O deslumbrante universo sem alma
Faz um tempo desde que assisti a “Pobres Criaturas”, mas só agora consegui reunir meus tantos sentimentos conflituosos. Conflituosos porque eu queria muito ter amado esse filme e fui de coração aberto para isso, mas não aconteceu. Ainda que tenha me mantido atento e apesar do fascínio que sinto por todo o universo criado por Yorgos Lanthimos e sua talentosa equipe, sinto que em nenhum momento me senti realmente cativado por sua excêntrica história. É aquele típico filme que eu consigo admirar, mas não carrego comigo.
Adaptação do livro homônimo de Alasdair Grey, que por sua vez, traz nítidas referências à Frankenstein de Mary Shelley, “Pobres Criaturas” se encaixa muito bem na filmografia de Lanthimos. O desconforto e a estranheza sempre presente em seus filmes, retorna nesta intrigante epopeia sobre autodescobertas e libertação. A trama gira em torno de Bella Baxter (Emma Stone), cujo corpo é trazido de volta à vida devido ao experimento do cirurgião Godwin (Willem Dafoe). Com um cérebro de um bebê e com uma evolução mental acelerada, ela tem a chance de redescobrir o mundo ao seu redor.

O texto assinado por Tony McNamara (A Favorita, Cruella), acaba por se revelar um curioso coming of age, colocando ao centro essa mulher em uma jornada de conhecimento, se corrompendo e se moldando por tudo aquilo que consome do lado externo. Sinto como desperdício, porém, o fascínio do roteiro pela vida sexual da personagem. Gosto de ver esse cinema menos casto e ousado, mas me incomoda quando só o que interessa dessa descoberta de Bella é o sexo, tornando esse excesso de exposição dela cada vez mais gratuito. É então que o capítulo de Paris, dedicado a sua passagem pela prostituição é extremamente incomodo. Não só por romantizar a profissão e a vida dura daquelas mulheres, mas principalmente porque resume liberdade feminina com o simples poder de escolher com quem transar. Não acredito que esta seja a intenção da obra, mas faltou cuidado para sair da superfície de assuntos tão sensíveis.
Dito isso, sinto que a cada novo capítulo de “Pobres Criaturas” fui gostando menos dessa excêntrica caminhada, que segue um rumo menos interessante do que essa grande ideia permitia. No entanto, não posso deixar de elogiar o belíssimo trabalho de arte que, inspirado por uma era Vitoriana Impressionista, faz uma mistura de ficção científica distópica – trazendo uma estética steampunk – com um conto de fadas gótico. O que se desenha ali é um mundo digno da mente de Bella Baxter e neste sentido, é extremamente inteligente o design de produção. Porque ele resgata elementos do passado, mas adiciona a ele uma visão de futuro.

Essa quebra de paradigmas é o que impulsiona a protagonista, sempre disposta a se rebelar contra todos os tipos de aprisionamento a que lhe são impostos. Essa forma livre de viver da personagem acaba por ser um impactante lembrete de que ser humano não é uma condição natural, mas sim uma postura doutrinada para sermos socialmente aceitos. Emma Stone consegue dar vida a toda essa loucura e entrega uma performance poderosa, assim como seus ótimos parceiros de cena, Mark Ruffalo, Willem Dafoe e Ramy Youssef.
“Pobres Criaturas” é um filme insano, divertido, mas que infelizmente não achei tão profundo como tantos estão dizendo. Percebo em Yorgos Lanthimos uma total habilidade em conduzir produções mirabolantes, mas há algo que até então não me incomodava, mas aqui não casa com a proposta. Em suas mãos, tudo é muito mecânico, meticulosamente organizado. Em uma obra que desafia a formalidade e busca entender o que nos faz humanos, falta vida. Falta alma. Com uma direção que chama atenção para si o tempo todo – e não mede esforços para utilizar todos os recursos possíveis dentro de um único filme – ele me parece muito mais atento com seus preciosismos como condutor do que injetar vitalidade naquilo que conta. E quando não há sentimento, também não há empatia. E quando não há empatia, meu elo como expectador se rompe.
NOTA: 7,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Título original: Poor Things
Ano: 2023
Duração: 141 minutos
Diretor: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Tony McNamara
Elenco: Emma Stone, Mark Ruffalo, Willem Dafoe, Ramy Youssef, Margaret Qualley, Christopher Abbott
