sem o mesmo charme e energia de antes

O Diabo Veste Prada, de 2006, foi um marco. Cativante e eficaz, o longa construiu momentos que entraram para a cultura pop e que são referenciados até hoje. É mais uma dessas obras com estrutura tão fechada e bem resolvida que jamais precisaram de continuação. Agora, 20 anos depois, existe um prazer inevitável em reencontrar esses personagens, ao mesmo tempo em que causa certo desalento perceber o quanto o cinema atual depende da nostalgia para continuar lucrando.  

Ainda que conte com o mesmo diretor, roteirista e elenco, O Diabo Veste Prada 2 não tem o mesmo brilho de antes. É quase como um especial de TV onde vemos aqueles mesmos personagens circulando os ambientes que já conhecemos, enquanto reprises de piadas e situações tentam despertar o conforto do público. Há uma tentativa válida de atualização, mas insuficiente para segurar um filme de duas horas. 

A continuação traz discussões pertinentes sobre o universo contemporâneo da moda, as transformações da mídia impressa, a crise do jornalismo e a lógica dos algoritmos. Ainda assim, cinema exige mais do que apenas um bom discurso. O filme parece tão preocupado em levantar pautas importantes que esquece da diversão. No fim, se apoia quase exclusivamente na nostalgia de rever aquele quarteto reunido mais uma vez. Fora isso, permanece constantemente à sombra do original, sem conseguir reproduzir suas maiores virtudes. Falta humor, charme e energia. 

Existe aqui uma atmosfera mais fria, distante da acidez e da sagacidade que tornavam o primeiro tão marcante. A dinâmica corporativa que antes provocava e fascinava retorna sem impacto. Diante disso, a narrativa assume um único tom do começo ao fim. As viradas dramáticas não têm peso e o clímax simplesmente não acontece. Grande parte dos conflitos se resolvem apressadamente, através de dois telefonemas, sem tensão ou construção emocional. Os pequenos embates apresentados jamais recebem a importância necessária. 

Também causa estranhamento a forma como os personagens foram conduzidos após duas décadas. Andy (Hathaway) parece sofrer um retrocesso completo em relação ao primeiro filme, voltando a se mostrar insegura, dependente de validação e novamente fascinada pela ideia de trabalhar com Miranda. Já Miranda e Emily, antes o coração pulsante da obra, aparecem apagadas, assim como praticamente todos os coadjuvantes. 

A situação piora porque muitos dos novos personagens pouco interferem na trama. O exemplo mais problemático é o interesse amoroso de Andy. Não existe química, função narrativa ou relevância dramática. Em cena, os dois jamais convencem como casal e sequer demonstram envolvimento genuíno. Se o personagem fosse removido da história, absolutamente nada mudaria. 

O Diabo Veste Prada 2 tem armas poderosas na mão, mas faltou roteiro para amarrar suas ótimas intenções. No fim, sobra a sensação de assistir a mais uma obra produzida apenas porque a indústria atual parece incapaz de sobreviver sem revisitar sucessos do passado. Mais uma sequência desnecessária que provavelmente, em respeito ao primeiro extremamente icônico, vou fingir que nunca existiu. 

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2026
Duração: 1h59
Diretor: David Frankel
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Elenco:
Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Simone Ashley, Justin Theroux

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