O pássaro que não para de voar

Elvis Presley foi uma das figuras mais emblemáticas do século XX. Sua importância na história da música, que o consagrou como o Rei do Rock, se reflete até hoje. Ainda que ele já tenha se tornado personagem em outros filmes, nunca o cinema teve a coragem de fazer uma cinebiografia dessa magnitude. Baz Luhrmann, mais conhecido por sua estética espalhafatosa, surpreendentemente, prova ter sido a escolha mais adequada para esse projeto. É uma obra autoral, onde seus truques e exageros dialogam perfeitamente com suas intenções, sem nunca ofuscar a vida do astro. Ele abrilhanta sua trajetória e entrega uma homenagem, finalmente, a sua altura. 

Aqui, Baz Luhrmann flerta com o musical contemporâneo e costura a vida de Elvis em meio a colagens e batidas que nunca pausam. É música pulsando na veia em uma montagem criteriosa e soberba. Navegamos em um ritmo alucinante pelos altos e baixos de sua carreira, desde sua infância até sua morte. É incrível como o roteiro consegue, em suas duas horas e meia, dar um overview sobre tudo, sem nunca perder o fôlego e sem nunca largar nossa mão. Ainda que mereça louvor pelo feito de condensar toda a jornada – porque é uma tarefa cruel e quase que impossível – isso, também, enfraquece, em partes, sua dramaticidade. A história do casal, por exemplo, nunca ganha profundidade e nunca entendemos, de fato, o que os torna distantes. Ou sua vida em Hollywood, ou vício nas pílulas. Tudo ali, ao fim, vira um detalhe, quando havia tanto a dizer. 

“Elvis”, entretanto, não está só interessado na carreira do ícone, mas em como o mundo e a sociedade vivia em sua época. Seja por revelar suas raízes mais humildes em Memphis e como a cultura negra teve grande influência em sua música, seja por mostrar esse país que vivia as dores da segregação e em chamas pelos assassinatos de seus líderes. “Quando as coisas estão perigosas demais para dizer, cante!” A voz de Elvis vem com o peso de representar muita história e ele sentia que esse dom tinha um propósito. Sua presença despertava um senso de rebeldia, de força, mesmo quando por dentro, ele era tão frágil. 

É então que temos Austin Butler para dar vida ao ídolo. Longe de qualquer imitação, o ator se entrega de corpo e alma em cena. É comovente ver seu trabalho vocal e corporal. Ele deu o sangue ali e é nítido em cada instante. Tom Hanks, ainda que entregue uma atuação distante de tudo o que ele já fez em sua carreira, seu personagem me incomoda. O filme foca bastante nessa relação tóxica entre Elvis e seu agente Tom Parker, mas este me soa extremamente caricato, quase como um vilão cartunesco. Ficou difícil acreditar nessa inocência do cantor e como ele entregou a própria vida para um ser que, desde o primeiro momento, se mostrou tão desprezível. Ainda assim, o roteiro deixa claro o quão complexo é esse relacionamento e o quão difícil era o astro se ver livre da gaiola que criaram para ele. 

Elvis, assim como ele mesmo acreditava, era um pássaro que só possuía asas. Ele não podia pousar, logo, só voava. Para o astro que nunca teve os pés no chão, Baz Luhrmann entrega um espetáculo a sua altura, que caminha com uma batida ininterrupta, nos permitindo viver o caos e agitação de alguém que nunca pôde aterrissar. Uma obra energética, revigorante e que explode em nós. É belo, empolgante e musicalmente formidável. O show que Elvis merecia. O filme que nem sabíamos que precisávamos.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2022
Duração: 159 minutos
Diretor: Baz Luhrmann
Roteiro: Craig Pearce
Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Dacre Montgomery, Luke Bracey

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