Crítica: Oitava Série

Por trás do filtro

É curioso o que há por trás de “Eighth Grade”. O diretor Bo Burnham – hoje, com apenas 30 anos – começou sua carreira como youtuber, onde pôde expressar seus talentos tanto na música como na comédia. Eis que ele resolveu se arriscar no cinema para contar a história de uma garota desajustada que, enquanto publica seus vídeos na internet, precisa lidar com as dificuldades em conviver com tudo aquilo que é real. A grande surpresa é que essa sua empreitada deu muito certo, entregando um texto muito sensível, profundo e assustadoramente atual. Ele acaba realizando um retrato muito honesto sobre esta transição da infância para adolescência, nos fazendo identificar e reconhecer nossas próprias inseguranças e receios na protagonista.

Na escola, Kayla (Elsie Fisher) é invisível. Suas tentativas de se enturmar são sempre frustrantes e estar cercada pelos jovens de sua idade parece um interminável pesadelo. Em seu quarto, isolada do mundo, é onde experimenta a liberdade, é onde se sente bem sendo ela mesma. Com a câmera ligada, filtro na cara (escondendo as marcas de suas espinhas), Kayla grava uma série de vídeos tentando ensinar aqueles com a mesma idade a enfrentarem os obstáculos de se estar na oitava série e serem felizes sem medo dos julgamentos. É muito interessante como o filme vai mesclando os depoimentos da protagonista em seus vídeos, com a maneira que ela age diante dos outros. Há um contraste enorme, porque às vezes nem Kayla é capaz de ouvir os próprios conselhos. A realidade é dura e ouvir a própria voz nem sem sempre é um caminho possível.

É assustadoramente realista o cenário de “Eighth Grade”, o que nos permite ativar nossas lembranças mais desconcertantes e criar uma empatia muito forte por Kayla e essa difícil jornada que precisa enfrentar diariamente, dentro de um ambiente tão hostil e nada receptivo. Que felicidade, então, poder ver uma atriz tão jovem e tão sincera em cada atitude que expressa na tela. Elsie Fischer é um grande achado e consegue transmitir toda esta insegurança de ter sua idade, entregando uma performance fantástica e hipnotizante. Seu jeito tímido de agir na escola e a forma atrapalhada com que fala diante do susto de ter que conversar com outra pessoa. Ela é um reflexo preciso de muitas garotas e garotos que são engolidos pela própria solidão. Até mesmo a arrogância com que trata seu pai e o silêncio que se instaura em seu lar enquanto ela não larga o celular, acaba revelando um olhar melancólico sobre como a tecnologia tem afetado as relações familiares. Aliás, a maneira como as redes sociais entram neste contexto é interessante também. Não só permite que a jovem construa uma versão mais confiante de si mesma, como cria esta falsa sensação de que para ter novos amigos é preciso interagir em seus perfis online.

A obra acaba, infelizmente, nos distanciando algumas vezes quando opta por soluções não muito críveis, como a melodramática cena em que Kayla se abre com o pai. No entanto, são instantes isolados que não diminuem o impacto que o filme causa em nós. Acredito que o próprio diretor não tivesse noção do quanto ele alcançaria com “Eighth Grade”, logo que acaba por construir um estudo fascinante e relevante dos dias de hoje. Diz muito sobre o que fomos e sobre o que os jovens atualmente são. Bo Burnham escreve com muita sensibilidade e coragem essa passagem, entregando um produto cruel, humano e dolorosamente honesto em cada sentimento e receio exposto. Não é exagero afirmar que temos aqui um dos retratos mais fieis sobre a adolescência, triste mas imensamente doce e terno. Ao fim, aquela pequena garota acaba nos deixando uma bela e simples lição mas que esquecemos com facilidade: independente da merda que esteja enfrentando agora, vai passar! Uma hora passa, tudo passa.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 93 minutos
    Título original: Eighth Grade
    Distribuidor: –
    Diretor: Bo Burnham
    Roteiro: Bo Burnham
    Elenco: Elsie Fisher, Josh Hamilton

Crítica: Poderia Me Perdoar?

Um relato de amizade em um mundo individualista

Indicado ao Oscar 2019 de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, “Poderia Me Perdoar?” traz a junção de duas mulheres talentosíssimas: a diretora Marielle Heller (O Diário de Uma Adolescente) e a roteirista Nicole Holofcener (À Procura do Amor) para contar a surpreendente e real jornada de Lee Israel, uma escritora decadente que decide ganhar a vida falsificando cartas de autores renomados e vendendo a alto custo para colecionadores.

“Poderia me Perdoar?” é uma grata surpresa. Já nos primeiros minutos, o filme nos convence sobre aquela protagonista, sobre a vida miserável que leva e já nos faz torcer por ela. Sua falta de tato com os outros e sua incapacidade de aproximação, estranhamente, causa uma grande identificação em nós. Essa vontade dela em estar distante ou de simplesmente se recusar a ser o que a sociedade espera dela. Seja nas festas, no ambiente de trabalho, seja nas ruas frias de Nova York. Não há espaço para Lee Israel, que caminha solitária em busca de um aluguel pago e uma razão para viver. Mais do que forjar documentos e lucrar com isso, ela encontra ali um portal para voltar no tempo e viver, mesmo que em uma pequena carta, uma identidade que não é sua. Dessa forma, seu maior crime é também sua fuga. Não há maldade em seus atos, apenas um gosto amargo de nunca poder ganhar o reconhecimento por seus feitos. Talvez por isso sua relação com Jack Hock, interpretado por Richard E.Grant, é tão inesperadamente bela. Ele, que acaba a ajudando em seus golpes, é tão miserável quanto ela. Os dois se entendem, falam a mesma língua e estão diante dos mesmos receios. Desta divertida cumplicidade, o filme acaba por se revelar um relato delicado sobre amizade e sobre achar alguém que te entenda neste mundo cada vez mais caótico e individualista.

Muitos talentos da comédia resolveram se arriscar em um papel dramático no cinema, mas a verdade é que esta transição nunca foi tão completa e tão natural como a de Melissa McCarthy. Compreendemos, quando ela defende tão bem sua personagem, que ela é muito mais do que uma comediante, ela é uma atriz. Uma excelente atriz. Sua performance é irretocável, trilhando incrivelmente bem entre o humor sarcástico e a comoção. Sua parceria com Richard E.Grant, que surge impecável, é uma das melhores coisas que aconteceu no cinema recentemente. Como é bom ver os dois juntos em cena. Como é bom ver dois grandes atores dando vida para um texto tão rico e inteligente. Não há sequer um arco narrativo que não seja bem finalizado aqui ou um diálogo mal pensado. Tudo está em seu perfeito estado e prova o belíssimo trabalho de Holofcener como roteirista.

“Poderia Me Perdoar?” é um presente, aquelas jóias raras do cinema. Fiquei feliz por ter conhecido a jornada real de Lee Israel através de um filme tão humano, deliciosamente divertido e inesperadamente emocionante, que sabe quando e como inserir o drama. Ao fim, diante de minhas tantas lágrimas, queria entrar em cena e dizer para aqueles amáveis personagens: “vai ficar tudo bem!”. Eu amei cada segundo do que vi e isso não é algo que acontece com muita frequência. Se fosse possível abraçar um filme, no momento atual, este seria o primeiro da fila.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 107 minutos
    Título original: Can You Ever Forgive Me?
    Distribuidor: Fox Film do Brasil
    Diretor: Marielle Heller
    Roteiro: Nicole Holofcener
    Elenco: Melissa McCarthy, Richard E.Grant, Dolly Wells

Crítica: Um Estranho no Ninho

A falsa liberdade

“Um Estranho no Ninho” é, com certeza, uma obra fantástica, atemporal, que sobreviveu durante todos esses anos e tem potencial para se manter na memória daqueles que assistem. Baseado no livro de Ken Kesey e produzido pelo ator Michael Douglas, o longa nos apresenta Randle McMurphy (Jack Nicholson), um cara preguiçoso e que devido a alguns surtos de agressão, é retirado da prisão, da qual já havia passado várias outras vezes, para ser tratado e observado em um sanatório. Ciente de que não possui problemas mentais, McMurphy passa a usar o local para desfrutar de sua liberdade, ser o louco que eles procuram, além de incentivar e persuadir seus colegas internos a ir contra à ordem vigente, questionar os medicamentos e a rotina que levam ali dentro. No entanto, seus atos revolucionários se chocam com o pensamento conservador da enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), que não pretende facilitar a jornada de McMurphy no local.

Um filme grandioso! Começa tímido, mas ao seu decorrer acaba alcançando momentos épicos. O diretor Milos Formam nos entrega grandes sequências, nos faz navegar por diversas sensações e ao seu término, nos deixa sem chão com seu final impactante. Ele consegue criar uma ambientação incrível, nos fazendo parte daquele sanatório e criando um forte vínculo com seus carismáticos personagens. No entanto, ainda que o brilhante roteiro construa tão bem este ambiente amigável, não nos impede de sentir uma constante dor por todos eles, por cada situação, pela trajetória de McMurphy e esta noção distorcida que todos tem sobre liberdade. É bem curioso o instante em que o protagonista descobre que os internos estão lá por opção e começa a instigá-los a fugir, a buscar a liberdade que ele acredita ter alcançado, a de ser são e poder agir como um louco. E ainda que alguns pacientes estejam lá por opção, precisam seguir às regras, precisam compreender o que é ser normal, ou o que seus superiores dizem o que é ser normal. É então surge este anti-herói, que passa a ser a voz, o líder, que passa a ser os olhos e a mente, que passa a ser o caos no meio da ordem.

Vencedor do Oscar por sua atuação, Jack Nicholson está simplesmente irretocável como protagonista. É difícil imaginar outro ator a compor Randle. Todas as nuances de seu personagem, aquela loucura, o humor, a irreverência e o carisma, com certeza, um dos melhores momentos de Nicholson no cinema. Entre os coadjuvantes vemos rostos, hoje conhecidos, mas na época estavam em começo de carreira como Danny Devito e Christopher Lloyd. Destaque para a grandiosa atuação de Brad Dourif, que interpreta Billy e Louise Fletcher, que entrega uma performance de peso, conseguindo ao mesmo tempo ser sóbria, calma e ainda possuir um ar um tanto quanto enigmático, maligno. Não posso deixar de citar o personagem Chief, interpretado por Will Sampson, onde sua relação com McMurphy, marca um dos grandes momentos do filme.

Com um roteiro cuidadoso e muito bem escrito, Milos Formam realiza um filme magnífico, repleto de sequências memoráveis, sabendo dosar com perfeição os momentos leves com os mais impactantes, chegando ao ponto de nos emocionar profundamente. O longa ainda conta com uma excelente trilha sonora, composta por Jack Nitzsche. Acredito que o que faz de “O Estranho no Ninho” ser tão comovente é por este conceito de liberdade que relata, tão próximo ao que temos no nosso dia-a-dia, e por isso, talvez, que a obra sobreviveu ao tempo. É sobre esta noção falsa que temos de ser livres, onde vivemos num mundo onde escolhemos nossos rumos, nossos empregos, nossos pertences, sem nos darmos conta de que estamos seguindo uma ordem “superior”, uma trajetória já predestinada. Estamos seguindo esta normalidade, este padrão.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 1975
    Duração: 133 minutos
    Título original: One Flew Over the Cuckoo’s Nest
    Distribuidor: –
    Diretor: Milos Forman
    Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman
    Elenco: Jack Nicholson, Brad Dourif, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Will Sampson

Crítica: O Diabo de Cada Dia

Delírios da fé 

Grande acerto da Netflix, “O Diabo de Cada Dia” é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock que reúne um elenco de atores promissores. A obra narra uma série de histórias e personagens que são conectadas pela violência em uma região esquecida dos Estados Unidos. São indivíduos atormentados por um período entre Guerras, que encontram na fé uma passagem para a salvação. É bem interessante como o roteiro vai costurando essas tantas tramas, que atravessam anos e são cruzadas por pura coincidência ou vontade divina, como o próprio narrador nos alerta. Essa voz onisciente e onipresente é o que nos guia. É ela quem nos permite adentrar na mente conturbada de cada um e na melancolia existente nessas ligações. 

O diretor e roteirista Antonio Campos surpreende ao comandar essa jornada. Ele, que veio de obras menores como “Christine”, volta a investigar os efeitos de se viver em uma sociedade que normalizou a violência e crueldade. Campos acerta na construção da atmosfera, nos fazendo viajar ao tempo e a acreditar naquelas histórias e sentimentos. Há algo de amedrontador que permeia por todas as narrativas. A desumanidade ganha força nos lugares comuns, justamente onde parecia habitar bondade. O longa rapidamente nos faz traçar esse paralelo com a realidade e como a religião e a fé acabam sendo usadas como desculpa para tanta atrocidade. Esse fanatismo religioso é aterrorizante porque ele vem como escudo e porque ele defende o mal como um simples ato de delírio. 

Neste sentido, é interessante a história de vingança de Arvin Russell (Tom Holland) porque ele não combate uma pessoa específica e sim o peso que carrega do passado e sua relação com esse Deus impiedoso. Essa santidade que corroeu sua família e tudo aquilo que ele amava. Essa adoração que nunca trouxe respostas ou que tenha justificado tantos sacrifícios. Trouxe apenas o vazio, a dor, a solidão de ter que viver com tanta perda. Arvin é o que conecta essas tantas histórias. Desde seu pai, um soldado perturbado pela Guerra (Bill Skarsgård) até os inúmeros personagens que vão cruzando seu caminho por puro acaso (ou porque Deus quis assim). A arma, uma Luger alemã, que dizem ter estourado os miolos de Hitler, é outro item que transita por esses tantos ciclos e o objeto amaldiçoado que carrega essas tantas memórias. Ainda que o roteiro acerte na composição de todo este extenso universo, sinto uma leve fragilidade na jornada do xerife, interpretado por Sebastian Stan. Ele era um item importante na história mas jamais fica claro sua real relevância. Sinto que não foi bem explorado essa forte conexão que havia entre ele e Arvin e como ambos eram essas linhas soltas que dariam o último nó ao fim. Como todo filme que se utiliza de narração em off, este infelizmente nem sempre escapa da armadilha de narrar o que, às vezes, é explícito na imagem. Mas no geral funciona e não chega a estragar a experiência. 

Trata-se de um roteiro poderoso, brilhantemente bem escrito. Flui bem por todas as histórias sem perder a unidade, sem oscilar, apesar da longa duração. Mais do que ter em mãos grandes personagens, a obra acerta na escalação e condução dos atores. Independente do tempo de cena de cada um, todos estão bem. Holland nos faz esquecer seu Homem-Aranha e isso é ótimo, visto que nos últimos anos ignoramos a criança promissora que ele era. Jason Clarke e Sebastian Stan são tão bons que criamos um asco enorme por vê-los na tela. O mesmo sentimos por Robert Pattinson que, no entanto, ainda que seja esforçado, não consegue fugir da caricatura. As atrizes Eliza Scanlen, Mia Wasikowska, Riley Keough e Haley Bennett estão ótimas também, mesmo que menores na trama. Destaco Harry Melling pela força e garra ao qual entrega à seu personagem. 

Algumas pessoas nascem apenas para serem enterradas é uma verdade dolorosa. “O Diabo de Cada Dia” traz uma visão pessimista sobre como a nossa jornada e a maldade coexistem. Nosso destino pode alcançá-la a qualquer instante, quando menos esperamos, apenas porque tem que ser assim. A obra, no meio de suas tantas tragédias, faz um relato obscuro sobre a base de nossa atual sociedade e os reflexos que temos na política. Pessoas ordinárias e lunáticas que não tem noção do peso de suas ações e seus crimes bárbaros hoje estão no poder e estão validando o que é certo.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 138 minutos
    Título original: The Devil All The Time
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Antonio Campos
    Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
    Elenco: Tom Holland, Robert Pattinson, Sebastian Stan, Bill Skarsgård, Riley Keough, Jason Clarke, Harry Melling, Eliza Scanlen, Haley Bennett, Mia Wasikowska

Crítica: Corações Batendo Alto

Onde o coração pulsa mais forte.

Lançado no Festival de Sundance, onde fez bastante sucesso, o longa é dirigido por Brett Haley que já havia emocionado com o singelo “I’ll See You in My Dreams” (2015) estrelado pela veterana Blythe Danner, que aqui volta como coadjuvante. Há algo muito similar entre suas obras. Ele conta histórias simples, mas as conta com o coração. É cheio de ternura as relações existentes em suas narrativas e “Corações Batendo Alto” não é diferente. Ao falar sobre a eminente despedida entre um pai e sua filha, o filme parece não se esforçar para dramatizar tudo aquilo. A comoção já vem intrínseca em cada pequeno ato, em cada diálogo e em cada abraço dado. E neste caso, em todas as canções que embalam a trama.

Frank Fisher (Nick Offerman) é um pai solteiro que está prestes a dizer adeus para duas coisas muito importantes em sua vida: sua loja de discos falida e sua filha, Sam (Kiersey Clemons), que decidiu estudar em outra cidade. Neste momento de tantas rupturas, ele resolve apostar em seu passado – onde tinha uma banda com sua falecida esposa – e em uma brincadeira, grava uma música com Sam e a insere no Spotify. O que ninguém esperava é que a canção acaba fazendo um certo sucesso e esta se torna a chance dele tê-la finalmente por perto.

“Corações Batendo Alto” é um filme muito adorável, preciso dizer. Um feel good movie que, de fato, torna nossos corações aquecidos durante seus belos minutos. É gostoso demais se aventurar por essa descoberta musical entre pai e filha e como ele usa isso para estar mais perto dela. Este medo de estar distante somado a crise que enfrenta por não visualizar um futuro em que não faça algo na qual não sinta paixão. Por fim, a obra acaba falando muito sobre os nossos próprios receios e desperta fácil esta identificação em nós. O medo de apostar em algo e dar errado, o medo de não fazer o que se ama apenas por ter uma “vida que deu certo”. Mais do que a música, o que também une esses dois personagens é que ambos se encontram neste ponto em que o futuro é incerto. E mais do que saber o que impulsiona o coração de cada um, entendem que é preciso coragem para seguir onde a batida é mais forte. Outro ponto muito interessante no roteiro é como a homossexualidade da protagonista é tratada. Vem de forma natural, assim como deveria ser. Não é ponto central da história e ainda assim é mostrado com bastante sensibilidade pelo texto.

Nick Offerman e Kiersey Clemons estão ótimos e é sempre bom vê-los em cena. Fica ainda melhor quando somos surpreendidos por seu grupo de coadjuvantes que incluem nomes como Ted Danson, Sasha Lane, Blythe Danner e a sempre maravilhosa Toni Collette. Vale ainda por desfrutar das ótimas canções como “Hearts Beat Loud” e “Blink (One Million Miles)”. Nos últimos instantes, a protagonista traz uma inusitada lembrança de “Titanic” e o momento em que a banda toca quando o navio está afundando. Talvez a música realmente tenha esse poder. Nos fortalecer quando nada parece dar certo. Pelo menos é essa a sensação que o filme nos deixa. Termino de vê-lo inspirado, com vontade de sair cantando suas canções e acreditar que tudo vai dar certo no fim.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 97 minutos
    Título original: Hearts Beat Loud
    Distribuidor: –
    Diretor: Brett Haley
    Roteiro: Brett Haley
    Elenco: Kiersey Clemons, Nick Offerman, Ted Danson, Sasha Lane, Toni Collette, Blythe Danner

Crítica: Mulan

Assuma seu lugar

Nos últimos anos, a Disney tem se dedicado em trazer de volta as histórias de suas animações clássicas através do live action. Essa recuperação, principalmente após alguns fracassos, tem dividido o público e causado uma certa apreensão a cada novo título revelado. Trazer “Mulan” de volta era inevitável, ainda mais quando seu debate de empoderamento tão bem dialoga com os novos tempos, no entanto, a repaginação feita pode desagradar parte do público fiel da obra original. É possível afirmar que este é mais uma adaptação do que um simples live action e justamente por isso, devo dizer, foi o passo mais ousado dentre todos já realizados. Existe coragem na produção ao entregar uma história com diversas alterações, evitando o simples Ctrl C + Ctrl V. Coragem ao entender que nem tudo o que agradou os fãs um dia precisa ser um item irretocável. Trata-se de uma nova leitura e o cinema carece disso.

Mulan nunca foi uma criação da Disney e isso precisa ficar claro. A animação de 98 foi uma adaptação ao poema “A Balada de Mulan”, que por sua vez, foi inspirada em uma antiga lenda chinesa. Ela é um símbolo forte na cultura do país e é nítido que esta releitura, comandada pela diretora Niki Caro, tenta se aproximar mais das tradições locais, quase como um reparo histórico. É assim que tantos personagens adorados pelo público somem aqui, como Mushu, o Grilo e Li Shang. Há uma intenção de se criar uma história mais realista, ainda que não ignore por completo a fantasia e os exageros de um bom filme de aventura. Entendo e respeito essas decisões, assim como compreendo o fato de não termos a parte musical também. Nada desses elementos faz falta aqui e é perceptível o quanto eles não conversariam com esta nova roupagem. São escolhas difíceis mas são claramente justificáveis com sua narrativa. Inclusive, uma das melhores presenças na trama é uma adição, a vilã Xian Lang, interpretada pela ótima Gong Li. Ainda que pouco explorada pelo roteiro, gosto do que ela significa ali naquele contexto. Ela foi denominada de bruxa por uma sociedade que a excluiu, não por ter habilidades especiais, mas porque ela representava uma caminho de independência que mulheres não deveriam seguir.

Há um forte debate de feminismo e empoderamento na jornada de Mulan. Ela cresceu aprendendo que a única maneira de dar honra à sua família era se casando. Apenas os homens poderiam lutar. Mulan sempre se viu desconectada de tudo isso, não reconhecendo sua própria face porque foi treinada a ser silenciada. A silenciar sua voz, a silenciar seu dom. Quando o país é atacado pelos Rourans (não mais os Hunos, afinal os Hunos nunca atacaram a China), cada família daquela Dinastia deveria oferecer um homem para a batalha. Sabendo que seu pai jamais poderia enfrentar uma guerra novamente, principalmente devido sua idade, Mulan foge de casa e assume o papel de homem para conseguir entrar no exército. Durante todo o processo de treinamento, ela passa a questionar sua identidade e a entender que ali era seu lugar. Ali, no combate, ela poderia ser ela mesma, não mais omitindo suas habilidades, sua força, sua verdade.

O ponto de falha, porém, neste discurso e que o enfraquece, é o fato de que Mulan tem uma habilidade além do normal. Ela é um ser avançado, especial. É assim que o filme perde a chance de dizer para todas as garotas de que, independente do que dizem, elas podem estar onde os homens estão e podem ser tão bem sucedidas quanto eles. Seria interessante se Mulan fosse normal como todas as garotas e aprendesse algo de especial no caminho. Esta seria a mensagem ideal de motivação, o que se perde. Ao fim, ainda que ela tenha conquistado toda a glória, fica uma estranha sensação de submissão, da personagem ainda tendo que cumprir certas regras, servindo a honra de seu pai e do Império, um forte retrato patriarcal do qual a obra pretendia combater e fracassa.

O grande problema do filme está em seu apressado roteiro. Não há tempo para criar conexão ou empatia por nenhuma situação mostrada. Um dos focos da história é mostrar essa relação de Mulan com os homens do exército – que aliás, são todos bem carismáticos – e nesta cumplicidade que vai nascendo entre eles, porém, é tudo tão rápido e mal explorado, que enfraquece todas as motivações dos personagens. Todos os planos da protagonista também soam frágeis demais. A escolha dela em se passar por homem é um tanto quanto absurda e isso acontece sem nenhum tipo de dilema ou conflito interno, ela simplesmente faz. Assim como sua valentia em mostrar sua verdadeira identidade. Gosto do fato de Mulan se revelar por opção própria e não por um acidente, mas isso acontece de um jeito tão abrupto e mal planejado, que tira a lógica de todas as suas escolhas anteriores. Parece não haver reais obstáculos no caminho da personagem. Até mesmo quando o roteiro aponta um certo tormento com a chegada da bruxa, que poderia trazer alguns questionamentos à ela e uma interessante dualidade, o texto se esquiva para tornar o fim mais fácil.

Podemos contar, no entanto, com uma belíssima produção. Todo o trabalho de maquiagem, figurinos e cenários é deslumbrante. As lutas marciais, bastante tradicionais na cultura fílmica chinesa, trazem um dinamismo visualmente interessante para as cenas de ação. No entanto, o excesso de cortes desvaloriza essas boas coreografias, perdendo o brilho da boa experiência que poderia ter sido. A última batalha, encerrando o grande conflito do filme, estranhamente, é a pior de todas. É um momento de pouca inspiração, mal coordenada e esteticamente pobre. A presença da fênix, símbolo excessivamente inserido no cinema, nunca foi usado de forma tão cafona quanto aqui. O momento em que as asas surgem nas costas da personagem encerra de forma vergonhosa o que deveria ser o ápice da história.

Ainda que eu respeite e admire as alterações feitas, o que o difere positivamente de todos os outros live actions já feitos pela Disney, “Mulan” termina e deixa o mesmo gosto amargo dos anteriores. A aventura precisa ir além de uma boa produção que dê vida ao que antes era traços de uma animação. Falta emoção, falta entender o que de fato motiva esses personagens. Este acerta por não se sustentar apenas de nostalgia, mas falta um bom roteiro para sustentar suas criações e sua ousadia.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 115 minutos
    Distribuidor: Disney
    Diretor: Niki Caro
    Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Elizabeth Martin, Lauren Hynek
    Elenco: Yifei Liu
    , Gong Li, Jet Li, Jason Scott Lee, Yoson An

Crítica: Dente Canino

A assustadora mente humana

Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes de 2009 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Dente Canino” marca o primeiro grande passo do cineasta grego Yorgos Lanthimos, que posteriormente realizou “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. Há uma linguagem muito similar entre suas obras, algo excêntrico que as une e, como consequência, o torna neste diretor singular, único, com forte assinatura. Seus temas são complexos e geram, dentro de suas estranhezas, muitas reflexão, além daquele já conhecido nó no cérebro.

O filme não nos oferece muitas respostas e ao seu decorrer, vamos tentando juntas suas partes para chegar a alguma conclusão, que nunca é muito clara. Vemos um pai que isola seus três filhos dentro de casa e não os permite sair, criando, desde que nasceram, a ilusão de que o universo existe apenas dentro daquele muro. É assustador ver esta realidade distorcida que é oferecido a esses jovens e como eles aceitam tudo como verdade. A omissão do mundo os torna em seres completamente despreparados e dependentes das histórias contadas pelos pais. As sequências são naturalmente perturbadoras, e mesmo que Yorgos saiba inserir humor de forma inteligente e inesperada, é impossível não sentir um constante soco na alma e uma vontade desesperadora de ver os personagens livres de tudo o que nos apresenta.

“Dente Canino” é um filme cru, seco, frio. Suas cenas são fortes e não recebem censura alguma. Yorgos não está disposto a nos privar de sua perversidade, ele nunca está. Da violência ao incesto, tudo causa um imenso desconforto, no entanto, nos traz um estranho prazer de vê-lo, porque nos instiga a permanecer, nos causa curiosidade de compreender seu universo e esta mitologia única que desenvolve ali. E mesmo com a teatralidade que o diretor posiciona e guia seus atores, tudo o que nos mostra é forte porque há uma interessante analogia a tudo o que vivemos, a história dos homens. A caverna de Platão de Yorgos Lanthimos nos faz pensar neste condicionamento humano, em como aceitamos uma cultura e o que julgamos o que é certo pelo aprendizado dado a nossos pais. Somos constantemente moldados pela sociedade, frutos de um conhecimento passado que se reproduz sem muitos questionamentos.

“Dente Canino” nos deixa atordoados ao fim, sufocados por tudo o que nos oferece e que mal conseguimos digerir. Yorgos Lanthimos é um cineasta raro e esta é a grande prova de que ele deve ser levado a sério.

NOTA: 9

  • País de origem: Grécia
    Ano: 2009
    Duração: 94 minutos
    Título original: Kynodontas / Dogtooth
    Distribuidor: –
    Diretor: Yorgos Lanthimos
    Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymes Fillippou
    Elenco: Aggeliki Papoulia, Hristos Passalis, Mary Tsoni, Christos Stergioglou

Crítica: Se a Rua Beale Falasse

Retorno do diretor Barry Jenkins que, após vencer o Oscar por “Moonlight”, volta para falar sobre a luta das minorias nos Estados Unidos. Baseado no livro de James Baldwin, temos aqui um duro relato sobre tantas injustiças raciais que permeiam até hoje. O filme narra a história de um casal, Tish Rivers (Kiki Layne) e Fonny Hunt (Stephan James), que tem suas vidas separadas quando ele, um jovem negro, é preso injustamente por assediar uma mulher, mesmo que não houvesse provas contra o crime. Fora da prisão, Tish procura, ao lado de sua família, meios de inocentar aquele que ama, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o nascimento de seu filho.

O filme intercala muito bem os momentos de romance entre o casal, e daquela felicidade que sentem quando tudo parece dar certo entre eles, com os momentos em que Fonny já está na prisão. É triste acompanhar a jornada deles e saber que nem tudo será fácil, nem tudo será justo. Há uma cumplicidade muito grande ali e bela de assistir, não só pela deliciosa química que há entre os dois atores, mas principalmente porque Barry Jenkins sabe como filmar uma cena romântica. Tudo é extremamente lindo de se ver! As trocas de olhares, a filmagem e a delicada e poderosa trilha sonora de Nicholas Britell, que torna cada instante ainda mais sublime. Tudo nos leva a acreditar naquela relação e viver aqueles sentimentos tão belos ao lado deles. Por outro lado, a trama perde a força quando nos mostra os momentos atuais e com as famílias de ambos. Há uma teatralidade que nem sempre funciona em cena, tornando alguns momentos exageradamente dramáticos e pouco convincentes. A história, também, parece não sair muito do lugar. Começa e termina exatamente no mesmo ponto. Não avança e isso enfraquece a experiência de vê-lo, ainda que seja tecnicamente impecável.

O elenco está todo correto, no entanto, é inevitável não ficar de olho em Regina King a espera de seu grande momento no filme. É uma atriz fantástica e isso é fato, porém, seu momento nunca chega na obra ou alguma cena que justifique seu Oscar. Sua coadjuvante é pequena ali dentro e não há muito material para ela se destacar. O que é uma pena, ela merecia mais. Por fim, “Se A Rua Beale Falasse” termina com uma triste sensação de que falta algo, tem muito a dizer mas não explora ao máximo as situações nem seus personagens, entregando um filme desconfortavelmente linear, previsível. Entretanto, ainda há o que se admirar neste novo trabalho de Barry Jenkins, que retorna com mais uma direção irretocável. Seu olhar é único e vem para nos revelar esse romance que tinha tudo para ser o mais belo conto de fadas, mas é constantemente destruído pela realidade.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 117 minutos
    Título original: If Beale Street Could Talk
    Distribuidor: Sony Pictures
    Diretor: Barry Jenkins
    Roteiro: Barry Jenkins
    Elenco: Kiki Layne, Stephan James, Regina King, Diego Luna, Finn Wittrock, Pedro Pascal, Dave Franco

Crítica: Estou Pensando em Acabar com Tudo

O tempo que passa por nós

O texto a seguir possui spoilers

Charlie Kaufman é um sujeito interessante. Distante do cinema desde 2015 quando lançou a animação “Anomalisa”, ele sempre despertou em mim um imenso interesse. Há algo único em suas narrativas e uma forma peculiar de contar suas histórias mirabolantes. Suas obras se conversam e soam como um inventivo e melancólico ensaio sobre a vida e um mergulho na psique humana. Desilusões, frustrações, relacionamentos e identidade estão sempre ali e mesmo que ele adapte os pensamentos do livro de Ian Reid, é curioso como suas ideias tão bem dialogam com os estudos de Kaufman. Não haveria outro diretor e roteirista a estar aqui e fico feliz por este bem-vindo retorno.

“Estou Pensando em Acabar com Tudo” é um filme confuso e um grande exercício de reflexão. É o tipo de produto que permite interpretações diversas, que termina e nos deixa ali tentando montar as peças que nos foi mostrada e desvendar suas enigmáticas intenções. Superficialmente, acompanhamos a viagem de uma jovem mulher (Jessie Buckley) para conhecer a excêntrica família de seu recente namorado Jake (Jesse Plemons). Grande parte da trama acontece dentro do carro, o longo caminho que permite que os dois se conheçam, mesmo que, ironicamente, a vontade da protagonista seja terminar com este vazio relacionamento. O tempo todo o filme nos indica que algo de estranho está acontecendo, mesmo que nunca fique claro o que é. Exatamente isso é o que o torna tão assombroso, porque sentimos em cada instante que algo está interrompendo a normalidade. É bizarro, desconfortável e sua atmosfera nos traz esta sensação de incômodo, de que algo errado não está certo.

É difícil comentar do filme sem SPOILERS, então se você não viu, recomendaria pular para o último parágrafo. “Estou Pensando em Acabar com Tudo” me lembra bastante outro trabalho do diretor, “Sinédoque, Nova York” e esta encenação da vida de um homem frustrado diante de tudo aquilo que ele não compreendeu ou do que dói o bastante e precisa ser exteriorizado. Se no começo, “eu preciso acabar com tudo” nos remete ao iminente término de um relacionamento, ao fim compreendemos que se tratava da própria existência de Jake, o real protagonista desta história. Ele é o zelador da escola, introspectivo, solitário, que envelheceu e olha para o passado com amargura por não ter vivido seus tantos sonhos e se dedicado a suas aspirações acadêmicas e artísticas. Ele jamais viveu um relacionamento e cria sua “musa” se inspirando nas histórias de amor que consumiu e justamente por isso ela é inconstante, mudando de nome, perfil e roupas, fruto de uma imaginação que falha, que recria constantemente. O filme, então, é quase como uma jornada às memórias desse homem. Triste ao final da vida, que provavelmente se sacrificou para cuidar dos pais, principalmente da mãe debilitada. Que por eles também, nunca se viu livre para ser quem é por medo dos julgamentos de suas mentes conservadoras. Ao final, Jake se vê apresentando seu ato musical final, cercado de tudo aquilo que ele não teve, aplaudido, reconhecido por seus talentos e um homem imensamente amado por uma mulher. Como a garota diz em certo momento, Jake está parado e o tempo passa por ele, se alimentando, o corroendo, assim como o porco ingerido vivo.

“Estou Pensando em Acabar com Tudo” diz muito sobre como pensamentos revelam nossa verdade. Como somos honestos ao que vem à mente, até mesmo em nossas invenções, aos nossos sonhos. Pensamentos são reais e nos atormentam pela sinceridade que jamais revelaremos ao mundo. Não há blefe quanto ao que sentimos, diferente de nossas ações. Forjamos, atuamos, construímos um personagem para sermos aceitos, para sermos amados. Nunca conheceremos alguém de fato porque jamais teremos acesso aos seus pensamentos, à sua versão mais honesta. Nesse sentido, o filme ainda questiona os relacionamentos e revela o quão assustador pode ser dividir a vida inteira ao lado de alguém sem nunca ter tido a chance de realmente conhecer a outra pessoa. Não estar ao lado de alguém foi um peso que Jake carregou consigo, porque ele está inserido em uma sociedade que jamais aceitou uma vida sem ter um parceiro. A arte, a mídia, os coach sempre tiveram frases prontas para nos motivar e dizer que “existe uma pessoa para cada um”, que “existe o lado bom para todas as coisas”, uma grande besteira escrita por alguém que achou que descobriu como é viver para frustrar aquelas que jamais alcançaram essas falsas afirmações. Existe uma expectativa sobre o que é vencer e é doloroso quando vivemos distante delas, não porque precisamos dessas coisas, mas porque nossas ambições foram pré-determinadas.

Trata-se de um filme que se sustenta dessas metáforas e possíveis interpretações, mas que não funciona ao todo. A condução de Kaufman é arrastada e jamais justifica sua longa duração, o tornando entediante grande parte do tempo. Tive a incômoda sensação que a obra jamais desperta, jamais acontece de fato. Tudo é um ensaio para o fim, um preparo, uma longa introdução para sua real intenção que só é revelada nos minutos finais. A teatralidade e os diálogos que buscam constantemente uma profundidade para as conversas cansam, não geram empatia. Sua alta pretensão é gritante e isso afasta. O elenco, por sua vez, compreende a loucura do texto, permitindo assim com que os protagonistas Jessie Buckley e Jesse Plemons brilhem em cena. David Thewlis e Toni Collette também surgem incríveis. Os últimos minutos de filme são bem caóticos e soam como fragmentos de diferentes produções que não ornam. A cena da morte e a do musical provam a inconstância do trabalho de Kaufman como diretor, um tanto quanto apressadas e estranhamente mal conduzidas. Diferente do livro, ele elimina o tom de thriller e mistério e finaliza seu produto de maneira abrupta e amarga, desvalorizado as ótimas revelações que tinha em mãos, mas que são ofuscadas pela intenção de criar uma confusão narrativa quando não havia necessidade. É um caminho tortuoso até chegar ao fim e a forma como entrega suas respostas é um tanto quanto frustrante.

A produção é bem interessante e acho curioso como ele usa do próprio design para dar pistas sobre a trama, como o figurino dos personagens e as estampas coloridas de seus cenários. O trabalho de maquiagem também é fantástico e me deixou intrigado sobre como tudo foi feito. Apesar das falhas, foi bom poder encontrar um produto autoral como este raramente encontrado na Netflix, com um texto ousado, ainda mais em um ano com tão poucos lançamentos capazes de chacoalhar o mundo cinéfilo, o retorno de Charlie Kaufman se mostra necessário. Me frustra por ser distante de tudo o que eu esperava – uma expectativa impossível de não ser criada por ter lido o livro antes -, mas isso é uma culpa que eu levo e não depositarei no filme. É uma obra difícil, que termina e nos deixa ali desolados, tentando entender, tentando digerir e melancólicos por suas tantas reflexões. Funciona quando pensamos em todo o brilhantismo de seu conceito, sendo um produto que facilmente ecoa em nós, mas a experiência de assisti-lo, infelizmente, é imensamente intragável.

NOTA: 6.5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Duração: 134 minutos
    Título original: I’m Thinking of Ending Things
    Distribuidor: Netflix
    Diretor: Charlie Kaufman
    Roteiro: Charlie Kaufman
    Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Colby Minifie

Crítica: Vidro

Tão frágil quanto

M.Night Shyamalan é, sem dúvidas, um cineasta imprevisível e foi desta forma que ele criou uma trilogia nada convencional. Durante anos houve boatos sobre uma possível sequência de um de seus mais elogiados trabalhos, “Corpo Fechado”, lançado em 2000. “Fragmentado”, seu último filme, foi um grande sucesso e não só fez os estúdios voltarem a ter confiança no trabalho dele como o permitiu, enfim, fazer a continuação que ele sempre sonhou. “Vidro” vem para fechar essa saga não anunciada, no entanto, o que poderia ser um evento épico acaba sendo um verdadeiro desastre.

Como sequência de dois filmes bem distintos, Shyamalan tinha grandes dificuldades à sua frente. Em alguns aspectos, ele consegue fundir muito bem esses dois universos, respeitando, curiosamente, a fotografia e atmosfera de cada um. A maneira, também, como se utiliza das cores para distinguir cada personagem é um jogo que funciona. Desta forma, é no visual que “Vidro” tem um de seus maiores acertos. A boa direção de Shyamalan também ajuda, entregando sequências nada óbvias e fugindo do que o cinema costuma entregar quando o assunto é herói. É uma roupagem nova e o diretor acerta ao comandar tudo isso. O grande problema está em seu roteiro, que não só prova o pouco preparo dele para esse evento como não justifica a criação dessa terceira parte.

Ao início, a trama revela como andam as vidas de David Dunn (Bruce Willis) e Kevin Crumb (James McAvoy) depois dos acontecimentos já mostrados nos outros filmes. Há um rápido confronto entre os dois personagens, os unindo e os colocando para dentro de um hospital psiquiátrico, onde entra em ação a doutora Ellie (Sarah Paulson), uma profissional que trata desses casos específicos em que indivíduos acreditam ser heróis. Naquele lugar também se encontra outro paciente, Elijah Price (Samuel L.Jackson), também conhecido como Mr.Glass, que tem um antigo plano ainda em ação e onde Kevin e David são as peças principais para que dê certo.

“Vidro” até tem um propósito, mas seu roteiro nunca sabe como chegar lá. É tudo estranhamente mal elaborado e que só prova a irresponsabilidade de Shyamalan como autor, descaracterizando sua própria criação em prol de um fan service barato. Seu confuso texto força demais para tentar juntar seus três personagens e em nenhum momento ele prova que isso era uma boa ideia. Simplesmente não há desenvolvimento em sua obra, girando em torno de situações repetidas e quando finalmente parece sair do lugar, o resultado é frustrante. Durante todo o filme, a trama nos prepara para um grande evento que, infelizmente, nunca se alcança. Seu ápice é vergonhoso, pequeno e simplista demais para o que prometia. Existe, ainda, aquela velha necessidade do cineasta em se provar o rei das reviravoltas, encontrando saídas pouco criativas e que não causam surpresa alguma, apenas mais descontentamento. Shyamalan subestima seu público com soluções pouco críveis e difíceis de serem engolidas.

Diante de tantos erros, James McAvoy surge como um grande alívio. Sua performance ainda causa impacto e continua prazeroso vê-lo interpretar tantas personalidades. Bruce Willis completamente apagado e apático, enquanto que Samuel L.Jackson e Sarah Paulon apertam o piloto automático pra conseguir dar alguma vida aos sofríveis diálogos que precisam pronunciar. M.Night Shyamalan tem uma carreira oscilante e acho que ele estava tão certo de si quando resolveu levar essa ideia para frente que optou por nem revisar seu pobre material. O resultado é um filme vazio, que tem a pretensão de ser épico – a fantástica trilha sonora ajuda bastante inclusive – mas não passa de um estrondoso fracasso.

NOTA: 5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 129 minutos
    Título original: Glass
    Distribuidor: Disney / Buena Vista
    Diretor: M.Night Shyamalan
    Roteiro: M.Night Shyamalan
    Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Sarah Paulson, Anya Taylor-Joy, Samuel L.Jackson, Luke Kirby, Spencer Treat Clark