Crítica: Duas Tias Loucas de Férias

absurdamente patético, estupidamente brilhante

Comédia é um gênero difícil e tem se tornado um item escasso no cinema atual. Nos últimos anos, conseguimos somar na mão as melhores que assistimos. Quando ganham vida, são poucas as que trazem algo novo, refrescante e digno de nota. Dez anos depois de “Missão Madrinha de Casamento” – parece exagero, mas falo tranquilamente que é minha comédia favorita da última década – as roteiristas Annie Mumolo e Kristen Wiig, que aqui também protagonizam, se reúnem novamente e provam, mais uma vez, a força e brilhantismo desta parceria.

Ignore a bizarra tradução nacional e vá com o coração aberto. “Barb and Star Go To Vista Del Mar”, no original, é uma comédia pura, inventiva e que sai constantemente do lugar comum. Anna e Kristen interpretam duas amigas de longuíssima data, Barb e Star, que dividem o quarto, o trabalho, a rotina, o amor pelo nome Trish, onde ambas se sentem confortáveis dentro de um culotte e vivendo uma vida sem muito brilho ao início da meia-idade. Quando esta rotina que seguem é abalada, elas decidem que é hora de viver uma grande aventura e aceitam o convite do destino para uma viagem à paradisíaca Flórida, ao luxuoso hotel Vista Del Mar. Lá, elas se envolvem com o bonitão Edgar (Jamie Dornan), um caranguejo falante e uma vilã determinada a acabar com toda a cidade.

Nada faz muito sentido em “Barb and Star” e é maravilhoso em como a obra abraça com força o nonsense. Aqui não tem nada de “piada pronta” e, ainda assim, o roteiro consegue fluir de forma natural, extraindo humor das situações mais improváveis. A dupla garante o riso do começo ao fim, sem forçar, apelar, apenas pelo talento das duas atrizes em cena e do ótimo texto. É simplesmente hilário cada pedaço desse filme, me fazendo rever cenas e ficar repetindo na minha cabeça os diálogos. Ficarei ainda, por muito tempo, rindo das reuniões de tópicos para conversa com as “amigas”, delas impedindo de vender um sofá só porque gostavam muito dele ou delas fazendo a mala para a viagem e preferindo levar uma corda e um cortador de pizza. É tudo absurdamente patético, estupidamente brilhante.

O diretor Josh Greenbaum vem de uma carreira tímida por trás de episódios soltos de séries de TV. Por isso, chega a ser surpreendente sua condução aqui, entregando um produto novo, extravagante – kitsch até – colorido e empolgante, que jamais tem receio de ser idiota ou de se entregar ao musical simplesmente porque sim. Claro que o grande destaque vai para as duas atrizes e roteiristas que desenvolveram novamente uma comédia relevante. É aquele filme que precisávamos e até agora não sabíamos. Só espero que elas não demorem mais dez anos para retornar. O cinema carece de obras assim e é um prazer enorme quando este encontro acontece.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: Barb and Star go to Vista Del Mar
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Josh Greenbaum
    Roteiro: Kristen Wiig, Annie Mumolo
    Elenco: Kristen Wiig, Annie Mumolo, Jamie Dornan, Damon Wayans Jr.

Crítica: A Escavação

O que sobraria de nós

Baseado no livro de John Preston, que reinventa a história real de um arqueólogo que, a chamado de uma viúva para cavar seu extenso terreno, acaba descobrindo valiosos itens que passam a ser de interesse nacional.

“A Escavação”, recente drama lançado pela Netflix, nos faz pensar nesses pequenos passos dados pela história da humanidade. É um evento pequeno, ignorado, mas que existiu e teve sua importância. Sem a necessidade de um clímax ou uma reviravolta, o texto valoriza essa simplicidade do acontecimento e emociona pela forma delicada com que narra tudo isso. É bonito quando, naquele encontro entre dois personagens, eles revisitam o passado, descobrem uma vida, um momento congelado no tempo, mantido pela terra. Basil Brown, o arqueólogo interpretado por Ralph Fiennes, enxerga seu trabalho como um exercício de resgate, uma ação necessária para o futuro. É preciso cavar para escrever a história e é preciso da história para entender o presente. O roteiro, nitidamente, tem muito carinho por esses personagens que descreve, na relação entre cada um e pela profissão que exercem. Não apenas a arqueologia, é interessante como a fotografia entra aqui também, registrando a beleza de cada pequeno ato, cada encontro.

A trama, que acontece em um período que antecede a Segunda Guerra Mundial, se desenha neste interessante paralelo entre vida e morte. A protagonista, que segue com a dor do luto de perder o marido, assiste, nas ruas, jovens caminhando pela incerteza do confronto. Durante este tempo sombrio, eles cavam o túmulo daquelas terras, tentando descobrir o que um dia morreu ali.

“Se mil anos se passassem em um instante, o que sobraria de nós?”.

No meio das tantas descobertas, os personagens se encontram na reflexão de entender qual o legado deixariam ali, quais seriam os vestígios que sobrariam para o futuro. É assim que a obra se mostra um valioso e belo ensaio sobre o fim, sobre o que deixamos em terra quando não mais estivermos aqui.

“A Escavação” traz uma direção correta de Simon Stone, que não foge muito do que esperamos de um bom drama de época, com belas paisagens e uma trilha sonora empolgante, composta pelo estreante Stefan Gregory. Carey Mulligan é sempre excelente, ainda assim é contestável sua escalação, visto que a personagem é bem mais velha do que ela. Ralph Fiennes também brilha aqui, assim como os bons coadjuvantes de Johnny Flynn, Lily James e Ben Chaplin. Uma obra doce, com boas intenções e que, felizmente, segue em uma admirável crescente, sem perder o encanto e empolgação de seus eventos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 112 minutos
    Diretor: Simon Stone
    Roteiro: Moira Buffini
    Elenco: Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Johnny Flynn, Ben Chaplin

Crítica: A Vida em Um Ano

Drama mal reciclado

Quase seis anos depois de “A Culpa é das Estrelas” (confesso que é um filme que gosto bastante), o cinema ainda insiste nesses romances adolescentes trágicos. Um do casal vai morrer e você já sabe como será o final. Tudo tem a ver com o tempero e como o roteiro e a direção irá nos conduzir até lá. “A Vida em Um Ano” vem coberto de todos os possíveis clichês existentes e chega a ser espantoso o pobre resultado que alcança. Ser previsível, afinal, é um dos menores problemas aqui.

A começar pela fraca química do casal protagonista. Jaden Smith e Cara Delevingne já quase não funcionam isoladamente, juntos é desastroso. Ainda é difícil ter que aceitar Delevingne como adolescente, mas seguimos. O protagonista é Daryn, um jovem com grande potencial nos estudos e vive uma vida regrada pela pressão do pai. Tudo muda quando se apaixona por Isabelle, que tem uma rotina completamente oposta à dele, sem regras, sem planos. Quando ela revela enfrentar uma doença terminal, Daryn decide entregá-la uma vida inteira em um ano, a fazendo realizar desejos ainda não realizados.

O roteiro é falho nesta passagem de tempo, sendo pouco crível a construção deste relacionamento. Não apenas é difícil acreditar nessa paixão que acende entre os dois, como é incômodo o controle que um passa a ter na vida do outro, sempre julgando e sempre decidindo o que é melhor. O texto romantiza essas decisões, sempre forçando a barra, sempre clamando por nossas lágrimas. Nada é sutil aqui, tudo vem escancarado em uma reciclagem mal feita de tantos outros títulos. O diretor Mitja Okorn segue passo a passo a cartilha dos filmes adolescentes e pouco se esforça para fazer bom proveito dos clichês ou extrair alguma boa atuação do elenco. Até o humor, que poderia tornar a trama mais leve, não funciona, apenas constrange. É tudo extremamente piegas e mal gosto.

É estranho pensar que Will Smith é um dos produtores aqui. De fato, não sei qual o potencial viu em “A Vida em Um Ano”. No mais, gosto das músicas escolhidas e de como elas foram inseridas nas cenas. A trajetória de Daryn como cantor de rap e os conflitos vividos com o pai poderiam ter rendido um filme bem mais interessante.

NOTA: 5/10

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Prime Video
    Duração: 107 minutos
    Diretor: Mitja Okorn
    Roteiro: Jeffrey Addiss
    Elenco: Jaden Smith, Cara Delevingne, Cuba Gooding Jr., Nia Long

Crítica: O Animal Cordial

O sonho do oprimido

Sempre bom ver o cinema nacional se arriscando em outros gêneros e “O Animal Cordial” merece atenção pelo bom resultado que alcança. Uma proposta ousada e que funciona pelas mãos da diretora Gabriela Amaral Almeida, que entrega aqui um potente thriller psicológico.

Quando um restaurante é tomado por dois assaltantes, o dono do local reverte a situação para salvar seu estabelecimento, construindo um jogo perverso e violento dentro daquele pequeno ambiente. Com poucos espaços, o roteiro prende seus personagens durante uma noite tumultuada, construindo ali um embate pela sobrevivência. Apesar do cardápio elegante, é curioso como a produção desenha seu cenário, com cores escuras, paredes sujas, mais parecendo um matadouro, pronto para a carnificina.

A obra me remeteu à fase mais crua de Nicolas Winding Refn, pelo uso das cores, violência e principalmente pela trilha sonora, que aqui mescla órgãos e sintetizadores. As atuações são ótimas, se destacando, claro, Murilo Benício, que cria em cena um personagem macabro e marcante. Luciana Paes e Irandhir Santos também estão incríveis.

O sonho do oprimido é ser opressor. Essa frase ilustra bem “O Animal Cordial” e em como seus personagens, que se veem como a escória de uma posição acima, se rebelam contra esta estrutura hierárquica, decididos a inverter a cadeia alimentar. Todos eles são diminuídos, rejeitados pelo simples ato de ser quem são. É forte o instante em que um dos cozinheiros tem seus cabelos cortados, símbolo de sua resistência e identidade, simplesmente porque “incomodava” seu opressor. Todos almejam uma nova posição, uma fuga, estar longe daquela vida, longe do trabalho de “merda”. E neste jogo violento de ascensão, os indivíduos ali perdem o controle, se degradando até que, ao fim, se tornem apenas animais, grosseiros e famintos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Brasil
    Ano: 2017
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Gabriela Amaral Almeida
    Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
    Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Camila Morgado, Humberto Carrão

Crítica: Palmer

O dilema da masculinidade

É possível que você sinta que já viu “Palmer” em algum momento. O longa dirigido por Fisher Stevens é formulaico e traz como base uma premissa bem batida, a do ex-presidiário que tenta se redimir ao voltar à sua cidade natal. Mas nada disso estraga a experiência de ver o filme, muito pelo contrário.

A obra se mostra bastante necessária ao nosso tempo ao falar de um tema um tanto quanto tabu ainda hoje. Na trama, o personagem que dá nome ao título, interpretado por um emotivo Justin Timberlake, se depara em sua jornada com Sam (Ryder Allen), uma criança fruto de uma família problemática e que traz consigo claros traços de homossexualidade, logo, rejeitada na escola em que estuda, local em que Palmar passa a trabalhar. O foco da produção é justamente nesse laço que vai sendo construído entre os dois – que ganha inúmeras facilitações do roteiro – e como um recebe o suporte que precisa no outro, nesta constante busca por ser acolhido, ser aceito em uma sociedade sempre pronta para apontar o dedo e discriminar, seja qual for a razão.

É um confronto interessante entre Palmer e Sam. Duas gerações completamente diferentes. Do homem que aprendeu a ser o macho alfa e tem que entender o menino que brinca de bonecas e se identifica com as fadas de um desenho animado. O protagonista reconhece na criança a dor do abandono. Enquanto que Sam encontra na pessoa mais improvável, tudo o que mais precisa, seja de amor, de acolhimento, de um abraço forte vindo de alguém que o entenda. É belo em como o roteiro vai construindo essa relação, emocionando de forma honesta e arrebatadora. Não vem com discursos prontos sobre redenção, segundas chances ou sobre ser quem você deseja ser. As situações são apresentadas e se desenvolvem de forma natural, sem parecer pedante ou didático. Comove porque não clama por isso e porque é respeitoso o suficiente para tratar de temas delicados da maneira como precisávamos ouvir.

“Palmer” é, acima de tudo, um filme gentil. É aquele produto que nos abraça, nos conforta e nos faz acreditar que estamos evoluindo. É muito sensível a maneira com que fala sobre a homossexualidade infantil e fiquei feliz por ver uma obra tão terna e tão acolhedora como esta. Chorei porque vi algo muito doce e sincero ali. Chorei com um sorriso no rosto e são poucos os filmes que tem este poder.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Apple TV+
    Duração: 128 minutos
    Diretor: Fisher Stevens
    Roteiro: Cheryl Guerriero
    Elenco: Justin Timberlake, Alisha Wainwright, Ryder Allen, Juno Temple, June Squibb

Crítica: Pieces of a Woman

O pedaço que falta

Em 1940 aconteceu um caso um tanto quanto incomum na pequena cidade de Tacoma. Poucos meses depois de uma aguardada ponte ganhar vida, ela cai após uma forte ventania. Até hoje, estudiosos tentam elaborar teorias sobre o que poderia ter acontecido, encontrando explicações tanto no histórico do local como na física. Nos tempos atuais, temos aqui, como cenário, uma cidade com uma outra grande ponte em construção e a avistamos ali distante, em evolução, mas sempre com um buraco faltando, sempre incompleta. Aquele pedaço importante que impede os outros de chegarem no lado oposto

É com essa analogia que o diretor húngaro Kornél Mundruczó cria “Pieces of a Woman”, seu primeiro longa falado em inglês. Ele narra a dolorosa jornada de Martha, uma mulher que perde o filho logo após o parto. Os primeiros 30 minutos que ele nos entrega são dilacerantes. A cena do parto é forte, real e a opção de registrar este instante em um plano sequência foi certeira. Ainda que entregue o ápice do filme no começo, não vejo como algo negativo, faz sentido dentro da narrativa, logo que o que vem depois é apenas o silêncio, o vazio que nasce na vida daquela mulher despedaçada, vivendo no abismo que nasce entre ela e as pessoas que estão ao seu redor, que não possuem a sensibilidade de entender o que ela enfrenta. Martha é aquela estrutura que precisa ser forte, continuar em pé, mesmo quando falta algo que a completa.

É brutal toda sua batalha interna na qual a personagem enfrenta, essa luta silenciosa de seguir com tamanha dor e ainda precisando lidar com pessoas diminuindo seus sentimentos ou lhe dizendo como se sentir. Vanessa Kirby é potente e transmite com precisão esse momento tão delicado. A atriz se entrega ao papel e é lindo presenciar esta sua evolução. O elenco todo é fantástico, revelando bons momentos de Shia LaBeouf, Sarah Snook e a veterana Ellen Burstyn que finalmente ganha um papel a sua altura. Fazia tempo que o cinema devia isso a ela e é brilhante o que ela faz em cena.

Kornél é um dos grandes diretores que temos em atividade no cinema e sempre me choca a perfeição com que ele finaliza suas obras. São produções desafiadoras, que causam impacto e fico feliz em ver este reconhecimento. É um cara que vai longe. “Pieces of a Woman” é o filme que mais gostei dele e é ótimo também ver algo assim chegando na Netflix. O único detalhe que me incomoda um pouco é sua trilha sonora. Tive a sensação de que ela entra em alguns momentos indevidos, crescendo em cena quando o silêncio seria mais efetivo. No mais, um baita filme, bem escrito, dirigido e incrivelmente atuado.

NOTA: 9,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 128 minutos
    Diretor: Kornél Mundruczó
    Roteiro: Kata Wéber
    Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Sarah Snook, Bennie Safdie, Molly Parker

Crítica: Malcolm & Marie

O lugar errado da fala

Em algum momento alguém afirmou que Sam Levinson era visionário e isso claramente afetou o ego do homem. Sim, “Euphoria” e “Assassination Nation” tem muitas qualidades, mas chega a ser cômico como ele decidiu, posteriormente, fazer um filme porque recebeu uma crítica ruim e precisava desabafar. Mais do que imaturo é um passo perigoso.

Filmado durante a pandemia em um período de duas semanas, é interessante assistir o resultado alcançado pelo cineasta. É um exercício ousado, que acontece todo dentro de uma casa e apenas dois atores em cena. A forma como ele explora os espaços e sua câmera caminha pelos ambientes, dão um tom ágil à produção. O texto é feroz e revela uma eterna DR entre um casal composto por um diretor de cinema e uma jovem atriz com passado turbulento. Uma lavação de roupa suja que até tem seus momentos de brilho ao questionar esse relacionamento tóxico vivido pelos protagonistas, que se machucam a todo instante, no entanto, o roteiro peca na repetição. O casal abre feridas, as fecham para logo em seguida abrir novas, construindo uma narrativa cíclica enfadonha, verborrágica e infértil.

Há, em cena, ótimos diálogos e dois atores se doando, mas nada passa verdade. Zendaya e John David Washington se esforçam, mas o sentimento dito morre no texto e nunca alcança a interpretação dos dois. É tanta encenação que não há espaço para construir uma química entre os atores, que clamam por atenção, gritam para serem ouvidos, mas que só funcionam isoladamente. Culpa do roteiro que precisa dar um monólogo incrível de cinco em cinco minutos para cada um ter o seu Oscar tape.

“Malcolm e Marie” me faz pensar, ainda que um termo banalizado recentemente, em lugares de fala. Sam Levinson tenta limpar sua barra através de sua prepotência em se mostrar conhecedor da arte do cinema e expor suas frustrações enquanto criador através de um interlocutor preto. É perigoso e covarde quando ele verbaliza na tela tudo aquilo que não poderia enquanto homem branco. O mesmo acontece quando a personagem de Zendaya questiona a sexualização feminina em filmes dirigidos por homens, enquanto ela é sexualizada durante todo o filme. Levinson tenta abraçar essas causas sociais quando, na sua pele, nada afeta. São discursos vazios de um homem que realiza um produto egocêntrico, vomitando suas verdades, sem parecer que é tudo sobre ele mesmo.

NOTA: 6,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Sam Levinson
    Roteiro: Sam Levinson
    Elenco: Zendaya, John David Washington

Crítica: Alguém Avisa?

o tempo de cada um

“Happiest Season” tem aquele mesmo poder alcançado por “Love, Simon” há alguns anos atrás. Aquele produto simples, sem pretensão alguma mas extremamente necessário. Necessário quando, por anos, histórias LGBTs foram ignoradas e hoje elas ganham espaço para dialogar com tanta gente, em uma linguagem acessível a tantos jovens e tantas famílias. Pode soar, para muitos, como só um filme sessão da tarde. Mas não é, porque seu discurso é poderoso, porque ele está contando uma história de amor para aqueles que nunca tiveram referências. Porque ele está dizendo que é possível.

Na trama, Abby (Kristen Stewart) planeja pedir em casamento sua namorada Harper (Mackenzie Davis) durante o feriado de Natal ao lado dos sogros. No entanto, durante a viagem, descobre que Harper não é assumida para a família. Como toda comédia romântica natalina, tudo, obviamente, dá muito mais errado do que o planejado.

O filme acaba forçando bastante nas situações, pesando a mão naquele humor que causa desconforto, nos fazendo, inclusive, a questionar se o casal deveria realmente ficar junto. Ainda assim, diverte e nos envolve com seus carismáticos personagens. Aquele clichezinho bom de assistir, que faz bem para o coração, que apesar de parecer seguir fórmulas de comédias natalinas, ter um casal lésbico a frente de tudo, o torna um produto novo. Kristen Stewart tem carisma, mas ainda assim falta entrega, aquela real vontade de estar ali. Mackenzie Davis é sempre ótima, mas sua personagem acaba se apagando aqui, o que acaba sendo ofuscada pelos ótimos coadjuvantes vividos por Aubrey Plaza e Dan Levy.

Ter uma mulher assumidamente homossexual na direção fez toda a diferença. Clea Duvall traz honestidade e muito de si ali dentro. “Happiest Season” acerta em cheio em seu discurso final, a de que cada pessoa gay terá sua própria jornada de aceitação. É um caminho doloroso para todos, porque nada vem fácil e porque envolve medo, envolve rejeição, envolve a incerteza do que vem depois.

Simples e necessário. Imensamente necessário.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título Original: Happiest Season
    Duração: 102 minutos
    Diretor: Clea DuVall
    Roteiro: Clea DuVall
    , Mary Holland
    Elenco: Kristen Stewart,
    Dan Levy, Alison Brie, Aubrey Plaza, Mackenzie Davis, Mary Holland, Victor Garber, Mary Steenburgen

Crítica: Soul

O propósito da vida

Sem dúvidas, a melhor animação da Pixar desde “Divertida Mente”. É um momento muito especial para o estúdio, que entrega aqui o que há de melhor em suas criações.

O filme nos leva a uma jornada emocional quando seu protagonista se depara com o mundo das almas. Na tentativa desesperada de fugir da morte e realizar seu grande sonho como músico de jazz, se passa por instrutor no local, precisando encontrar um propósito de vida para 22, uma alma em treinamento desmotivada pela vida dos humanos.

Este encontro entre os dois personagens nos permite grandes reflexões. É interessante essa busca por um propósito, a vocação como item necessário para se ter uma vida. Somos naturalmente tão obcecados por isso. “Soul” é um lembrete sensível de que nossa existência vai além desta conquista, de que nossos sonhos é que nos impulsiona, mas não é o todo. O que nos faz querer estar vivos envolve tanta coisa, pequenos detalhes muitas vezes não perceptíveis na nossa correria de buscar um sentido. Somos aqueles que querem o oceano, quando a água já nos rodeia.

O filme é, ainda, visualmente belíssimo. Todas as cenas causam impacto, tamanha perfeição e deslumbre que alcança. É inventivo, original e o mais importante, feito de coração. Um estudo complexo e profundo sobre os desejos humanos, valendo uma revisita e podendo ter diversas interpretações. As crianças podem se divertir, mas recomendo fortemente aos adultos.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Disponível: Disney Plus
    Duração: 100 minutos
    Diretor: Pete Docter
    Roteiro: Pete Docter, Kemp Powers

Crítica: Belle Époque

A beleza dos inícios

“Belle Époque” é o filme que eu precisava e nem sabia. Comédia francesa leve e incrivelmente apaixonante, que marca o retorno de Nicolas Bedos como roteirista e diretor depois do excelente “Monsieur e Madame Adelman”.

A trama tem um toque mágico e facilmente nos leva para uma viagem encantadora e de boas reflexões. Somos apresentados a uma empresa que, através de riquíssimos cenários e uma reconstituição histórica, permite que seus clientes vivam a época específica que desejarem. É assim que conhecemos Victor, um senhor desiludido, que escolhe reviver o ano de 74, no dia exato em que conheceu o grande amor de sua vida. Este encontro do protagonista com o passado é emocionante, nostálgico e nos faz abraçar suas lembranças como se fossem nossas. Há algo de Show de Truman e essa reconstrução da vida, mas neste caso o personagem tem total consciência do que acontece e opta por viver aquele instante que o fez tão completo, tão feliz.

A produção é deslumbrante e causa fascínio ao transitar entre passado e presente, entre realidade e ficção. O roteiro é brilhante e acerta ao envolver tantos universos ao mesmo tempo.

“Belle Époque” é poesia aos saudosistas. Se o cinema é a arte que nos permite sonhar acordados, Nicolas Bedos nos presenteia, mais uma vez, com um universo mágico, tão belo quanto um sonho que não queremos despertar. E nesta reencenação do começo de uma história de amor – que no futuro perdeu-se o encanto – a obra nos faz pensar sobre como ficamos presos ao início quando se trata de uma relação. Os inícios são sempre os melhores e criamos a ilusão, presos em uma falsa expectativa, de que a perfeição daqueles instantes se prolongarão. Precisamos nos desprender disso, encontrar a beleza no hoje, com todas as suas falhas, caso contrário, ficaríamos trancados nas nossas lembranças, buscando no outro aquilo que um dia foi. A gente muda e a nossa forma de amar também.

NOTA: 9

  • País de origem: França
    Ano: 2019
    Título Original: La Belle Epoque
    Duração: 115 minutos
    Diretor: Nicolas Bedos
    Roteiro: Nicolas Bedos
    Elenco: Daniel Auteuil, Doria Tillier, Guillaume Canet, Fanny Ardant