Crítica | Mais Que Amigos

Uma conquista no cinema (não rápida o suficiente)

Aos poucos, as comédias românticas têm tentado encontrar um novo espaço. “Mais Que Amigos” é o ápice desse retorno, que sabe como usar os clichês que desgastaram ao longo dos anos a seu favor e o mais importante, vem com um texto que finalmente entende o que é se relacionar nos tempos modernos, na era complexa dos aplicativos e da frivolidade. Inteligente, madura e incrivelmente divertida, temos aqui uma obra que redefine a representação queer no cinema.

Escrita e protagonizada por Billy Eichner, esta é a primeira comédia romântica gay produzida por um grande estúdio. É um filme necessário porque tenta ir além da bolha e porque entrega tudo aquilo que até pouco tempo atrás parecia impossível. Existe aqui uma auto consciência tão absurda que alcança a metalinguagem. Billy aproveita esse espaço justamente para criticar a máquina de Hollywood e como, por todos esses anos, só era interessante falar sobre tragédias e cowboys enrustidos. Porque era assim que os outros queriam nos ver. Hoje, a indústria como um todo entende que a criação de algo para a comunidade LGBTQIAP+ gera lucro, logo, só agora um produto como esse consegue nascer. Assim como o próprio texto diz em certo momento, isso é ótimo porque criadores gays agora possuem espaço para falar sobre as próprias experiências, mas é também triste perceber que isso demorou tanto tempo. Essa vitória não foi rápida o suficiente e muita gente não chegou até aqui para ter sua existência celebrada.

Billy interpreta Bobby, diretor de um vindouro museu de história LGBTQIAP+ de Nova York, que também encontra tempo para seu podcast e encontros casuais com outros homens. Perto dos quarenta anos, ele desistiu de ter um relacionamento dentro desta comunidade tão tóxica. No entanto, quando conhece o padrãozinho Aaron, ele se lança a uma série de possibilidades. “Mais Que Amigos” brinca com sabedoria com os clichês das comédias românticas, como quando sempre tem uma música brega de fundo em alguma cena chave. Satiriza essas fórmulas antigas enquanto nos revela a nova realidade dos relacionamentos, deste tempo em que é tão difícil se mostrar vulnerável à outra pessoa ou esperar algo sério que dure mais que só 3 meses. De certa forma, apesar dos risos, o longa traz reflexões interessantes sobre essa impulsividade não saudável dos amores líquidos, onde todos mudam de desejos a cada minuto, sem se importar em como essas ações podem afetar o emocional do outro.

O texto flui na mesma velocidade que a mente caótica de Billy Eichner. Por vezes, é até difícil de acompanhar seu raciocínio. Ainda assim, é comovente como ele agarra essa oportunidade para dizer tanta coisa. “Mais Que Amigos” é seu confessionário e ele diz aqui o que nitidamente segurou por muito tempo. É um roteiro imensamente sincero, que faz rir pelos exageros mas também machuca com suas tantas verdades. Seja quando ele fala sobre a história apagada dos homossexuais, seja quando ele fala de si e, por consequência, sobre todos nós, porque é muito fácil se identificar com o que ele escreve. Sobre essa dor de ter sido diminuído a vida toda por ser quem é. Somos de uma geração que ainda vive dos resquícios de um aprisionamento, que enfrentou a montanha russa do gay trauma. Não tivemos Glee e o romantismo. E tudo isso afetou nossas relações e a forma como lidamos com nós mesmos.

Como é gostoso chegar em 2022 e encontrar com uma obra como essa. Com direção de Nicholas Stoller e produção de Judd Apatow, veteranos em boas comédias, “Mais Que Amigos” é simplesmente delicioso. Tudo está em seu lugar, onde até mesmo o elenco de apoio surge no tempo devido e acrescenta de forma positiva na trama (uma raridade no gênero). Falar sobre otimismo em uma história sobre relacionamentos homoafetivos é de extrema necessidade. Não é o primeiro a fazer isso, mas confesso que é o primeiro que, de fato, me reconforta. Porque vender essa ideia onde tudo é fofo e dá certo no final é ótimo, mas parece um descompasso com a realidade. Finalmente vejo um filme que sabe equilibrar esse romantismo e esperança com as dores e frustrações que sentimos na era dos desafetos. Porque é escrita por alguém que vive isso na pele e sabe usar suas palavras para nos atingir.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Titulo original: Bros
Duração: 115 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Nicholas Stoller
Roteiro: Nicholas Stoller, Billy Eichner
Elenco: Billy Eichner, Luke Macfarlane, Bowen Yang, Jim Rash

Crítica | Morte Morte Morte

A fragilidade da geração Z

O terror slasher tem retornado com força no cinema e “Morte Morte Morte” vem em boa hora. É uma sátira ao gênero e que, apesar de ser bastante saborosa, principalmente pelo bom roteiro, não necessariamente vai ganhar aprovação do público que busca perseguições, assassinatos e um vilão icônico. Um filme que nunca procura por caminhos fáceis, logo, vem com muita ousadia, inovando em sua abordagem e se sustentando mesmo com sua trama anticlimática.

Esse é o primeiro roteiro de Sarah DeLappe, que usa como base aquela já conhecida reunião de adolescentes em uma festa onde tudo vai dando incrivelmente errado. Toda a ação ocorre dentro de uma casa, durante apenas uma noite. Quando os personagens passam a morrer, o texto faz bom proveito do “whodunit” e aquele mistério sobre qual deles é o intruso no meio do grupo. Esse suspense funciona e tudo flui de forma bem intrigante e divertida, principalmente quando todos os indivíduos ali claramente possuem algo a esconder.

É brilhante como tudo se inicia com o jogo “Bodies Bodies Bodies” (algo parecido com detetive). Quando alguém é “encontrado morto”, todos devem descobrir quem é o assassino. Acho fascinante quando essa brincadeira, no fim, é o que define todos os acontecimentos e sempre que uma nova vítima surge, vemos cada um deles tentando se defender e tentando provar que o outro é o provável culpado.

O filme, porém, dificilmente agradará a todos. Não só porque todos os personagens são irritantes, mas simplesmente porque ele não é o que muitos esperam de um slasher (ou de um filme cult da A24). Confesso que achei genial a virada no final e assim como em muitas sequências, me fez rir. Por vezes, um riso de nervoso, por outras, porque é engraçado mesmo. É um texto afiado e surpreendentemente divertido. Gosto bastante também do elenco, onde todos estão muito convincentes em seus papéis. O destaque fica para Rachel Sennott, extremamente surtada e incrivelmente espontânea em cena. Uma coadjuvante que brilha e se torna a alma da festa. O que me incomoda no filme, porém, é o excesso de conversa no meio da ação. Tem sempre uma discussãozinha para interromper um momento que poderia ser sempre melhor se fosse mais objetivo.

Durante o caos que se instaura e as tantas intrigas entre os falsos amigos, “Morte Morte Morte” aproveita para, além do slasher, satirizar os debates vazios da internet e essa necessidade de opinar sobre tudo. Muitas questões sociais são levantadas aqui, propositadamente superficiais, sempre no tom de “uhmm acho que o Twitter vai gostar!”. Ao fim, a obra acaba por revelar um retrato fiel sobre a fragilidade da geração Z, o narcisismo de um grupo que precisa se firmar constantemente e essa escassez de anseios, quando abraçaram o niilismo como filosofia de vida. São jovens focados demais em si, presos dentro de uma bolha, onde não conseguem enxergar que os acontecimentos são maiores do que apenas um ataque a eles mesmos. Eles são desiludidos demais para ter um propósito e, assim como a genial virada do final, pode soar cômico ao primeiro olhar, mas é só triste e deprimente.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Titulo original: Bodies Bodies Bodies
Duração: 94 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Halina Reijn
Roteiro: Sarah DeLappe
Elenco: Maria Bakalova, Amandla Stenberg, Rachel Sennott, Myha’la Herrold, Pete Davidson, Chase Sui Wonders, Lee Pace

Crítica | Blonde

Tudo o que Marilyn Monroe gostaria de esquecer

Até aqui, o filme mais polêmico do ano. O cinema recente, de fato, carece dessas obras provocativas, que saem do lugar comum. Infelizmente, porém, falta contexto à “Blonde”, algo que justifique seus tantos momentos de impacto e deixe de ser apenas um produto vazio e misógino.

Por muitos anos o diretor Andrew Dominik tentou levar a adaptação do livro de Joyce Carol Oates para o cinema. Uma ficção biográfica, que imagina a vida de Marilyn Monroe teria tido, inspirada em boatos que rondavam a carreira obscura da atriz. Ainda que seja interessante essa liberdade de recontar tudo o que ela poderia ter vivido – principalmente pelo fato de que até hoje ela é uma figura emblemática e que nos causa bastante fascínio – é triste pensar que, dentro de todo o campo que a imaginação poderia levá-los, eles decidiram focar em seus traumas, nunca em seu talento, inteligência e força.

É muito possível que a atriz tenha sofrido muito do que é mostrado em cena, mas é bizarro como o filme não contextualiza absolutamente nada, como se as histórias por trás de suas dores não fossem necessárias. Um roteiro que é extremamente cruel com sua protagonista, que reúne situações desconfortáveis em uma sequência confusa e nem sempre linear. É Marilyn saindo de um trauma e entrando em outro logo em seguida, sem pausas. Se não está sendo estuprada, está sendo humilhada, assediada ou agredida. É incômodo assistir uma personagem sendo tratada dessa forma. Longe de qualquer tipo de homenagem, “Blonde” entrega tudo o que a atriz gostaria de esquecer e tudo o que qualquer mulher não merecia reviver, mesmo que na pele de outra.

A direção de Andrew Dominik é um espetáculo prepotente. Dialoga muito com o cinema de Sam Levinson (Euphoria) e aquela necessidade de revolucionar em cada sequência, porque o público precisa saber que eles são muito bons. Logo, soa pedante e exaustiva. Claro, não irei negar que existem sim alguns instantes belíssimos e que provam o trabalho de toda sua talentosa equipe. Apesar da bagunça de seu roteiro, existe também dinamismo em sua narrativa.

Ainda assim, precisamos falar sobre Ana de Armas. É sim bastante desconfortável vê-la nesse papel que a obriga ficar nua quase o tempo todo e que jamais respeita a trajetória de Marilyn Monroe. No entanto, ela se entrega por completo e seria extremamente injusto não aclamar o que ela realiza aqui. Ana tem algo especial que é muito difícil de definir. Vai além do talento, do carisma, da beleza. É um brilho a mais, é aquela essência que somente as grandes estrelas do cinema possuem. E Ana de Armas é uma dessas estrelas do cinema.

Eu juro que estava aberto ao filme, até eu me ver exausto diante de tanta violência e entendendo que eles não estavam interessados em contar a vida por trás do ícone, apenas na figura fragilizada, sem alma, como uma boneca inflável. “Blonde” aponta uma crítica válida, revelando temas delicados que precisam ser debatidos e precisam causar desconforto, como esse assédio existente em Hollywood e o machismo predominante. Mas é triste quando a própria produção parece ter prazer naquilo que supostamente pretende atacar. A imagem que a obra busca reafirmar da atriz é ela nessa posição vulnerável, sempre com os seios à mostra, sempre bela enquanto é violentada mais uma vez. Andrew Dominik parece saber exatamente quem são os culpados dessa história, ao mesmo tempo em que não se incomoda em estar no mesmo lado que eles.

NOTA: 5,0/10

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 157 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Andrew Dominik
Roteiro: Andrew Dominik
Elenco: Ana de Armas, Adrien Brody, Bobby Cannavale, Xavier Samuel

Crítica | Não! Não Olhe!

As aleatoriedades trágicas da vida

Jordan Peele segue sendo um dos raros cineastas atuais a movimentar uma multidão para uma ideia original. Sim, ele tem uma mente brilhante e facilmente nos faz ter interesse sobre suas novas criações. “Nope” é mais uma prova de que “Corra!” não foi um acidente de percurso e o cara sabe exatamente onde está indo. É um trabalho maduro, de um diretor ainda em seu auge e nos oferecendo uma experiência sem igual. Aquele tipo de filme que, além de nos causar fascínio diante de seus misteriosos símbolos, também nos empolga nesse cinema eletrizante, bom demais de ver em uma tela grande.

Mesmo que o diretor, claramente, tenha fortes inspirações em Spielberg, ele sabe como conduzir suas referências para algo definitivamente novo e único. Seja quando constrói incrivelmente a tensão, seja quando abraça a aventura pura. A forma como Peele vai nos introduzindo a seu universo – tão mágico e peculiar – é fascinante. Ele sabe como plantar aquela semente de que algo estranho está interrompendo a normalidade e nos mantém atentos a qualquer movimento em falso, curiosos sobre onde pretende chegar. Dessa vez, o palco para o terror está nas alturas e é no céu que o medo habita.

Não existe palavra que defina um milagre ruim. Mas eles existem e é esse o fio condutor de “Nope”. É através de uma aleatoriedade absurda que dois irmãos perdem o pai, morto por uma chuva de objetos. Emerald (Keke Palmer) e OJ (Daniel Kaluuya) precisam continuar cuidando do rancho herdado, treinando cavalos no interior da Califórnia. Quando pessoas passam a desaparecer e uma série de acontecimentos estranhos passam a rondar o local, eles decidem gravar algo que prove a ameaça que acreditam estar vindo do céu e essa provável invasão alienígena. É eles indo atrás de fazer parte da história, aquela do qual seus ancestrais foram apagados.

Não muito longe dos protagonistas, está Jupe (Steven Yeun), um ex-astro mirim que teve sua vida artística marcada por uma tragédia. Existe uma conexão entre esses personagens que, de certa forma, vivem suas vidas pacatas após terem sido descartados. Todos eles alimentaram a indústria do entretenimento, mas como tudo dentro da mídia faminta, perderam o valor logo o show principal. “Eu jogarei imundície sobre você, e a tratarei com desprezo; farei de você um espetáculo.” Jordan Peele desenha, através de seus simbolismos, essa espetacularização da dor e a midiatização do sofrimento. “Aqueles de fora” são os observadores, aqueles que se alimentam de uma tragédia, sugando o que é possível e descartando o que resta. Não é à toa que a principal arma aqui é a câmera e tudo aquilo que registra.

“Nope” permite muitas leituras e, como dentro de qualquer obra de arte, todas elas são possíveis. Nada precisa ter um significado exato, mas é fato que o filme vai deixando lacunas que deixam nosso cérebro fritando. E ao meu ver, isso só o enriquece, porque ele não acaba quando termina e se mantém vivo mesmo após os créditos finais. E não é apenas por essas possíveis interpretações que o novo trabalho de Peele funciona. Funciona, principalmente, porque é muito bem feito, porque encanta e diverte um bocado. O roteiro é ótimo e encontra, diferente de outros textos do cineasta, equilíbrio entre comédia e tensão. É brilhante como o filme não perde a força mesmo quando aquilo que é mistério ganha rosto. Além disso, a relação entre os personagens torna a experiência ainda mais interessante. É belo quando temos esses dois irmãos que, diante de uma tragédia que não se pode olhar para cima, encontram no olhar do outro a força para se manterem firmes. Vale citar, o trabalho absurdo de som que é feito aqui e a belíssima trilha sonora assinada por Michael Abels. Tudo isso torna a obra um entretenimento formidável.

Nem tudo em “Nope” precisa fazer sentido e não entender algo não torna sua experiência menos fascinante, muito pelo contrário. Inclusive, aquele sapato flutuante me soa como uma baita provocação do cineasta. Que não só vem pra dizer que nem todos os elementos precisam ter uma resposta como para somar nesse seu discurso de que a vida é feita dessas aleatoriedades absurdas. Milagres ruins acontecem e por mais que queiramos uma justificativa, nem tudo tem uma razão para ser. Aconteceu porque aconteceu. Simples assim. Como uma moeda que atravessa uma cabeça, um macaco que tem um dia de fúria ou um sapato que recusa a gravidade.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2022
Título original: Nope
Duração: 130 minutos
Disponível: Cinema
Diretor: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Keke Palmer, Daniel Kaluuya, Brandon Perea, Steven Yeun

Crítica | Louca Obsessão

Fanatismo doentio

O cinema sempre teve apreço pelas obras de Stephen King e “Louca Obsessão” entra para o seleto grupo das melhores adaptações já feitas. É aquele thriller que funciona, que nos mantém atentos a cada instante. Me encontrei rindo de nervoso, tenso ao me colocar no papel do protagonista e na situação improvável em que ele se mete. Aqui, um famoso escritor, Paul Sheldon (interpretado por James Caan), após sofrer um acidente de carro, é socorrido por Annie, uma ex-enfermeira que se diz ser sua fã número um. Ela, que cuida da saúde do escritor em uma casa isolada, passa a ter estranhas atitudes quando descobre que sua personagem favorita irá morrer em seu próximo livro, o torturando para que ele reverta essa história.

É curioso como a trama de “Louca Obsessão” parece fazer ainda mais sentido atualmente, mais de 30 anos de seu lançamento. Hoje, grupos se manifestam com ódio nas redes sociais quando seus personagens e histórias favoritas não são desenvolvidas como gostariam. É então que os grandes estúdios sempre acabam caindo naquele fan service, para que a audiência – fiscal de adaptações – não saia decepcionada. Claro, Annie é uma versão distorcida e exagerada desse público rigoroso, mas deixa explícito o quanto esse fanatismo pode ser doentio.

Kathy Bates, que venceu o Oscar por sua interpretação, está fantástica. É uma personagem complexa, intrigante e que ela domina com maestria. Caan também está ótimo aqui. Esse embate entre os dois chega a ser eletrizante, porque sempre esperamos pelo pior e nunca sabemos o quão bizarro tudo ainda pode se tornar.

Lá pelos anos 80 e 90, o diretor Rob Reiner tinha a mão boa e deixou registrado alguns clássicos do cinema. Ele também é responsável por filmes como “Conta Comigo”, “Harry e Sally” e “A Princesa Prometida”. Aqui, ele construiu uma outra obra atemporal, tão bem conduzida e insanamente divertida. Reiner, que sempre entendeu bem dos comfort movies, entregou um terror de altíssima qualidade. Seja pela excelente montagem, pela trilha e, principalmente, pelas grandes atuações…não há como desgrudar os olhos e não vibrar até o fim.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 1990
Título original: Misery
Duração: 107minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Rob Reiner
Roteiro: William Goldman
Elenco: Kathy Bates, James Caan, Lauren Bacall

Crítica | Zola

Quando a tela do twitter ganha vida

Sucesso no último Independent Spirit Award, “Zola” tem como base uma thread de Twitter. Sim, isso mesmo. A história nada mais é que um relato de um rolê muito errado e que em 2015 foi minuciosamente narrado em cerca de 150 tuítes pelo perfil de @_Zolarmoon. A cineasta Janicza Bravo, que também assina o roteiro, entrega uma encenação inventiva sobre o caso, que envolve perseguições, muito sexo e pessoas estranhas.

O texto é bastante original ao colocar suas protagonistas narrando a história dentro da própria cena. Mais do que uma ousada quebra da quarta parede, essa saída rapidamente nos remete a uma pessoa interrompendo sua realidade para postar sobre. É, de fato, como se o Twitter ganhasse vida ali. Genial, então, quando tudo parece tão fake e exagerado, ganhando, ainda, distintas versões de seus locutores, onde cada um narra da forma que melhor lhe convém. Janicza acerta nesse visual pop, granulado, cheio de cores e filtros. Desenha uma atmosfera muito nova e que dialoga muito bem com suas intenções. Até mesmo os divertidos efeitos sonoros agregam na experiência.

A loucura inicia-se quando Zola (Taylour Paige) conhece Stefani (Riley Keough) em um restaurante onde trabalha como garçonete. Uma rápida amizade nasce entre as duas e logo Zola é convidada para ir até a Flórida ganhar dinheiro fácil dançando em uma boate de strip. O problema é que no caminho ela se vê presa em uma armação que envolve prostituição e um cafetão ganancioso. Apesar da trama causar bastante curiosidade, o filme termina com a sensação de que deve ter sido muito insano viver aqueles momentos, mas o público acaba não tendo acesso a esses sentimentos. É tudo muito bizarro e alucinante, mas acontece sem nos colocar para dentro.

“Zola” é exatamente como a timeline de rede social. Diverte assistir de fora, mas acompanhamos com distância, sem nunca fazer parte. Falta aquela condução que nos coloque para dentro da ação. Também sinto que pouco se aprofunda nas personagens, onde Zola e Stefani, ao fim, não passam de duas incógnitas. Ao menos, Taylour Paige e Riley Keough estão fantásticas em cena e enchem a tela de carisma. Uma obra provocativa, insana e muito fora do comum.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2020
Duração: 90 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Janicza Bravo
Roteiro: Jeremy O. Harris, Janicza Bravo
Elenco: Taylour Paige, Riley Keough, Nicholas Braun, Colman Domingo

Crítica | Lightyear

O voo baixo de um estúdio que sempre foi além

Buzz Lightyear sempre foi um dos personagens mais icônicos da Pixar. O boneco, que apareceu lá em Toy Story (1995), retorna nesse spin off que tem como intuito, bem divertido por sinal, nos revelar o filme favorito de Andy, aquele que tornou o brinquedo tão famoso dentro desse universo fictício. Apesar do bom propósito, pouca coisa funciona aqui. Falha não só porque é difícil imaginar como esse blockbuster teria sido adorado por crianças nos anos 90, como por nunca entregar algo que justificasse sua criação.

A própria Pixar nos acostumou mal, essa é bem a verdade. Depois de entregar tantas produções incríveis ao longo desses anos, automaticamente a colocamos como nosso mais alto padrão de qualidade. Agora, como subsidiária da Disney, quando eles não alcançam esse alto patamar do qual sempre esperamos, vem a frustração. Apático e sem alma, “Lightyear” segue em uma zona de conforto estranhamente atípica do estúdio e entrega algo muito abaixo de tudo o que já fora criado por eles. O filme, infelizmente, nunca abraça esse lado mais fantasioso e criativo da ficção científica como, inclusive, fez tão bem em “Wall-e”. Apesar de trabalhar com elementos comuns do gênero, e do qual rapidamente nos identificamos, como viagem no tempo e novas tecnologias, aqui tudo é mais pautado no real, entregando uma trama pouco inventiva e distante daquela inteligência narrativa do qual sempre tiveram tanto cuidado. Logo, a obra mais se aproxima de um blockbuster atual genérico do que dos bons tempos da Pixar.

“Lightyear” tem, ainda, uma infeliz semelhança com “Up – Altas Aventuras”. Assim como no filme de 2009, este entrega uma introdução tão eficaz e emotiva que torna tudo o que vem depois menos interessante. Em seus instantes iniciais, o longa acerta ao construir a relação entre Buzz e Alisha, sua comandante, que acaba sendo a base de toda a trama. Aqui, o patrulheiro espacial precisa levar sua tripulação de volta para casa, logo que devido a um erro seu, todos ficaram presos em um planeta hostil. No entanto, em sua procura por combustível, entre o tempo e espaço, o protagonista vê sua vida avançar de forma diferente das dos demais. Buzz acaba carregando um fardo grande em si mesmo, indo a todo custo salvar os danos que tanto acredita que cometeu. Isso torna o personagem interessante e permite que o roteiro explore temas até bem maduros como obsessão e egocentrismo. Ainda assim, apesar de despertar atenção por uma breve reviravolta ao final, nada empolga muito. Depois da bela introdução, o filme entra em um eterno marasmo. Inclusive, os coadjuvantes que poderiam trazer algum brilho para a aventura são fracos e estão ali apenas para entregar algumas piadinhas bobas. Sobra apenas o gatinho Sox. Este sim, a melhor coisa aqui.

Claro, tecnicamente, a animação alcança um nível de perfeição assustador. É um trabalho admirável e que encanta pelo cuidado nos detalhes. Entretanto, não me recordo de ter visto uma trama tão sem graça em uma animação da Pixar. Nada empolga, diverte ou nos faz criar alguma conexão com essa fraca jornada solo de Buzz. Pouco inventivo, temos um roteiro com muito mais medo de arriscar do que ir ao infinito e além. O texto pouco entende o que é isso e, indo na direção contrária do lema do protagonista, se mantém com os pés no chão o tempo todo.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 105 minutos
Disponível: Disney+
Diretor: Angus MacLane
Roteiro: Jason Headley, Angus MacLane
Elenco: Chris Evans, Keke Palmer

Crítica | Casa Gucci

Preciso começar dizendo que “Casa Gucci” é uma pataquada divertida. Peca pelos excessos, mas não é aquele entretenimento que nos faz ter a sensação de tempo perdido. Achei tudo muito curioso, bizarro e me vi querendo saber até onde tudo aquilo poderia chegar. Claro, é um produto muito aquém de todos os envolvidos e a sensação de frustração vem justamente por nunca alcançar o grande potencial que tinha. O filme investiga, de forma pobre, a ascensão do império da família Gucci e como ele foi interrompido de forma trágica.

Gucci é uma grife italiana e uma das mais importantes do mundo da moda. Sua história, por trás dos holofotes, é recheada de ganância, intrigas familiares e um assassinato. Temos um material riquíssimo aqui, mas que nunca resulta em um grande filme. A trama nos apresenta esse universo com a entrada da socialite Patrizia Reggiani (Lady Gaga), ao se casar com o herdeiro Maurizio Gucci (Adam Driver). As interferências dela na condução da marca, acabam por abalar os negócios e as relações desse clã.

Apesar da belíssima produção, que choca pelo incrível trabalho de maquiagem e figurinos, “Casa Gucci” falha em seu roteiro. Tudo muito picotado e atropelado mesmo com uma longa duração. Até conseguimos ver uma evolução sendo contada ali, mas nunca deixa claro seus desenvolvimentos. Em uma cena, por exemplo, Patrizia é só uma mulher apaixonada, na outra ela é a gananciosa. O texto nunca se aprofunda, de fato, nos acontecimentos, deixando uma sensação de ter exibido apenas a superfície do iceberg, existindo uma história inteira não contada dentro do filme. É um roteiro que parece não ter passado por uma revisão, que tinha tudo ali nas mãos, mas não soube explorar nada com muito cuidado.

O elenco grandioso é apagado por esse texto atrapalhado, sobrando apenas os sotaques italianos exagerados e a caricatura. Lady Gaga, por sua vez, acaba sendo o grande destaque. Quando sai de cena, o filme rapidamente enfraquece (ainda mais). É ela quem mais acerta o tom e mais tem consciência sobre o que faz ali. Em contrapartida, Jared Leto entrega um dos papéis mais esquisitos que vi em um longa neste ano. É tanto equívoco que não sei bem por onde começar. Mas não é só culpa de sua atuação, é de direção também, por nunca entender a função daquele personagem na trama. Ele é distante de todo o resto, cômico no nível paródia. Tão bizarro de assistir que eu me contorcia quando ele aparecia.

Talvez nunca tenhamos acesso a versão completa de Ridley Scott. Mas essa que vemos aqui é uma bagunça. Ao menos, entrega um entretenimento divertido, onde seu exagero e cafonice desperta atenção. E claro, uma Lady Gaga inspirada e é ela quem faz a sessão valer a pena.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021
Título original: House of Gucci
Duração: 157 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston, Roberto Bentivegna
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Camille Cottin, Jeremy Irons, Jack Huston

Crítica | O Predador: A Caçada

A presa e o Caçador

Um dos meus pecados cinéfilos foi nunca ter visto “O Predador”. Aquele clássico de 1987, protagonizado por Arnold Schwarzenegger. A verdade é que só com a chegada de “Prey”, que o original me despertou atenção. Uma mistura boa de ação, terror e ficção científica e que volta a funcionar aqui. A direção é de Dan Trachtenberg, que tinha a difícil missão de agradar uma legião de fãs que nunca puderam ver um bom retorno desse personagem icônico da cultura pop. Ele foi também responsável por outra continuação bem sucedida: Rua Cloverfield, 10.

A história antecede tudo o que conhecemos do Predador e nos leva para o Oeste Americano dos anos de 1700. É lá que nos deparamos com nossa brava protagonista, Naru. Ela vive em uma tribo Comanche e foi educada, assim como todas as mulheres, para ser uma cuidadora. “Prey”, então, se estabelece como um rito de passagem dessa jovem que precisa quebrar essa cultura enraizada e provar para todos que é capaz de ser uma caçadora.

Existe uma certa beleza nessa sinergia da narrativa. Ignorando a tradução do título, “Prey”, em português, significa “presa”. O encontro da protagonista com o Predador é bastante curioso. Ela quer ser a caçadora, mas ele não a vê por ser a presa. A fraqueza do qual ela sempre foi definida é justamente o que a torna tão perigosa no meio dessa cadeia alimentar selvagem. Porque ninguém a vê como ameaça. E ela é.

Toda a ambientação da obra é bastante original e nos fisga pela bela produção. No entanto, esse universo, que de imediato parece tão bom e novo, logo perde a força quando os personagens abrem a boca. O texto beira o lamentável, o que não só impede as atuações de funcionarem, como também impede nossa crença diante dessa realidade que tenta construir. Nada passa verdade.

“O Predador: A Caçada” também não sabe como explorar o Predador dentro da trama, que vem como um artigo de luxo e nunca como peça essencial. Ele é tão pequeno dentro da narrativa que se torna até menos interessante que os animais selvagens que aparecem, onde a perseguição do urso, inclusive, entrega muito mais tensão e medo que suas aparições. Perde também quando sua caça sangrenta depende mais de suas habilidades para manusear os apetrechos tecnológicos do que de sua força e fúria. O embate entre ele e Naru enfraquece ainda mais quando o roteiro aposta em conveniências excessivas. Ele sempre tem uma carta na manga e ela é sempre salva por uma coincidência tola.

“Prey” é bem menos interessante do que querem que ele seja, mas ainda assim é um entretenimento empolgante e bonito de se ver. Ao trazer o protagonismo feminino para a franquia, coloca em pauta discursos sempre válidos como empoderamento, ainda que o fraco texto nunca saiba como explorar isso de forma menos óbvia. Dan traz uma proposta bem diferente do que conhecemos do Predador, em uma jornada mais intimista e menos extravagante. Suas intenções são boas, mas perde demais com o roteiro mal acabado e por se levar muito mais a sério do que a trama exigia.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Prey
Duração: 99 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Dan Trachtenberg
Roteiro: Patrick Aison
Elenco: Amber Midthunder, Dakota Beavers

Crítica | O Acontecimento

Tudo o que a mulher carrega sozinha

Baseado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, “O Acontecimento” venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2021. Apesar dos eventos do filme acontecer nos anos 60, o que vemos aqui é uma retrato doloroso e, infelizmente, ainda muito atual sobre aborto. Em uma época em que o procedimento não era legalizado na França, uma jovem se vê diante de uma jornada solitária após uma gravidez indesejada.

Annie é uma garota com um futuro promissor, mas sua vida se transforma quando recebe a notícia de que está grávida. Sem coragem de se abrir para a família, ela é julgada e menosprezada pelas amigas quando decide não ter o filho, além de nunca conseguir uma orientação devida nos consultórios médicos, onde apenas homens conservadores a examinam. Annie é atacada de todas as formas possíveis em um tempo em que informações são escassas e não há lugar para pedir socorro. “Não há opção, tem que aceitar”. A frase dita por um especialista ecoa em nós como um soco. Dói vê-la desprotegida e sem rumo.

Dirigido por Audrey Diwan, a câmera não desgruda da protagonista e a acompanhamos extremamente de perto nesse caminho torturante. O formato quadrado limita nossa visão e traz uma sensação claustrofóbica ainda maior. É sufocante e soa como um verdadeiro thriller psicológico, onde a personagem precisa enfrentar dores físicas e emocionais constantes. O uso de estampas floridas e cores como o azul turquesa – presente em todas cenas – que imprimem um sentido de paz e divindade, contrastam com essa atmosfera aterrorizante do qual Annie enfrenta. É ela precisando manter uma postura e ser socialmente aceita, enquanto que por dentro, está completamente dilacerada.

“O Acontecimento” traz ainda uma grande atuação de Anamaria Vartolomei, que carrega em seus olhares toda essa dor silenciosa do qual Annie não pode expressar. É um peso grande demais que a protagonista carrega sozinha. Que as mulheres carregam. Não poder escolher pelo próprio corpo e não poder ter voz para decidir por si mesma é o verdadeiro crime. O filme entende o quão aterrorizante e solitário é estar nessa posição, encerrando-se com grande impacto e uma sensação estranha diante da calmaria da “vida que segue”. Nos faz pensar o quão atual ainda são seus discursos e quantas histórias parecidas como essa ainda existem ao nosso redor e nem nos damos conta.

NOTA: 9

País de origem: França
Ano: 2021
Título original: L’évènement
Duração: 100 minutos
Disponível: HBO Max
Diretor: Audrey Diwan
Roteiro: Audrey Diwan, Marcia Romano
Elenco: Anamaria Vartolomei, Pio Marmaï, Sandrine Bonnaire, Louise Orry-Diquero