O fascínio pela tragédia
É sempre difícil encarar essa frustração diante de um filme que a gente tinha altas expectativas. Vindo da série “Looking” e filmes como “Weekend”, o cineasta Andrew Haigh sempre lidou muito bem dentro dessa temática LGBT e por isso me parecia uma escolha certeira tê-lo aqui. Me decepciona perceber que, além de ser o pior trabalho de sua carreira, ele deixa de lado tudo o que tornava suas obras tão incríveis, como a honestidade e maturidade de lidar com tudo aquilo que é corriqueiro nas relações homoafetivas. Aqui ele se entrega ao dramalhão e escorrega em um produto aborrecido sobre traumas e solidão.
Vejo “Todos Nós Desconhecidos” como uma espécie de purgatório gay. Sua trama é costurada por uma montagem ousada e enquadramentos que despertam em nós uma sensação de ilusão, de que tudo aquilo é um sonho ou uma passagem distante do plano real. Trata-se de uma premissa curiosa, onde o roteiro nunca se mostra interessado nas explicações, mas em como tudo aquilo pode impactar o público, que é livre de interpretações. Aqui, Adam (Andrew Scott) é um roteirista que, enquanto mergulha nas lembranças de infância para conseguir escrever algo, acaba tendo uma experiência mágica ao se encontrar com seus pais falecidos, vivendo na casa onde nasceu e com a mesma aparência de trinta anos atrás.

Esta inusitada situação permite com que o personagem volte ao tempo e tenha uma chance para expor todas as angústias que até então não havia dito a seus pais. É desta forma que o filme se torna uma sessão de terapia aberta, colocando Adam abrindo todas as suas feridas e traumas de uma criança que sofreu bullying e se tornou este adulto deslocado. É muito possível encontrar em suas duras palavras algo que poderia ter sido dito por nós. Bate forte todos os seus relatos de solidão, de crescer no escanteio da família e como é fácil para uma criança homossexual se colocar neste lugar. Um estranho no meio de tudo aquilo que deveria ter sido proteção, dentro daquilo que deveria ter sido um casulo. É doloroso crescer com este eterno sentimento de rejeição e o filme expõe isso de uma forma muito sensível.
“Todos Nós Desconhecidos” possui uma trama densa e infelizmente não sabe quando respirar. O texto se esforça demais para causar algum impacto. O tempo todo suplica por nossas lágrimas, jamais conseguindo tirar proveito da simplicidade. Tudo vira um desabafo ou um chamado para a tristeza. Qualquer reunião familiar vira um motivo de choro. Uma simples cena de sexo, mais um palco de lamentações. Não há descanso, logo, é difícil embarcar em suas emoções porque elas são exaustivas e estão sempre acima do tom. É assim que chegamos ao final, desnecessariamente trágico e que causa mais irritação do que comoção. Lamentável e de péssimo gosto.

E com todas essas questões, torna-se difícil também encarar com seriedade as atuações dos protagonistas. Com um incessante olhar sofrido, Andrew Scott não tem muito o que entregar além da melancolia. Gosto muito dele e do Paul Mescal, o que me choca não suportar ver os dois na mesma cena. É um casal fraco, sem química e que juntos não pronunciam sequer um diálogo normal entre dois homens com tesão. O filme, infelizmente, tem uma visão muito heteronormativa sobre homossexualidade. E essa sensação aumenta principalmente quando o texto reproduz, mais do que eu gostaria de ouvir, falas tão crueis sobre ser gay. Entendo que no contexto elas chegam através dos pais preconceituosos, mas elas se repetem tanto que deixa de ser uma mensagem e vira apenas um imenso desconforto.
“Todos Nós Desconhecidos” tem uma atmosfera que seduz, que já era nítida no próprio trailer. Seja pela beleza das cenas, dos cortes que fazem desta jornada fluir como um sonho convidativo. Seja pela trilha musical que vai de Pet Shop Boys à Blur. Andrew Haigh constroi uma obra incomum e que desperta atenção. No entanto, ele se leva à sério demais com esta trama absurda. Ao fim, o que poderia ter sido mágico, vira uma bagunça apelativa e que não chega a lugar algum. O casal, que era o grande chamariz aqui, não funciona e soa completamente avulso nesta trama que deveria ter sido inteiramente no núcleo familiar. Principalmente porque ali temos o talento de Claire Foy, que eleva a produção com seu brilho. Estava de coração aberto para amar, mas acabo por me deparar com uma obra extremamente piegas, mas que acredita ser (e se esforça muito para ser) poética.
NOTA: 6,0

País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
Título original: All of Us Strangers
Ano: 2023
Duração: 105 minutos
Diretor: Andrew Haigh
Roteiro: Andrew Haigh
Elenco: Andrew Scott, Claire Foy, Paul Mescal, Jamie Bell
