O silêncio que antecede a dor

Apesar de ter grandes inspirações no massacre de Columbine, “Elefante” segue um caminho próprio e não procura entender o que ocorreu, de fato, no evento real. Até hoje, o filme sempre teve seu nome atrelado ao caso, talvez por ter sido lançado poucos anos depois e por entregar, em sua trama, algumas nítidas semelhanças. Se em 1999, o mundo chocou-se pela história dos dois garotos que mataram colegas e professores dentro de uma escola, o diretor e roteirista Gus Van Sant visita essa ferida e revela, de forma bastante realista e documental, algumas horas antes de um atentado como este.

Sem dar dicas do que se trata sua história, acompanhamos um dia aparentemente normal dentro dos corredores de um colégio. Adolescentes comuns, que enfrentam suas batalhas internas diariamente. Problemas familiares, baixa auto estima, bulimia, bullying. Cada um dos personagens selecionados para ser nosso olhar por aquele local tem algo a dizer, algo a encarar naquele dia. “Elefante” então, passa a ser um belíssimo exercício narrativo de Van Sant, onde em um único plano consegue contar diversas histórias, por vezes, simultaneamente. Sua câmera não desgruda de seus protagonistas, nos levando a vivenciar aqueles momentos ao lado deles, como se estivéssemos ali, ouvindo, perseguindo, sentindo. Ele ainda nos permite conhecer um mesmo instante por perspectivas diferentes e esta é a grande beleza de seu trabalho. Esse domínio desses elementos que nos faz imergir em suas intenções. Com tom de documentário, a utilização de atores não profissionais aumentam ainda esta sensação de realismo.

Vamos então, como observadores, encontrar algum ponto de anormalidade ali, algo que justifique as terríveis ações do final. No entanto, “Elefante” não tem esta intenção. Ele investiga o tempo e espaço onde tudo aconteceu, mas a grande verdade é que não há resposta e nunca haverá. E, felizmente, o filme em momento algum tenta encontrá-la. Não tenta, inclusive, romantizar a fatalidade e entrega um olhar sóbrio, seco e distante do sensacionalismo habitual do cinema sobre uma tragédia. O final chega, nos deixa silenciados e sufocados por estar ali, vendo tudo tão de perto. Seu relato é desesperador, doloroso e nos atinge com força. O impacto vem justamente porque não há razões. Não há explicações. Só há angústia, o silêncio. As horas que antecedem uma desgraça são normais, não dão indícios, fluem como se não houvesse uma ruptura, uma pausa. O fim chega sem avisar e jamais entenderemos o que havia na mente daqueles que o fizeram. Não há estudo, investigação e nem cinema que explique isso.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2003
    Título original: Elephant
    Duração: 81 minutos
    Distribuidor: Warner Bros.
    Diretor: Gus Van Sant
    Roteiro: Gus Van Sant
    Elenco: Alex Frost, John Robinson, Elias McConnell

2 comentários em “Crítica: Elefante

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