como uma casa cheia de memórias, mas vazia de sentimento

Apesar de chegar cercado de grandes expectativas por figurar como um dos títulos mais fortes da temporada de premiações, Valor Sentimental me parece um dos trabalhos mais convencionais de Joachim Trier. Embora apresente qualidades, o filme carece da complexidade e da inventividade que marcaram obras anteriores do diretor.

A narrativa propõe um estudo sobre traumas familiares e sua transmissão entre gerações, acompanhando o reencontro de um pai ausente (Stellan Skarsgard) com suas duas filhas após a morte da mãe. Diretor de cinema, ele retorna não apenas à vida delas, mas também com o desejo de transformar uma história íntima em um projeto artístico, convidando Nora (Renate Reinsve) para protagonizá-lo. As ideias sobre a convergência entre arte e vida, bem como o potencial da arte como meio de reconciliação e cura, são tratadas de forma bastante óbvia, afinal, sabemos desde o início o rumo que ele irá seguir.

O tom adotado é excessivamente frio, silencioso e distante. O conflito central se constrói quase todo a partir do não dito, o que mantém a narrativa em um estado de contenção permanente. Em vez de sugerir profundidade emocional, essa escolha acaba criando uma barreira que dificulta o envolvimento e esvazia o impacto dramático das relações.

Há ainda um acúmulo de temas que o filme não consegue desenvolver. Entre flertes com a metalinguagem, críticas à indústria do cinema e a abordagem de assuntos delicados como tortura e suicídio, a obra parece se dispersar. A sensação é de um produto repleto de boas intenções, mas superficial e um tanto vaidoso.

Apesar disso, é fácil imaginar o quanto a obra pode agradar os votantes do Oscar que, provavelmente, vão achar genial a rachadura de uma parede como uma representação de uma família em ruínas. Esse tipo de alegoria parece feito sob medida para esse circuito, soando mais pretensioso do que realmente profundo.

Também não compartilho do entusiasmo generalizado à atuação de Renate Reinsve. A suposta protagonista tem pouco tempo de tela e pouco material para desenvolver algo verdadeiramente sólido. E embora sua personagem funcione como elo entre os acontecimentos, sua atuação acaba ofuscada pelas demais. Trata-se, além disso, de uma personagem difícil de gerar empatia. Por outro lado, Stellan está espetacular, assim como Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas.

Por fim, incomoda a maneira como o roteiro parece justificar o distanciamento paterno a partir de traumas passados, minimizando responsabilidades e ignorando o machismo estrutural. Nada soa íntimo ou verdadeiramente honesto e tudo permanece como uma representação fria do que se acredita ser viver aqueles sentimentos. O resultado é um filme complacente consigo mesmo, difícil de acessar emocionalmente e, paradoxalmente, um dos menos complexos de Trier.

NOTA: 6,5

País de origem: Noruega
Ano: 2025
Duração: 122 minutos
Diretor: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt
Elenco: Stellan Skarsgård, Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning

Deixe uma resposta