Perspectiva apática
Jonathan Glazer resgata um período histórico com frieza e um senso de realismo absurdo. Com “Zona de Interesse”, ele aborda o horror do nazismo a partir de uma perspectiva curiosa, aquela do lado de fora dos campos de concentração de Auschwitz. Em cena, o que vemos é a família de um comandante que vive uma vida bucólica e tranquila, exatamente ao redor onde ocorre o genocídio. O pavor da obra vem justamente da naturalidade com que os personagens lidam com o mal. De assistir a uma rotina tão banal enquanto os gritos de morte estão ao fundo.
Neste sentido, o trabalho de som é magistral. É como se existisse um outro filme acontecendo além daquilo que vemos na tela. Tudo o que ouvimos nos perturba e causa um extremo desconforto. É muito incômodo, também, ver essa família falando sobre viver um sonho diante daquela casa com jardim, sem nunca se importar com a crueldade que ocorre do outro lado do muro. Essa habilidade de coexistir tão facilmente com aquilo que extermina é assustadoramente atual e o filme nos mantém em silêncio diante dessas reflexões.

A ausência de empatia e indiferença é registrada por Glazar a partir de uma câmera que captura os indivíduos em cena quase sempre de costas, ao longe. Essa narrativa impessoal, ainda que faça sentido dentro da obra, acaba por deixar uma estranha sensação de que nada ali tem alguma importância. Quem são aqueles personagens ou o que estão fazendo pouco nos interessa. E assim seguimos por um filme que nunca acontece, de fato. Já nos primeiros minutos compreendemos as intenções e ele se prolonga, repetindo as mesmas situações, entre uma rotina banal e conversas que não chegam a lugar algum.
“Zona de Interesse” acabou e me deixou um vazio imenso. Não pela experiência que entrega, mas sim pela falta de uma. Entendo a mensagem que Jonathan Glazer quis passar, mas isso sacrificou sua própria obra, a partir do momento em que o único interesse dele é por tudo aquilo em que nada acontece. Existe ali um conceito de sugestão muito poderoso sim – e que aterroriza muito mais do que se optasse por mostrar algo – no entanto, é exaustiva essa tentativa de imersão a partir de uma ideia que já ficou muito clara nos primeiros cinco minutos e depois deles nada mais é acrescentado. Logo, me vi diante de um filme extremamente entendiante, maçante e que não sai nunca do lugar. É uma pena que nem o próprio texto aposte neste singular ponto de vista, precisando se explicar em alguns diálogos que soam corriqueiros, mas são extremamente expositivos. Não entendi o hype e só o que me segurou foi meu desejo de que ele acabasse logo.
NOTA: 6,0

País de origem: EUA, Polônia, Reino Unido, Irlanda do Norte
Título original: The Zone of Interest
Ano: 2023
Duração: 105 minutos
Diretor: Jonathan Glazer
Roteiro: Martin Amis, Jonathan Glazer
Elenco: Christian Friedel, Sandra Hüller
