Crítica: A Maldição da Mansão Bly

A segunda temporada da série antológica da Netflix vem com um grande peso nas costas: manter a qualidade oferecida na fantástica “A Maldição da Residência Hill”. É natural que essa expectativa exista e, infelizmente, “Mansão Bly” não é apenas inferior à sua antecessora. Sou mais radical nesse caso…não chega aos pés.

Inspirada levemente na obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso”, que por sua vez já foi adaptada outras vezes para a tela como em “Os Inocentes” (1961), “Os Outros” (2001) e mais recentemente em “Os Órfãos” (2020). Acompanhamos a chegada de uma tutora em uma mansão vitoriana para cuidar de duas crianças órfãs. Logo percebemos que algo de assombroso ocorre dentro daquelas paredes e a série, aos poucos, se propõe a dar suas respostas, que nunca surgem de forma clara ou muito óbvia. O que é ótimo, visto que nosso olhar já vai preparado por se basear em um material tão conhecido, e o roteiro, com toda sua liberdade narrativa, se arrisca a trazer novos detalhes, quase como se expandisse esse universo criado por James. No entanto, tudo o que a trama nos oferece de “novo” é mal trabalhado e pouco causa interesse.

A série encabeçada por Mike Flanagan, erra mão ao sair do campo da sugestão, tão brilhantemente proposto na obra original. O roteiro busca saídas tolas como respostas, como dar vida a Dama do Lago ou o insuportável Peter Quint com seus planos vilanescos. Toda essa narrativa que cria para justificar seus bons mistérios ganha traços de um novelão melodramático e mal conduzido, inserindo, ainda, tramas de amor tão forçadas que são dificílimas de engolir. A ideia de construir uma narrativa através de flashbacks e fluindo entre diferentes tempos, funciona quando se tem um material rico a ser explorado, o que não é o caso. A ida e vinda de uma trama tão linear como a que oferece, só transforma o show em algo repetitivo e cansativo, revelando de forma maçante os mesmos eventos.

Falta, principalmente, carisma aos personagens que guiam tudo isso. Não há como torcer, vibrar ou sofrer por ninguém que nos apresenta, tamanha a confusão e enrolação que entrega. Me afasta, ainda, as tantas frases de efeito, que surgem como se cada situação da trama viesse pelo simples ato de deixar uma lição de moral. Os indivíduos ali tem sempre um ensinamento calculado por trás de cada ação. É chato, é pedante. Ao menos, confesso, gosto do elenco, em especial as crianças e a hipnotizante presença de T’Nia Miller como governanta. Victoria Pedretti, por sua vez, tem potencial, mas sua performance é incômoda. Seus tantos trejeitos e expressões de boa moça destoam de todo o resto.

Vale destacar a produção, que segue ainda mais cuidadosa nos detalhes. O terror é construído pela atmosfera e pelos elementos que ilustram cada momento. Das cores opacas e frias – muito presentes na filmografia de Flanagan – à iluminação que traz uma áurea fantasmagórica para suas cenas.

“Não é uma história de fantasmas, mas uma história de amor”. Enquanto que a primeira temporada conseguiu com brilhantismo trilhar entre o drama e o terror, os roteiristas aqui falham nesta missão, onde a série não funciona em nenhum dos tantos gêneros que tenta abraçar. Terror não é feito só de sustos e é fantástico quando uma obra entende isso. Mas essa saída ousada não transforma “A Maldição da Mansão Bly” em algo bom, quando o que oferece além da tensão é tão pobre. O que antes era uma produção promissora na Netflix, morre cedo.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: The Haunting of Bly Manor
    Disponível: Netflix
    Elenco: Victoria Pedretti, T’Nia Miller, Oliver Jackson-Cohen, Henry Thomas

As Mortes de Dick Johnson

De longe, “As Mortes de Dick Johnson” pode parecer macabro. E de perto ele é sim, ainda que a intenção seja fazer algo comovente. A cineasta Kirsten Johnson teve uma mirabolante idéia para seu documentário: criar e filmar diferentes versões da morte de seu pai, como forma de lidar melhor com a iminente despedida deste simpático homem que sofre de demência.

Mesmo que seja nobre a intenção da diretora que tenta, de forma bem humorada, dizer adeus a seu pai – e, por vezes, consegue fazer um delicado relato sobre Alzheimer – incomoda essa exposição de um momento tão delicado para realização de seu filme. Nos faz duvidar o quão sincero é este sentimento exposto, que precisa simular uma câmera desligada para capturar um momento de comoção. É estranho ver aquele homem, que distante do juízo, é colocado em situações desconfortáveis como sangrando até a morte ou reencontrando com a falecida esposa. Na tela é lindo, mas assusta quando usa da dor de tanta gente para a concretização deste ensaio da morte.

É um ato egocêntrico. A interferência e manipulação da cineasta é tanta que a obra se afasta do documental, deixando de imprimir honestidade. A emoção existe, ela é tátil, mas se bem enquadrada, segundo a diretora, é ainda melhor. Parece se divertir com aquilo que diz ter tristeza, criando um jogo sádico e de mal gosto sobre alguém que mal tem controle de suas ações.

NOTA: 6,5

  • Duração: 89 minutos
    Disponível: Netflix
    Direção: Kristen Johnson
    Elenco: Dick Johnson, Kristen Johnson

Vestido Maldito

Retorno do diretor Peter Strickland, depois do elogiado “The Duke of Burgundy”, que aqui cria uma atmosfera única e fascinante dentro do terror. A trama é centrada em um vestido amaldiçoado e item desejável de uma loja de departamentos que traz consequências assustadoras para aqueles que o compram.

Há uma certa comicidade em toda sua concepção e é ótimo quando o filme não se leva tão a sério. Strickland desenha um universo um tanto quanto fascinante aqui, onde através de elementos gráficos tão fortes e de referências visuais certeiras – explorando o retrô – torna possível nossa imersão a sua fantasia. A brilhante trilha sonora composta pela banda Cavern of Anti-Matter, só enriquece a experiência.

No entanto, mesmo com suas qualidades gritantes, “Vestido Maldito” morre muito antes de acabar. O grande equívoco aqui é separar a trama em dois capítulos, principalmente quando a parte final é completamente sem brilho, onde o roteiro jamais justifica sua existência. É assim que o filme que nasce com uma grande premissa cava um buraco que não consegue mais se reerguer. Falta, ainda, um texto que unisse todos esses bons elementos que tem em mãos e construísse algo melhor estruturado, sem que parecesse apenas um refinado rascunho. O resultado final é frustrante porque suas ótimas ideias não chegam a lugar algum.

NOTA: 5

  • Duração: 118 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Peter Strickland
    Elenco: Marianne Jean-Baptiste
    , Fatma Mohamed, Richard Bremmer, Gwendoline Christie

Borat: Fita de Cinema Seguinte

Quatorze anos depois, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” não poderia ter vindo em hora mais oportuna. O ator Sacha Baron Cohen retorna com seu glorioso repórter do Cazaquistão para revelar o atual caos em que vivemos. Ele volta aos Estados Unidos para dar um presente ao vice-presidente Mike Pence e finalmente ganhar o respeito de Trump, beneficiando sua nação depreciada. Devido alguns incidentes, ele decide presenteá-lo com a própria filha.

Em período de eleição, o longa vem com timing perfeito, usando do humor nonsense do personagem para escancarar o ridículo de tantos discursos conservadores que dão palco e ascensão para governantes patéticos. É um texto provocativo, que ainda consegue extrair reações reais de suas “vítimas”, causando um certo impacto pelos absurdos que expõe. 

Um filme repleto de boas sacadas, onde o diretor Jason Woliner consegue amarrar bem o documentário com a trama ficcional que constrói ali. É brilhante sua virada final que envolve ainda a pandemia do coronavírus e a relação do repórter com sua filha, interpretada pela ótima Maria Bakalova. É uma piada que confronta, que incomoda e justamente por isso é tão necessária.

NOTA: 8,5

  • Duração: 95 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Jason Woliner
    Elenco: Sacha Baron Cohen, Maria Bakalova

Crítica: On The Rocks

O laço que se rompe

Mesmo sempre carregada de muita expectativa sobre seus trabalhos, é interessante como a cineasta Sofia Coppola parece nunca ter se rendido a essas tantas apostas. Depois de uma brilhante carreira, ela ressurge em 2020 com um filme extremamente descompromissado, sem a intenção de reafirmar nada, sem a pretensão de provar aquilo que é tão visível, seu talento como diretora e roteirista. Ainda que traga traços de alguns filmes anteriores como o casamento fragilizado de “Encontros e Desencontros” e a relação de pai e filha presente em “Um Lugar Qualquer”. Coppola visita antigos temas da qual ela sempre sentiu grande afinidade sem deixar de entregar algo novo, distante do já entregou. Seu cinema segue leve e confortável, ainda assim, espontaneamente refinado.

Inspirada, mais uma vez, em sua relação familiar, Coppola desenha uma sensível trajetória de redescoberta e rompimentos. Se em “Um Lugar Qualquer”, a filha de um famoso ator sofre por sempre vê-lo partir e pede para que ele finalmente fique ao fim, em “On The Rocks”, a cineasta volta a falar sobre esta forte relação com seu pai, este ser excêntrico e fascinante do qual ela tem dificuldade em se ver distante. Parece um ciclo que se fecha, dela finalmente se libertando, entendendo que chega um instante em que precisa construir sua jornada independentemente. Neste sentido, Laura, interpretada por Rashida Jones – que na vida real é amiga de Sofia e também filha de um famoso, o produtor musical Quincy Jones – soa quase como um alter ego. Da mulher que precisa lidar com a pressão de ser esposa e mãe, cuidar da casa e das filhas e ainda encontrar inspiração para escrever. Enfrentando um forte bloqueio criativo em sua profissão, ela ainda passa a desconfiar que seu marido a esteja traindo. É neste cenário de incertezas que entra em ação seu pai canastrão, marcando mais uma parceria entre a diretora e o ator Bill Murray. Ele alimenta a paranoia da filha para que juntos tracem um plano de perseguição, quase como uma aventura para reafirmar de que ela não precisa de outro homem na vida além dele.

Trata-se de um instante ainda muito maduro de Sofia Coppola. Há sutileza na sua escrita e uma boa dose de sensibilidade. Os acontecimentos fluem de forma natural, sem atropelamentos e sem jamais parecer óbvio. É prazeroso embarcar em seu texto porque mesmo na simplicidade ele nos envolve, nos preenche e emociona mesmo quando não tem a pretensão. É belo essa relação que costura entre Felix e Laura. Pai e filha. Ele que ressurge para fazê-la se sentir especial em um momento de vulnerabilidade, de insegurança. Ao fim, compreendemos que essa jornada que ele cria ao lado dela, motivada por uma suposta traição, nada mais é que seu pedido de desculpas, sua chance de reaproximação diante dos erros que cometeu no passado. Ele cria esta aventura para estar ao seu lado, mesmo que no fim ela entenda que é hora de escrever a sua própria, enfim, distante das escolhas de seu pai.

Um grande prazer se deixar levar por mais este fascinante trabalho de Sofia Coppola. É uma produção deliciosa, que conta ainda com belíssimas paisagens e locações, que só enriquecem a narrativa, além da ótima trilha sonora composta pela banda Phoenix. Bom, ainda, poder ver Rashida Jones ganhando um bom papel no cinema. Ela tem um carisma imenso e merece mais chances como esta. E sem surpresas, Bill Murray entrega mais uma ótima atuação. O filme ainda conta com boas participações de Marlon Wayans e Jenny Slate. “On The Rocks” é, apesar de suas sutilezas, um produto subjetivo, podendo ter significados diversos para cada pessoa. Vejo como um honesto relato sobre solidão e sobre essa nossa busca por ser amado, encontrar aquela pessoa que divida uma aventura ao nosso lado. É assim que acaba por dizer o quanto, as vezes, é exaustivo amar, estar a altura da outra pessoa, aceitar erros e enfrentar nossos tantos receios e inseguranças para se manter em uma relação.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 96 minutos

    Distribuidor: Apple
    Diretor: Sofia Coppola
    Roteiro: Sofia Coppola
    Elenco: Rashida Jones, Bill Murray, Marlon Wayans, Jenny Slate

Crítica: Get Duked

Produzida por Tobey Maguire, a comédia “Get Duked!” é absurdamente insana. Pode afastar grande parte do público pelo nível elevado de brisa, mas pode surpreender positivamente também, o que é o meu caso. Trata-se de um produto original, revigorante e um prato cheio para os admiradores do humor ácido britânico.

A divertida trama gira em torno de um grupo de jovens infratores que são indicados à completar uma tradicional caminhada para ganhar um prêmio, símbolo de uma readequação social. No entanto, nas altas montanhas que caminham, passam a ser alvos de aristocratas que matam por puro esporte, eliminando, assim, aqueles indivíduos que arruinam a integridade da espécie.

Com roteiro ágil e ótimas sacadas, o filme é um experimento inventivo, que diverte sem deixar de passar suas poderosas mensagens. No meio de seu sarcasmo, o longa acerta essa ferida da alta sociedade que se sente ameaçada quando pessoas menos privilegiadas passam a ganhar oportunidades. Como é bom e raro encontrar comédias assim! Bizarro, inteligente e insanamente adorável.

NOTA: 8

  • Duração: 87 minutos
    Disponível: Prime Video
    Direção: Ninian Doff
    Elenco: Samuel Bottomley, Viraj Juneja, Rian Gordon, Lewis Gribben

Crítica: O Mistério de Silver Lake

Uma geração sem mais enigmas

Segundo longa-metragem de David Robert Mitchell após o elogiado “Corrente do Mal”. Ele volta a trabalhar em filme de gênero, mas amplia aqui suas possibilidades, sem receios de caminhar pela comédia e o suspense. Tem um toque de erotismo também e do estilo noir, onde um jovem caminha pela cidade para desvendar um cabuloso mistério. Há muita intenção condensada em único filme, buscando fortes referências à Hitchcock e esta força dos símbolos dentro de suas composições e, principalmente, às pirações de David Lynch. Enquanto que sua ação ocorre em Los Angeles, o cineasta aproveita para costurar uma grande homenagem ao cinema e as estes tantos nomes que deixaram um legado. No melhor estilo de “Cidades dos Sonhos”, que coloca Hollywood como parte central de sua trama, “O Mistério de Silver Lake” é o mais próximo de Lynch que o cinema recente alcançou.

É curioso como o filme vai sendo construído, onde seu protagonista traça uma jornada sem muito sentido e seguindo um rumo repleto de imprevisibilidades. Existe uma lógica que, até grande parte da trama, parece existir apenas em sua cabeça. Sam (Andrew Garfield) é um jovem perdido e punheteiro que entra em uma grande paranóia quando sua vizinha desaparece subitamente e um assassino de cachorros está a solta pelas ruas. Decidido a entender o que de errado está acontecendo, ele passa a procurar pistas nos mais improváveis lugares e achar uma razão para tanta insanidade. Seja em uma embalagem de sucrilhos ou nas HQs que coleciona, tudo passa a ser alvo de suas investigações. É uma busca um tanto quanto cômica e existe brilhantismo nesta aleatoriedade do roteiro. David Robert Mitchell cria uma cosmologia própria, que ganha proporções cada vez mais bizarras e fascinantes. Há uso de muitos simbolismos aqui, deixando rastros de significados que podem não ser claros à primeira visita.

Sam é o retrato de uma geração desmotivada, que segue sem grandes perspectivas. Vive sua vida banal sabendo que não haverá nenhuma recompensa por seus atos. Tem forte apego e é completamente dependente da cultura pop, que são uma das raras coisas com significado em sua rotina. “O Mistério em Silver Lake” diz muito sobre essa geração que não mais cria, vive apenas do reflexo do que já foi dito, escrito, inventado. Que aplica sentimentos e significados variados à qualquer item como forma de mantê-los motivados ou intrigados por alguma coisa nova. Nós não temos mais os vampiros e lobisomens, mas nem por isso deixamos de desenvolver nossas próprias paranoias. Criar este mistério para Sam é quase como uma necessidade, uma prova de que ainda está vivo. O longa ainda aproveita para debater justamente esta fragilidade da cultura atual, que ainda que depositemos sensações e representações à tantos ícones, muitas vezes essas criações são apenas fruto da ganância de alguém. No meio de toda essa loucura e da comicidade de tudo isso, a obra não deixa de plantar uma semente da dúvida em nós, que por alguns minutos passamos a vivenciar dessas conspirações e a questionar se de fato há mais significado por de trás de tudo aquilo que consumimos.

O grande acerto do filme é não se levar a sério. É entender o quão absurdo é e fazer piada de si mesmo. Há coragem em cada saída encontrada e uma originalidade que falta no cinema atual. Ser comparado com Lynch é o maior elogio que essa obra poderia receber e finalmente tivemos algo à altura dessa comparação. Claro, é preciso abstrair muito para se deixar levar por tantas pirações, mas é uma viagem gratificante, insana sim, mas altamente genial. David Robert Mitchell se mostra, mais uma vez, um diretor notável, nos fazendo mergulhar nas neuras de seu protagonista, muito bem defendido por Andrew Garfield. O que vale aqui não são as respostas ou as resoluções de sua trama, mas o caminho que percorre até chegar lá.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 136 minutos
    Título original: Under The Silver Lake
    Distribuidor: –
    Diretor: David Robert Mitchell
    Roteiro: David Robert Mitchell
    Elenco: Andrew Garfield, Riley Keough, Grace Van Patten, Jimmi Simpson, Topher Grace, Zosia Mamet

Crítica: Gabriel e a Montanha

“Gabriel e a Montanha” é um filme especial. Daqueles que se visto no momento certo da vida, pode ter um significado ainda mais profundo. É assim que me encontro com esta obra que, mais do que contar uma trágica história real, faz um belo tributo a alma deste jovem chamado Gabriel que, aos 28 anos de idade, morreu nas altas montanhas no Malaui, enquanto fazia sua viagem de descobertas pela África, apenas 10 dias antes de retornar ao Brasil.

O estudante fazia sua jornada de forma sustentável, gastando pouco e buscando abrigo com estranhos, se permitindo conhecer de perto a cultura e história do povo africano. O diretor Fellipe Barbosa era amigo de Gabriel e realiza aqui um trabalho bastante pessoal. Há uma beleza indescritível que permeia por toda a obra e uma honestidade que torna tudo ainda mais intenso, mais doloroso. Ao visitar os locais e pessoas reais, o filme nos atinge e espanta pela qualidade e brilhantismo com o qual domina essa linha tênue entre ficção e documentário.

O longa evita o caminho mais fácil e não desenha Gabriel como herói ou uma santidade. Ele era humano, cheio de falhas e é fantástico como o roteiro não ignora seus privilégios. O ator João Pedro Zappa é gigante, traz força e uma espontaneidade adorável à seu personagem. Acreditamos em sua bondade, em sua paixão e em suas fragilidades. Existe poesia em cada minuto deste filme, que mergulha de coração nesta jornada solitária e libertadora. Um filme imenso, inundado de sentimento e verdade. Sem dúvidas, uma das produções nacionais mais incríveis que tive a chance de conhecer nos últimos anos.

NOTA: 9

  • Duração: 131 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Direção: Fellipe Barbosa
    Elenco: João Pedro Zappa, Caroline Abras

Crítica: Os 7 de Chicago

O espetáculo da fórmula

O roteirista Aaron Sorkin chamou a atenção da crítica, há dez anos atrás, quando usou do tribunal para investigar a mente de Mark Zuckerberg no irreparável “A Rede Social”. Ele retorna a este ambiente para contar mais um evento real, desta vez, focando no longo e histórico julgamento dos “7 de Chicago”, quando um grupo de ativistas foi acusado de incitar tumulto enquanto protestava nas ruas contra a Guerra do Vietnã.

O filme quase todo é centrado dentro do tribunal, com alguns pouquíssimos flashbacks que nos situam ao que realmente aconteceu. Sorkin é mestre nessas longas discussões, contando sempre com um texto verborrágico e de poucas pausas. Ainda que narre um acontecimento do final da década de 60, os debates que consegue extrair de tudo isso é extremamente atual e relevante. É assustador e causa incômodo, não apenas pela postura violenta da polícia, como o despreparo do juiz diante do caso, criando um espetáculo do qual ele já tem certo sobre quem são os culpados e as vítimas da história.

Apesar das boas reflexões que deixa, “Os 7 de Chicago” é formulaico e frustra ao se deixar cair nas armadilhas do subgênero. O falatório é calculado e mais clama por um Oscar do que por honestidade. O grande pecado do texto é se apegar ao julgamento e esquecer daqueles que estão sendo julgados. Passamos o filme todo vendo detalhes ricos das discussões sem jamais conhecer os verdadeiros personagens da história. Aaron Sorkin pode demonstrar grande conhecimento de tribunais, mas esquece das vidas que preenchem aquele espaço. Sabemos o que eles fizeram, mas jamais sabemos quem eles foram.

Como diretor, Sorkin também segue as fórmulas e não reinventa aquele ambiente, sendo visualmente tedioso. Ao menos ele acerta na condução do elenco, extraindo ótimas atuações principalmente de Sacha Baron Cohen, Yahya Abdul-Mateen II, Frank Langella e Mark Rylance. Eddie Redmayne me surpreendeu também. Havia tempo que não o via tão livre de seus tantos trejeitos.

Ao fim, o diretor ainda nos presenteia com um momento surpreendentemente piegas, com trilha sonora pesada e bastante desconexo com o que havia apresentado até ali, optando por uma dramaticidade desastrosa que diminui a força de seus bons discursos.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 129 minutos
    Título original: The Trial of the Chicago 7
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Aaron Sorkin
    Roteiro: Aaron Sorkin
    Elenco: Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, Alex Sharp, Frank Langella, Michael Keaton, Yahya Abdul-Mateen II
    , John Carroll Lynch

Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman