Crítica: Relatos do Mundo

Cenário novo, história de sempre

Baseado no romance de Paulette Jiles, “Relatos do Mundo” traz o retorno do diretor Paul Greengrass, que aqui descansa sua câmera inquieta de produções eletrizantes como “Capitão Phillips” e “Ultimato Bourne” para revelar a calmaria do Faroeste. É curioso esta sua escolha, estudando um gênero e um estilo de cinema que se afasta de sua bela filmografia, provando ser um cineasta ainda mais versátil, mesmo que entregue seu filme menos inspirado.

A obra veio como um balde de água fria em mim. Não que minhas expectativas fossem altas, mas não esperava ver um filme tão desinteressante aqui. A trama foca no veterano de Guerra e Capitão Jefferson Kyle Kidd, que viaja pelo Texas levando notícias do mundo para pessoas que não tem acesso. Nesta sua jornada ele se depara com a órfã Johanna, que não fala sua língua e precisa ser levada até seus parentes mais próximos.

A obra acaba estacionando em um lugar muito comum. A relação de amizade que nasce entre o homem introspectivo e a garota selvagem é bastante previsível e o roteiro cria inúmeras conveniências já muito desgastadas no cinema. É óbvio todo o desenvolver desta relação, que jamais emociona ou convence. É uma pena que o texto ainda desperdiça a peculiar profissão do protagonista, que poderia trazer ares de novidade para a trama, optando sempre pelo óbvio, com direito a vilões caricatos e perseguições de poucas motivações.

É sempre bom ver Tom Hanks em cena e seu carisma como ator segura bem, mesmo que ele não entregue nada de novo aqui, deixando o destaque para a pequena e talentosíssima Helena Zengel. A ambientação da época é outro grande destaque da produção, explorando visualmente com muito cuidado cada passagem, assim como a belíssima trilha sonora de James Newton Howard, merecidamente indicada ao Oscar. “Relatos do Mundo” é tecnicamente primoroso, mas é apático, onde pouco sofremos ou nos importamos com a trajetória dos protagonistas.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título original: News of The World
    Duração: 118 minutos
    Diretor: Paul Greengrass
    Roteiro: Paul Greengrass, Luke Davies
    Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel, Bill Camp

Os 15 melhores atores coadjuvantes do ano

Continuando com as listas de melhores atuações de 2020, retorno para revelar as minhas interpretações masculinas favoritas em papéis coadjuvantes. Foi difícil fechar em apenas 15 nomes porque tivemos diversos atores que mereciam estar aqui.

As atuações elegíveis para a lista foram aquelas que estiveram presentes em obras lançadas no Brasil de janeiro a dezembro do ano passado. Espero que gostem dos selecionados e, caso não tenham visto algum desses filmes, deixo aqui como belas dicas a serem descobertas.

15. Dan Stevens
(Festival Eurovision da Canção)

Ainda que a comédia da Netflix “Festival Eurovision da Canção” tenha seu charme devido aos protagonistas vividos por Rachel McAdams e Will Ferrell, quem brilha mesmo é Dan Stevens. Sua presença é rápida, mas boa demais para passar despercebida. Na pele do cantor russo Alexander Lemtov, Dan entrega um show de carisma e comédia. Sua performance no palco é simplesmente impagável.

14. John Lithgow
(O Escândalo)

Mesmo escondido em muita maquiagem, o ator John Lithgow dá uma belo show em “O Escândalo”. Ele literalmente desaparece como o chefão da Fox News, Roger Ailes. É um personagem difícil de digerir, que causa nojo e espanto. Ainda assim, é muito bom ver um ator veterano com tamanha coragem de se entregar dessa forma.

13. Harry Melling
(O Diabo de Cada Dia)

Harry Melling trabalhou bastante em 2020, por isso é tão surpreendente cada aparição dele ao longo do ano. São personas diferentes e ele se renova em cada uma delas. Como um fanático religioso, Harry surge assustador aqui. Sua entrega é admirável e torna grande um personagem pequeno ali na trama.

12. Bill Burr
(A Arte de Ser Adulto)

O comediante Bill Burr finalmente ganha uma boa chance no cinema. Como o pai solteiro Ray Bishop que acaba conquistando a mãe do protagonista, ele traz vida ao filme. É uma presença marcante dentro da história e um personagem que vai crescendo ali. Sua dinâmica com os atores Pete Davidson e Marisa Tomei é deliciosa.

11. Sacha Baron Cohen
(Os 7 de Chicago)

É sempre surpreendente ver até onde o ator britânico Sacha Baron Cohen é capaz de chegar. É chocante como ele se transforma de um papel para outro e por isso merece estar na lista. Sua presença no drama de tribunal “Os 7 de Chicago” é incrível, trilhando bem entre a comédia e o drama.

10. Taika Waititi
(Jojo Rabbit)

“Jojo Rabbit” é uma comédia bastante ousada e Taika Waititi merece reconhecimento por dirigir, escrever e ainda atuar (e ser incrível em todas essas funções). Aqui ele tem a difícil missão de ser uma versão infantilidade e cômica de Hitler. As chances disso dar errado eram enormes, mas que funcionam devido seu grande carisma e competência como ator.

9. Alessandro Nivola
(A Arte da Autodefesa)

Na pele de um carismático sensei que domina as artes do karate, Alessandro Nivola rouba a cena no surpreendente “A Arte da Autodefesa”. Nunca sabemos ao certo seu caráter e as coisas que ele é capaz de fazer. Por isso nos deixa tão intrigados e hipnotizados por sua presença. Diverte com o humor negro do roteiro, mas também nos deixa um tanto quanto assustados.

8. David Thewlis
(Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo)

Assim como sua parceira de cena, Toni Collette, David Thewlis nos causa repulsa na pele do pai do protagonista. São instantes bizarros no drama de Charlie Kaufman, mas que ele domina, adentra com perfeição a este jogo de cena estranhíssimo e divertido. Envelhecendo de um instante para o outro, sua presença se torna cada vez mais esquisita e desesperadora. Ótimo poder ter um ator de seu calibri para dar vida a algo tão louco quanto isso.

7. Tim Blake Nelson
(Luta por Justiça)

Ainda que a produção e divulgação de “Luta Por Justiça” foque nas ótimas presenças de Jamie Foxx, Michael B.Jordan e Brie Larson, o longa acaba surpreendendo por outra atuação que ninguém estava esperando, a do veterano Tim Blake Nelson. É uma passagem rápida mas de grande relevância na trama. Seu sotaque, seu jeitão único de se expressar. Belíssima surpresa.

6. Bill Camp
(O Preço da Verdade – Dark Waters)

Bill Camp é aquele ator fantástico que sempre está presente nos filmes mas pouco nos damos conta. Por isso sua atuação em “Dark Waters” me chamou tanta a atenção e me fez percebê-lo em outras produções. Ele é um coadjuvante de ouro, que enriquece os bons discursos do filme e nos convence na pele de um caipira que busca por justiça.

5. Bill Murray
(On The Rocks)

Murray é figura marcante na filmografia de Sofia Coppola e sua presença em “On The Rocks” prova que esta parceria ainda tem seu charme. Na pele de um pai canastrão, o ator brilha em cena. É divertido, carismático e funciona muito bem ao lado da protagonista de Rashida Jones. Apesar da comicidade, ele traz humanidade ao personagem.

4. Jamie Foxx
(Luta por Justiça)

“Luta Pela Justiça” traz um discurso forte sobre como o sistema carcerário persegue os negros, nos revelando a dolorosa trajetória de homens que buscam por defesa mesmo quando não sou ouvidos. Jamie Foxx dá vida a Walter, que durante anos esteve preso injustamente. É cruel todo caminho percorrido por seu forte personagem e Foxx assume essa responsabilidade de dar voz a tantas histórias como esta. Sua presença é gigante e emociona.

3. Tom Hanks
(Um Lindo Dia na Vizinhança)

O apresentador infantil norte-americano Fred Rogers é o objeto de estudo de “Um Lindo Dia na Vizinhança”. É um ser intrigante e que ganha vida nas mãos de Tom Hanks. É aquele tipo de papel que não faria sentido na pele de outro ator. Acreditamos em seus discursos de bondade e em suas atitudes tão inspiradoras. Hanks sai de sua linha conforto e desenvolve na tela um personagem único.

2. Paul Raci
(O Som do Silêncio)

Por essa grande atuação acredito que ninguém esperava. O palco era de Riz Ahmed, que também está ótimo em cena, mas Paul Raci se mostra um coadjuvante a altura. Conhecedor da linguagem de sinais, é fantástico assistir as tantas formas em que o ator se expressa em cena. Há solidariedade e compaixão em seu olhar. Há sentimento em cada palavra e em cada movimento que gesticula. O momento final em que ele se mostra decepcionado com o protagonista é gigante.

1. Willem Dafoe
(O Farol)

Lista de melhores do ano sem Willem Dafoe não é a mesma. Nos últimos anos, o ator tem se envolvido em projetos bem interessantes e “O Farol” deu a chance para o ator entregar uma atuação poderosa. Mesmo com anos de carreira, ele ainda nos surpreende, ainda tem uma camada não desvendada. E esta é a grandeza do seu trabalho. O embate do ator com Robert Pattinson é poderoso.

Crítica: Um Lindo Dia na Vizinhança

Gostaria de ser meu vizinho?

Em 2018 foi lançado o elogiado documentário sobre o apresentador norte-americano Fred Rogers, “Won’t You Be My Neighbor?”. Se trata de um filme sutilmente emotivo e que, no fim das contas, acaba revelando muito mais sobre nós do que sobre ele. É a história de um homem bom, uma divindade quase, que usa do seu poder de fala e sua influência na TV para ensinar às crianças questões sobre aceitação, medo e perdão. Diz sobre nós porque lá no fundo, tentamos buscar algo de podre dentro dele, algo que prove que essa santidade não passa de um personagem. A grande virada é justamente essa. Temos dificuldade em aceitar essa bondade genuína e sempre esperamos o pior na humanidade. É interessante, então, a decisão deste filme em tornar Fred um coadjuvante. Porque a história nunca foi sobre ele e sim sobre como a trajetória dele reflete em nós.

“Um Lindo Dia na Vizinhança” tem outro protagonista. Ele é o jornalista Lloyde Vogel (Matthew Rhys), que escreveu o artigo para a revista Esquire, no qual a obra é baseada. Um homem traumatizado por seus conflitos familiares e que tem uma reputação ruim enquanto profissional, logo que sua maior habilidade é encontrar o que há de pior sobre aqueles que escreve. Lloyde é convidado a falar sobre pessoas consideradas heroínas e Fred acaba sendo o único a aceitar ser entrevistado por ele. O filme, então, coloca esses dois seres completamente diferentes frente a frente. Enquanto Fred é o símbolo da bondade, Lloyde parece carregar o mundo em seus ombros, sempre amargurado, sempre indisposto. O papel do jornalista, curiosamente, passa a ser o nosso enquanto assistíamos aquele documentário. Ele cava a vida do apresentador para apagar essa imagem santa e encontrar algo de ruim que o torne parte desta sociedade podre na qual tanto acreditamos.

O roteiro, sabiamente, transforma toda esta jornada em algo bem didático. Seria um grande erro em outro filme, mas aqui se encaixa quando estamos falando de um apresentador infantil. Chega a ser encantador em como eles fazem a vida caótica de Lloyde parecer um quadro do programa, onde até mesmo as vistas aéreas da cidade em que acontece são ilustradas por maquetes. É tudo lúdico e adoravelmente convidativo. O grande problema vem, porém, quando o protagonista soa estranhamente unilateral. Matthew Rhys é um bom ator, mas há pouco o que fazer com seu personagem tão limitado. Na tentativa de usar da imagem de Lloyde esta representação de uma vida amargurada, o texto ignora qualquer sentimento que saia deste campo. Ele está sempre cansado, triste, desiludido. Soa ainda mais forçado quando o roteiro abusa de clichês para falar sobre seus conflitos familiares. A infância difícil, o pai ausente, a doença terminal que os une. E nesta reciclagem de temas, acaba sendo difícil criar algum tipo de vínculo com o personagem ou se emocionar com este laço que ele cria com o apresentador e todas as lições de vida que ele acaba deixando pelo caminho.

Em certo momento, Fred Rogers, enquanto conversa com o jornalista, pede para que ele dedique um minuto refletindo sobre as pessoas que ama e que moldaram sua personalidade de hoje. Curiosamente, a produção dedica exato um minuto em silêncio e Fred quebra a quarta parede e nos encara. É impossível, enquanto público, não pensar em alguém naquele momento. “Um Lindo Dia na Vizinhança” não é sobre Fred Rogers. É um convite para pensarmos sobre nós mesmos. O que nos molda e nossa capacidade em encarar nossos medos, nossa raiva, nosso poder em perdoar. Mais do que isso, nossa habilidade em aceitar a bondade que vem de fora e que custamos a acreditar. Ela existe e pode preencher um espaço que bloqueamos com muita facilidade. É, também, claro, um palco para Tom Hanks brilhar. Não haveria outro ator para estar aqui além dele. Um filme doce e que apresenta diversos momentos de reflexão, mas é pequeno perto do que poderia ser e decepciona ao ter em mãos um personagem tão intrigante quanto Rogers e desperdiçá-lo em um filme sobre um insosso e pouco original drama familiar.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: A Beautiful Day in The Neighborhood
    Duração: 107 minutos
    Distribuidor: Sony Pictures
    Diretor: Marielle Heller
    Roteiro: Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster
    Elenco: Matthew Rhys, Tom Hanks, Chris Cooper, Susan Kelechi Watson