O peso das exigências sociais
O cinema de gênero na produção nacional não é muito comum. Justamente por isso, um filme como “Uma Família Feliz”, ainda que tenha suas falhas, é muito bem-vindo, porque se arrisca dentro de algo não usual por aqui. José Eduardo Belmonte é um diretor experiente e sabe muito bem como conduzir esse terror psicológico sobre maternidade.
A premissa é boa e nos mantém atentos até chegar ao seu final inesperado. O texto é assinado por Raphael Montes (Bom Dia, Verônica), que além do filme, também lançou recentemente o livro homônimo. Ele investiga um cenário que o cinema brasileiro também pouco teve interesse, aquele em que vive a burguesia, relaxada em seus condomínios fechados de alta classe. Acompanhamos uma família aparentemente feliz, onde o casal Eva (Grazi Massafera) e Vicente (Reynaldo Gianecchini) são pais de duas garotas gêmeas e um recém-nascido. Esse véu que encobre a vida supostamente perfeita deles cai quando Eva é acusada de machucar seus próprios filhos.

“Uma Família Feliz”, que teve sua estreia no Festival de Gramado, aborda as complicações da maternidade e depressão pós-parto de uma maneira bastante corajosa. É um tema delicado e mergulhamos nesse drama vivido por Eva, sempre sendo julgada e questionada. Sempre na urgência de se provar. Ela precisa, ainda, equilibrar as exigências sociais sobre como ser mãe e boa esposa. Grazi Massafera traz uma carga emocional muito forte em cena. É uma pena, porém, que o próprio filme sabote sua entrega. Falta um material à sua altura e um texto mais potente que desse voz a tudo o que ela, nitidamente, conseguiria expressar. Já Reynaldo Gianecchini continua um ator muito bonito.
Ainda que José Eduardo Belmonte saiba como conduzir a tensão, nos mantendo atentos, seja pelos ruídos sonoros, seja por suas ótimas transições, seu filme acaba derrapando no final. É ótimo como somos enganados pelo texto, que nos faz questionar, o tempo todo, sobre os personagens e tudo aquilo que eles escondem. No entanto, o roteiro de Montes é ineficaz na construção da grande revelação. O que torna um plot twist bom não é simplesmente ser surpreendente, ele precisa estar alinhado com perfeição à história, o que não é o caso aqui. Não há pistas ao longo do caminho, tornando seu fim apenas absurdo e desconexo.
“Uma Família Feliz” acerta bastante e se mostra ousado como um produto de gênero no Brasil, mas infelizmente acaba se perdendo com as soluções desesperadas que entrega ao final, encerrando-se de maneira caótica e pouco inspirada. Apesar disso, fico feliz de ver a produção nacional buscando novos caminhos. Além das questões que pontuo aqui, diria que é uma boa surpresa no nosso cinema e que, definitivamente, vale a conferida. Inclusive, como forma de mostrarmos que existe público interessado em novas narrativas como esta.
NOTA: 7,0

País de origem: Brasil
Ano: 2024
Duração: 110 minutos
Diretor: José Eduardo Belmonte
Roteiro: Raphael Montes
Elenco: Grazi Massafera, Reynaldo Gianecchini, Luiza Antunes, Juliana Bim
