A referência que não tivemos

Spin-off do filme “Com Amor, Simon”, a ideia dessa série demorou a me convencer. A primeira temporada nos apresentou Victor (Michael Cimino), que seguindo os conselhos de Simon, enfrentou uma jornada de aceitação e confiança para se assumir gay. Havia algo de muito honesto naquele roteiro – apesar da simplicidade de um produto teen – e que me fez apostar nessa segunda temporada. Aqui, a série finalmente se encontra e acerta o tom, revelando desdobramentos bem mais interessantes daqueles apresentados anteriormente.

Houve uma melhora significativa na narrativa, trazendo temas relevantes de forma madura e sem cair no lugar comum. Traz conflitos reais e situações que finalmente desafiam seus personagens, os colocando de vez no mundo real. Bipolaridade, diferenca entre classes sociais, a visão das crianças sobre homossexualidade. É válido, ainda, a passagem dos pais do protagonista, que traz questionamentos interessantes sobre raça e sobre o peso da religião em suas atitudes. O texto acerta e é bastante corajoso neste discurso contra ideias tão ultrapassadas da igreja.

Brilhante em como o seriado debate como a própria comunidade nem sempre se apoia, como quando um dos personagens é rejeitado por ser feminino demais. “Love, Victor” fala bastante sobre como pessoas LGBTQIA+ são colocadas em “caixas”, onde todos ao redor sabem exatamente como você deve agir ou ser. Victor é muito gay para o vestiário masculino, mas pouco gay para frequentar certos lugares. Esse embate provoca questões interessantes, criando camadas mais complexas para o protagonista e sua jornada.

Por falar em protagonista, Victor ainda é a peça que ainda menos funciona aqui, apesar da melhora do roteiro. Não apenas pela fraca atuação de Michael Cimino, mas também pela junção com Benji (George Sear), que é extremamente sem sal e nos faz vibrar pela possibilidade de separação, o que enfraquece a série como um todo. A sorte (e muita sorte) é que os coadjuvantes são realmente muito bons e os roteiristas, felizmente, entenderam isso. Felix teve uma trajetória fantástica nesse segundo ano e segue como melhor personagem, destacando a carismática performance de Anthony Turpel, assim como sua dupla de cena. Lake (a ótima Bebe Wood) tem tido um rumo semelhante à Summer Roberts de “The O.C”: de figurante fútil, tem se tornado a presença mais adorável da trama. Todos do elenco funcionam muito bem juntos e isso é o grande trunfo do programa. Tem um texto que respeita essas relações, a humanidade de cada um. É divertido, teen, mas imensamente sensível ao revelar a caminhada de todos eles.

Em suas entrelinhas, “Love, Victor” diz muito sobre referência. Se no primeiro capítulo dessa caminhada, Victor seguia os passos de seu mentor, aqui ele procura a própria voz para aprender a lidar com as tantos obstáculos que encontra, passando a ser, posteriormente, inspiração para outro jovem no colégio, a bela adição de Rahim (Anthony Keyvan). E no fundo, é justamente o que a série é: um ponto de referência para jovens que, assim como o protagonista, sentem esta insegurança em se assumir. Victor, vive muitos dilemas aqui e nunca sabe exatamente como agir, como falar, como ser esse “jovem gay” que todos esperam que ele seja. A verdade é que, desde que nascemos, vemos histórias de amor entre homens e mulheres. Não tivemos a referência, nunca foi tratado com a naturalidade que precisávamos ver na mídia, no cinema, nos livros que consumíamos. É desesperador encontrar as respostas sozinho e o show, de certa forma, vem para nos lembrar que não, não estamos completamente sozinhos.

Ps: o final foi ótimo e me fez querer demais uma terceira temporada.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021

Disponível: em agosto no Star+
Duração: 10 episódios / 288 minutos
Elenco: Michael Cimino, Anthony Turpel, Bebe Wood, Ana Ortiz
, James Martinez, Mason Gooding

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