Crítica: Dunkirk

O Som que a Guerra Tem

Nolan é daqueles cineastas que vale a pena esperar. Ele erra pouco, é audacioso, pretensioso ao máximo e talvez o diretor mais corajoso ainda em atividade. Não faz nada pela metade. Em sua brilhante jornada, que já trouxe obras-primas como “Dark Knight”, “Amnésia” e “Inception”, Nolan sempre soube trazer um equilíbrio entre entretenimento e inteligência, construindo uma linha interessante de blockbusters de alta qualidade. “Dunkirk” é, definitivamente, seu produto mais refinado. E isso não quer dizer o melhor.

A trama, que se baseia na Evacuação de Dunquerque, acontece na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de soldados britânicos são encurralados pelos alemães e não conseguem mais retornar para a casa. Sem contar sua história em ordem cronológica, o filme não foca em personagens, mas sim em diferentes planos e pontos de vista. Dessa forma, descobrimos o que acontecia no mar, na terra e no ar. Em um conjunto geral, por fim, “Dunkirk” aborda a luta de cada indivíduo ali dentro daquele ambiente extremamente vulnerável, fazendo o impossível para sobreviver. É bonito neste sentido, em como ele nos revela este instinto dos soldados em salvar o próximo, onde o tempo inteiro uma ação solidária está em ação. Nolan consegue criar um universo assombroso pelo caos da Guerra, mas também consegue transmitir este tom esperançoso, que emociona. O mundo pode estar no fim, mas a vontade de viver não. Ele acerta, também, ao trazer uma perspectiva diferente de todos os outros filmes de combate. Seus soldados não estão mais na batalha e não são mais heróis. O texto destrói este glamour que o cinema criou sobre a Guerra. Aqui ninguém quer estar nela e os que restam, não se sentem vitoriosos e patriotas, apenas desolados, corrompidos e o pior de tudo, fracassados.

É nítido que não há um roteiro aqui e isto não é um defeito. Nolan, pela primeira vez, esqueceu os personagens, diálogos fortes e reviravoltas mirabolantes. Focou nas sensações, mostrando sempre de um plano maior um único evento. Seu grande trunfo é que “Dunkirk” é sim uma grande experiência. Conseguiu com maestria nos colocar ali dentro da ação. Da primeira a última sequência, estamos completamente imersos em sua proposta. Com sua trilha sonora constante e épica, marcando mais uma bela parceria com Hans Zimmer, a movimentação de sua câmera que não nos permite fugir e principalmente seu alto e eloquente som que nos faz ouvir e, consequentemente, sentir o peso, a dor e a pressão de estar naquela Guerra. Batalhas não são silenciosas e a equipe de som não poupou nossos ouvidos. É estrondoso e, confesso, incomoda. Faz parte da proposta, torna a sensação ainda mais real. E tudo gira em torno disso. Nos colocar ali. Funciona. É doloroso, desconfortável, assustador.

Preciso dizer, porém, não ter um protagonista a quem seguir os passos diminui a força da obra. São personagens jogados, que estão sempre assistindo. Não sofremos e torcemos por alguém específico e isso querendo ou não, faz falta, principalmente quando os tantos indivíduos ali retratados ou não saem do lugar, como um dispensável Tom Hardy que permanece a trama inteira no ar – e cansa pela repetividade -, ou são insignificantes e não tem muito a dizer ou fazer em cena. Nolan, que sempre tão bom em construir e desenvolver personagens esqueceu de dar vida a todos eles que soam insignificantes na maior parte do tempo. Mesmo não existindo papéis a altura de talentos como os ótimos Cillian Murphy e Mark Rylance, ainda consegue entregar algumas boas revelações, como o jovem Fionn Whitehead e a grande surpresa, Harry Styles.

Visualmente, a obra choca pelo nível de realismo que alcança. Christopher Nolan é um diretor brilhante e domina cada sequência, nos fazendo sempre nos perguntar como tudo aquilo foi feito. É bonito de ver. Por outro lado, estranhamente, dentre os clássicos do diretor, “Dunkirk” pode até ser o mais refinado, no entanto, é um dos menos marcantes de sua carreira. Como experiência dentro de um cinema, é maravilhoso. Fora dele, não tem vida muito longa como seus outros trabalhos. É um filme excelente que se destaca, mas falta algo. Existe um vazio que permeia por toda a obra, que ao mesmo tempo que nos aproxima pelo realismo, nos afasta pela ausência de conteúdo, de uma história, de alma.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Duração: 106 minutos
    Título original: Dunkirk
    Distribuidor: Warner Bros.
    Diretor: Christopher Nolan
    Roteiro: Christopher Nolan
    Elenco: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, Harry Styles, Barry Keoghan, Tom Hardy, James D’Arcy

Crítica: Procura-se Amy

A individualidade entre dois

Kevin Smith é um cineasta peculiar e construiu uma carreira, sempre distante dos holofotes, com suas obras pequenas e extremamente pessoais. Lançado em 97, “Procura-se Amy” é, sem dúvidas, o produto mais sentimental e mais honesto que ele já realizou. Apesar dos 20 anos que nos separa, é curioso como sua obra dialoga tão bem com os tempos de hoje. Enquanto fala sobre relacionamentos, Smith consegue expor muitos pensamentos que são corriqueiramente debatidos em redes sociais e em nossa atual sociedade mas que, na época de seu lançamento, provavelmente eram tabu. É lindo a liberdade que ele tem de dizer tanta coisa e é lindo em como ele, ao escrever um romance, não precisou distorcer seus personagens, respeitando a individualidade e personalidade de cada um a todo custo.

Ben Affleck interpreta Holden, que ao lado de seu melhor amigo Banky (Jason Lee), tem conquistado sucesso como quadrinista. A trama se dá início quando ele conhece a espirituosa e extrovertida Alyssa (Joey Lauren Adams) e logo se vê completamente apaixonado. A história de amor que ele constrói em sua cabeça se desfaz quando vem a revelação de que ela é, na verdade, lésbica. No entanto, nem mesmo essa informação é o bastante para fazê-lo desistir deste romance. É através desta simples trama que Kevin Smith consegue debater assuntos como bissexualidade, sexo e a complexidade humana quando se trata de relacionamentos e desejos. Nada é tão simples ou fácil de decifrar. Seus personagens buscam por este auto conhecimento em uma sociedade que aprendeu a taxar indivíduos e transformar em tabu tudo aquilo que os define. Pode soar incoerente algumas atitudes que eles tomem ao decorrer da trama, mas ao meu ver só revela a coragem do roteiro em fugir daquilo que o próprio cinema aceitou como certo ou padrão.

Na história das comédias românticas, é muito comum o texto do filme ignorar essas particularidades de seus personagens para que o final feliz aconteça sem grandes obstáculos. “Procura-se Amy” acerta por não ignorar esses tantos sentimentos existentes em seus protagonistas e permitir que eles traçam suas próprias jornadas, individualmente, mesmo quando estão juntos. Alyssa não é só um complemento de Holden e em nenhum momento ela muda para servir os desejos dele, pelo contrário, ela recua quando necessário. Diferente de todas os outros romances escritos por homens, Kevin Smith não romantiza a imaturidade e escrotidão de seu personagem masculino. Ele é a representação de uma masculinidade tóxica, que parece fofo quando só pensa em si mesmo, que parece mente aberta quando não é. O filme é brilhante em toda essa composição do casal e desses temas que discute. É fascinante pensar que estamos falando de um roteiro de 1997 e que coloca em pauta situações que facilmente seriam debatidas hoje em dia.

Poucas vezes vi Ben Affleck tão a vontade em um papel. Leve, descontraído, sem medo de parecer idiota. Jason Lee surge como um forte coadjuvante aqui. Joey Lauren Adams foi uma revelação na época e é lindo toda a entrega dela à personagem. De fato, ela é o grande destaque do filme. Ainda temos as clássica participações de Jason Mewes e do próprio Kevin Smith como Jay e Silent Bob. Tem muitos elementos que retornam aqui e que são comuns na filmografia de Smith. No entanto, penso que ele nunca foi tão corajoso e honesto como desta vez. Conhecido no mundo nerd, surpreende, inclusive em como ele expõe esse sexismo existente nesse meio cultural. “Procura-se Amy” é um grande acerto em sua carreira e continua a sobreviver bem ao tempo. Diz muito sobre os dias de hoje e se muito do que ele relata aqui ainda é tabu em nossa sociedade, é chocante pensar em como seus discursos foram vistos, há mais de vinte anos atrás. Ele fala sobre essa complexidade dos relacionamentos de forma natural, espontânea, gostosa de assistir. Seu roteiro é brilhante e incrivelmente sensível. Vários discursos aqui emocionam e merecem reconhecimento pelo alto nível de genialidade e autenticidade. É difícil ser romântico e original no cinema e Smith faz isso de forma corajosa e sem procurar por palavras fáceis.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 1997
    Título original: Chasing Amy
    Duração: 108 minutos
    Distribuidor: –
    Diretor: Kevin Smith
    Roteiro: Kevin Smith
    Elenco: Ben Affleck, Joey Lauren Adams, Jason Lee, Kevin Smith, Jason Mewes

Quem sou eu? Onde vivo? O que como?

Bom, como começo acho legal eu me apresentar, certo?

Me chamo Fernando, tenho 29 anos, sou formado em Design Gráfico. Libriano, gosto de pizza, sorvete, tirar fotos, assistir filmes, séries e estar sempre acompanhado de uma boa música.

Sou de São Paulo. Adoro desbravar a cidade, mas também existe dentro de mim um velhinho de 60 anos que ama ficar em casa.

Apesar de seguir com minha carreira como designer, cinema e escrita sempre foram minhas verdadeiras paixões. Sou da época do VHS, assisti a ascensão e o declínio do DVD. Escrevo em blog deste 2008 e sempre foi ótimo poder colocar em palavras minhas sensações diante de um filme.

Quando me perguntam qual meu filme favorito nunca sei dizer. Sempre mudo de resposta para não deixar nenhum excluído. Mas costumo responder que e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Closer, Magnolia, Na Natureza Selvagem, Peixe Grande e por aí vai.

Como todo cinéfilo, adquiri uma grande paixão por séries também. Dentre as melhores que já vi citaria Six Feet Under, The Office, Shameless US, Breaking Bad, Gilmore Girls, The O.C., How I Met Your Mother, Mad Men e Rectify. Das mais recentes gostei bastante de Euphoria, Pose e Fleabag.