As conexões do agora
Desde as primeiras divulgações de “Todo Tempo Que Temos”, senti uma expectativa forte, como se estivesse aguardando esse projeto há anos. Meu lado emocionado sempre sofreu por ver a morte dos filmes de romance e perceber que o gênero tornou-se exclusivamente um produto de nicho nas plataformas de streaming. Me deparar com este novo trabalho de John Crowley – que já havia me cativado em 2015 com “Brooklyn” – fui transportado para uma época em que essas obras chegavam aos cinemas com qualidade. O diretor retorna em boa forma, emocionando com um clichêzinho gostoso de ver.
A história de um casal separado por uma doença não é novidade e o filme já nos entrega esse baque logo de início. Após um triste diagnóstico, Almut (Florence Pugh) opta por viver seis meses incríveis aproveitando da melhor forma o seu agora, em vez de um ano de tratamento incerto. Ao lado de Tobias (Garfield), ela aceita desafiar o tempo e viver suas últimas chances. O filme, sabiamente, se aproveita disso e constroi uma jornada não linear, entre o passado e presente deste casal. Entre o momento em que tudo pode acabar e a época em que eles achavam que teriam todo o tempo do mundo.

Assistir Andrew Garfield e Florence Pugh dividindo a mesma cena me fez perguntar como isso não aconteceu antes. A química entre os dois é simplesmente fascinante de assistir. De fato, é mágico o que John Crowley extrai do elenco e facilmente nos encantamos por tudo o que enfrentam, sendo extremamente prazeroso compartilhar os momentos ao lado deles. A trilha sonora, assinada por Bryce Dessner, desempenha um papel crucial nessa trajetória, dando tom ao filme e fazendo-nos abraçar cada pequeno instante, com um leve sorriso no rosto.
Ainda que a estrutura não cronológica funcione, sinto que o vai e vem dos acontecimentos faz o longa perder a oportunidade de explorar os altos e baixos do casal, além da doença. Mesmo que a experiência seja agradável, segue um caminho confortável e previsível demais, sem se arriscar a entregar algo novo.
Além disso, Almut e Tobias são seres perfeitos, frutos de tudo aquilo que idealizamos em uma relação e o roteiro não demonstra interesse em quebrar essa fantasia. Há raros momentos de discordância entre os dois, mas o texto se mostra receoso em torná-los humanos, então logo um ou outro precisa recuar para que o sonho volte a existir. Desta forma, sinto uma certa dificuldade em sofrer com o casal quando conheço tão pouco deles. É sempre um risco falar sobre relacionamentos sem ter interesse em se aprofundar nas camadas de cada personagem. E nesses tantos recortes que o filme reúne, só há tempo de revelar paixão e força e nem tanto fragilidade e contradições.
“Todo Tempo Que Temos” traz reflexões interessantes sobre casamento e como não é uma cerimônia e um contrato que vai medir a intensidade de um amor. Cada casal terá sua própria história e sua forma de aproveitar o tempo. Talvez tenhamos nos tornado um tanto quanto céticos quando falamos sobre relacionamentos. E talvez seja essa uma das tantas razões pelo gênero ter pedido sua força. Este novo trabalho de John Crowley, ainda que tropece, resgata um cinema não mais usual. Não tem vergonha alguma do romantismo, da leveza e do clichê. É feito na medida para agradar, entregando uma experiência que há muito tempo não tínhamos. Não tão incrível quanto prometia, mas ainda assim muito adorável.
NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Título Original: We Live in Time
Ano: 2024
Duração: 107 minutos
Diretor: John Crowley
Roteiro: Nick Payne
Elenco: Florence Pugh, Andrew Garfield
