trama surpreende e ganha mais pontos ao não segurar seus segredos até o último segundo. Não usa do suspense como muleta para manter a audiência atenta. Cada episódio tem uma grande revelação e acompanhamos as consequências de cada uma delas. Aquele “depois” que os roteiros sempre nos omitiram.

Kate Winslet já é a atriz do ano. Que papel incrível. É lindo o que ela faz cena e o que ela entrega. Melhor ainda é quando ela funciona perfeitamente bem com todo o elenco. Sua troca com Evan Peters, Guy Pearce e principalmente com Jean Smart e Julianne Nicholson é de outro mundo. As duas últimas atrizes, inclusive, já merecem serem reconhecidas nas próximas premiações também, além de Kate, obviamente. Algo que me encantou muito nesses personagens é que o texto não os limitava em ser “a detetive 24 horas por dia”, “a mãe”, “a melhor amiga”. Todos vão além, tem camadas a ser exploradas. O humor, com certeza, ajuda nesta identificação e nessa afeição que passamos a ter com todos eles. A comédia aqui é certeira e vem sempre para preencher, revelando esses instantes afetuosos entre família e amigos. Vem de forma natural, como parte das boas conversas.

“Mare of Easttown” é completa. Traz uma história não tão original, mas a forma como a traz é que nos fascina. É brilhante e não há um ponto sequer fora da curva. Respeita seus bons mistérios e seus grandes personagens. Chegar aqui pela Kate Winslet já vale muito a pena, a sorte é que a minissérie entrega muito mais, inclusive um final fantástico que faz toda essa jornada ser recompensada e ser, definitivamente, um marco desse ano.

NOTA: 10

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: HBO Max
Duração: 7 episódios / 440 minutos
Diretor: Craig Zobel
Roteiro: Brad Ingelsby
Elenco: Kate Winslet, Julianne Nicholson, Jean Smart, Evan Peters, Guy Pearce, Angourie Rice

Crítica: Luca

Se camuflando para viver em sociedade

Os filmes da Pixar possuem um certo poder. Mesmo quando assumem a simplicidade da trama, conseguem extrair algo grande dali e transborda. Com “Luca” não é diferente. É preciso ressaltar, porém, que como qualquer obra de arte, cada pessoa vai extrair e interpretar algo diferente dali. A forma como esta nova animação vai te tocar vai depender de sua bagagem emocional, de suas próprias experiências. Encarar a trama como uma analogia à homossexualidade é um caminho aceitável, assim como qualquer outra linha de interpretação. Mas é assim que eu a vejo e é com este olhar que a obra me tocou, e me tocou profundamente.

Luca é um dos personagens mais fofos da Pixar. Ele é uma criatura marinha que desde pequeno aprendeu a ficar longe da superfície e dos “monstros terráqueos”. Mas como toda criança, ele tem sede por ir além, por descobrir esse universo que não se pode chegar. É com essa curiosidade que seu caminho cruza com o de Alberto, um jovem que arriscou a viver na terra ao perceber que, ao atravessar o mar, ganhava a fisionomia de um humano. Esta amizade dá início a um sonho e um novo plano de vida: se passar por um garoto como todos os outros e ganhar dinheiro para comprar uma Vespa e fugir para bem longe dali.

Roteirizada pelo escritor Jesse Andrews, de “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”, a obra explora pouco os costumes do local onde ocorre a trama, focando mais na bela trajetória dos personagens, do qual narra com muita doçura. Ainda que seja, visualmente, uma das produções menos inventivas do estúdio, eles alcançam um nível admirável de texturas e cores. É mais um belo trabalho, que cativa e encanta. Os coadjuvantes são bem divertidos também, como Giulia e os pais de Luca. Perde um pouco com a presença do vilão, que quase nunca entrega um bom momento.

A Vespa é símbolo de liberdade e é esta liberdade que os personagens buscam, longe dessas pessoas que lhe dizem o que são e para onde vão. É sutilmente comovente este medo da mãe, que teme, não por saber quem é Luca, mas por saber como o mundo lá fora o vê e, consequentemente, o rejeita. O protagonista, por sua vez, encara tudo com inocência e vê a vida com um entusiasmo inspirador. Ele vai viver como um garoto comum, se camuflando na multidão, apagando sua própria identidade. Em um dos momentos mais fortes do filme, a trama nos leva a revisitar um lugar de dor. Este lugar no passado quando tentamos com tanta garra nos igualar aos demais que passamos a acreditar e ver os nossos iguais com diferença. O poder desta nova animação da Pixar é usar de uma ideia tão simples para construir uma metáfora brilhante sobre homoafetividade. Esta liberdade que os dois garotos buscam não está na fuga, está neste solo em que pisam, está em viver como monstros marinhos e serem aceitos como tal. Sem medo, sem rejeição e sem essas tantas barreiras impostas que os impedem de ser como todos os outros.

“Você me tirou daquela ilha. Eu estou bem”.

“Luca” é sobre aceitação, respeito e entender que tudo bem ser diferente dos outros. É uma mensagem muito necessária e que pode trazer um impacto muito positivo para as crianças, além de dialogar com muitos adultos que enfrentaram essas tantas lutas na infância. O filme nos lembra que nem todas as pessoas vão nos aceitar. Acaba que sendo uma missão, então, identificar aquelas que vão e nos certificar de que sempre estaremos cercados por elas.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Disney Plus
Duração: 101 minutos
Diretor: Enrico Casarosa
Roteiro: Jesse Andrews
Elenco: Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Maya Rudolph

Crítica: Relíquia Macabra

O tenebroso ciclo da vida

Alguns temas são difíceis de serem tratados no cinema e por isso é tão raro vê-los em pauta. Por muito tempo senti realmente falta de obras que falassem sobre Alzheimer e tivessem a sensibilidade necessária para falar do assunto de forma responsável e necessária. Se há pouco me deparei com a grandeza de “Meu Pai”, agora me deparo com “Relíquia Macabra”. Existe coragem em usar do terror para expor algo tão íntimo e doloroso. O terror é aquilo que evitamos ver, evitamos sentir. Interessante, então, nesse sentido, em como a jovem cineasta Natalie Erika James explora o gênero para revelar aquilo que tanto tememos, mas inevitavelmente enfrentamos. O envelhecimento e o esquecimento da nossa própria existência.

Produzido por Jake Gyllenhaal e com produção executiva dos Irmãos Russo, o longa coloca em cena três mulheres de diferentes gerações, que são confrontadas por esse tenebroso ciclo da vida. Quando a avó, que já apresenta sinais de demência, desaparece, a filha e a neta retornam para a casa no intuito de encontrá-la e compreender o que aconteceu. Como um bom terror exige, tudo é mais sinistro do que parece. E acredito que esta seja um pouco sua falha. Mesmo com um material tão rico, às vezes, opta pelo susto óbvio para ser mais acessível. No entanto, isso não diminui seu impacto e beleza de suas intenções quando são reveladas.

Em “Relíquia Macabra”, a diretora cria uma atmosfera de tensão que nos mantém intrigados. As cores frias, a escuridão das cenas, a bagunça daqueles pequenos espaços. Tudo causa um certo incômodo e, por fim, ilustram bem os sentimentos daquelas mulheres e da confusão e medo que é ter que lidar com uma situação tão delicada, sem precedentes. O corpo da avó é como as estruturas em decomposição da casa, se diminuindo, sendo engolida pelo tempo. Poderosos os instantes em que ela ingere suas fotografias ou quando, dentre tantos bilhetes que escreve para se recordar de atos corriqueiros, é onde anota sua maior indagação: se ainda é amada.

A verdade é que não me recordo a última vez em que um filme de terror me emocionou. Provável porque vivo parte dessa dor que o filme relata dentro de casa, parte desse medo diante do incerto, diante desse ciclo que um dia pode me alcançar. O final me levou às lágrimas diante do poder de suas imagens e do belíssimo acontecimento que encerra essa jornada. Como é difícil despir o que ontem era inteiro, ter que encontrar a força para cuidar de alguém se foi, mas ainda está ali. Como é difícil amar o que você não mais reconhece.

NOTA: 8,0

País de origem: Austrália, EUA
Ano: 2020
Título original: Relic
Disponível: Telecine Play
Duração: 85 minutos
Diretor: Natalie Erika James
Roteiro: Natalie Erika James
Elenco: Emily Mortimer, Bella Heathcote, Robyn Nevin

Crítica: Em Um Bairro de Nova York

O grito poético dos que sonham

Antes de alcançar o estrelato com “Hamilton”, o compositor e dramaturgo Lin-Manuel Miranda deu seu primeiro passo com o musical “Em Um Bairro de Nova York”. O rap, a agilidade dos diálogos e a força das canções retornam nesta adaptação que finalmente ganha as telas do cinema. Fazia tempo em que não via um filme do gênero desta grandiosidade, que mais parece um milagre de como o diretor Jon M.Chu conseguiu encaixar tudo em uma única produção. É aquela obra que explode, que grita e nos emociona, nos faz querer sair dançando por aí.

Somos levados a conhecer as ruas de Washington Heights, dominada pela música e pela cultura dos imigrantes latinos. É ali que vive a alma sonhadora de Usnavi (Anthony Ramos), que batalha todos os dias em seu mercadinho para realizar seu “sueñito” de retornar para a República Dominicana. Ele tem o dom de contar histórias e dentro dele cabem todas aquelas que vê ao seu redor. De pessoas, assim como ele, que lutam por um sonho, por uma vida melhor. É desta forma que o filme vai costurando inúmeras subtramas e vamos conhecendo cada uma dessas trajetórias. Nem sempre isso flui bem dentro do roteiro, ainda mais quando a maioria delas funciona isoladamente e nem sempre como um conjunto. A trama acaba se desgastando um pouco quando o discurso de todos eles é o mesmo e cansa. No entanto, é admirável a forma como cabe tanta história dentro da obra e como o texto prova ter um imenso carinho por todos os personagens ali em cena. Consequentemente, passamos a ter empatia por todos eles e nos emocionar com os relatos de cada um. Além disso, os ótimos números musicais não permitem ao filme perder o ritmo nunca.

“Pequenos detalhes que mostram ao mundo que não somos invisíveis”. É lindo como “In The Heights” dá visibilidade para essas histórias de luta, de orgulho dessa herança latina e dessas tantas misturas que preenchem Nova York. Todas as canções são poderosas e ilustram muito bem os sentimentos e desejos dos personagens. O hip-hop em uma interessante mescla com salsa e bolero atingem instantes de glória. Mais do que falar sobre sonhos, a música vem como um manifesto político (e poético) contra essa marginalização de comunidades imigrantes nos Estados Unidos. A escolha do elenco é bastante certeira ao trazer diversidade, apesar das críticas que recebeu, vejo como um grande passo. É tudo aquilo que “West Side Story”, nos anos 60, se negou a ser.

“Em Um Bairro de Nova York” revela o grande momento do cineasta Jon M.Chu. É milagroso e imenso o que ele realiza aqui. As batidas chegam na nossa alma e ficamos ali hipnotizados pela velocidade das cenas e pela organização milimétrica das coreografias, como no belíssimo e longo número musical de introdução, à divertida sequência na piscina ou ao impecável instante final. É um filme que tem uma energia inesgotável, que vibra, que pulsa em cada pequeno detalhe. Que bom ter um ator com a força de Anthony Ramos para nos guiar a esta viagem apaixonante. É comovente a postura dele diante das cenas, a paixão que ele deposita em cada canção.

Temos aqui a produção que revitaliza o gênero com êxito. Fazia tempo que o cinema nos devia um musical dessa altura e “In The Heights” voa muito alto.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: In The Heights
Disponível: Cinemas
Duração: 142 minutos
Diretor: Jon M. Chu
Roteiro: Quiara Alegria Hudes
Elenco: Anthony Ramos, Melissa Barrera, Corey Hawkins, Gregory Diaz, Leslie Grace