sexo sem tesão

Após o controverso Morte Morte Morte, a diretora Halina Reijn retorna agora com Babygirl, filme que garantiu a Nicole Kidman o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza. A obra tenta ser ousada ao falar sobre os jogos sexuais entre uma empresária bem sucedida e seu jovem estagiário. Infelizmente, fica tudo em uma promessa que nunca se cumpre, sendo tão broxante quanto aquele contatinho que faz provocação no virtual, mas pouco consegue agir no pessoalmente.

Há um paralelo interessante no roteiro, que coloca Romy (Kidman), uma CEO no topo do poder, revelando suas fragilidades e um desejo reprimido de ser domada. Ela se vê atraída pela ideia de ser comandada, algo incomum para alguém em sua posição. E quem se apresenta para dar as ordens é seu estagiário, o sedutor Samuel (Harris Dickinson), que desperta nela a excitação por aquilo que é proibido. É nesse ambiente corporativo que se desenrola um jogo de submissão e realização de fetiches.

Apesar de ter uma premissa intrigante, Babygirl carece de ousadia. Para um filme que tenta abordar a libertação sexual, a execução é excessivamente limpa e inofensiva. O filme hesita em chocar ou ultrapassar certos limites, preferindo se prender a justificativas com pautas feministas para provar ser relevante e atual. Em vez de se entregar ao absurdo ou à diversão do processo, a obra se perde, sem coragem para explorar o tesão que promete.

A trama acaba se estendendo desnecessariamente, sem evolução, atingindo poucos picos de interesse. A conexão entre os dois personagens é estabelecida rapidamente, mas depois disso pouco se desenrola. O que enfraquece ainda mais Babygirl é que, tanto Romy quanto Samuel, parecem não saber exatamente o que estão fazendo. Sem confiança nas próprias ações, fica difícil se envolver com a história deles. A sensação é de que estão apenas brincando, sem que nada se torne realmente concreto ou impactante.

Falta ao filme, ainda, uma personalidade melhor definida. O mau uso da trilha musical, principalmente, me traz a sensação de que a diretora não tem uma visão clara da própria criação. Passando pelo eletrônico, pop dos anos 2000 e até um desconexo romântico dos anos 80. Essa falta de unidade em sua concepção revela a fragilidade da obra que não sabe o que pretende ser. Lamento ainda mais quando faz tão pouco uso da potente trilha sonora composta pelo multi-instrumentista Cristobal Tapia de Veer. Os sons ofegantes que ele traz, teriam ilustrado muito melhor essa atmosfera de tensão e sedução que se perde no caminho. 

É notável a confiança de Nicole Kidman a Halina Reijn. Me admira vê-la em cena e tendo a oportunidade de mostrar, mais uma vez, sua coragem como atriz. Ainda assim, acho o prêmio de Veneza e toda essa comoção em cima de sua performance um grande exagero. Sua parceria com Dickinson funciona bem. O ator tem carisma e o molho essencial pra fazer com que o filme seja mais interessante do que seria sem ele. Babygirl tem seus bons momentos, mas decepciona ao ser tão comportado e indeciso. É ótimo ver o sexo tendo espaço no cinema novamente, mas aqui faltou coragem para atingir, de fato, a provocação e deixar de ser um mero draminha familiar sem muito tempero.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2024
Duração: 114 minutos
Diretor: Halina Reijn
Roteiro: Halina Reijn
Elenco: Nicole Kidman, Harris Dickinson, Antonio Banderas, Sophie Wilde

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