Crítica | O Menu

Um prato refinado e caótico

Pelo cardápio, esse prato parece saborosíssimo. Uma inusitada experiência gastronômica que envolve humor, tensão e crítica social. Todos os ingredientes para o sucesso estão ali, inclusive um bom elenco que o segure. É refinado e feito na medida para impactar a audiência, mas é aquele prato bonito que vai perdendo o sabor, tamanha a bagunça que entrega ali. “O Menu” é frustrante e decepciona ao servir uma trama tão vazia e pretensiosa.

Eu diria até que a primeira hora do filme funciona muito que bem. Tem uma base que remete a estrutura de “Midsommar”, quando um grupo de pessoas vai vivenciar uma cultura diferente e, enquanto notam as excentricidades assustadores do local, entendem que a saída já não é mais uma possibilidade. Temos um casal, Margot (Anya Taylor-Joy) e Tyler (Nicholas Hoult), que vão viajar de barco até uma ilha isolada, onde terão acesso, ao lado de um grupo de desconhecidos, ao renomado e exclusivo restaurante do Chef Julian Slowik (Ralph Fiennes). Entre as refeições, mortes e segredos serão morbidamente servidos.

Toda essa tensão inicial é muito bem guiada pelo diretor Mark Mylod. Vamos pescando situações estranhas que logo provam que algo de errado não está certo. Até que o filme precisa dar uma virada e nos impactar e é aí que a coisa começa a desandar. Acaba virando um circo caótico e de extremo mal gosto todo o caminho que passa a seguir, apelando para saídas tolas e sem muito sentido. Talvez se houvessem menos personagens, o roteiro conseguisse orquestrar melhor essa brincadeira. Mas, ao fim, as particularidades de cada um não altera em nada a história. Inclusive o passado dos protagonistas é bizarramente mal aproveitado.

Mesmo que o sarcasmo do texto divirta, a trama é decepcionante e não vai para lugar algum. O roteiro ainda tenta maquear seu vazio com uma pífia critica social de opressores e oprimidos, mas não cola. Anya Taylor-Joy tem presença e acaba fazendo a sessão um pouco mais interessante, assim como o sempre ótimo Ralph Fiennes. “O Menu” se esforça bastante para ser um Yorgos Lanthimos mas falta muita personalidade (e um bom roteiro) para isso. A cereja no topo desse bolo é o final mequetrefe. É brochante, preguiçoso e de uma tosquice sem igual.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: The Menu
Duração: 106 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Mark Mylod
Roteiro: Seth Reiss, Will Tracy
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Fiennes, Nicholas Hoult, Hong Chau, Janet McTeer, John Leguizamo, Judith Light

Crítica | Glass Onion: Um Mistério Knives Out

Uma continuação divertida, mas bem menos inteligente do que acredita que seja

“Entre Facas e Segredos” foi um sucesso inesperado em 2019, o que fez com que seu criador, Rian Johnson, logo entregasse uma continuação, agora nas mãos da Netflix. Na época, ele havia recuperado com muito charme o clássico “whodunit” e aquelas histórias sobre qual dos personagens é o verdadeiro assassino. Aqui, mais do que trazer o detetive Benoit Blanc de volta, o diretor e roteirista teve a difícil missão de manter essa essência ainda viva. Infelizmente, ele entrega algo bastante inferior ao primeiro, principalmente porque no lugar do descompromisso, entra a necessidade da demanda, em um filme que se esforça demais para ser icônico.

Um excêntrico milionário convida um grupo de amigos, junto com o detetive Benoit, para um jogo onde todos deverão, em um fim de semana em sua ilha perticular na Grécia, desvendar seu fictício assassinato. Até que acaba ocorrendo uma morte, de fato, os fazendo questionar qual deles teriam reais motivos para dar um fim na vítima. O grande pecado de “Glass Onion”, porém, é não nos permitir fazer parte dessa investigação. Quando o crime acontece, logo o roteiro corre para nos explicar os porquês. Não há tempo para saborear os mistérios e o texto não se esforça em mudar nossas percepções sobre os personagens. Benoit deixa de ser detetive e passa a ser um mero narrador dos acontecimentos.

Apesar de uma pequena reviravolta em sua metade, o texto enfraquece quando centraliza sua trama em dois únicos personagens, Miles (Edward Norton) e Andi (Janelle Monáe), tornando todos os outros coadjuvantes peças inúteis desse tabuleiro. Mais do que um desperdício de um grande elenco, a trama perde o brilho quando já sabemos quem é a vítima e o vilão dessa história. Janelle, inclusive, está boa no papel, mas me parece muito surto toda essa aclamação que tem tido e já ser considerada uma das favoritas ao Oscar de atriz coadjuvante. No geral, pouco me convenci sobre essa relação e conexão que todos esses indivíduos possuem, principalmente porque nenhum deles (tirando a contagiante Kate Hudson e Norton) me parece confortável no papel. Não há aquela divertida sintonia que havia no elenco original. Falta carisma.

Sou péssimo com trocadilhos, mas “Glass Onion” é como uma cebola de vidro mesmo. De longe, parece uma peça requintada e cheia de camadas, mas de perto, podemos enxergar facilmente seu miolo e seus segredos. Não que um filme precise de reviravolta para ser bom, afinal o que importa é o caminho até chegar lá, mas essa sequência entrega um mistério pouco envolvente, com seus fracos personagens já muito demarcados em suas posições, sem nos permitir se deliciar com a investigação e resolução e sem ter espaço para nos fazer duvidar do caráter ou cada passo que eles dão. Aposta em situações bobas como falsa morte, irmã gêmea, entre outras coisas vindas de um roteiro pouco inspirado. Não nego que esse seja divertido sim e segura bem a atenção pela boa produção, mas é inferior em absolutamente todos os aspectos quanto ao primeiro filme.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Glass Onion: A Knives Out Mystery
Duração: 140 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Elenco: Daniel Craig, Janelle Monáe, Edward Norton, Kate Hudson, Kathryn Hahn, Jessica Henwick, Madelyn Cline, Leslie Odom Jr., Dave Bautista

Crítica | Aftersun

Memória ferida

Demorei para conseguir escrever algo sobre esse filme, tamanho o baque que levei. Nenhum outro que vi em 2022 me despertou o que esse aqui conseguiu. Debute de Charlotte Wells na direção de um longa-metragem, ela realiza um cinema que transcende, que nos leva para um lugar imensamente íntimo, doce e, ao mesmo tempo, tão obscuro e doloroso. “Aftersun” terminou e me deixou paralisado, em completo estado de catarse. 

A verdade é que nada nos prepara para onde este filme chega. Talvez ele seja até maior do que a diretora pretendia ao início. Enquanto grande parte da projeção, estamos lidando com as férias de verão e o relacionamento entre uma filha, Sophie (Frankie Corio) e seu pai Calum (Paul Mescal), ao decorrer entendemos que se trata de uma história de reconciliação, de memória e luto. A trama toda acontece com uma leveza natural, entre conversas e situações corriqueiras. A grande potência aqui é que grande parte desses momentos são registrados com uma câmera durante a viagem. E esses instantes, congelados pelo tempo, ganham novos significados no futuro. 

“Aftersun”, então, é guiado pelo olhar de Sophie, já adulta, revisitando as lembranças com seu pai, durante suas férias na Turquia. É brilhante como a primeira aparição dela é pelo reflexo de uma TV e muito do que a diretora nos revela é uma imagem distorcida da realidade. Muito provável que ela, na fase atual, tenha a mesma idade de seu pai, durante os vídeos que assiste. Existe aqui uma metalinguagem fascinante, pois é como se Charlotte Wells estivesse ali, revivendo sua própria vida e usando da arte para expurgar o que antes estava preso. E é aqui que a obra vai além. Essa revisita que Sophie faz é muito mais do que para reencontrar aquela lembrança intocável, mas para abraçar aquela dor do passado, que só a idade a faz entender. 

Eu poderia simplesmente viver dentro desse filme, de tão adorável que ele é. As cenas entre os protagonistas são de uma ternura que inunda a alma. Gostoso demais ver Paul Mescal dividindo a cena com a jovem e talentosíssima Frankie Corio. Toda essa atmosfera dos anos 90 também é lindamente arquitetada pela produção, que nos faz voltar ao tempo e nos colocar ali dentro, compartilhando daquelas sensações e sentimentos. A trilha musical, que vai de David Bowie, R.E.M. e Blur, ajudam ainda mais nessa fantástica imersão. 

Dito isso, eu nunca mais irei ouvir a clássica “Under Pressure” da mesma forma. O que Wells constrói naquele momento não tem palavras para descrever. O final de “Aftersun” é um abraço entre presente e passado. Entre a memória ferida e a memória, enfim, compreendida. Esse instante é dolorosamente impactante e ecoa em nós. E é quando a diretora nos propõe o exercício de revirar o que acabamos de assistir e buscar os indícios que nos passaram despercebidos. O resultado dessa experiência é algo difícil de esquecer. Uma obra que me comoveu profundamente e me fez perguntar quando foi a última vez que vi um filme tão bom quanto este, porque ele faz tudo o que foi lançado recentemente parecer tão menor e insignificante. 

NOTA: 10

País de origem: Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda do Norte
Ano: 2022
Duração: 96 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Charlotte Wells
Roteiro: Charlotte Wells
Elenco: Frankie Corio, Paul Mescal

Crítica | Avatar: O Caminho da Água

Pequeno demais para sua imensidão

Sou do time que sempre defendeu “Avatar”, grande sucesso de James Cameron e um dos filmes mais lucrativos da história. Ser clichê não era um problema quando o que apresentava era tão bem contado. Treze anos depois, temos a chance de retornar à Pandora em uma das sequências mais aguardadas dos últimos tempos. Sua existência era quase uma lenda. Quando vejo “O Caminho da Água” na tela grande, entendo a demora. O diretor e sua equipe entregam uma produção de brilhar os olhos, diante da beleza dos efeitos visuais e tudo o que a tecnologia hoje permite criar. Falta, porém, nesse roteiro escrito à seis mãos, conteúdo para preencher esse universo que é visualmente rico, mas pobre de ideias.

A grande novidade dessa sequência são os filhos de Jake e Neytiri e, de fato, eles trazem um frescor necessário para a franquia. São cativantes, principalmente aquela tão bem defendida pela veterana Sigourney Weaver. Existe emoção nesse laço familiar e o filme cresce nessas interações. Cresce ainda mais quando leva esses personagens a explorarem a região marítima e a conviverem com um novo clã de Na’vis. É belo tudo o que nos apresenta e, assim como o primeiro, este também se coloca como uma experiência visual, chocando pelo realismo dos detalhes e criando uma imersão praticamente esquecida no cinemão hollywoodiano.

Esse encanto e deslumbre causado pelos efeitos, porém, não ofusca a fragilidade do roteiro. Ter uma história simples não é problema, mas “Avatar 2” não vai além do básico, precisando ser prolixo para preencher sua desnecessária duração. É uma repetição de cenas, falas e situações que poderiam ser resumidas em um único instante, mas precisa se prolongar por puro capricho e megalomania de Cameron. E quando se tem 3 horas, tudo isso fica muito nítido. Seja as conexões com a natureza, as batalhas, a perseguição do vilão. É um looping eterno que não vai para lugar algum e, por já existir novas continuações, o texto nem se esforça em concluir suas subtramas.

A base de “Avatar” é o conflito humano com Pandora, mas aqui tudo vira um mero detalhe. Um momento é falado sobre repovoamento do planeta, em outro, a extração de uma substância que impede o envelhecimento. Nada disso é explorado e desaparece na trama para, no fim, simplesmente, se resumir a um vilão querendo vingança. Ao precisar “ressuscitar” seu antagonista para se ter um plot, o longa deixa ainda mais claro o quão pouco tem a dizer. Tem um universo mágico a ser explorado, mas a produção insiste nessa jornada infantil de perseguição, tão pobremente desenvolvida, que prefere se esquivar do aprofundamento de seus personagens e apelar tão fortemente ao maniqueísmo.

“Avatar” é uma franquia ambiciosa e James Cameron tem tato para comandar algo dessa dimensão. Sabe como conduzir a emoção do público e uma grande sequência de ação. É um acontecimento e que prova o quão ruim tem sido o uso dos efeitos atualmente. Cameron é um investigador e profissionais como ele são necessários para o cinema continuar a evoluir e a revelar novas soluções. Entendo a importância e relevância dessa produção, mas ainda me frustra o pouco esforço do roteiro em criar algo, de fato, novo e que não se contente tão facilmente ao básico. Empolga, diverte e emociona sim, mas falta conteúdo para justificar sua longa duração e algo além do reciclado para preencher seu universo tão belo.

NOTA: 7,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Avatar: Way of Water
Duração: 192 minutos
Disponível: cinema
Diretor: James Cameron
Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver
Elenco: Jamie Flatters, Sigourney Weaver, Zoë Saldaña, Sam Worthington, Stephen Lang, Kate Winslet

Crítica | Pinóquio por Guillermo del Toro

A imperfeição dos detalhes

Pinóquio, criação de Carlo Collodi em 1883, sempre foi um personagem que despertou curiosidade do público e fascínio do cinema, que contou essa história em inúmeras adaptações. Ainda assim, é muito interessante poder chegar aqui e ver a visão de Guillermo del Toro, que deixa claro todo o amor e carinho que tem pela jornada do menino esculpido em madeira. É possível enxergar todo o suor da equipe nesse irreparável stop motion.

A introdução de “Pinóquio” já emociona quando revela a relação de Gepeto com seu filho, entregando ali um tom melancólico que se mantém durante a obra. Tudo o que vem adiante é mágico, comovente e nos mantém atentos, não só pelo o poder da trama como pelo prazer de assistir esse cinema tão rigoroso de del Toro e Mark Gustafson. É chocante toda construção dos cenários, personagens e essa rigidez de até mesmo simular as imperfeições, tornando tudo extremamente realista. É arte em sua forma mais genuína.

Ao ganhar vida, Pinóquio tenta desbravar esse mundo novo do qual ele tem tanta curiosidade, mesmo que vá contra a pessoa que ele mais ama, seu pai. Ele comete alguns erros no caminho e precisa repará-los. “Ser um menino de verdade” nunca é um desejo seu e tornar-se humano acaba sendo uma consequência de suas ações e de seus sentimentos tão puros como amor e altruísmo. O roteiro desenha muito bem essas transições e como a transformação não vem apenas do protagonista, mas também na vida daqueles que o cercam, que são impactados por seus atos de bondade.

É interessante como toda essa jornada é vista pelo olhar do Grilo (incrivelmente dublado por Ewan McGregor), e como até mesmo ele, como narrador, tão acostumado a contar sobre a si mesmo, se permite ver a beleza do outro e tudo o que um menino de madeira tem a lhe ensinar. “Pinóquio” é sobre filhos imperfeitos e pais imperfeitos. É também sobre vida e morte e como tudo o que vivemos aqui é uma fração pequena diante desse mundo imenso, que começa e logo acaba. O que torna o protagonista humano também é compartilhar dessa previsibilidade de tempo, de viver e não saber quando é o fim.

NOYA: 8,5

País de origem: Estados Unidos, México
Ano: 2022
Titulo original: Guillermo del Toro’s Pinocchio
Duração: 117 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Guillermo del Toro, Mark Gustafson
Roteiro: Guillermo del Toro, Patrick McHale
Elenco: Gregory Mann, Ewan McGregor, David Bradley, Tilda Swinton, Ron Perlman

Crítica | Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades

o ego do criador

Alejandro González Iñárritu conquistou o que pouquíssimos cineastas conquistaram: venceu o Oscar por dois anos consecutivos, por Birdman e O Regresso. Ele, que veio do México, alcançou prestígio e admiração nos Estados Unidos, mas nada disso apagou o fato dele nunca se sentir bom o suficiente ou de pertencer a algum lugar. Essas incertezas o trouxeram até aqui, em “Bardo”, seu novo trabalho e também seu filme mais pessoal. É o primeiro, desde “Amores Brutos” (2000), inteiramente filmado em sua terra natal. Apesar deste ser o confessionário de sua crise de meia idade, ele nos oferece um relato longo, entediante e que dificilmente alguém gostaria de ter acesso.

A escolha do título “Bardo” é bastante poética, logo que significa, na cultura budista, a existência entre a morte e o renascimento. Iñarritu se coloca navegando, em tom onírico, sobre este campo intermediário entre o fim e o recomeço. Seu alter ego é Silverio (Daniel Giménez Cacho), um jornalista e documentarista mexicano, considerado um “imigrante de primeira classe” por abordar os temas difíceis de seu país enquanto busca por uma vida de luxo nos Estados Unidos. Tudo isso gera muitos conflitos existenciais, o fazendo refletir sobre as próprias memórias, enquanto caminha pela história do México, analisando de perto a imensa desigualdade social e os tantos massacres que seu país enfrentou.

“Bardo” é uma experiência única e não necessariamente uma experiência boa. Nos desafia o tempo todo quando não oferece um plot que nos faça querer ir até o fim, apostando na excentricidade visual. É difícil encontrar forças para seguir adiante porque a obra nunca avança, se reiniciando a cada sequência. E a cada instante, é um novo convite se queremos ou não embarcar nessa jornada. A notícia ruim é que a trama nunca se torna interessante (nunca mesmo!). A notícia boa é que todas as cenas são de uma beleza indescritível e, sim, isso nos mantém, pela curiosidade do que vem a seguir. As cores, montagem, enquadramentos, é visualmente lindo tudo o que nos oferece. Ver na tela grande foi bom pela imersão que propõe e também porque ver em casa teria sido um sacrifício.

Infelizmente, apesar do deslumbre causado por sua estética, Iñárritu se mostra tão egocêntrico que se torna impossível criar algum apego aqui, justamente porque é tudo – absolutamente tudo – sobre ele. Mesmo quando fala sobre o México, é sobre ele. É narcisista ao ponto de fazer sua família suplicar seu nome em seu imaginário leito de morte. É como uma masturbação longa que o diretor bate para si mesmo enquanto olha no espelho. Existe até poesia quando fala sobre convicções falsas e como nossas memórias nos enganam, mas é uma pena como ele usa isso para justificar seu conceito, que teria funcionado melhor se ele não sentisse essa estranha necessidade de explicar a lógica por trás de sua aleatoriedade.

Ainda mais bizarro é quando o filme se acha esperto o bastante para se autocriticar, quando na verdade isso só o limita, o torna menos vivo em nós assim que termina. Provável que Iñárritu tenha se sentido muito genial ao “prever” o olhar do crítico sobre sua criação – e o quão vaga ela é – mas isso só revela o quão inseguro ele está e o quanto nem ele mesmo acredita no que propõe aqui. “Bardo” deve ter sido incrível nos sonhos do diretor, mas esse diário que ele tenta compartilhar com o público tem pouco coração, intimidade e quase nada de interessante a dizer. Resta apenas a soberba, o conhecimento pedante que ele tem sobre o mundo e o ego ferido de um homem privilegiado.

NOTA: 6

País de origem: México
Ano: 2022
Titulo original: Bardo, falsa crónica de unas cuantas verdades
Duração: 159 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Alejandro G. Iñárritu
Roteiro: Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone
Elenco: Daniel Giménez Cacho, GriseldaSiciliani, Ximena Lamadrid

Crítica | Armageddon Time

Pelo olhar de quem não viveu

Tem chegado uma safra de filmes de diretores consagrados revelando, em tom autobiográfico, o período da infância. Em pouco tempo já tivemos Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza), Kenneth Branagh (Belfast) e, logo em breve, Steven Spielberg (Os Fabelmans). Com “Armageddon Time”, James Gray fala sobre amadurecimento, relações familiares e como ser uma criança judia na Nova York dos anos 80. O filme, porém, é tudo o que eu não esperava dele. E minha frustração diante da obra não é somente por quebrar minhas expectativas (essa culpa eu carrego comigo), mas por encontrar aqui um cineasta tão incrível como ele reunindo em uma obra, aparentemente tão íntima, inúmeros equívocos.

James Gray aborda o sonho americano em um período eleitoral. Uma época de incertezas, onde o medo reina nas ruas e aflige aqueles que têm crença no “fim dos tempos”. É neste cenário frio e cinzento que uma família – que tem raízes de imigrantes judeus que sobreviveram ao holocausto – busca se estabelecer, apesar das dificuldades. O protagonista é o pequeno Paul (Banks Repeta), que vai mal nos estudos e sonha em ser um artista. Quando se aproxima de Johnny, o único menino preto da escola, ele passa a refletir sobre desigualdades e a hipocrisia dos tantos discursos que ouve sobre o futuro.

“Armageddon Time” sofre de uma séria crise de identidade. Por muitos momentos eu realmente não conseguia entender qual era a intenção das cenas. Durante os encontros de família, que por vezes me parecia uma relação bem tóxica, a direção sempre sugeria algo agradável e leve, mesmo quando o filho apanhava violentamente. Ou em uma das sequências finais, quando o pai faz um discurso no carro, extremamente preconceituoso e cruel, mas logo vem uma trilha emocional ao fundo como se aquilo significasse algo tocante e de grande importância. James Gray me soa muito ingênuo diante de sua própria criação, nunca encontrando o tom ideal e nunca compreendendo o real peso das situações. Tudo isso piora quando ele usa da própria infância para debater algo que nunca viveu, o racismo.

É imensamente equivocado seus discursos raciais e me choca ver essa visão romantizada que o diretor faz. Ele coloca de escanteio o único personagem preto da história, que tem como única função favorecer o crescimento do protagonista. É ele, inclusive, que vai ensinar Paul a fumar e a roubar. Em uma vibe desconfortavelmente semelhante à “Green Book”, vemos aqui o racismo pelo olhar do branco e como a dor e sofrimento do outro ajudou a moldar sua personalidade altruísta.

O que salva “Armageddon Time”, definitivamente, é seu elenco. Anne Hathaway e Anthony Hopkins estão ótimos, mas é nas costas do pequeno Banks Repeta que o filme se escora. Ele é a alma, o brilho e o que nos segura até o fim. A produção tem lá seu charme, assim como em toda filmografia de Gray, mas este é, infelizmente, um de seus piores trabalhos. Longo, entediante e com discussões rasas e equivocadas sobre desigualdade.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Duração: 114 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: James Gray
Roteiro: James Gray
Elenco: Banks Repeta, Anthony Hopkins, Jeremy Strong, Anne Hathaway

Crítica | Pleasure

Lucro e prazer

Enquanto assistia a “Pleasure”, me vi pensando em como é raro o cinema trazer como tema a indústria pornográfica de forma tão realista e sem ser alvo de julgamento ou piada. Inspirado no curta-metragem de mesmo nome da cineasta Ninja Thyberg, ela volta a explorar os bastidores, do qual pesquisou por anos, para construir sua trama. Confesso que a produção me surpreendeu bastante, não só pela ousadia das cenas, mas por seu roteiro que flui tão bem durante seus minutos. Me encontrei imerso em seu universo e na honestidade crua com que tudo é revelado.

A jovem Bella Cherry (Sofia Kappel) sai da Suécia e aterrissa em Los Angeles, onde pretende se tornar a maior estrela da indústria pornô. Em “Pleasure”, vamos acompanhando os passos que ela precisa enfrentar para se tornar alguém nesse meio competitivo. Durante toda a sua trajetória, eu sentia algo como “isso realmente deve acontecer desse jeito”. O filme não romantiza suas ambições e nem julga suas atitudes questionáveis. O que a motiva a estar ali, inclusive, nunca é desvendado. E sinto que isso a deixa ainda mais crível, porque não acho que exista uma justificativa, de fato. Dinheiro e fama definitivamente estão em jogo, mas acima disso, é ela sendo livre para fazer suas próprias escolhas.

Ainda assim, a obra não esconde o grande fato de que a personagem é vítima de uma indústria dominada por homens, que naturaliza a submissão e a violência contra a mulher. Que lucra enquanto confunde assédio com prazer. Por muitas vezes, Bella é bem recebida pelos profissionais, o que torna tudo ainda mais assustador. Porque ela se sente em casa justamente onde é diminuída, onde é silenciada. Nesse sentido, o longa vai seguindo por um viés próximo de um terror, porque a vemos sendo devorada nos locais que sugerem proteção. Em uma das cenas mais poderosas e angustiantes do filme, a jovem se manifesta ao entender o quão vulnerável é estar nesse ambiente, mas logo é forçada a entender que é simplesmente assim como as coisas funcionam. Que para ficar, precisa aceitar.

“Pleasure” é uma obra bastante controversa e pode chocar grande parte do público. Há muita coragem nesta exposição que faz e muito cuidado também. A atriz sueca Sofia Kappel está ótima no papel e torna a experiência ainda mais interessante. É muito sensível e doce os respiros que a trama encontra para revelar as relações pessoais de Línnea, o nome verdadeiro da personagem. É gostoso ver aquelas conversas corriqueiras com suas novas amigas, ao mesmo tempo em que entendemos que se tratam de duas pessoas completamente diferentes que habitam aquele corpo. Para se manter no estrelato, porém, Bella precisa reinar acima de Línnea. E quanto mais ela ganha fama e respeito na indústria – o que ela tanto almeja – mais ela precisa perder de si mesma.

NOTA: 8,5

País de origem: França, Holanda, Suécia
Ano: 2021
Titulo original: The Unbearable Weight of Massive Talent
Duração: 109 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: Ninja Thyberg
Roteiro: Ninja Thyberg, Peter Modestij
Elenco: Sofia Kappel, Revika Anne Reustle

Crítica | Não Se Preocupe, Querida

Belo e superficial

Estranho pensar em como a mesma dupla responsável pelo excelente “Booksmart” chegou aqui. Saindo de uma deliciosa e leve comédia, a diretora Olivia Wilde retoma sua parceria com a roteirista Katie Silberman para alcançarem o almejado mundo das premiações. É altamente pretensiosa essa pataquada criada pelas duas, que peca justamente por acreditar piamente ser um experimento artístico que nitidamente não é.

“Não se Preocupe, Querida” ficou marcado por suas tantas polêmicas de bastidores. A sucessão de fofocas aguçou a curiosidade em torno da obra e deixou o público muito mais intrigado com o que aconteceu nas filmagens do que com o filme em si. Infelizmente, esse novo trabalho de Wilde é tão pobre que não consegue apagar essa ideia de que o que rolou por trás dele seja muito mais interessante mesmo. Temos aqui um apanhado de clichês, seja visual ou narrativo, tornando a produção completamente sem personalidade. Teria sido incrível, porém, se não se levasse tão a sério e abraçasse com ironia essa sua breguice.

Em uma vibe semelhante à “Mulheres Perfeitas” (2004), a trama também acontece em uma vizinhança que simula o subúrbio norte-americano dos anos 50. Uma comunidade que visa sempre a felicidade de seus comportados moradores. Nesse lugar, as esposas cuidam do lar enquanto aguardam seus maridos sedentos por sexo chegarem do trabalho. Alice, a protagonista vivida com garra por Florence Pugh, começa a suspeitar dessa realidade, confrontando as crenças de todos e buscando pelos segredos que ali habitam.

Uma estranha sensação de déjà-vu ronda toda a produção, não só porque desde o início já suspeitamos todos os passos da personagem como por todo esse lugar comum do qual a obra leva seus debates. É muito claro onde “Não se Preocupe, Querida” quer ir porque já vimos esse caminho muitas vezes. Suas críticas ao patriarcado e machismo são óbvias e chegam sem relevância quando o texto pouco vai além da superficialidade dessas questões. Ao fim, Olivia Wilde tenta cutucar os incels e essa legião de homens feridos, que acreditam que sexo é um direito deles e que precisam proteger as mulheres de terem desejos próprios. Existem resquícios de algumas boas ideias, mas infelizmente termina sem cavar toda a profundidade que esse terreno permitia.

Florence Pugh se esforça e merece destaque, mas essa narrativa de “mulher que surta quando descobre que esse lugar perfeito não é perfeito” é tão batido que chega a ser triste vê-la dando a alma para algo tão pequeno. É triste também vê-la contracenando com a porta que é o Harry Styles, que mesmo aos gritos, não consegue expressar nenhum sentimento.

A trama de “Não se Preocupe, Querida” não supera as polêmicas de seus bastidores. Para piorar, a direção pomposa de Wilde, que nada lembra sua ótima estreia na função, tem a certeza de que está entregando algo revolucionário, com momentos contemplativos e recortes de exposições de arte, quando na verdade só consegue entregar o que poderia ser um episódio fraco de Black Mirror.

NOTA: 6,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Don’t Worry Darling
Duração: 123 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Olivia Wilde
Roteiro: Katie Silberman
Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Olivia Wilde, Chris Pine, Gemma Chan, Nick Kroll

Crítica | O Peso do Talento

Ideia boa, resultado nem tanto

A premissa de “O Peso do Talento” é, de fato, bastante intrigante. Colocar Nicolas Cage interpretando o próprio Nicolas Cage é de uma sacada um tanto quanto genial. Foram tantos projetos ruins que ele escolheu nos últimos anos, que ser ruim se tornou sua marca registrada. Com plena consciência sobre essa sua carreira questionável, ele encontra aqui o cenário ideal para rir de si mesmo. Temos, então, uma comédia que até diverte em alguns instantes, no entanto, deixa a sensação de que o roteiro sofre com o peso dessa genialidade, jamais alcançando o brilhantismo que poderia ter alcançado com tudo o que tinha em mãos.

Com dívidas a pagar e nenhuma perspectiva de encontrar um bom papel no cinema, o astro Nicolas Cage decide aceitar a bela oferta para participar do aniversário de um superfã em uma ilha luxuosa. Porém, as coisas acabam saindo de seu controle quando ele é recrutado pela CIA para desvendar um sequestro e outros perigos que rondam aquele local. O filme consegue tirar algumas boas piadas dessa inusitada situação, colocando o próprio Nicolas Cage a confrontar seus papéis do passado e a forjar uma atuação para descobrir os segredos de seu misterioso antagonista. A verdade é que, ao fim, o que há de melhor aqui é justamente essa troca entre o ator e Pedro Pascal. Ambos se divertem e, como consequência, se torna muito prazeroso vê-los em cena.

Entretanto, falta um roteiro mais cuidadoso e que soubesse brincar com a metalinguagem de forma mais ousada, não indo muito além dessa piada interna feita para os fãs do ator. É um texto que tem muita consciência sobre os rumos que toma, como quando assume que o plot de sequestro é só para engajar o público. Infelizmente, acaba abraçando demais isso, deixando a boa comédia de lado e focando nas perseguições, tiros, carros em alta velocidade e tudo aquilo que consagrou negativamente a carreira do astro. O último ato empobrece a obra imensamente, finalizando como uma produção genérica de ação. Tudo aquilo que “O Peso do Talento” não merecia ser lembrado. Poderia ser o grande momento do Nicolas Cage, mas é só mais um filme do Nicolas Cage.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: The Unbearable Weight of Massive Talent
Duração: 107 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican, Kevin Etten
Elenco: Nicolas Cage, Pedro Pascal, Sharon Horgan, Lily Mo Sheen, Tiffany Haddish, Ike Barinholtz