Crítica: Um Fim de Semana Prolongado

histórias de amor não caminham no mesmo tempo

Final de sábado, querendo ver uma coisa leve e gostosa e eis que me deparo com uma grata surpresa. “Um Fim de Semana Prolongado” teve um lançamento tímido e pode ser uma boa pedida para os admiradores de romances indies como “Ruby Sparks” e “Eu Estava Justamente Pensando em Você”. É uma trama mirabolante, que constrói um scifi sutil sem a necessidade de efeitos visuais e sem tirar o pé do chão. Tudo flui de maneira realista, original e incrivelmente apaixonante.

Quando conhecemos alguém especial e tentamos construir um relacionamento com essa pessoa, muitas vezes nos deparamos com o empecilho do “tempo”. Cada um vive seu momento específico da vida e nem sempre é possível caminhar junto. O filme, então, faz uma divertida analogia sobre este tempo, onde um homem acaba se apaixonando por uma mulher que veio do futuro e eles terão um período curto para viver esta experiência, tornando eterno o que eles já sabem que terá um fim.

É assim que a obra, sensivelmente, acaba refletindo em como nós somos capazes de viver intensamente apenas quando sabemos a data de validade. Comove essa jornada dos protagonistas, principalmente porque há sentimento e honestidade em cada frase dita. O roteiro é esperto e flui em uma naturalidade admirável, destacando as boas performances de Finn Wittrock e da adorável Zoe Chao, que finalmente ganha um papel de destaque do qual ela tanto merecia. O diretor estreante Stephen Basilone entrega uma obra bastante intimista, revelando alguns instantes de grande inspiração como quando Zoe canta ou quando encena um número de dança.

“Um Fim de Semana Prolongado” é fofo e tem o raro poder de nos fazer torcer pelo casal principal e estampar um sorriso tonto no rosto todas as cenas em que estão juntos. São dois indivíduos que nasceram um para o outro mas não nasceram no mesmo tempo. O filme nos revela esse futuro distante, onde a tecnologia pode ter evoluído, mas nós ainda seremos feitos dessa mesma insegurança, ansiedade e deste constante sentimento de inadequação. Ainda seremos esses reles mortais desiludidos, esperando o salário no fim do mês e sonhando com as próximas férias.

NOTA: 8,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Long Weekend
Disponível: Locação no Youtube e Google Play
Duração: 91 minutos
Diretor: Steve Basilone
Roteiro: Steve Basilone
Elenco: Finn Wittrock, Zoe Chao, Damon Wayans Jr., Jim Rash

Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts

Crítica: First Cow

O ninho do homem

Que experiência boa é assistir “First Cow”. Fazia um tempo já que não via algo tão contemplativo e, ao mesmo tempo, tão adorável. Confesso que tinha baixas expectativas por simplesmente ter odiado “Certas Mulheres”, o trabalho anterior da diretora Kelly Reichardt. Por isso me encontro completamente surpreso com o que encontrei. Ela entrega um produto especial, digno de apreciação.

Brilhante em como a obra se inicia e se encerra. Ela fecha um ciclo e tudo o que vemos é uma jornada no qual já sabemos o fim, mas assistimos com extremo prazer e ternura. Reichardt, que também assina o roteiro, narra com carinho uma história de amizade em uma era de descobertas. Nos Estados Unidos de 1820, em um território pouco explorado, pessoas de diversos cantos do mundo tentam encontrar oportunidades ali. É assim que os caminhos de um cozinheiro (John Magaro) e um chinês fugitivo (Orion Lee) se encontram. De uma improvável parceria, nasce uma ambiciosa ideia de enriquecer, vendendo bolos fritos e usando como ingrediente principal, o leite roubado da primeira vaca a chegar na América.

É surpreendentemente divertido o caminhar dessa história. Vendo aqueles dois homens tentando vencer de um jeito que, nitidamente, dará errado em algum momento. Sem pretensão, a trama nos estampa um sorriso no rosto e nos encanta pela trajetória desses personagens. Não há julgamento moral sobre o que eles fazem por dinheiro e o roteiro, ao nos fazer criar uma empatia por eles, só nos faz vibrar para que tudo dê certo. O texto revela esse mundo já dominado pelo sistema e aqueles que tem pouco precisam criar algum jeito de sobreviver. É belo, então, esse contraste que nasce entre a humildade dos protagonistas e a violência e podridão que já assolou a terra. Há doçura no olhar e nas intenções dos dois, quase como se eles não pertencessem àquele lugar, fossem dignos de algo melhor. Ao menos é o que nós, enquanto público, torcemos.

A amizade é o ninho do homem, é sua casa, sua força. “First Cow” é um conto tocante sobre a parceria que nasce entre dois homens incomuns tentando vencer na vida. É simples, envolvente e cativante. A direção de Reichardt é um primor e ilustra essa trajetória com extremo cuidado, revelando uma obra contemplativa e lenta, que aprecia o tempo certo de cada ação. Essa lentidão, porém, pode afastar parte do público. Digo que se permitir viajar junto, será uma experiência única. Um filme feito de coração. Um filme imenso.

NOTA: 9,5

Ano: 2019
Disponível: Net Now
Duração: 121 minutos
Diretor: Kelly Reichardt
Roteiro: Kelly Reichardt
Elenco: John Magaro, Orion Lee, Toby Jones, Lily Gladstone

Crítica: Espontânea

Quase certamente

Baseado no livro homônimo de Aaron Starmer, ‘Spontaneous’ é um filme teen um tanto quanto incomum e surpreendente. Guiado por um humor ácido e muito sangue, o longa navega por diversos gêneros com ousadia, trilhando com naturalidade entre o romance, terror e uma distópica ficção científica. Trata-se de um desafio e tanto, mas que é brilhantemente comandado por Brian Duffield, a mente por trás de outros produtos explosivos como “A Babá” e “Amor e Monstros”.

Na trama, um grupo de alunos começa a explodir, literalmente. Sem explicações, eles passam a ser alvos de estudo para uma possível cura e a viver com o receio de serem os próximos a terem seus miolos estourados. Somos levados a este inusitado cenário pela irreverente Mara, muito bem defendida pela atriz Katherine Langford, que parece não levar tudo isso muito a sério e que acaba se apaixonando por Dylan (Charlie Plummer, no mesmo papel de sempre) enquanto buscam por sobrevivência.

Qualquer acontecimento, por mais improvável que seja, tem a possibilidade de existir. Essa é uma ideia matemática explorada no teorema do macaco infinito, descrito em certo momento do filme. Ainda que a matemática seja uma linguagem precisa, trata-se de uma sábia metáfora sobre a imprevisibilidade da vida. Por mais que sejamos donos de nosso destino, uma hora ou outra podemos simplesmente explodir e não há como prever isso.

O brilhantismo de “Espontânea” está justamente nessa decisão de não precisar de uma resposta lógica. Aconteceu porque aconteceu, assim como é nossa vida. Talvez a adolescência seja um pouco isso, esse misto de empolgação e receio pelo incerto. O filme se encerra de forma gloriosa, ao som de Sufjan Stevens, em um discurso empolgante e inspirador sobre as incertezas de nossa insana, cruel e apaixonante jornada que quase certamente dará muito certo ou muito errado. Uma das duas. E não há teorema matemático que defina isso.

NOTA: 8

País de origem: EUA
Ano: 2020
Título original: Spontaneous
Disponível: Telecine Play
Duração: 97 minutos
Diretor: Brian Duffield
Roteiro: Brian Duffield
Elenco: Katherine Langford, Charlie Plummer, Piper Perabo

Crítica: Pose (Segunda Temporada)

Atendendo aos caprichos do roteiro

É lindo a questão da representatividade e este espaço que a série abre para a comunidade trans e um elenco tão inclusivo. E digo, nenhum defeito apaga esse brilho. Porém, como grande apreciador da primeira temporada, preciso aceitar o fato, com dor no coração, a decepção que foi esse segundo capítulo da trama. Produzido por Ryan Murphy, ele já vem construindo a fama de um criador audacioso mas que acaba sendo refém da própria ambição, jamais conseguindo manter o nível daquilo que inicia.

A continuação de “Pose” frustra porque não há desenvolvimento algum e os personagens estão ali apenas para atender aos caprichos do roteiro. Se hoje vamos falar de ativismo, colocamos eles lá, no próximo episódio a gente finge que não existiu. Se hoje é mais interessante aquele indivíduo estar fracassado, a gente faz assim, amanhã ele será bem sucedido porque fará parte da nova pauta. E assim seguimos em uma sequência aleatória de eventos, onde as transformações acontecem para gerar um debate específico, não porque cabia ao personagem.

Quando Damon parece finalmente ganhar os holofotes com sua dança, isso não o leva a lugar algum, além de torná-lo insuportável. Quando Blanca recomeça depois de uma grande perda, conhecendo o amor, isso logo é ignorado no episódio seguinte. E isso acontece Angel, Lulu e Elektra. Seja nos momentos de glória, de conquista ou de perda. Nada disso os leva para uma nova direção. Nada disso os impulsiona. Todos estão presos em uma caixa, se reiniciando a cada novo episódio, impedindo, assim, qualquer tipo de evolução, crescimento ou até mesmo de uma narrativa dramática mais corajosa.

Claro, os temas são sempre relevantes e é importante abrir espaço para certas pautas, mas é bizarro como eles alteram o caminho da trama para poder debater algo que até então era incabível. É um roteiro que caminha por pura conveniência, sem jamais respeitar aquelas belas histórias e aquelas belas mulheres que tem tanto a dizer, tanto a explorar. Um texto com muito sentimento sim, mas expositivo, lamentavelmente conduzido.

Para piorar, recebemos no combo um desconfortável plot de “fantasia pós-morte” e cenas musicais que pouco conversam com a atmosfera da série, causando mais incômodo do que admiração. É a escola Ryan Murphy do “vamos fazendo assim e lá na frente vemos no que dá”.

Espero que a série se recupere na terceira temporada e termine da forma brilhante como começou. Vou guardar dessa parte a força inspiradora de Blanca e os diálogos icônicos de Elektra, assim como a presença hipnotizante de Dominique Jackson em cena. Curiosamente, o melhor episódio é o 9 (o penúltimo), justamente aquele em que o show é menos pretensioso, mais leve e muito mais humano. Foi o ápice “Pose” para mim.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2019
Disponível: Netflix
Episódios: 10
Diretor: Gwyneth Horder Payton, Ryan Murphy
Elenco: Mj Rodriguez, Billy Porter, Indya Moore, Dominique Jackson, Angelica Ross

Crítica: O Mauritano

Memórias da dor

Não é de se espantar o porquê “O Mauritano” não tenha feito sucesso nas premiações deste ano. Não que o filme seja ruim, bem pelo contrário, mas porque ele vai complementarmente na contramão desse cinema “pós 11 de setembro” que os americanos gostam de ver (ou de fingir que acreditam). Poucas vezes, nesse período, me deparei com uma produção tão corajosa em seus discursos e tão consciente sobre o papel do governo Bush-Obama e dessa desastrosa campanha da “guerra ao terror”.

A prisão secreta de Guantánamo, localizada em Cuba, foi a saída do Governo dos Estados Unidos em manter em detenção qualquer suspeito de envolvimento com o terrorismo. É uma grande atrocidade e, justamente por isso, torna este filme tão necessário, por escancarar a crueldade e manter viva essa lembrança dolorosa que não deve ser ignorada. Baseado no livro “Diário de Guantánamo”, escrito a mão pelo mauritano Mohamedou Slahi enquanto esteve preso, o longa narra a jornada deste homem comum que ficou encarcerado durante 14 anos sem ter cometido crime algum.

O roteiro é bem pontual, jamais perdendo o foco ou o interesse do público diante dos acontecimentos. A trama se dá início quando o caso de Slahi vai parar na justiça, em um interessante embate entre a advogada de direitos humanos, vivida pela ótima Jodie Foster, e o Governo, que precisa, a qualquer custo, encontrar algum culpado. Essa trajetória acaba por questionar essa justiça impiedosa, que precisa ver alguém pagando pelo o que fez. A ausência de provas, a busca por respostas, tudo vai criando um ambiente sufocante dentro da obra, que nos deixa inquietos e desesperados por alguma solução.

O diretor Kevin McDonald opta por revelar as lembranças do acusado em um formato mais fechado, intensificando esse sentimento de aprisionamento. Ainda que esses flashbacks não funcionem tão bem dentro da narrativa, “O Mauritano” entrega um registro necessário e ousado ao revelar as torturas, o assédio, a violência e tudo o que se manteve, por tantos anos, em silêncio. Desse Governo que usa o medo como controle. Poucas vezes, aliás, ler os letreiros finais de um filme doeu tanto. É, de fato, angustiante e revoltante.

No mais, vale destacar as ótimas atuações do elenco. Jodie Foster é aquela atriz que aparece pouco no cinema, mas quando aparece entrega o seu melhor. Tahar Rahim está fantástico também. É bela essa conexão que vai sendo construída entre os dois personagens. Dela que precisa acreditar na inocência do acusado e ele que precisa acreditar na humanidade dela, diante desse mundo que só lhe trouxe dor.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido
Ano: 2021
Título original: The Mauritanian
Disponível: Net Now
Duração: 129 minutos
Diretor: Kevin Macdonald
Roteiro: Michael Bronner, Rory Haines, Sohrab Noshirvani
Elenco: Jodie Foster, Tahar Rahim, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi

Crítica: Saída à Francesa

O surreal mundo dos ricos

“French Exit” é um filme estranho. Às vezes, nos encanta por sua peculiaridade, mas também nos afasta por nunca entendermos claramente o que ele quer ser. É uma mistura nem sempre harmoniosa de Woody Allen com Wes Anderson, que pode até não ter o brilhantismo dos dois, mas tem maturidade o suficiente para tal comparação.

O grande destaque da obra, com toda a certeza, é a forte presença de Michelle Pfeiffer. Ela constrói uma personagem interessante, que poderia cair na caricatura mas ela faz com tanta maestria que conquista o impossível, nos fazer nos apaixonar por ela. Isso porque ela interpreta uma mulher que vive em uma realidade muito distante da nossa, no surreal mundo dos ricos. Uma socialite falida que tem a chance de ir sofrer em Paris, ao lado do filho.

Baseada na obra de Patrick deWitt, que aqui também escreve o roteiro, a trama vai crescendo em uma estranheza nem sempre cativante, mas curiosa e imprevisível. É uma comédia refinada com toques de realismo fantástico sobre encontros de pessoas em um apartamento na França, onde a família deslocada acaba se reunindo com uma desconhecida carente, uma cartomante e um detetive para juntos encontrarem o gato possuído pelo espírito do falecido marido. Nada faz muito sentido e, no fim, essa acaba sendo sua maior graça. Abraça o nonsense mas sem deixar de se preocupar com seus bons personagens e de buscar essa humanidade existente em cada um deles.

A primeira hora é bem desgastante e demora a se encontrar, mas quando isso acontece, entrega alguns momentos mágicos, principalmente por extrair o melhor de Pfeiffer. Lucas Hedges já tem vindo no piloto automático há um tempo e pouco faz aqui. Dos coadjuvantes, Valerie Mahaffey se destaca e entrega instantes adoráveis. O cuidado na direção de Azazel Jacobs é notável, assim como a bem conduzida trilha sonora.

“French Exit” é aquela comédia que nem sempre faz rir ou agrada, mas causa um certo fascínio por sua esquisitice. Todos os personagens ali soam como pessoas perdidas, que chegaram em um momento da vida que não sabem mais qual a direção seguir. E assim somos nós. Crescemos e somos como crianças que, em um profundo estudo de observação, aprendemos o comportamentos dos adultos e estamos em um constante ato de simulação, agindo como se soubéssemos o que estamos fazendo.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA, Irlanda do Norte, Reino Unido, Canadá
Ano: 2020
Título original: French Exit
Disponível: Net Now
Duração: 100 minutos
Diretor: Azazel Jacobs
Roteiro: Patrick deWitt
Elenco: Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Valerie Mahaffey, Imogen Poots, Danielle MacDonald

Crítica: Cruella

Sobre vingança, moda e punk

“Cruella” é um acontecimento. Alcança um nível tão alto de qualidade que torna todos os outros live-actions da Disney menos interessantes. É tudo o que os anteriores tentaram mas não conseguiram ser. Esse tem alma, tem vida própria e não se contenta em ser apenas um favor confortável aos fãs. Como é bom encontrar um produto que prometia pouca coisa e entregou absolutamente tudo.

Existe um brilho a mais em Emma Stone e aqui compreendemos o quão poderosa é sua presença. Uma atriz versátil, carismática e que nos seduz a acompanhar a divertida trajetória de sua personagem. O filme tem como intuito mostrar os eventos antes daqueles que conhecemos em “101 Dálmatas” e a peculiar ascensão de sua adorável vilã. Claro que com uma roupagem completamente diferente e, felizmente, sem se apegar à obra original. É uma trama nova e que acaba, por fim, humanizando Cruella. Poderia ter dado bem errado se não fossem as mãos dos roteiristas Dana Fox e Tony McNamara (A Favorita). É um trabalho brilhante realizado pela dupla, que entrega um filme hipnotizante, que flui muito bem por suas mais de duas horas de duração.

O diretor Craig Gillespie constrói, com sua direção, uma narrativa ainda mais imersiva e consistente daquela apresentada em “Eu, Tonya”. Tem movimento, velocidade e nos mantém atentos a cada detalhe. A produção vem caprichadíssima também, com seus deslumbrantes figurinos e uma impecável direção de arte. Destaque, claro, para a empolgante trilha musical – com nomes como The Clash, Blondie e The Rolling Stones – que nos leva à fascinante Londres dos anos 70. É uma junção de elementos que funcionam perfeitamente bem em cena, sendo uma experiência revigorante de vingança, moda e punk. O único detalhe que causa um certo estranhamento é o uso de CGI nos cachorros, ainda que bem realizado. Porém, acaba sendo justificado quando ganhamos instantes como o doguinho Wink vestido de rato.

Assumindo o papel de Cruella como uma anti-heroína, o roteiro não nos deixou de nos apresentar uma grande vilã. A Baronesa vivida pela veterana Emma Thompson é impagável. O embate entre as duas personagens é saborosíssimo, nos lembrando rapidamente da troca entre Andrea e Miranda Priestly de “O Diabo Veste Prada”. É, ainda, incrível como todos os coadjuvantes funcionam e todos possuem uma função importante ali. Existe química entre todos eles e nos afeiçoamos a essas relações e nos engenhosos planos que desenvolvem. Momentos como os do caminhão de lixo, o show na passarela ou o do vestido de insetos ficarão na memória de tão icônicos que foram. E a grande verdade é que o cinema atual carece disso, desses grandes momentos. Dessas grandes escolhas. “Cruella” é inventivo, tem personalidade e uma energia que vibra. Um espetáculo a ser apreciado!

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Disney Plus
Duração: 134 minutos
Diretor: Craig Gillespie
Roteiro: Tony McNamara
, Dana Fox
Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Mark Strong

Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim

Crítica: We Are Who We Are

Tempo de transições

A vida pacata de um grupo de adolescentes vivendo em uma base militar norte-americana na Itália. A premissa é simples, mas na mão do cineasta Luca Guadagnino, a minissérie da HBO chega a um resultado grandioso.

Adentramos a este lugar tão incomum pelos olhos de Fraser (Jack Dylan Grazer), jovem que precisa se adaptar à nova realidade, pois sua mãe será a nova comandante na base. Durante os belíssimos 8 episódios, acampamos esse processo dele tentando se encaixar e sua relação com Caitlin (Jordan Kristine Seamon), sua vizinha. Os dois enfrentam um momento de grande transição e se unem nesta imediata identificação.

A trama faz um paralelo dessa adolescência em mutação com os Estados Unidos em período eleitoral e nessas incertezas assustadoras que nasceram na sociedade pós-Trump. Mas eles estão distantes do país, vivendo em um lugar quase inexistente e que possui sua própria lógica. É justamente essa ambientação que torna a série tão fascinante. Há um trabalho muito rico de detalhes que nos faz adentrar a esse universo tão único. A rotina incomum, as paisagens, cenários e locações. O show nos permite passear e contemplar cada pedaço, apreciando sua fluída passagem de tempo. Luca Guadagnino é um grande diretor e torna o ato de assisti-la em uma gloriosa experiência.

Somos acostumados, enquanto público, a definir os personagens, a colocá-los em certas caixas. “We Are Who We Are” é um convite a não decifrar esses personagens que, em uma época de transição e amadurecimento, tão pouco conhecem a si mesmos. É um convite a abraçamos a pluralidade de cada um deles e aceitar que eles podem ser qualquer coisa. A série é, também, uma história de amizade. De dois jovens que se encontram neste pedaço de mundo que parece ter uma rotação diferente do resto do universo. É sobre essa conexão entre os dois, tão diferentes, mas tão solitários em suas realidades. Essa troca entre eles é bela de se acompanhar. Apesar do protagonista ser um tanto quanto irritante, consigo ver nele muito dos adolescentes por aí. Caitlin, por sua vez, tem uma trajetória incrível e me encanta sua presença.

“We Are Who We Are” perde, porém, com alguns de seus coadjuvantes que, ao não ter suas tramas aprofundadas em nenhum momento, se tornam meros adereços de cena, como o plot das mães lésbicas, das traições e do irmão muçulmano. Soa como se eles estivessem ali para tapar um buraco, apenas.

Termino de ver a série com um sorriso largo no rosto e um sentimento forte dentro de mim. Sinto que presenciei algo. “We Are Who We Are” pode não entrar para a história da televisão, mas com certeza estará ali, em um algum canto especial na memória.

Melhores episódios: “Right Here Right Now IV” e a hipnotizante despedida de um soldado dentro de uma casa invadida. E o último, “Right Here Right Now VIII and Last”, a belíssima despedida dos protagonistas.

NOTA: 9

País de origem: EUA, Itália
Ano: 2020
Disponível: HBO GO, Net Now
Duração: 8 episódios
Diretor: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino, Francesca Manieri, Paolo Giordano
Elenco: Jack Dylan Glazer, Jordan Kristine, Chloe Sevigny, Tom Mercier, Alice Braga