Crítica | Passagem

O retorno morno de Jennifer Lawrence

Temos aqui quase que um recomeço para Jennifer Lawrence. A atriz acabou saturando a própria imagem depois de estrelar superproduções e os Oscar bait do David O.Russell. Apesar de ter lançado “Não Olhe Para Cima” ano passado, essa pausa e um espaçamento maior entre seus trabalhos, tem feito um bem enorme e hoje seu retorno é extremamente bem-vindo. É muito bom poder vê-la protagonizando novamente histórias mais simples e intimistas, assim como no começo de sua carreira com filmes como “Inverno da Alma”. Infelizmente, porém, “Passagem” não tem muito a oferecer além das boas atuações.

Lawrence interpreta Lynsey, uma engenheira militar que é forçada a voltar para casa depois de sofrer uma lesão cerebral durante uma explosão no Afeganistão. Dirigido por Lila Neugebauer, é bem curioso como a obra trabalha em cima de uma situação já muito comum no cinema – essa narrativa do soldado que volta da Guerra – mas a inverte, colocando uma mulher ao centro. Apesar dessa interessante mudança, o roteiro pouco se esforça para entregar uma visão nova sobre o tema, seguindo, ainda, aquele antigo template de filmes indies com pessoas traumatizadas tentando se reerguer.

“Causeway”, título original, significa ponte e isso muito se relaciona com a trajetória de Lynsey. É ela precisando enfrentar essa passagem até o outro lado. Esse destino futuro em que ela possa encarar seus tantos traumas e recomeçar. Neste seu trajeto, a protagonista acaba esbarrando com o do mecânico James, também ferido por um evento do passado. Ambos acabam criando um vínculo inesperado e sendo o suporte um do outro. O grande brilho da obra vem justamente desse encontro e dessa interessante troca entre os dois personagens e, claro, da excelente performance de Brian Tyree Henry.

Confesso que eu tive uma certa dificuldade em criar empatia pela protagonista e, como consequência, não me conectei ao seu drama. Além de ser, no mínimo intrigante, o fato dela querer voltar para o lugar que lhe causou tantos danos, o roteiro nunca deixa claro essa relação que ela tem com o exército e sua família. Existem muitas lacunas aqui e o texto peca ao acreditar que ao esconder tantas informações do público, o tornaria mais instigante, denso ou até mesmo mais surpreendente, quando na verdade só o torna mais vazio.

“Passagem” é tão minimalista, mas tão minimalista que, ao fim, é difícil extrair alguma emoção dele. A cena da prisão, quando Lynsey conversa com o irmão, me fez entender o que me distanciou do filme, porque todo o sentimento se condensa ali. É uma sequência simples, assim como toda a produção, mas se difere quando apresenta humanidade e sensibilidade que tanto falta ao resto. Ótimo poder rever Jennifer Lawrence, mas muito aquém do que esse retorno merecia. Ficamos no aguardo do próximo.

NOTA: 6,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Causeway
Duração: 92 minutos
Disponível: Apple TV+
Diretor: Lila Neugebauer
Roteiro: Ottessa Moshfegh, Luke Goebel, Elizabeth Sanders
Elenco: Jennifer Lawrence, Brian Tyree Henry, Linda Emond, Stephen Henderson

Crítica | X – A Marca da Morte

O terror slasher teve seu auge nos anos 80 e tem ganhado força, novamente, ao longo dos últimos anos. “X”, desde seu lançamento, tem chamado a atenção justamente porque marca o retorno definitivo do subgênero, entregando uma produção divertida e impactando sem muitos rodeios. O diretor Ti West reúne aqui elementos necessários, desde sua ótima ambientação à sanguinolência, que tornam a experiência bastante saborosa. No entanto, não posso deixar de sentir que houve uma comoção exagerada em torno do filme. É bom e entretém, mas nada tão revolucionário como querem que ele seja.

A introdução de “X” funciona bem, preciso ressaltar. A obra reúne um grupo de jovens atores e produtores em uma fazenda na zona rural do Texas, no final da década de 80, para realizarem um filme adulto. Claro, nem tudo sai bem como planejaram e logo somos apresentados a uma virada violenta. Confesso que gosto mais do primeiro ato, quando vamos conhecendo as motivações dos personagens e a estranheza daquele local. Quando o filme revela, de fato, suas intenções, vai perdendo o brilho. Suas sequências são impactantes e até empolgam, mas sinto que ele vai caindo no lugar comum e termina com uma sensação estranha de: OK, legal. Infelizmente, é tudo tão rápido em seu último ato, que parece que faltou alguma parte importante, soando incompleto. A final girl está ali, inclusive, mas ela pouco faz para sua sobrevivência. O que há no subtexto, porém, é rico e é nele que o filme encontra seu valor.

O cinema de terror, por muitas vezes, teve essa postura de condenação ao sexo, colocando suas vitimas, ativamente sexuais, sendo punidas por seus comportamentos pecaminosos. “X” soa como uma provocação a esse movimento, colocando, principalmente, suas personagens femininas desfrutando dessa libertação e muito seguras sobre como lidam com sexo e relacionamentos. Bobby-Lynne, em uma entrega surpreendente de Brittany Snow, é o arquétipo dessa jovem promíscua ao olhar dos outros, aquela que em outros tempos, seria a primeira vítima, aquela que precisaria ser castigada. A presença de Maxine (Mia Goth) também vem para agregar nesse discurso, sendo essa mulher decidida a romper os padrões de beleza, onde nitidamente, foi reprimida por suas escolhas e precisa se manter firme nessa posição que sempre tentaram diminuir.

“X” lida muito bem com esse paralelo entre libertação sexual e conservadorismo, muitas vezes, entregando de forma literal com suas telas divididas ao meio. A morte vem como reprovação, como necessidade de manter a sociedade limpa, longe da blasfêmia dos novos tempos. Esse conservadorismo é hipócrita e causa medo ao ter como fundamento discursos religiosos. Os assassinos aqui não usam máscaras e assustam quando caminham livremente sob a luz do dia. Ainda assim, me soa bem batido a ideia de reforçar essa imagem de idosos asquerosos, como criaturas nojentas, não dignas do sexo. Entendo a intenção, mas me decepcionou logo de cara, não só por revelar seus vilões rapidamente, como por eles serem essa personificação óbvia da repulsa e o filme nunca procurar uma saída contrária a isso. Aliás, sigo sem entender a necessidade do prequel “Pearl”, visto que nem é uma personagem tão interessante assim ao ponto de ter que contar seu passado.

Muito provável que os comentários emocionados sobre a produção tenham estragado um pouco minha experiência. Encontro aqui um produto divertido, estiloso e, apesar de revitalizar o terror slasher e trazer boas atuações de todo o elenco, falta um brilho a mais, algo que o distancie de ser apenas um compilado de ótimas referências. É bom, mas incompleto. Mesmo que seja o primeiro de uma trilogia, eu termino sem a menor vontade de consumir mais histórias dentro desse universo.

NOTA: 7,0

País de origem: Canadá, Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: X
Duração: 106 minutos
Disponível: –
Diretor: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Mia Goth, Kid Cudi, Jenna Ortega, Brittany Snow, Martin Henderson

Crítica | O Enfermeiro da Noite

Por uma outra perspectiva

À primeira vista, “O Enfermeiro da Noite” pode até soar como um suspense policial inofensivo, mas quanto mais eu penso sobre ele, mas eu compreendo sua grandeza. Em um momento em que narrar histórias de crimes reais se tornou tão comum, o filme dirigido por Tobias Lindholm vem com uma perspectiva bem mais intimista e real. Ele subverte esse conceito de fetichizar a violência e, muito distante do sensacionalismo habitual, constrói sua trama pelo olhar daquela que impede o crime e não por aquele que comete.

Baseado no livro de Charles Graeber, o filme faz um recorte interessante sobre Charles Cullen, interpretado por Eddie Redmayne, um dos serial killers com mais crimes nos EUA. Enfermeiro noturno, ele assassinou dezenas de pacientes nos hospitais em que trabalhava. A trama, no entanto, foca na enfermeira Amy (Jessica Chastain) e em sua relação com Cullen, que mais do que colegas de trabalho, se tornaram amigos e grandes confidentes. Porém, após uma onda de mortes durante seu turno, indo contra tudo o que acreditava, ela passa a suspeitar que ele esteja envolvido nesses crimes.

É muito cuidadoso todo o desenvolvimento do roteiro, que vai preparando sua atmosfera lentamente e sem alarde, costurando uma tensão psicológica fascinante entre os dois personagens. Cullen, aos poucos, vai se tornando extremamente assustador aos nossos olhos, porque ele é comum, porque ele está dentro da casa e cuidando das filhas de Amy. O medo aqui é extremamente palpável e nos coloca, o tempo todo, no lugar da protagonista e imaginando como é descobrir que o seu amigo, a pessoa em que você mais confia, na verdade é um assassino frio. Outro fator que torna essa história verídica ainda mais bizarra é perceber que ele é um criminoso livre, cuidando de pacientes e agindo como se nada tivesse acontecido. É perceber que os próprios hospitais se omitiam diante das tantas evidências. O longa, então, acerta ao denunciar não apenas essas instituições como marcas preocupadas com reputação, como também o descaso dentro da saúde pública.

Os letreiros finais são chocantes, porque nos lembram que casos como esse são possíveis e que assassinos podem estar aí, circulando, vivendo uma vida normal. “O Enfermeiro da Noite” termina e deixa aquele vazio diante de algo que não tem resposta, sem uma razão que justifique o que aconteceu. Me senti aflito com toda a situação e bastante admirado pelas ótimas atuações de Chastain e Redmayne. É muito convincente e poderosa essa troca entre os dois, o que torna os desdobramentos da trama ainda mais intrigantes. É curioso como aquele semblante bondoso e calmo do ator se torna uma máscara arrepiante, enquanto que Chastain, sem exageros, revela o medo, a dor e desespero de estar envolvida em tudo aquilo. Mais uma composição elegante e certeira da atriz. Muito provável que o filme decepcione quem procura produções de true crime, porque esse foge completamente da cartilha do subgênero. Ao meu ver, Tobias Lindholm merece respeito por quebrar tantas fórmulas e, sem altas pretensões, entrega um produto sóbrio, coeso e imensamente interessante de assistir.

NOTA: 8,5

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: The Good Nurse
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Tobias Lindholm
Roteiro: Krysty Wilson-Cairns
Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Nnamdi Asomugha, Kim Dickens, Noah Emmerich

Crítica | Noites Brutais

Sobre monstros e homens

Sempre fico com o pé atrás quando surgem termos exagerados e emocionados como “o melhor filme de terror do ano”. Para minha surpresa, porém, “Noites Brutais” é sim o melhor filme de terror do ano. É uma obra que me deixou em completo choque, não só por suas cenas fortes, mas também por toda sua ousadia e originalidade. Porque se recusa a ser só mais um, se transformando (e se reinventando) a cada minuto.

Sabe quando aquele filme é tão bom que dificilmente você desgruda os olhos? Pois bem, “Noites Brutais” sabe como fisgar a atenção, revelando uma trama que tem sempre uma carta na manga e está sempre a um passo à frente do público. Apesar dos exageros e da (divertida) forçação de barra, consegue fugir da previsibilidade através de seus personagens que, por vezes são bem estúpidos, mas também sabem ter boas soluções nas horas devidas. A prova de que a história não perde quando a mocinha é inteligente e corajosa, muito pelo contrário, o torna ainda mais empolgante, porque suas viradas são ainda mais saborosas.

Dividido em 3 partes, temos aqui quase que 3 filmes distintos e que, aos poucos, vão se encontrando. Essas quebras podem até causar uma estranheza, mas enriquecem sua estrutura como um todo. A trama inicia-se quando dois estranhos, em uma noite chuvosa, descobrem que alugaram a mesma casa no Airbnb. O diretor Zach Cregger já cria ali uma atmosfera de tensão fascinante, porque nunca sabemos exatamente a índole daquele hóspede misterioso ou até onde aquela desconfortável situação os levará. Aquela casa esconde outros segredos e logo somos apresentados a uma virada assustadora.

Nada é o que parece à primeira vista aqui. “Noites Brutais” brinca justamente com essas fórmulas que já desvendamos com outros exemplares do terror e as subvertem. O monstro não é o que existe de pior dentro daquela casa, assim como os homens – que estão sempre invadindo o espaço da protagonista – não são necessariamente o que seus discursos pregam. O longa, por fim, faz uma inteligente analogia à masculinidade tóxica e ao confortável mundo dos homens brancos, que atravessam limites e tem seus crimes silenciados. É brilhante esses questionamentos que o filme traz sobre quem são realmente os monstros e as vítimas dessa história e quem são aqueles que merecem a salvação ao fim da jornada.

Eletrizante, impactante e saborosíssimo! Gostei demais dos personagens, das boas saídas que a obra encontra e nessa habilidade do roteiro em renascer em todos os instantes em que ameaça cair no óbvio. A produção também é ótima, acertando nesse visual que cada um de seus capítulos possuem e no belíssimo e rico trabalho de maquiagem. Um novo passo para o jovem diretor Zach Cregger, que se torna um nome a prestarmos mais atenção. Sem ninguém esperar absolutamente nada, ele entrega não só o melhor terror, como um dos mais inventivos e divertidos filmes do ano.

NOTA: 9,0

País de origem: Estados Unidos
Ano: 2022
Titulo original: Barbarian
Duração: 102 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger
Elenco: Georgina Campbell, Justin Long, Bill Skarsgård

Crítica | Crimes do Futuro

O ensaio inacabado de Cronenberg

David Cronenberg sempre foi um sujeito curioso e seus filmes sempre me despertaram a atenção. Ele retorna à ficção científica, gênero que o consagrou lá nos anos 80 com filmes como “Scanners” e “A Mosca”. Apesar de trazer em sua narrativa um viés mais minimalista, ele volta a desenhar um universo intrigante. Em “Crimes do Futuro”, a espécie humana vai além de seu estado natural e o corpo passa a abrigar novos órgãos.

É o palco perfeito para o cineasta trabalhar o horror corporal, que sempre lidou com maestria, logo que em sua trama, um artista performático, vivido por Viggo Mortensen, decide expor em seus espetáculos a retirada de seus “órgãos-extras”. Aqui, o corpo e suas mutações são a matéria prima para causar espanto. De fato, é tudo bastante grotesco e causa desconforto, não apenas por essa estranha evolução humana, mas por toda a atmosfera que ele cria aqui. O futuro é descrente, vazio e todas as ambientações parecem como um museu. Assim como em “Crash”, aqui as pessoas buscam por novos estímulos e quando o corpo evolui para uma condição que não sente mais dor, o autoflagelo se torna um fetiche e a cirurgia, o novo sexo.

Ainda que seja extremamente fascinante essas criações de Cronenberg, que teve essa ideia há mais de uma década, “Crimes do Futuro” soa como um belíssimo esboço de um filme que ainda não chegou a acontecer. Todos os personagens secundários caminham por ali perdidos, como promessas de algo que nunca se concretiza. É frustrante ver esse universo, que é tão rico, resultando em absolutamente nada. Como se ele pincelasse ali suas intenções, mas não tivesse tido tempo de finalizar nenhuma delas. Infelizmente, toda a trama é bastante tediosa e além dessas transformações do corpo, visualmente impactantes pelo belo trabalho de maquiagem e efeitos visuais, não sobra muita coisa.

Nem mesmo as atuações me parecem inspiradas. Inclusive, fiquei extremamente desconfortável com a atuação da Kristen Stewart, mesmo que a câmera focada em suas expressões tivesse a certeza de que ela estava entregando algo bom ali.

“Crimes do Futuro” não chega a causar indiferença, tem lá seus bons momentos de impacto, mas eu só consegui desejar que ele acabasse. Tem um universo fascinante e que intriga, mas suas boas ideias são desperdiçadas com uma trama extremamente desinteressante de se ver, dentro de um filme inacabado.

NOTA: 6,0

País de origem: Canadá, Grécia, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2022
Titulo original: Crimes of the Future
Duração: 107 minutos
Disponível: Mubi
Diretor: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Léa Seydoux, Kristen Stewart, Scott Speedman, Don McKellar

Crítica | Athena

A tragédia do confronto

Um dos títulos originais mais interessantes da Netflix em 2022 e que, infelizmente, está passando despercebido. “Athena” é um espetáculo visual que teria sido lindo ter visto em uma tela grande. Dirigido pelo francês Romain Gavras – filho do diretor Costa-Gavras – o longa foi escrito em parceria com Ladj Ly, de “Os Miseráveis” (2019), e é nítido as relações entre os filmes. Ambos revelam este embate entre civis e policiais, mas aqui de uma forma ainda mais visceral e impactante.

Preciso já começar dizendo que a introdução de “Athena” é fodástica! A melhor sequência que tivemos nesse ano. É um plano sequência de tirar o fôlego, com movimentos de câmera que nos deixam extasiados. Já logo de cara, um trabalho formidável de Gavras. Ao longo de toda produção, também, ele rege uma orquestra que nos entrega uma experiência quase que sensorial e que fascina. É um conjunto de elementos ali, desde a montagem, a fotografia e a trilha sonora, que vai construindo este cenário épico e glorioso. Infelizmente, porém, quando entrega o ápice nos primeiros minutos, acaba por deixar uma leve sensação de frustração, porque nada do que vem depois está à altura daquele seu início magistral.

Nos arredores de Paris, a morte de um jovem garoto por um guarda acaba sendo o estopim desta relação entre policiais e os moradores do conjunto habitacional Athena, provocando um embate violento entre os grupos. O longa, então, foca nos três irmãos da vítima e como eles seguem nessa batalha. Cada um defendendo seu interesse, onde nem sempre estão do mesmo lado. Entre os conflitos sociais e fraternos, o texto vai desenhando ali sua própria tragédia grega, com mortes, reviravoltas e muito excesso. É bem interessante, inclusive, a virada no meio do filme, onde há uma troca de protagonistas, nos permitindo seguir na história com outro olhar.

Vindo de uma carreira de clipes musicais, Romain Gavras se mostra muito mais rigoroso nesse espetáculo visual e nessa sua afinidade com a estética do que no roteiro. É uma experiência fantástica sim, mas no fim, sinto que é um filme que não diz muito ou já disse o que já foi dito antes. Todas as discussões políticas e sociais são engolidas por seu fervor, por sua necessidade de impacto, o deixando bem menos profundo do que pretende ser. Ele caminha por aqueles espaços colado em seus protagonistas, mas falta aquela habilidade de imersão, que no meio de gritos, violência e explosões, ainda nos mantém distantes. Ele dita o olhar, mas nem sempre essa intensidade que vemos na tela, pulsa dentro da gente. Ainda assim, uma obra urgente, empolgante e incrivelmente bem produzida. Uma experiência sem igual ali no catálogo da Netflix e que definitivamente merece uma chance.

NOTA: 7,5

País de origem: França
Ano: 2022
Duração: 99 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Romain Gavras
Roteiro: Elias Belkeddar, Ladj Ly, Romain Gavras
Elenco: Sami Slimane, Dali Benssalah, Anthony Bajon

Crítica | Mais Que Amigos

Uma conquista no cinema (não rápida o suficiente)

Aos poucos, as comédias românticas têm tentado encontrar um novo espaço. “Mais Que Amigos” é o ápice desse retorno, que sabe como usar os clichês que desgastaram ao longo dos anos a seu favor e o mais importante, vem com um texto que finalmente entende o que é se relacionar nos tempos modernos, na era complexa dos aplicativos e da frivolidade. Inteligente, madura e incrivelmente divertida, temos aqui uma obra que redefine a representação queer no cinema.

Escrita e protagonizada por Billy Eichner, esta é a primeira comédia romântica gay produzida por um grande estúdio. É um filme necessário porque tenta ir além da bolha e porque entrega tudo aquilo que até pouco tempo atrás parecia impossível. Existe aqui uma auto consciência tão absurda que alcança a metalinguagem. Billy aproveita esse espaço justamente para criticar a máquina de Hollywood e como, por todos esses anos, só era interessante falar sobre tragédias e cowboys enrustidos. Porque era assim que os outros queriam nos ver. Hoje, a indústria como um todo entende que a criação de algo para a comunidade LGBTQIAP+ gera lucro, logo, só agora um produto como esse consegue nascer. Assim como o próprio texto diz em certo momento, isso é ótimo porque criadores gays agora possuem espaço para falar sobre as próprias experiências, mas é também triste perceber que isso demorou tanto tempo. Essa vitória não foi rápida o suficiente e muita gente não chegou até aqui para ter sua existência celebrada.

Billy interpreta Bobby, diretor de um vindouro museu de história LGBTQIAP+ de Nova York, que também encontra tempo para seu podcast e encontros casuais com outros homens. Perto dos quarenta anos, ele desistiu de ter um relacionamento dentro desta comunidade tão tóxica. No entanto, quando conhece o padrãozinho Aaron, ele se lança a uma série de possibilidades. “Mais Que Amigos” brinca com sabedoria com os clichês das comédias românticas, como quando sempre tem uma música brega de fundo em alguma cena chave. Satiriza essas fórmulas antigas enquanto nos revela a nova realidade dos relacionamentos, deste tempo em que é tão difícil se mostrar vulnerável à outra pessoa ou esperar algo sério que dure mais que só 3 meses. De certa forma, apesar dos risos, o longa traz reflexões interessantes sobre essa impulsividade não saudável dos amores líquidos, onde todos mudam de desejos a cada minuto, sem se importar em como essas ações podem afetar o emocional do outro.

O texto flui na mesma velocidade que a mente caótica de Billy Eichner. Por vezes, é até difícil de acompanhar seu raciocínio. Ainda assim, é comovente como ele agarra essa oportunidade para dizer tanta coisa. “Mais Que Amigos” é seu confessionário e ele diz aqui o que nitidamente segurou por muito tempo. É um roteiro imensamente sincero, que faz rir pelos exageros mas também machuca com suas tantas verdades. Seja quando ele fala sobre a história apagada dos homossexuais, seja quando ele fala de si e, por consequência, sobre todos nós, porque é muito fácil se identificar com o que ele escreve. Sobre essa dor de ter sido diminuído a vida toda por ser quem é. Somos de uma geração que ainda vive dos resquícios de um aprisionamento, que enfrentou a montanha russa do gay trauma. Não tivemos Glee e o romantismo. E tudo isso afetou nossas relações e a forma como lidamos com nós mesmos.

Como é gostoso chegar em 2022 e encontrar com uma obra como essa. Com direção de Nicholas Stoller e produção de Judd Apatow, veteranos em boas comédias, “Mais Que Amigos” é simplesmente delicioso. Tudo está em seu lugar, onde até mesmo o elenco de apoio surge no tempo devido e acrescenta de forma positiva na trama (uma raridade no gênero). Falar sobre otimismo em uma história sobre relacionamentos homoafetivos é de extrema necessidade. Não é o primeiro a fazer isso, mas confesso que é o primeiro que, de fato, me reconforta. Porque vender essa ideia onde tudo é fofo e dá certo no final é ótimo, mas parece um descompasso com a realidade. Finalmente vejo um filme que sabe equilibrar esse romantismo e esperança com as dores e frustrações que sentimos na era dos desafetos. Porque é escrita por alguém que vive isso na pele e sabe usar suas palavras para nos atingir.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Titulo original: Bros
Duração: 115 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Nicholas Stoller
Roteiro: Nicholas Stoller, Billy Eichner
Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Bowen Yang, Jim Rash

Crítica | Morte Morte Morte

A fragilidade da geração Z

O terror slasher tem retornado com força no cinema e “Morte Morte Morte” vem em boa hora. É uma sátira ao gênero e que, apesar de ser bastante saborosa, principalmente pelo bom roteiro, não necessariamente vai ganhar aprovação do público que busca perseguições, assassinatos e um vilão icônico. Um filme que nunca procura por caminhos fáceis, logo, vem com muita ousadia, inovando em sua abordagem e se sustentando mesmo com sua trama anticlimática.

Esse é o primeiro roteiro de Sarah DeLappe, que usa como base aquela já conhecida reunião de adolescentes em uma festa onde tudo vai dando incrivelmente errado. Toda a ação ocorre dentro de uma casa, durante apenas uma noite. Quando os personagens passam a morrer, o texto faz bom proveito do “whodunit” e aquele mistério sobre qual deles é o intruso no meio do grupo. Esse suspense funciona e tudo flui de forma bem intrigante e divertida, principalmente quando todos os indivíduos ali claramente possuem algo a esconder.

É brilhante como tudo se inicia com o jogo “Bodies Bodies Bodies” (algo parecido com detetive). Quando alguém é “encontrado morto”, todos devem descobrir quem é o assassino. Acho fascinante quando essa brincadeira, no fim, é o que define todos os acontecimentos e sempre que uma nova vítima surge, vemos cada um deles tentando se defender e tentando provar que o outro é o provável culpado.

O filme, porém, dificilmente agradará a todos. Não só porque todos os personagens são irritantes, mas simplesmente porque ele não é o que muitos esperam de um slasher (ou de um filme cult da A24). Confesso que achei genial a virada no final e assim como em muitas sequências, me fez rir. Por vezes, um riso de nervoso, por outras, porque é engraçado mesmo. É um texto afiado e surpreendentemente divertido. Gosto bastante também do elenco, onde todos estão muito convincentes em seus papéis. O destaque fica para Rachel Sennott, extremamente surtada e incrivelmente espontânea em cena. Uma coadjuvante que brilha e se torna a alma da festa. O que me incomoda no filme, porém, é o excesso de conversa no meio da ação. Tem sempre uma discussãozinha para interromper um momento que poderia ser sempre melhor se fosse mais objetivo.

Durante o caos que se instaura e as tantas intrigas entre os falsos amigos, “Morte Morte Morte” aproveita para, além do slasher, satirizar os debates vazios da internet e essa necessidade de opinar sobre tudo. Muitas questões sociais são levantadas aqui, propositadamente superficiais, sempre no tom de “uhmm acho que o Twitter vai gostar!”. Ao fim, a obra acaba por revelar um retrato fiel sobre a fragilidade da geração Z, o narcisismo de um grupo que precisa se firmar constantemente e essa escassez de anseios, quando abraçaram o niilismo como filosofia de vida. São jovens focados demais em si, presos dentro de uma bolha, onde não conseguem enxergar que os acontecimentos são maiores do que apenas um ataque a eles mesmos. Eles são desiludidos demais para ter um propósito e, assim como a genial virada do final, pode soar cômico ao primeiro olhar, mas é só triste e deprimente.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Titulo original: Bodies Bodies Bodies
Duração: 94 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Halina Reijn
Roteiro: Sarah DeLappe
Elenco: Maria Bakalova, Amandla Stenberg, Rachel Sennott, Myha’la Herrold, Pete Davidson, Chase Sui Wonders, Lee Pace

Crítica | Blonde

Tudo o que Marilyn Monroe gostaria de esquecer

Até aqui, o filme mais polêmico do ano. O cinema recente, de fato, carece dessas obras provocativas, que saem do lugar comum. Infelizmente, porém, falta contexto à “Blonde”, algo que justifique seus tantos momentos de impacto e deixe de ser apenas um produto vazio e misógino.

Por muitos anos o diretor Andrew Dominik tentou levar a adaptação do livro de Joyce Carol Oates para o cinema. Uma ficção biográfica, que imagina a vida de Marilyn Monroe teria tido, inspirada em boatos que rondavam a carreira obscura da atriz. Ainda que seja interessante essa liberdade de recontar tudo o que ela poderia ter vivido – principalmente pelo fato de que até hoje ela é uma figura emblemática e que nos causa bastante fascínio – é triste pensar que, dentro de todo o campo que a imaginação poderia levá-los, eles decidiram focar em seus traumas, nunca em seu talento, inteligência e força.

É muito possível que a atriz tenha sofrido muito do que é mostrado em cena, mas é bizarro como o filme não contextualiza absolutamente nada, como se as histórias por trás de suas dores não fossem necessárias. Um roteiro que é extremamente cruel com sua protagonista, que reúne situações desconfortáveis em uma sequência confusa e nem sempre linear. É Marilyn saindo de um trauma e entrando em outro logo em seguida, sem pausas. Se não está sendo estuprada, está sendo humilhada, assediada ou agredida. É incômodo assistir uma personagem sendo tratada dessa forma. Longe de qualquer tipo de homenagem, “Blonde” entrega tudo o que a atriz gostaria de esquecer e tudo o que qualquer mulher não merecia reviver, mesmo que na pele de outra.

A direção de Andrew Dominik é um espetáculo prepotente. Dialoga muito com o cinema de Sam Levinson (Euphoria) e aquela necessidade de revolucionar em cada sequência, porque o público precisa saber que eles são muito bons. Logo, soa pedante e exaustiva. Claro, não irei negar que existem sim alguns instantes belíssimos e que provam o trabalho de toda sua talentosa equipe. Apesar da bagunça de seu roteiro, existe também dinamismo em sua narrativa.

Ainda assim, precisamos falar sobre Ana de Armas. É sim bastante desconfortável vê-la nesse papel que a obriga ficar nua quase o tempo todo e que jamais respeita a trajetória de Marilyn Monroe. No entanto, ela se entrega por completo e seria extremamente injusto não aclamar o que ela realiza aqui. Ana tem algo especial que é muito difícil de definir. Vai além do talento, do carisma, da beleza. É um brilho a mais, é aquela essência que somente as grandes estrelas do cinema possuem. E Ana de Armas é uma dessas estrelas do cinema.

Eu juro que estava aberto ao filme, até eu me ver exausto diante de tanta violência e entendendo que eles não estavam interessados em contar a vida por trás do ícone, apenas na figura fragilizada, sem alma, como uma boneca inflável. “Blonde” aponta uma crítica válida, revelando temas delicados que precisam ser debatidos e precisam causar desconforto, como esse assédio existente em Hollywood e o machismo predominante. Mas é triste quando a própria produção parece ter prazer naquilo que supostamente pretende atacar. A imagem que a obra busca reafirmar da atriz é ela nessa posição vulnerável, sempre com os seios à mostra, sempre bela enquanto é violentada mais uma vez. Andrew Dominik parece saber exatamente quem são os culpados dessa história, ao mesmo tempo em que não se incomoda em estar no mesmo lado que eles.

NOTA: 5,0/10

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 157 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Andrew Dominik
Roteiro: Andrew Dominik
Elenco: Ana de Armas, Adrien Brody, Bobby Cannavale, Xavier Samuel

Crítica | Não! Não Olhe!

As aleatoriedades trágicas da vida

Jordan Peele segue sendo um dos raros cineastas atuais a movimentar uma multidão para uma ideia original. Sim, ele tem uma mente brilhante e facilmente nos faz ter interesse sobre suas novas criações. “Nope” é mais uma prova de que “Corra!” não foi um acidente de percurso e o cara sabe exatamente onde está indo. É um trabalho maduro, de um diretor ainda em seu auge e nos oferecendo uma experiência sem igual. Aquele tipo de filme que, além de nos causar fascínio diante de seus misteriosos símbolos, também nos empolga nesse cinema eletrizante, bom demais de ver em uma tela grande.

Mesmo que o diretor, claramente, tenha fortes inspirações em Spielberg, ele sabe como conduzir suas referências para algo definitivamente novo e único. Seja quando constrói incrivelmente a tensão, seja quando abraça a aventura pura. A forma como Peele vai nos introduzindo a seu universo – tão mágico e peculiar – é fascinante. Ele sabe como plantar aquela semente de que algo estranho está interrompendo a normalidade e nos mantém atentos a qualquer movimento em falso, curiosos sobre onde pretende chegar. Dessa vez, o palco para o terror está nas alturas e é no céu que o medo habita.

Não existe palavra que defina um milagre ruim. Mas eles existem e é esse o fio condutor de “Nope”. É através de uma aleatoriedade absurda que dois irmãos perdem o pai, morto por uma chuva de objetos. Emerald (Keke Palmer) e OJ (Daniel Kaluuya) precisam continuar cuidando do rancho herdado, treinando cavalos no interior da Califórnia. Quando pessoas passam a desaparecer e uma série de acontecimentos estranhos passam a rondar o local, eles decidem gravar algo que prove a ameaça que acreditam estar vindo do céu e essa provável invasão alienígena. É eles indo atrás de fazer parte da história, aquela do qual seus ancestrais foram apagados.

Não muito longe dos protagonistas, está Jupe (Steven Yeun), um ex-astro mirim que teve sua vida artística marcada por uma tragédia. Existe uma conexão entre esses personagens que, de certa forma, vivem suas vidas pacatas após terem sido descartados. Todos eles alimentaram a indústria do entretenimento, mas como tudo dentro da mídia faminta, perderam o valor logo o show principal. “Eu jogarei imundície sobre você, e a tratarei com desprezo; farei de você um espetáculo.” Jordan Peele desenha, através de seus simbolismos, essa espetacularização da dor e a midiatização do sofrimento. “Aqueles de fora” são os observadores, aqueles que se alimentam de uma tragédia, sugando o que é possível e descartando o que resta. Não é à toa que a principal arma aqui é a câmera e tudo aquilo que registra.

“Nope” permite muitas leituras e, como dentro de qualquer obra de arte, todas elas são possíveis. Nada precisa ter um significado exato, mas é fato que o filme vai deixando lacunas que deixam nosso cérebro fritando. E ao meu ver, isso só o enriquece, porque ele não acaba quando termina e se mantém vivo mesmo após os créditos finais. E não é apenas por essas possíveis interpretações que o novo trabalho de Peele funciona. Funciona, principalmente, porque é muito bem feito, porque encanta e diverte um bocado. O roteiro é ótimo e encontra, diferente de outros textos do cineasta, equilíbrio entre comédia e tensão. É brilhante como o filme não perde a força mesmo quando aquilo que é mistério ganha rosto. Além disso, a relação entre os personagens torna a experiência ainda mais interessante. É belo quando temos esses dois irmãos que, diante de uma tragédia que não se pode olhar para cima, encontram no olhar do outro a força para se manterem firmes. Vale citar, o trabalho absurdo de som que é feito aqui e a belíssima trilha sonora assinada por Michael Abels. Tudo isso torna a obra um entretenimento formidável.

Nem tudo em “Nope” precisa fazer sentido e não entender algo não torna sua experiência menos fascinante, muito pelo contrário. Inclusive, aquele sapato flutuante me soa como uma baita provocação do cineasta. Que não só vem pra dizer que nem todos os elementos precisam ter uma resposta como para somar nesse seu discurso de que a vida é feita dessas aleatoriedades absurdas. Milagres ruins acontecem e por mais que queiramos uma justificativa, nem tudo tem uma razão para ser. Aconteceu porque aconteceu. Simples assim. Como uma moeda que atravessa uma cabeça, um macaco que tem um dia de fúria ou um sapato que recusa a gravidade.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2022
Título original: Nope
Duração: 130 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Keke Palmer, Daniel Kaluuya, Brandon Perea, Steven Yeun