tempo, memória e humanidade.

Um dos filmes que mais me emocionaram neste ano, sem dúvidas, foi Sing Sing. Que presente, então, me deparar agora com Sonhos de Trem, novo projeto da dupla Greg Kwedar e Clint Bentley, que aqui intercalam a função de diretor e roteirista. Existe algo muito íntimo e sensível que une estas duas obras. Ambas são construídas de relatos, de memórias e de uma reflexão sincera sobre a tristeza e a beleza da vida, além do curso inexorável do tempo.

Sonhos de Trem é um daqueles filmes difíceis de explicar porque ele é muito mais sobre os sentimentos que desperta em cada um do que uma história com começo, meio e fim. Ao seu término, eu estava inundado de tanta coisa. Emocionado por algo que, de imediato, eu nem sabia explicar exatamente o porquê. O instante em que o protagonista se recorda da própria vida nos atinge como uma avalanche. Acaba por ser um lembrete poderoso de como nossa jornada é construída por simples gestos e encontros. Cada pequeno evento tem sua importância, mesmo que não perceptíveis no momento em que se vive. 

Baseado no romance de Denis Johnson, a obra jamais tem pressa em revelar seus acontecimentos, onde tudo acontece no seu devido tempo. Conhecemos o nosso solitário protagonista Robert Grainier, um homem simples e reservado que, em um período de escassez pós-Guerra Civil e acelerada industrialização, passa a trabalhar na construção de ferrovias no oeste americano. Acontece que, para isso, ele precisa se ausentar de sua família, ficando longos períodos distante de quem ama. Quando uma tragédia ocorre, Robert acredita estar recebendo a vingança da natureza por ter omitido o assassinato de um colega de trabalho. 

O personagem central parece sempre incapaz de impedir o que o cerca, apenas reagindo ao curso natural da vida. Apenas precisando aceitar o papel que lhe cabe. É então que ele caminha carregado de culpa e das lembranças angustiantes que marcaram sua jornada. 

O longa evita dramatizações fáceis e cresce ao seguir trilhos improváveis. Faz um registro sensível e poderoso sobre a rápida passagem humana sobre o mundo. Entre dores e alegrias. Entre tudo o que perdemos e tudo o que construímos aqui para o futuro de quem fica. 

Joel Edgerton entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Sua dor nunca explode, permanece contida e silenciosa. São belíssimos os breves encontros que Robert vive com aqueles que cruzam seu caminho, quase como se estivesse diante de uma fábula em que cada figura compartilha um pequeno ensinamento.

Sonhos de Trem, assim como Sing Sing, é um filme especial. Desses que nos tocam e convidam à reflexão. Apresenta uma adaptação desafiadora, já que não adota uma estrutura narrativa tradicional, mas chega com um olhar sensível, poético e profundo. Retrata com força a vida de pessoas comuns enfrentando o avanço do tempo e da relação do homem com a natureza. Nos faz pensar no milagre de existir e o quanto o mundo carrega histórias muito anteriores às que deixamos. Nossa presença é breve e vemos apenas uma fração dessa imensidão. A terra já estava aqui antes de nós e continuará quando partirmos.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2025
Duração: 103 minutos
Diretor: Clint Bentley
Roteiro: Clint Bentley, Greg Kwedar
Elenco: Joel Edgerton, Felicity Jones, Will Patton, Kerry Condon, William H. Macy

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