Crítica: Fuja

Suspense dinâmico com história rasa

Retorno do jovem cineasta Aneesh Chaganty, depois do excelente “Buscando…”, temos aqui um suspense bastante conciso, que prende a atenção durante seus rápidos 90 minutos. Esse ritmo acelerado pode trazer uma certa empolgação, mas definitivamente, enfraquece sua ideia, pobremente desenvolvida.

Ainda que não seja, oficialmente, inspirado em nenhum caso real, a trama rapidamente faz lembrar da assombrosa história de Gypsy Rose, a filha refém da própria mãe que a fez acreditar ser doente a vida toda e que foi encenada, recentemente, na fantástica minissérie “The Act”. É muito difícil analisar “Run” sem fazer essa ligação, ainda mais quando o roteiro traz diversas similaridades. O início das desconfianças, o roubo dos doces, o uso escondido da Internet e a sequência no cinema de rua. São inúmeras situações já narradas em um produto muito fresco em nossa memória, o que torna suas criações bastante previsíveis, prejudicando a construção do suspense, que já vem entregue em seus primeiros minutos.

O grande erro de “Fuja” é já começar, pela pressa, desconstruindo um universo que não foi estabelecido previamente. A trama começa com um clima de desconfiança entre mãe e filha sem antes sabermos (e sentirmos) a importância dessa conexão. É frágil esse cenário que cria quando não há indícios da vida que elas levavam, principalmente porque o roteiro é extremamente raso ao desenhar essas duas personagens e essa vida de isolamento e sacrifícios que, supostamente, enfrentaram por 17 anos. Não há nada na personalidade delas que seja reflexo disso.

O suspense pode ser bem armado pelo diretor, mas o texto enfraquece a experiência como um todo, tendo escolhas absurdamente tolas, como quando a mãe prende a filha no escritório com todos os segredos “guardados” ali bem à sua frente para serem revelados. Ao menos conta com boas atuações das duas atrizes, Kiera Allen e Sarah Paulson e acerta ao apresentar uma grande última cena.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Run
    Disponível: Netflix
    Duração: 90 minutos
    Diretor: Aneesh Chaganty
    Roteiro: Aneesh Chaganty
    Elenco: Kiera Allen, Sarah Paulson

Crítica: Alma de Cowboy

Cultura ocultada

A temporada do Oscar acaba ofuscando boas produções que chegam nesta época do ano e “Alma de Cowboy” é uma delas. O longa revela a história real dos Cowboys negros da Filadélfia, que ainda nos tempos atuais traçam uma caminhada de luta e resistência. É desta forma que o filme se torna bastante necessário, por dar visibilidade a uma cultura tão ocultada e abrir campo para discutir gentrificação e como os espaços urbanos vão sendo alterados tendo o racismo como condutor.

A trama, baseada no livro de Greg Neri, tem como base uma premissa comum, a do filho que retorna para a casa do pai e precisa se adequar às novas regras. O que deixa essa jornada intrigante é que o jovem em questão é inserido em uma realidade incomum, tendo que dividir seu espaço com um cavalo e os Cowboys da Rua Fletcher. Há um descompasso entre aquela comunidade e o tempo em que o garoto vive. O filme acaba sendo sobre este encontro, dele perceber que enquanto ele busca por um lar, aquelas pessoas buscam o refúgio delas também, diariamente, mantendo os estábulos vivos e se mantendo firmes enquanto a cultura delas estão sendo apagadas.

Apesar da previsibilidade desta relação entre pai e filho e da superficialidade com que encerra alguns conflitos, a obra acerta bastante na ambientação e neste poder de nos conduzir para dentro de seu universo tão único e inesperadamente poético. O filme vê beleza na rotina, no trabalho, nas conversas corriqueiras. É belo a forma em que o diretor Ricky Staub ilustra tudo isso, trazendo, inclusive pessoas reais em cena, criando uma atmosfera ainda mais realista e honesta. Um trabalho sensível e que merece destaque no extenso catálogo da Netflix.

NOTA: 8

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2021
    Título original: Concrete Cowboy
    Disponível: Netflix
    Duração: 101 minutos
    Diretor: Ricky Staub
    Roteiro: Ricky Staub
    Elenco: Caleb McLaughlin, Idris Elba, Lorraine Toussaint

Crítica: Nomadland

As histórias que ficam pelo caminho

Existe uma linha tênue que separa o documental e a ficção no cinema de Chloé Zhao. Eles se misturam em suas narrativas e dentro delas não é mais possível separá-los. Em “Nomadland”, ela faz um registo bastante íntimo sobre o fenômeno crescente de pessoas que, em território norte-americano, buscam por trabalhos sazonais em uma viagem sem rumo por todo o país. Somos levados a conhecer um pouco dessa vida nômade pelo singelo olhar de Fern, brilhantemente interpretada por Frances McDormand, que após ficar viúva e enfrentar um colapso econômico em sua cidade, passa a morar em sua Van, traçando uma jornada sem destino e se mantendo em empregos temporários.

A cada novo ponto de parada em sua viagem, a protagonista constrói uma nova história. Ela é a soma de muitas conversas, encontros e ciclos que nunca se fecham. É lindo quando Fern se mantém em silêncio, apenas ouvindo o que os outros têm a dizer. É lindo, ainda, em como “Nomadland” nos permite, ao seu lado, vivenciar tudo isso, nos conectar com tantas jornadas e sentimentos. Chloé Zhao traz poesia e honestidade em cada minuto de seu filme, imensamente tocante e realista.

“Lar é só uma palavra ou algo que carrega dentro de você?”. Cada indivíduo ali relatado traz consigo uma história muito forte, algo que os conecta ao mundo. Em um dos momentos mais emocionantes do longa, uma das figuras reais – Robert Wells – revela que o que mais admira nessa vida nômade é nunca precisar dizer adeus, diferente das grandes perdas que já sofreu na vida. A viagem segue sem destino, mas o que houve de mais significativo retorna, se mantém vivo dentro de cada um. O rumo é solitário, mas a alma é cheia de muito sentimento.

“Nomadland” encontra beleza nesses encontros, nessas histórias. As belas imagens, a encantadora trilha sonora e a fluida e hipnotizante montagem fazem desta viagem ainda mais prazerosa. Frances está incrível aqui, completamente entregue aos tantos sentimentos de sua adorável personagem. Ela é real e nos faz querer abraçá-la a cada instante. David Strathairn também merece destaque. A troca entre os dois atores é grandiosa, um dos pontos altos da trama. Chloé Zhao merece o reconhecimento que está tendo. Ela realiza um filme único e especial, que transita de forma primorosa entre a ficção e o documental. Tudo é história, tudo é sentimento e tudo é real. “Nomadland” é imenso.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 108 minutos
    Diretor: Chloé Zhao
    Roteiro: Chloé Zhao
    Elenco: Frances McDormand, David Strathairn

Crítica: Verão 1993

Recorte da infância

Representante da Espanha na corrida pelo Oscar de 2018, “Verão 1993” é um registro primoroso e íntimo da cineasta Carla Simón, que retorna à sua própria infância para mostrar a dura transição que precisou enfrentar. A protagonista aqui é Frida, uma menina de apenas seis anos que, após o falecimento de sua mãe, é obrigada a viver no interior da Catalunha com seus tios, agora seus responsáveis legais.

O recorte de uma vida guiado com muita sensibilidade pela diretora. Acompanhamos essa mudança drástica na vida de uma criança e como ela precisa lidar com seus “novos pais”, a difícil adaptação e com o luto. A dor de perder alguém é um sentimento indecifrável e é interessante em como ela fala sobre isso pelo olhar de uma garota tão pequena, que não tem a dimensão da vida, da morte, que não tem a compreensão clara do que de fato está acontecendo. Mas a ausência é perceptível e “Verão 1993” é sobre sentir essa ausência e preencher, jamais substituir, mas se deixar abrir às novas possibilidades que nos abraçam.

Carla Simón entrega um filme delicado, duro ao falar da perda e saudade, mas imensamente afetuoso. Ela constrói sua história através de um tom extremamente realista. A atmosfera, o cotidiano, os diálogos, as reações tão possíveis e naturais que soam com um belo improviso. É lindo as relações que se costuram aqui e desta nova família que nasce. Ao assistir “Verão 1993” percebi o quanto é raro a gente chorar pela felicidade dos outros. E no fim, lá estava eu, em prantos pela força com que fui tocado. A última cena é de uma grandeza indescritível. Carla Simón não retorna ao passado para decifrar e traduzir o que sentia, retorna para dizer a si mesma que tudo bem não entender.

NOTA: 9

  • País de origem: Espanha
    Ano: 2017
    Título original: Estiu 1993
    Duração: 90 minutos
    Diretor: Carla Simón
    Roteiro: Carla Simón
    Elenco: Laia Artigas, Bruna Cusí, David Verdaguer

Crítica: Mulheres ao Poder

Grande história, pequeno filme

Nem sempre uma história incrível resulta em um grande filme. “Mulheres ao Poder” traz uma trama fantástica inspirada em eventos reais e, infelizmente, acaba entregando um produto morno, pequeno demais diante do riquíssimo material que tem em mãos.

A obra narra um passo importante na luta feminista, quando ativistas do Movimento de Liberação das Mulheres protestaram contra o concurso de Miss Universo nos anos 70. Em uma época em que elas não tinham (ainda menos) voz, se uniram para questionar essa objetificação do corpo feminino como entretenimento. O grande conflito aqui, porém, nasce quando o longa oferece um outro lado dessa mesma história, quando a primeira mulher negra estava prestes a vencer esse mesmo concurso.

Infelizmente, o roteiro jamais consegue fazer bom proveito dessa dualidade. Existe espaço para tantas discussões relevantes, mas o texto, tão quadrado e sem coragem, não ousa expor nada além daquele discurso feminista de cartilha que a gente tanto vê. Quando uma mulher preta alcança um espaço que tantas vezes lhe foi negado, ela inspira crianças como ela, mostra que é possível chegar lá. A luta que as ativistas pregam é válida, mas ela não abraça o coletivo quando usam como base suas vivências individuais, que não olham os grupos minoritários. É ainda muito interessante a rápida conversa que a líder das ativistas, vivida por Keira Knightley, questiona as escolhas da própria mãe, tão submissa na vida doméstica. Seu ponto tem fundamento, mas ela jamais teria os privilégios que tem sem os sacrifícios daquela que a criou. São pontos delicados e que mostram as tantas camadas que a luta feminista tem, mas quando opta por não se aprofundar em nada, esses ótimos debates morrem.

Na intenção de contar diversos fatos, o roteiro acelera o passo, pincela sem muito cuidado essas tantas questões e termina sem nunca valorizar a grandeza da história e dessas grandes mulheres que a protagonizaram. Seja a força do movimento ou o glamour do concurso. Nada traz impacto, envolve ou traz sequer um sinal de honestidade. A direção de Philippa Lowthorpe é pouco inspirada, salvando apenas o momento em que ela revela as pessoas reais por trás dos eventos narrados. A sorte da produção é ter um forte elenco que segura o nosso interesse, com destaque para Gugu MBatha-Raw, Jessie Buckley e a surpreendente presença de Greg Kinnear.

NOTA: 6,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2020
    Título original: Misbehaviour
    Disponível: Telecine Play
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Philippa Lowthorpe
    Roteiro: Rebecca Frayn, Gaby Chiappe
    Elenco: Keira Knightley, Jessie Buckley, Gugu Mbatha-Raw, Rhys Ifans, Greg Kinnear, Lesley Manville, Emma Corrin

Crítica: Bela Vingança

Demorei para escrever sobre esse filme porque o final me causou um grande desconforto. Tal desconforto que não consegui compreender de imediato, precisei de um tempo para digerir. Aliviar a dor no peito que me deixou. Indicado nas principais categorias do Oscar neste ano, “Bela Vingança” é daquelas obras com potencial para sobreviver ao tempo, sendo muito mais do que só um destaque da temporada.

Carey Mulligan está incrível em cena e aqui ela dá vida à Cassandra, uma grande incógnita que vai se revelando aos poucos. O que descobrimos ao início é que ela frequenta bares à noite e se finge de bêbada para atacar homens assediadores que exploram a vulnerabilidade da mulher nessas condições. O que a motiva é um sentimento de vingança, devido a traumas vividos em seu passado.

O roteiro é bastante esperto e vai nos entregando as respostas no devido tempo. E mesmo quando pouco sabemos da trama, é sadicamente divertido acompanhar este jogo perverso criado pela protagonista. A obra sai constantemente do lugar comum ao falar sobre vingança e reformula por completo filmes que já abordaram o mesmo tema. Com trilha musical pop – com direito a Toxic de Britney Spears em um dos momentos cruciais – e uma trama muito bem costurada, a diretora Emerald Fennell nos seduz a este universo, que segue por rumos inesperados e transita de forma harmoniosa e bastante original por diversos gêneros. Se no começo a obra tem o poder de nos fazer sorrir diante de uma inusitada comédia romântica, logo em seguida nos faz temer pelos caminhos obscuros que segue. No fim, compreendemos a força de seus relatos. É doloroso, cruel e impactante. É uma obra que cresce, ganhando proporções cada vez mais insanas.

“Promising Young Woman” é um título mais interessante, que traduz bem o olhar que os outros tem sobre a personagem. A mulher que tinha uma carreira promissora como médica, mas fracassou. Que chegou aos 30 anos e não tem perspectivas sobre o futuro. Todos a julgam pois acreditam saber muito bem como uma mulher deve investir seu tempo, como ela deve ocupar seu espaço. Ela carrega em si um peso que ninguém mais vê e que somente o público tem acesso. Ainda que ela tenha métodos bastante questionáveis, é impossível não vibrar por sua jornada. Neste sentido, é interessante como a diretora a enquadra em cena, sempre com um tom celestial, como se fosse uma santidade, devota em sua missão, com cores e figurinos leves que ilustram uma aura de fragilidade e submissão, exatamente como a sociedade encaixa essas jovens mulheres promissoras. O que não deixa de ser um contraste sarcástico e bem-vindo.

Cassandra viu algo que a sociedade parece rejeitar. Crimes de assédio cometidos por homens “de bem” são silenciados na mesma proporção que a dor das mulheres enquanto vítimas. De que o futuro desses jovens são promissores e uma barbaridade “qualquer” não pode defini-los. Os vilões desta história usam calça mocassim e sapatênis. Estão na faculdade e amanhã serão os chefes. São cavalheiros, educados e românticos. E não há nada mais assustador que isso, porque nos lembra dessa realidade que vivemos, de que esses homens estão ao nosso redor, vitoriosos, invisíveis sobre qualquer julgamento.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Promising Young Woman
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Emerald Fennell
    Roteiro: Emerald Fennell
    Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Laverne Cox, Jennifer Coolidge, Chris Lowel, Adam Brody, Alfred Molina

Crítica: Música para Morrer de Amor

Monólogos da burguesia

Rafael Gomes fez seu nome no teatro ao lançar a peça “Música Para Cortar os Pulsos” lá em 2009. Ele retorna agora como diretor e roteirista nesta adaptação de seu próprio material, com uma roupagem moderna mas ainda com a forte interação da música ao narrar os (des)encontros amorosos de três jovens paulistanos.

É um triângulo amoroso que vai se desenvolvendo aos poucos, entre frustrações, receios e canções que representam grande parte de seus sentimentos. Rubel, O Terno, Clarice Falcão, Marcelo Camelo e Pitty são algumas das faixas que embalam os monólogos desses jovens que sofrem por amor. É curioso como, além da música, os cartões postais de São Paulo também fazem parte crucial desta história. O vão do MASP, a praça Roosevelt, a Linha Amarela surgem como cenários improváveis e que facilmente acabam por criar uma conexão forte em nós. São tramas possíveis de indivíduos que caminham pelas mesmas ruas que nós.

Existe poesia no texto da obra e neste estudo de entender a paixão, a fraqueza dos corações machucados. Entretanto, por mais que seja um material forte em cima dos palcos, sua transição ao cinema é falha. O roteiro abusa dessa teatralidade dos diálogos, quebrando a naturalidade das situações, onde seus personagens não conversam, eles proclamam falas filosóficas sobre amor. Afinal, ninguém acorda às nove da manhã para citar Shakespeare. É tanta necessidade de querer decifrar seus protagonistas ou encontrar as palavras certas para cada momento que o filme se torna enfadonho, entregando mais frases de efeito do que sentimentos reais.

Há desarmonia em muitos aspectos do longa. A montagem é pouco fluida, criando um caos desnecessário, principalmente em suas primeiras cenas, indo e voltando no tempo…estranhíssimo de assistir. Apesar de bela trilha musical, é incomodo a forma como o som é trabalhado aqui, seja pela dificuldade de ouvir o que os personagens falam, seja pelo silêncio das cenas externas.

“Música Para Morrer de Amor” tem boas intenções, mas peca. É doce e pode até dialogar com os jovens e adultos de corações partidos, no entanto, ainda que tente falar sobre um sentimento universal, o longa, no fim, acaba sendo, infelizmente, apenas um retrato dos moradores da Santa Cecília e daqueles que vivem reclusos no mundinho descolado da burguesia paulistana.

NOTA: 6,5

  • País de origem: Brasil
    Ano: 2019
    Disponível: Telecine Play
    Duração: 102 minutos
    Diretor: Rafael Gomes
    Roteiro: Rafael Gomes
    Elenco: Mayara Constantino, Victor Mendes, Caio Horowicz, Denise Fraga, Ícaro Silva, Suelly Franco

Crítica: Relatos do Mundo

Cenário novo, história de sempre

Baseado no romance de Paulette Jiles, “Relatos do Mundo” traz o retorno do diretor Paul Greengrass, que aqui descansa sua câmera inquieta de produções eletrizantes como “Capitão Phillips” e “Ultimato Bourne” para revelar a calmaria do Faroeste. É curioso esta sua escolha, estudando um gênero e um estilo de cinema que se afasta de sua bela filmografia, provando ser um cineasta ainda mais versátil, mesmo que entregue seu filme menos inspirado.

A obra veio como um balde de água fria em mim. Não que minhas expectativas fossem altas, mas não esperava ver um filme tão desinteressante aqui. A trama foca no veterano de Guerra e Capitão Jefferson Kyle Kidd, que viaja pelo Texas levando notícias do mundo para pessoas que não tem acesso. Nesta sua jornada ele se depara com a órfã Johanna, que não fala sua língua e precisa ser levada até seus parentes mais próximos.

A obra acaba estacionando em um lugar muito comum. A relação de amizade que nasce entre o homem introspectivo e a garota selvagem é bastante previsível e o roteiro cria inúmeras conveniências já muito desgastadas no cinema. É óbvio todo o desenvolver desta relação, que jamais emociona ou convence. É uma pena que o texto ainda desperdiça a peculiar profissão do protagonista, que poderia trazer ares de novidade para a trama, optando sempre pelo óbvio, com direito a vilões caricatos e perseguições de poucas motivações.

É sempre bom ver Tom Hanks em cena e seu carisma como ator segura bem, mesmo que ele não entregue nada de novo aqui, deixando o destaque para a pequena e talentosíssima Helena Zengel. A ambientação da época é outro grande destaque da produção, explorando visualmente com muito cuidado cada passagem, assim como a belíssima trilha sonora de James Newton Howard, merecidamente indicada ao Oscar. “Relatos do Mundo” é tecnicamente primoroso, mas é apático, onde pouco sofremos ou nos importamos com a trajetória dos protagonistas.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: News of The World
    Duração: 118 minutos
    Diretor: Paul Greengrass
    Roteiro: Paul Greengrass, Luke Davies
    Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel, Bill Camp

Crítica: Judas e o Messias Negro

Os bastidores da revolução

É um momento relevante que nasce “Judas e o Messias Negro”. O longa, que marca a ótima estreia do diretor Shaka King, vem para reforçar tantos discursos em pautas atuais, como os do movimento Black Lives Matter. Mesmo em uma trama que se inicia lá no final da década de 60, traz grandes reflexões sobre desigualdade social, racismo e sobre a corajosa luta dos negros ao longo dos anos.

O filme traz uma estrutura já comum no cinema, a do infiltrado que se fascina por seu alvo. Ainda assim, o roteiro empolga e costura um suspense hipnotizante, principalmente pelas ótimas atuações do elenco e pela complexidade de sentimentos entregues ali. Logo ao início somos apresentados ao Messias Negro, Fred Hampton (Daniel Kaluuya), o ativista e líder do Partido dos Panteras Negras. Grande orador, seus discursos poderosos recrutam e inspiram jovens negros, que se unem dedicados a libertação de pessoas oprimidas. Esse idealismo chama a atenção do FBI, que o encara como um grande inimigo da Segurança Nacional, o que faz com que um agente (Jesse Plemons), use William O’Neal (Lakeith Stanfield), um ladrão de carros, como informante dentro dessa organização. A partir desse momento, acompanhamos a ascensão de Hampton na política e esta relação que nasce entre ele e o novo membro infiltrado.

“Eu sou um revolucionário”. A sequência que revela o poderoso discurso de Hampton é o grande momento do filme, que sintetiza bem esse poder que alcança. Não apenas revela a força das atuações de Daniel Kaluuya e Lakeith Steinfeld, como indica um ponto importante e de ruptura ali. É o momento em que O’Neal revela traços mais complexos, revelando-se um indivíduo bastante intrigante, que passa a confrontar sua necessidade de sobreviver com suas crenças. Ainda que Lakeith seja brilhante, o palco acaba ficando com Kaluuya, que se entrega em cena, transitando com perfeição entre a força e a fragilidade, entre a coragem e a introspecção. É seu grande momento. Curiosamente, ambos foram indicados como coadjuvantes no Oscar. Merecido, mas isso também aponta algo que senti falta na obra: o personagem central, que fosse nosso olhar dentro das situações. Esse elemento diminui um pouco o filme, logo que tudo nos é revelado com certa distância, como se assistíssimos de longe, sem se aprofundar no íntimo de nenhuma dessas figuras tão emblemáticas. Vale destacar, também, a atriz Dominique Fishback que está incrível e sua personagem traz ainda mais profundidade à trama e essa reflexão sobre quais são os motivos de Fred tem para sobreviver, qual o legado que sua luta deixará.

A condução de Shaka King é bastante segura e mantém o bom nível. A ótima trilha, os figurinos e toda esta belíssima ambientação nos levam de volta aos anos 60. A produção conversa bastante com o recente “Infiltrado na Klan” de Spike Lee, mas confesso que gosto bem mais desse. Encerro dizendo, que os letreiros finais vem como um grande soco no estômago. Apesar de trazer uma narrativa que já conhecemos, a realidade ao fim vem como choque. É uma história triste, revoltante e que causa um grande impacto em nós.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Judas and The Black Messiah
    Duração: 126 minutos
    Diretor: Shaka King
    Roteiro: Shaka King, Will Berson
    Elenco: Daniel Kaluuya, Lakeith Stanfield, Jesse Plemons, Dominique Fishback, Algee Smith

Crítica: Cherry – Inocência Perdida

Nico Walker publicou em 2018 seu romance semi-autobiográfico, revelando sua jornada no exército norte-americano e como ele teve que cumprir, anos depois, pena na prisão por assaltar bancos. Essa é a história de “Cherry”, que fez os olhos dos diretores Joe e Anthony Russo brilharem ao acharem o cenário perfeito para mostrar seus talentos fora do Universo da Marvel. É, ainda assim, um produto megalomaníaco, barulhento e bastante ambicioso.

O protagonista, vivido com intensidade por Tom Holland, tem 23 anos e pouco tem expectativas sobre seu futuro e decide se alistar ao exército. O filme, que é dividido em seis capítulos, nos revela essas tantas fases de amadurecimento que ele precisa encarar, desde seu relacionamento com a jovem Emily (Ciara Bravo) até seu difícil retorno, tendo que lidar com suas tantas crises de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. Nesta necessidade de sobreviver mas não se encaixar, ele se torna um dependente químico.

O problema desses “capítulos” da obra é que essas histórias são pouco conectadas entre si. Há muitas rupturas e nenhum desenvolvimento plausível. Ainda que os diretores tragam agilidade e estilo às cenas, sua primeira hora soa como uma longa introdução para o que o filme realmente gostaria de dizer, tornando o caminho um tanto quanto desgastante. Na segunda metade, o longa se encontra, mas acaba, infelizmente, entrando numa espiral narrativa que pouco evolui, como as sequências de roubos e o casal viciado em drogas. Nada disso é muito verossímil e tudo se revela como uma representação de algo que ninguém ali chegou a ver de perto. É tudo muito agressivo e de pouco sentimento, pouca verdade.

A quebra da quarta parede é um mero artifício, que surge apenas como mais um desafio para o ator e a direção, mas que pouco soma na narrativa. Ainda assim, o texto é dinâmico e, ao menos, consegue nos trazer para dentro das ações. Traz um olhar bastante crítico sobre o exército e esta dificuldade de readequação desses tantos jovens. “Cherry” é, acima de qualquer coisa, um filme pretensioso, que tem como grande intenção mostrar uma nova face de Tom Holland e dos Irmãos Russo. As cenas são milimetricamente estilosas e, no fim, é só o que realmente importa para os diretores, que encerram esta insana jornada de forma desconfortavelmente moralista.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Duração: 141 minutos
    Diretor: Anthony e Joe Russo
    Roteiro: Jessica Goldberg
    Elenco: Tom Holland, Ciara Bravo, Forrest Goodluck, Jack Raynor, Damon Wayans Jr.