A palestra didática de gabriel mascaro

Em algum lugar dentro de O Último Azul existe um filme muito bom. A proposta de uma crítica social poderosa está ali, mas falta lapidar o roteiro, que se prende ao didatismo e à frieza.

Vencedor do Urso de Prata no último Festival de Berlim, o longa marca o retorno de Gabriel Mascaro à direção. É uma obra que remete bastante a Divino Amor, seu filme anterior. E confesso que tenho dificuldade em me conectar com as distopias que ele constrói. Em ambos os casos, há uma premissa genial que, no entanto, não é plenamente explorada. Mascaro imagina um Brasil futuro assustador, mas esse cenário acaba sendo apenas pano de fundo. Em vez de mergulhar nesse universo, ele opta por contar uma história bem menos interessante. Assim, sua ideia brilhante vai se diluindo ao longo da trama, até restar muito pouco. Ele tem a semente, mas continua plantando em solo infértil.

Em O Último Azul, ambientado na Amazônia, o governo cria um programa onde todos os idosos são levados para uma colônia habitacional. Tudo isso com o pretexto de salvar a economia do país e deixar com que os filhos trabalhem ao invés de cuidar dos mais velhos. É neste cenário aterrorizante que vive Tereza, de 77 anos, que para escapar deste destino, decide ir atrás de seu sonho de voar. 

O filme assume um tom de fábula, em que a protagonista embarca em uma jornada e cruza o caminho de figuras excêntricas até chegar ao seu destino final. Ninguém tem pressa em ajudá-la, mas ela segue obstinada em sua busca por liberdade e por um modo de viver que não esteja sob o controle de um país que já não a quer por perto. Existe um discurso forte sobre etarismo aqui, mas infelizmente essa jornada perde o brilho muito cedo. Assim que Rodrigo Santoro entra em cena, sinto que aquela boa premissa começa a se esvair. 

O conceito instigante do início se enfraquece diante de um roteiro exageradamente didático. Os diálogos soam, ironicamente, como uma propaganda do governo. Nada flui de forma orgânica. É teatral, truncado, literal demais. Em cada cena, é como se alguém surgisse dizendo: “vejam como será o Brasil do futuro” ou “vejam como os idosos serão tratados”. As situações são artificiais e calculadas, o que prejudica tanto a imersão quanto a empatia. 

O Último Azul tenta investigar o real e aquilo que é natural, mas perde nesse esforço para ser técnico e artístico. Não é à toa que as atuações que mais se destacam aqui são daquelas mais inexperientes. Justamente porque elas carregam em si a espontaneidade que não existe no resto. Infelizmente não consigo comprar as ideias de Gabriel Mascaro. Falta humanidade e um roteiro que explore seu universo com mais profundidade, esmero e sem parecer uma palestra. Ao menos, a trilha sonora assinada pelo músico Memo Guerra é fantástica. Um raro elemento que realmente nos toca.

NOTA: 6,0

País de origem: Brasil
Ano: 2025
Duração: 85 minutos
Diretor: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro, Tibério Azul
Elenco: Denise Weinberg, Miriam Socarras, Adanilo, Rodrigo Santoro

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