a beleza das contradições

Baseado na história real de Jeffrey Manchester e em suas decisões equivocadas na busca por uma vida mais digna, O Bom Bandido pode parecer, à primeira vista, uma comédia inofensiva. Contudo, revela-se aos poucos como uma obra potente, reflexiva e surpreendentemente comovente. Facilmente, uma das maiores surpresas do ano.

O diretor Derek Cianfrance, conhecido por explorar relacionamentos complexos em dramas emocionalmente carregados como Namorados para Sempre e A Luz Entre Oceanos, apresenta aqui uma nova faceta, mais leve e despretensiosa, mas ainda repleta de virtudes. O filme é envolvente, transita com harmonia entre diferentes gêneros e evoca a leveza e a inteligência das produções dos anos 90. Tudo flui de maneira natural e encantadora.

Jeffrey, interpretado por Channing Tatum, é um ex-soldado que escapa da prisão após uma longa sentença por seus assaltos. Sem ter para onde ir, ele se refugia em uma loja de brinquedos, onde conhece Leigh (Kirsten Dunst), uma mãe solo e funcionária do local. Esse encontro se torna uma paixão improvável e um convite a começar de novo. Uma nova identidade. Uma nova história.

Conhecido pela mídia como Roofman (“homem do telhado”), Manchester ficou famoso por roubar restaurantes usando técnicas aprendidas no exército. Paradoxalmente, era descrito como um homem educado, gentil e calmo, sempre atento ao bem-estar de suas vítimas. O encanto de O Bom Bandido nasce justamente dessas contradições. O filme fascina ao mostrar personagens movidos pela empatia e pelas boas intenções, mesmo quando seguem caminhos tortuosos.

É curioso perceber como a divulgação do longa, vendida como uma simples comédia de assalto, acaba funcionando a seu favor. A falsa expectativa nos permite ser surpreendidos por algo muito mais profundo, sendo uma narrativa que alterna leveza e seriedade com precisão. Apesar do tom divertido, há uma melancolia constante, perceptível nas entrelinhas. Assistimos com um sorriso no rosto, mas também com o coração apertado, cientes de que a felicidade buscada pelo protagonista é frágil. Um castelo de vidro prestes a desabar.

Não lembro de ter gostado tanto de Channing Tatum na tela como aqui. Ele combina vulnerabilidade e honestidade, construindo um anti-herói quebrado, mas sempre disposto a revelar sua melhor versão. Sua química com Kirsten Dunst é palpável, e juntos protagonizam momentos de muita potência. Jeffrey, afinal, depositava muito de si nas pessoas, talvez por saber que nunca poderia lhes oferecer o que mais falta em sua própria vida e o que mais falta em qualquer relação, que é o tempo.

Nas mãos de outro diretor, O Bom Bandido poderia soar convencional, mas Derek Cianfrance compreende a complexidade de sua história e a transforma em algo tocante e arrebatador. Sua direção é precisa, cativante e repleta de humanidade. Saí da sessão com a sensação de ter vivido uma experiência rara, daquelas que fazem rir, chorar e, sobretudo, acreditar na beleza das segundas chances.

NOTA: 9,5

País de origem: EUA
Ano: 2025
Duração: 126 minutos
Diretor: Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance, Kirt Gunn
Elenco: Channing Tatum, Kirsten Dunst, Peter Dinklage, Lakeith Stanfield, Juno Temple, Ben Mendelsohn

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