Crítica: Os 7 de Chicago

O espetáculo da fórmula

O roteirista Aaron Sorkin chamou a atenção da crítica, há dez anos atrás, quando usou do tribunal para investigar a mente de Mark Zuckerberg no irreparável “A Rede Social”. Ele retorna a este ambiente para contar mais um evento real, desta vez, focando no longo e histórico julgamento dos “7 de Chicago”, quando um grupo de ativistas foi acusado de incitar tumulto enquanto protestava nas ruas contra a Guerra do Vietnã.

O filme quase todo é centrado dentro do tribunal, com alguns pouquíssimos flashbacks que nos situam ao que realmente aconteceu. Sorkin é mestre nessas longas discussões, contando sempre com um texto verborrágico e de poucas pausas. Ainda que narre um acontecimento do final da década de 60, os debates que consegue extrair de tudo isso é extremamente atual e relevante. É assustador e causa incômodo, não apenas pela postura violenta da polícia, como o despreparo do juiz diante do caso, criando um espetáculo do qual ele já tem certo sobre quem são os culpados e as vítimas da história.

Apesar das boas reflexões que deixa, “Os 7 de Chicago” é formulaico e frustra ao se deixar cair nas armadilhas do subgênero. O falatório é calculado e mais clama por um Oscar do que por honestidade. O grande pecado do texto é se apegar ao julgamento e esquecer daqueles que estão sendo julgados. Passamos o filme todo vendo detalhes ricos das discussões sem jamais conhecer os verdadeiros personagens da história. Aaron Sorkin pode demonstrar grande conhecimento de tribunais, mas esquece das vidas que preenchem aquele espaço. Sabemos o que eles fizeram, mas jamais sabemos quem eles foram.

Como diretor, Sorkin também segue as fórmulas e não reinventa aquele ambiente, sendo visualmente tedioso. Ao menos ele acerta na condução do elenco, extraindo ótimas atuações principalmente de Sacha Baron Cohen, Yahya Abdul-Mateen II, Frank Langella e Mark Rylance. Eddie Redmayne me surpreendeu também. Havia tempo que não o via tão livre de seus tantos trejeitos.

Ao fim, o diretor ainda nos presenteia com um momento surpreendentemente piegas, com trilha sonora pesada e bastante desconexo com o que havia apresentado até ali, optando por uma dramaticidade desastrosa que diminui a força de seus bons discursos.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 129 minutos
    Título original: The Trial of the Chicago 7
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Aaron Sorkin
    Roteiro: Aaron Sorkin
    Elenco: Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Sacha Baron Cohen, Jeremy Strong, Alex Sharp, Frank Langella, Michael Keaton, Yahya Abdul-Mateen II
    , John Carroll Lynch

Crítica: A Rota Selvagem

Atalho para maturidade

O cinema sempre procura encontrar novas formas para falar sobre crescimento, sobre aquela fase complicada em que se deixa de ser adolescente e passa a encarar com mais seriedade os dilemas da vida. É o conhecido coming of age e “Rota Selvagem” vem para dar uma nova voz a este processo, seguindo um rumo nada óbvio para falar sobre um assunto comum. É um filme único, dono de uma beleza única.

Acompanhamos, então, a jornada de Charley (Charlie Plummer), um jovem que é forçado a crescer diante de inesperadas mudanças em sua vida. Após ver seu pai (Travis Fimmel) sendo gravemente ferido e ficar em coma em um hospital, o jovem decide, por não ter ninguém a quem possa pedir ajuda, buscar auxílio em um amigo recente, Del (Steve Buscemi), que cria e treina cavalos para corridas. Um desses cavalos é Lean On Pete – que dá nome ao título – que está fraco e pode ter seus dias contados. Nessa fragilidade e fim iminente do animal, Charley sente uma grande afinidade por ele, nascendo ali uma amizade e uma necessidade de proteção, de ambas as partes.

O que difere a obra é que ela está constantemente saindo do lugar comum, sempre seguindo um caminho que não suspeitávamos previamente. Quando o protagonista parece atingir sua zona de conforto, o roteiro o obriga a construir uma nova jornada. Desta maneira, “A Rota Selvagem” é dividido em alguns capítulos e, ainda que o cenário e as situações se alterem, mal percebemos essas transições tamanha a naturalidade com que apresenta cada fase. São vários personagens que vão entrando em cena, quase como atos com começo, meio e sem nunca apresentarem um fim, como um ciclo em movimento. O fascínio do filme está nesta trajetória costurada por etapas não planejadas, justamente como nossa vida é: imprevisível. O lado bom disso é que nunca sabemos o rumo que a história irá tomar e sempre somos surpreendidos por um novo início. O lado ruim é que os capítulos não possuem a mesma força, oscilando e nos fazendo perder o interesse em determinadas passagens. O elenco é bom e segura a qualidade, passando na tela nomes como Steve Buscemi, Chloë Sevigny e Steve Zahn.

O diretor Andrew Haigh, que já havia entregado outros bons trabalhos como “Weekend” e “45 Anos”, volta a oferecer uma obra singela, sensível e incrivelmente bem filmada. Suas sequências são belas e são enaltecidas pela fantástica fotografia. Claro que nada disso seria possível sem a potente performance de Charlie Plummer. É um papel que requer entrega e ele surpreende, ainda mais por ser tão jovem no cinema. É muito bom o que Plummer entrega, seus diálogos com Pete são delicados e enche a tela com honestidade. Sem uma explosão comum em filmes do gênero, conseguimos sentir o peso do mundo em suas costas apenas com suas expressões. “A Rota Selvagem” comove com suas sutilezas, com este poder de emocionar sem grandes esforços. Mais do que uma jornada de maturidade, temos aqui um road movie sincero e encantador, que revela com graciosidade essa busca por proteção, por abrigo, por não se sentir tão sozinho nesse mundo tão cheio de nada.

NOTA: 8

  • País de origem: França, EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
    Ano: 2017
    Duração: 121 minutos
    Título original: Lean on Pete
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Andrew Haigh
    Roteiro: Andrew Haigh
    Elenco: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Travis Fimmel, Steve Zhan, Lewis Pullman

Crítica: Fim de Século

A vida que não tivemos juntos

Não há nada mais doloroso em nossa vida do que olharmos para trás e bater aquela dor diante da reflexão “e se”. E se tivéssemos feito diferente? Tomado outro rumo? O que teria sido de nós? De fato, cada oportunidade perdida nos leva para outra direção e é essa a interessante premissa de “Fim de Século”, filme LGBT argentino. Ao começo da trama, Ocho, um poeta que vive em Nova York, está viajando por Barcelona e desvendando a cidade com toda sua solidão e liberdade. Seu caminho acaba se cruzando com o de Javi, um belo jovem que logo desperta seu interesse. Entre conversas, ambos se dão conta de que esta não é a primeira vez que se encontraram e que, há 20 anos atrás, antes da virada do século, a história deles já tinha dado um início.

Um dos personagens, metaforicamente, é cineasta e tem dificuldades em finalizar seu projeto justamente porque se deu conta de que uma obra ilustrada por experiências pessoais é mais rica do que aquela que almeja alcançar sua inspiração. Primeiro longa-metragem dirigido por Lucio Castro, é nítido, em cada cena, o quanto aquele universo é particular à ele e o quanto o que vemos faz parte de uma experiência pessoal. Talvez não por completo, mas grande parte daquilo. Há muita honestidade em cada instante, em cada conversa jogada fora. Até mesmo a forma como Barcelona é registrada, há intimidade. Diante de tamanha naturalidade em captar sua história, nos sentimos parte daquilo. Parte daquele tempo.

O tempo aqui é dividido em dois. Diante de épocas tão distintas, é interessante o quanto a evolução dos anos, da mente de uma sociedade e da tecnologia acaba influenciando em nosso modo de vida. Se em 1999, época em que as pessoas vislumbraram a virada do século e uma iminente vida nova, homens agiam como héteros para serem aceitos, buscavam um esconderijo para serem eles mesmos. Ocho e Javi se encontram em um momento de ruptura, de novas descobertas e, inconscientemente, ambos se ajudam neste processo de auto aceitação, de que amor é possível. 20 anos depois, o sexo ganha a tecnologia como ferramenta principal, onde aplicativos tornam relações mais práticas. Ainda que Ocho procure na vitrine virtual algo que sacie seu tesão, é belo quando ele encontra alguém na rua, offline. Como se Javi fosse mais do que uma foto de perfil, fosse algo real. Mas nem tudo o que é real é alcançável.

“Fim do Século” diz muito sobre como amor não é o suficiente, mesmo quando se quer tanto aquela outra pessoa. Ocho e Javi parecem terem sido feitos um para o outro. E mesmo com duas ótimas oportunidades para que a história deles acontecesse, a vida simplesmente acontece de outra forma, o ciclo se move e eles não caminham juntos. É muito real esse desencontro. O sentimento mútuo existe, só não estão no mesmo passo, no mesmo momento. É lindo quando ao final, Ocho visualiza sua vida caso aquele encontro, 20 anos atrás, tivesse dado em alguma coisa. Talvez eles tivessem sido felizes, talvez não. Talvez eles teriam escrito a mais perfeita jornada para que no final eles se dessem conta de que sonhavam em estar em outro lugar. Porque a vida é isso. Nossa realidade nunca é suficiente. Talvez a grande história de amor entre Ocho e Javi era para ser esses pequenos encontros. Um conto breve. Dois capítulos apenas. Melhor lembrar como algo rápido e bom do que viver para sempre e ver o fim.

Ao optar por colocar seus atores fisicamente muito parecidos entre os dois tempos, enfraquece um pouco seus discursos. Pode até existir a intenção de mostrar o quão falha pode ser nossa memória, mas essa escolha torna um tanto quanto confusa essa alteração, ainda mais quando nem mesmo a fotografia ou a própria Barcelona são diferentes. Me pareceu uma opção preguiçosa da produção, que preferiu simplificar elementos cruciais para a narrativa. No mais, os dois atores se mostram bem a vontades em cena, se entregando a provocativas e bastante sensuais cenas de sexo. É bom ver esse ato tão natural em qualquer relacionamento ser mostrado sem muita censura, de forma crua e de gosto assertivo. Aliás, é ótimo poder ver uma trama tão madura e gostosa de se ver protagonizada por um casal gay. Poderia ser um casal hétero ali e é belo sentir que o cinema evoluiu o bastante para entender que dois homens ou duas mulheres também podem amar e também podem construir suas próprias histórias de amor. Que bom ter cineastas com esta coragem de captar isso com tamanha honestidade e sensibilidade. É aquela questão de representação que há anos atrás tanto fazia falta.

NOTA: 8

  • País de origem: Argentina
    Ano: 2019
    Duração: 84 minutos
    Título original: Fin de Siglo
    Distribuidor: –
    Diretor: Lucio Castro
    Roteiro: Lucio Castro
    Elenco: Juan Barberini, Ramón Pujol

Crítica: Cats

Desastre anunciado

Grande sucesso no teatro, é até estranho pensar o porquê “Cats” demorou tanto para ganhar uma adaptação ao cinema. Lançado na década de 80, o premiado musical conta a história de uma tribo de gatos, os Jellicle Cats, que todo ano precisa realizar uma performance para o líder que dará ao vencedor a entrada para o Paraíso e a chance de uma vida melhor.

Com direção de Tom Hooper (Os Miseráveis), o longa recebeu uma enxurrada de críticas negativas em seu lançamento, principalmente devido ao seu visual. De fato, o resultado de “Cats” é bem desastroso, chegando a ser triste ver um produto com tamanho potencial, receber tal tratamento na tela grande. Os efeitos especiais são bizarros, causando estranhamento pela proporção dos elementos de cena – que ora são grandes demais, ora são pequenos demais – e principalmente pela opção de misturar os traços dos gatos com os dos atores. É tudo involuntariamente assustador, tirando o brilho das apresentações e, infelizmente, de todo o elenco.

Os mais prejudicados, com certeza, foram Jennifer Hudson, que apesar de impressionar pela potente voz, é ofuscada pelo visual e Idris Elba que precisa se esforçar para dar vida para um projeto mal feito de vilão. Rebel Wilson, por sua vez, precisa encarar o pior momento do filme, em um número musical assombroso envolvendo ratos e baratas. O roteiro jamais ajuda, onde tudo é narrado com pressa e um péssimo desenvolvimento. Nenhum personagem parece ter alguma importância, onde todos surgem como um mero adereço de luxo, sem meio e fim, o que enfraquece nosso envolvimento com a trama e com esta mísera trajetória de todos eles.

Nem tudo, aliás, é um desastre. Vale citar a bela performance dos atores novatos e bailarinos aqui, como Francesca Hayward, Robert Fairchild e Steven McRae, que realiza o mais belo instante de “Cats” com o sapateado do gato da estação de trem. Há, ainda, alguns bons respiros como as empolgantes apresentações de “Jellicle Song For Jellicle Cats” e “Mr. Mistoffelees“. Existe boas intenções e isso é nítido em diversos momentos. Mesmo que tudo tenha dado errado, sei que existe uma equipe talentosa por trás de tudo isso que, talvez, vítima de uma produção apressada e gananciosa, foi impedida de realizar algo melhor finalizado.

NOTA: 5

  • Duração: 110 minutos
    Disponível: Telecine Play
    Roteiro: Tom Hooper, Lee Hall
    Direção: Tom Hooper
    Elenco: Francesca Hayward, Robert Fairchild, Jennifer Hudson, Laurie Davidson, Idris Elba, Judi Dench, Ian McKellen, James Corden, Rabel Wilson, Jason Derulo, Taylor Swift

Crítica: The 40-Year-Old Version

A voz da mulher preta

Comédia premiada no Festival de Sundance, “The 40-Year-Old Version” é facilmente uma das produções mais interessantes que a Netflix lançou recentemente. Esta é a estreia de Radha Blank na direção, que entrega aqui algo extremamente pessoal, imprimindo, em seu fascinante texto, sua luta diária como mulher, preta e artista. Ela se coloca como protagonista da própria história e traz honestidade em cada um de seus fortes relatos.

Filmada em preto e branco, a obra faz um recorte na vida de Radha que, próxima de completa 40 anos, começa a refletir sobre o rumo de sua carreira como escritora, que mesmo tendo vencido um importante prêmio da literatura – aos 30 anos – nunca teve, de fato, espaço para realizar sua arte. O longa narra este momento em que ela busca por renascimento e, principalmente, ter finalmente sua voz ouvida. “The 40-Year-Old Version” é o manifesto desta grande mulher. De forma ousada e sincera, Radha aponta uma ferida antiga dentro da arte, seja no cinema, seja no teatro, onde o preto apenas tem espaço para ilustrar uma pobreza estereotipada e servir de troféu para histórias de brancos salvadores. Ela traz humor em seu relato, sem jamais diminuir o impacto de seu poderoso e necessário discurso.

Debute na direção, Blank entrega um produto fascinante, bem conduzido. Seus discursos transbordam naturalidade e encanta ao colocar em cena, instantes tão prazerosos de assistir, guiados por personagens tão carismáticos. Um filme brilhante que, definitivamente, precisava existir.

NOTA: 9

  • Duração: 129 minutos
    Disponível: Netflix
    Roteiro: Radha Blank
    Direção: Radha Blank
    Elenco: Radha Blank, Peter Y. Kim, Reed Birney

Crítica: Culpa

O som que uma história tem

“Culpa” é aquele produto simples, pequeno mas que nos leva à lugares inimagináveis. Um belo exercício cinematográfico, que mesmo filmado em um único espaço, consegue entregar um thriller potente, envolvente, hipnotizante e com surpreendentes reviravoltas.

É sempre interessante quando o cinema nos apresenta este tipo de ideia. Um conceito sempre arriscado mas fascinante se bem realizado. Um personagem de destaque, um cenário fechado e nada além disso. Aqui temos o policial Asger (Jakob Cedergren), que aparentemente está sofrendo um processo judicial e trabalha como atendente no setor de emergência. O plot principal se dá início quando ele recebe a ligação de Iben, uma mulher desesperada que está sendo vítima de um sequestro. Com pouquíssimas informações sobre o caso, Asger precisa correr contra o tempo para que uma tragédia maior não aconteça.

A experiência de ver “Culpa” é tão intrigante e mágica como a que temos ao ler um livro. O roteiro, tão rico e brilhantemente bem escrito, nos permite viajar em suas ideias, construindo em nossa mente tudo aquilo que o filme não nos revela. Tudo acontece através de ligações e o som que cada evento emite é aquilo que ativa nossa imaginação. Sequestro, fuga, dramas familiares. Um mundo inteiro dentro daquela chamada e é fantástico como o filme não decai nunca, sempre nos mantendo atentos aos acontecimentos e sempre nos levando para uma nova direção. As reviravoltas são ótimas e muito bem conduzidas pelo texto. E claro, destaque para o ator Jakob Cedergren, que é nosso ouvido e nosso olhar diante de tudo. É um ator carismático e que nos leva junto em sua jornada. Trata-se, aliás, de um grande personagem, cheio de dúvidas e dilemas morais que precisa enfrentar dentro daquele tempo e espaço limitado.

“Culpa” surpreende por alcançar proporções enormes mesmo dependente de pouquíssimos recursos. Tudo é trabalhado através de sugestões. Uma história tensa que cresce sem a necessidade de mostrar seus reais protagonistas. A única imagem que temos é a do herói, que diferente das perseguições hollywoodianas, ele está incapaz de encarar as ruas e resolver por suas próprias mãos. Sua voz é sua única arma. É incrível, neste sentido, como a direção precisa buscar na montagem, som e fotografia os artifícios necessário para nos manter atentos. E consegue. Temos aqui, no fim, um thriller fascinante, incrivelmente bem conduzido e um exercício de linguagem prazeroso. É brilhante. É o cinema independente em sua melhor forma.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Dinamarca
    Ano: 2018
    Duração: 85 minutos
    Título original: Den skyldige
    Distribuidor: California Filmes
    Diretor: Gustav Möller
    Roteiro: Gustav Möller
    Elenco: Jakob Cedergren

Crítica: Beast

Contra todos

Lançado em 2017, “Beast” soa como uma fábula adulta e moderna, quase como aquelas versões originais e obscuras que descobrimos sobre os contos de fadas. A produção captura essa atmosfera do realismo fantástico para contar uma trama densa, guiada por protagonistas ambiguos. Em uma comunidade rural e afastada, conhecemos Moll (Jessie Buckley), uma mulher que demonstra impotência diante do controle e pressão de sua família conservadora. Claramente insatisfeita com sua vida, ela acaba conhecendo aquele que parece ser sua salvação de sua prisão, Pascal (Johnny Flynn), com quem logo se apaixona. Fascinada pelo misterioso forasteiro, ela precisa lidar com o fato de que ele é o principal suspeito de uma série de assassinatos brutais.

O filme conta com a direção e roteiro do estreante Michael Pearce, que surpreende por conseguir construir um produto que navega, de forma harmoniosa, por diversos gêneros. É brilhante como quando aquilo que começa como um drama familiar e um romance doce se transforma em um potente thriller psicológico, sem jamais parecer inconsistente ou sem provar tamanho domínio sobre essas tantas formas de narrativa. O roteiro, ao inicio, vai te conquistando, te introduzindo àquele universo único e te afeiçoado ao casal protagonista. É belo aquela relação porque os dois se completam, um entende a loucura do outro, a estranheza, o descontentamento. É poderosa essa conexão estabelecida entre eles, o que torna seus desdobramentos ainda mais perturbadores e interessantes.

A mente complexa de nossa protagonista é revelada por um estranho discurso sobre baleias sendo mantidas em cativeiro e como elas se machucam, propositadamente, para que percam seus próprios dentes pois cansaram de sorrir. Essa analogia vem como ilustração de tudo o que nos é mostrado posteriormente. Seja o forasteiro que caça animais silvestres, sejam as garotas brutalmente assassinadas. Curiosamente, essa fera da qual Moll demonstra simpatia, diz muito sobre ela, sobre se sentir enclausurada em sua realidade domesticada. Ela é vista como selvagem pelas pessoas da comunidade e se fascina por aquele homem grosseiro, mesmo quando ele é descrito como assassino. Essa identificação é bastante conturbada, nos fazendo questionar a todo instante o real caráter da protagonista. Seria ela a vítimas ou seria ela o verdadeiro monstro da história? Ela é a fera aprisionada ou é a fera que ataca? É curioso quando a própria Moll teme duvidar de sua bondade, precisando a todo momento reafirmar suas atitudes de boa cristã, cantando no coral e se limitando a viver para cuidar do pai. Essa tensão psicológica ganha cada vez densidade porque nunca vem com respostas fáceis e termina sem nos esclarecer completamente. A brecha que deixa, torna o filme ainda mais poderoso, justamente porque indica aquilo que evitamos acreditar durante toda a história.

Jessie Buckley é uma atriz intrigante. Ela revela essas tantas camadas de sua personagem com garra, com honestidade. Ao mesmo tempo em que ela é doce, nos amedronta, nos faz querer entendê-la. É fantástico o momento em que ela, no limite de sua repreensão, expulsa sua dor aos gritos ou quando ela se enterra, assim como as vítimas que foram mortas. São atitudes bizarras de uma alma solitária, que jamais é ouvida, compreendida, completamente avulsa à realidade. É assustador esse seu fascínio por Pascal, mesmo quando é visto como criminoso. Ela não teme ser igual à ele, pelo contrário, parece se afeiçoar à sua suposta rebeldia, quase como se o entendesse, como se buscasse na violência, na brutalidade, sua vingança contra o mundo, contra todos que a diminuíram. Buckley entrega alma e sentimentos a toda essa complexidade e brilha em cena. Sua parceria com Johnny Flynn funciona, sendo imensamente prazeroso vê-los contracenando. O filme ainda acerta na estética, entregando sequências visualmente poderosas, além da potente trilha sonora. “Beast” é um belíssimo achado. Um projeto audacioso, original e que nega a obviedade a todo instante.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2017
    Duração: 107 minutos
    Título original: Beast
    Distribuidor: –
    Diretor: Michael Pearce
    Roteiro: Michael Pearce
    Elenco: Jessie Buckley, Johnny Flynn

Crítica: Boyhood – Da Infância à Juventude

Em um piscar de olhos

Dirigido por Richard Linklater, “Boyhood” pode ser citado como uma das obras mais ambiciosas dos últimos tempos. Filmado durante 12 anos, a sensação que temos ao assisti-lo e ver seu elenco envelhecendo, ali na tela, é uma experiência única, de uma coragem e genialidade ímpar.

Ao longo de 12 anos, o diretor Richard Linklater reuniu sua equipe para rodar seu filme, uma vez a cada ano, para mostrar a jornada e o crescimento de seus personagens. Ellar Coltrane, que interpreta o protagonista Mason, inicia as filmagens aos 6 anos e termina aos 18. Não haveria forma melhor para Linklater, que também assina o roteiro, relatar sobre o que pretendia, o tempo. É muito curioso pensar como tudo isso foi feito. Parece aquelas ideias malucas que alguém para e pensa: “e se gravarmos um filme durante vários anos? Como seria o resultado?”. Penso que foi preciso muita coragem, disposição em fazer o melhor, dedicação em se doar a um único projeto, não só do diretor, mas de todos os envolvidos. O resultado é mágico. Muito mais do que ver os atores envelhecendo no mesmo filme, é presenciar este milagre em nos transportar ao passado, reviver uma vida que não foi a nossa, mas que poderia muito bem ter sido.

“Boyhood” é sobre a vida, sobre a rotina, sobre momentos. Por isso, não encontramos reviravoltas, surpresas, lições de moral, muito menos um clímax ao seu final. Acompanhamos de perto a jornada de Mason e todas as fases que enfrenta, da infância à juventude. Vemos na tela partes da nossa própria vida. As brincadeiras, os vícios, os gostos musicais e principalmente os questionamentos do protagonista. Pelo menos algum instante ou algum diálogo é sobre nós, sobre o que vimos e presenciamos. Cada sequência é como voltar no tempo, é sentir aquele sorriso bobo saltando em nosso rosto ao relembrar detalhes tão banais da nossa antiga rotina, como aquela satisfação imensa em irritar o irmão ou a concentração máxima diante de um video-game. Muito mais do que nos dar essa chance de reviver, Richard Linklater consegue, com toda sua maestria, fazer o mais honesto e mais brilhante relato de uma geração, mais precisamente, a geração dos anos 2000, mostrando seus gostos e suas excentricidades, apostando na memória e no repertório cultural daqueles que viveram aqueles anos. Como foi bom começar o filme ouvindo “Yellow” do Coldplay e terminando ao som de Arcade Fire. A trilha musical, assim como tudo no longa, parece respeitar todos as preferências, sem julgamentos e sem níveis de importância, tudo é apontado como partes de uma história, de Britney Spears à Foo Fighters, de Lady Gaga à The Black Keys. Além das tantas citações da cultura pop, situando sempre a trama à época em que acontecia, como Dragon Ball, Harry Potter, Star Wars e Cavaleiro das Trevas, entre tantas outros.

É muito curioso essa experiência de ver como os personagens estão em cada ano e isso é mostrado no longa de forma muito natural. Às vezes, mal percebemos o quanto Mason ou Samantha haviam crescido. Não há choque, o tempo apenas flui diante de nossos olhos e mal nos damos conta do quanto todos estão envelhecendo. Tudo é tão rápido, quase que imperceptível. Acredito que seja por isso que o filme consiga emocionar tão fácil, por vezes, sem a intenção. É doloroso sentir e ver a vida passando, ver o quanto não temos controle sobre o tempo. É cruel ver tudo o que deixamos para trás. Como num piscar de olhos, tudo é passado, tudo é lembrança. Se na trilogia do “Amanhecer”, Linklater havia inovado ao falar sobre o tempo, em “Boyhood” ele leva essa máxima a outro nível. É mágico ver Ellar Coltrane em cena. Vê-lo criança e depois de duas horas vê-lo se tornando um adulto, sem maquiagem ou qualquer efeito. É ele, apenas ele, suas próprias mudanças, sua própria evolução.

Em certo momento, o protagonista discute sobre sua ida a faculdade e sobre não achar que este seja o grande passo da sua vida. Dentre tantas coisas que “Boyhood” diz, a mais marcante acredito que seja exatamente esta. Esta visão de que tudo o que nós vivenciamos é apenas um passo. A vida não é como um filme repleta de reviravoltas e provações, é apenas um passo de um caminho que seguimos às cegas, sem jamais saber para onde vamos ou que iremos fazer. E não importa o que façamos, estaremos sempre perdidos. O filme ainda debate sobre esta “padronização” da vida. O fato de nos identificarmos com a vida de Mason é porque todos nós somos levados a realizar as mesmas coisas. O colégio, a faculdade, o trabalho, é tudo como o personagem diz, é apenas um “espaço pré-determinado” reservados para nós, e nada disso definirá o que somos ou nos libertará da confusão que é a nossa mente. E que talvez passado e futuro não importam, nada adianta refletir sobre o que aproveitamos ou que aproveitaremos, os momentos são o agora, as chances estão no presente. É válido dizer, porém, “Boyhood” pode representar algo diferente para cada pessoa, cada um mergulhará nas histórias a sua maneira e retirará o melhor para si. Uma experiência única, dolorosa, mas ao mesmo tempo, tão doce, tão delicada, tão honesta.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2014
    Duração: 165 minutos
    Título original: Boyhood
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Richard Linklater
    Roteiro: Richard Linklater
    Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater

Crítica: Permissão

Quando o eterno é tempo demais

Eu estou em uma fase que ando procurando filmes maduros sobre relacionamentos modernos. “Permissão” pode até não ser muito marcante, nem mesmo uma grande obra, mas, com certeza, vem para debater alguns assuntos relevantes e só por isso merece uma chance. Tem coisas interessantes a dizer e diz com sinceridade. Questiona sobre como saber se aquela pessoa com a qual nos relacionamos é “a” pessoa, aquela que deveríamos viver a eternidade ao lado. E ao duvidar disso acaba por trazer uma verdade desconfortável: a de que, talvez, a vida seja curta demais para se viver uma única história de amor.

“Permission” se inicia quando um casal de longa data está prestes a dar o próximo passo, o casamento. Anna (Rebecca Hall) nunca namorou ninguém além de Will (Dan Stevens) e isso passa a atormentá-la, pois ela nunca soube o que é a vida além deles. É então que ela surge com uma inesperada proposta: o liberta a transar com outra mulher por uma noite. O trato se expande e Anna passa a ter o passe livre também. A partir dessa traição consentida, ambos começam a questionar sobre a vida que construíram juntos e se ficar com uma única pessoa é o que realmente querem dali para frente.

A obra é, curiosamente, um projeto entre família e amigos. O diretor Brain Crano é casado com o ator David Joseph Craig, que faz o irmão de Rebecca Hall no filme, que por sua vez estudou e é grande amiga do ator Dan Stevens, além de ser casada com Morgan Spector, que também está presente no elenco. Ou seja, um grupo de pessoas que se conhecem muito bem na vida real e decidiram se juntar para fazer um longa-metragem. Essa intimidade é nítida na tela e todos se mostram muito a vontade durante as cenas. A história flui quase como uma peça de teatro com poucos personagens que precisam se enfrentar o tempo todo. E entre questionamentos, discussões e desilusões, todos parecem estar evoluindo, seguindo um novo rumo. O filme revela este instante de ruptura na vida amorosa desses amigos, que ou aceitam o destino ou se permitem arriscar outra saída.

– O que há de errado comigo?
– “Eu não sei quem eu sou sem você!”. Foi isso o que disse, certo? Você não gostaria de saber?

O cinema sempre nos ensinou sobre “o destino”. Sobre como o universo nos prepara para encontrar uma pessoa especial e quando encontramos essa pessoa é com ela que devemos ficar para sempre. Nossa cultura é assim. É o que nossos pais esperam de nós. Talvez nós esperamos isso de nós mesmos também. É bom, então, quando vem um filme para quebrar um pouco esse idealismo romântico. “Permission” não vem para falar sobre relacionamentos abertos e nem menosprezar a traição, vem para dizer que tudo bem se apaixonar outra vez. Estar com alguém a vida toda pode ser assustador. É quase como retirar a chance de nos perder nos braços de outras. É quase como não nos permitir conhecer a pessoa ideal para nós porque optamos pelo conforto de uma relação já estabelecida. E se “a” pessoa estiver lá fora? Em outro canto a nossa espera. O filme fala justamente sobre esta permissão. Sobre permitir se conhecer melhor. Porque relacionamentos camuflam indivíduos e muitas vezes eliminam desejos particulares. Como Will poderia saber o que é amor a dois se ele nunca soube o que é solidão? Como desejar um casamento se ele nunca soube o que é sua vida sem ela? Como saber que o parceiro é “a” pessoa quando ele é a única pessoa?

Rebecca Hall, como sempre, ilumina o filme. É uma atriz com boa presença, que encanta, que traz verdade. Sua parceria com Dan Stevens funciona é ótimo quando eles também funcionam com os outros personagens que surgem na trama. Nos faz desejar esse estranho experimento por eles. Me encanta toda a direção de arte do filme, também, e neste capricho do diretor em enquadrar tão bem suas sequências. Na segunda metade da obra, a história vai perdendo a força, foge um pouco do foco, tornando alguns momentos arrastados e alguns deles, dignos de serem deletados. No mais, um produto elegante, sexy, sensível e que busca se aprofundar nessa complexidade que são os relacionamentos. São respostas difíceis, o que é ótimo vindo de um gênero que sempre procurou pelas saídas mais convencionais. “Permissão” vem para dizer que é um alívio existir fins, porque eternidade é tempo demais para se viver junto. Que seja eterno enquanto dure, mas é natural que não dure para sempre.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Duração: 96 minutos
    Título original: Permission
    Distribuidor: –
    Diretor: Brian Crano
    Roteiro: Brian Crano
    Elenco: Rebecca Hall, Dan Stevens, François Arnaud, David Joseph Craig, Morgan Spector, Gina Gershon, Jason Sudeikis

Crítica: Matthias e Maxime

Depois do beijo

Xavier Dolan é um cineasta de excessos. Suas produções são repletas de exageros e maneirismos, o que fez com que até mesmo os críticos que tanto apostaram em sua carreira acabaram se cansando de suas invenções. Ele lança “Matthias e Maxime” logo após seu produto mais esculachado, “A Minha Vida Com John F.Donovan”, ter sido esquecido no churrasco mesmo com um grande elenco hollywoodiano em mãos. É um retorno bem-vindo à suas origens, à simplicidade, quase como um respiro necessário, finalmente livre de pretensões.

O filme se inicia com uma premissa tola, digna de uma fanfic gay adolescente. Dois amigos héteros de infância, Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (Dolan), se reúnem com outros amigos para um divertido fim de semana regado a muitas bebidas e drogas. O que era para ser um instante de descontração, acaba transformando a relação entre os dois. Isso porque no meio do grupo surge uma estudante de cinema que precisa finalizar seu curta-metragem experimental e precisa de dois homens em cena se beijando. Depois de uma aposta perdida, são os dois amigos que precisam enfrentar isso. No entanto, o beijo faz com que se questionem sobre o que realmente sentem um pelo o outro, despertando ali um desejo jamais explorado.

Apesar do início questionável, o que vem a seguir é que dá o tom da obra e as intenções de Dolan são finalmente reveladas. O beijo acaba instaurando na mente dos protagonista uma dúvida inquietante, confrontando suas existências. Confrontando o que eles achavam saber sobre eles mesmos. No começo, percebemos que há uma cumplicidade e sintonia muito grande entre eles e é nítido que existe espaço para um romance ali, mesmo que eles evitem enxergar isso. É muito interessante o que vem a seguir, dos dois se negando a ver o que é tão perceptível, por medo, pelo desconforto de trair seus ideais tão bem estruturados até ali. Por receio de não mais se encaixar no padrão de uma sociedade tão consolidada. Neste sentido, é angustiante vê-los se afastando. É muito forte as cenas em que eles, reunidos, não cruzam mais os olhares. Evitam se falar, evitam se tocar. O filme, então, vai criando um abismo entre os dois, um espaço doloroso que poderia ser preenchido por amor, mas nunca é.

É curioso a escolha de Dolan por não nos permitir ver o tal beijo. Existe um universo inteiro ali naquele momento e somos privados de compartilhar. Gosto desta saída porque é como se aqueles instante, tão particular, na verdade, pertencesse somente à eles. Vemos o que dele resulta, que sentimento desperta, mas não o ato em si. Existe poesia em “Matthias e Maxime” que se revela nessas saída sutis. Como quando a natureza surge para ilustrar o estado de seus protagonistas. Assim que Matthias dá o beijo, ele se perde em um extenso mar. Mergulha como se fugisse de tudo aquilo, perdido na solidão daquele local. Já mais perto do final, quando os dois, enfim, se beijam realmente, surge o imenso barulho de chuva e trovão, dando som à excitação dos dois diante de algo tão novo e tão bom, tão completo.

O filme registra um instante de mudança da vida de Maxime. Neste instante de despedida, logo que ele está indo morar em outro local, vem a necessidade de transformação, de preencher aquilo que antes era vazio. Em uma das primeiras cenas, ele avista uma propaganda de margarina, que estampa a família tradicional perfeita. Maxime, desde o começo, se mostra descontente com este padrão, dentro de si busca por uma alternativa, não há espaço para ele neste universo “ideal”. Maxime finalmente se encontra em Matthias e é belo esta percepção dos dois. De se entregar a alguém que faça parte de seu mundo. Este é o filme mais introspectivo de Xavier Dolan, que ao longo de sua carreira, sempre deu voz ao amor em todas as suas possíveis formas. “Matthias e Maxime” pode até ser um trabalho menor e mais simples em sua filmografia, mas é, com certeza, mais um grande acerto. Um respiro necessário à sua carreira, repleto de poesia, honestidade e sensibilidade.

NOTA: 8

  • País de origem: Canadá
    Ano: 2019
    Duração: 129 minutos
    Título original: Matthias et Maxime
    Distribuidor: Mubi
    Diretor: Xavier Dolan
    Roteiro: Xavier Dolan
    Elenco: Xavier Dolan
    , Gabriel D’Almeida Freitas, Anne Dorval