Despedida amarga

Viúva Negra nunca foi um personagem bem aproveitado no MCU. Desde sua aparição em “Homem de Ferro 2”, nunca souberam como desenvolvê-la, se encerrando em um desfecho bastante questionável em “Vingadores: Ultimato”. A grande força dela se concentrava na presença carismática de Scarlett Johansson e seja pela entrega da atriz ou desse escanteio no qual foi deixada, sempre mereceu um filme solo. Veio tardiamente, mas finalmente veio. A direção é de Cate Shortland, que vem com a difícil missão de trazer um olhar novo a um universo que nunca soube dar voz às mulheres.

Neste sentido, a trama de “Viúva Negra” não poderia ser mais certeira. É Natasha, enquanto foragida após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em uma missão de libertação de outras mulheres do programa da Sala Vermelha. Mulheres que sofreram os mesmos abusos que ela, controladas pela mente de um homem. Para isso, ela vai atrás de sua pseudo-família, dois espiões russos (Rachel Weisz e David Harbour) com quem viveu durante a infância, disfarçada de família tradicional americana ao lado da irmã, Yelena (Florence Pugh), que assim como ela, também acreditava nas encenações e mentiras que lhes contavam.

A introdução de “Viúva Negra” é brilhante. Ao revelar a infância e esse lado da história que desconhecemos da personagem, o filme consegue criar uma dramaticidade poderosa. Essa ligação de Natasha com esses desconhecidos que se tornaram sua família traz conflitos interessantes. A conexão e afeição existente entre os quatro personagens, garante bons momentos, que nem sempre sabe dosar o alívio cômico, mas no geral funciona muito bem pela ótima escalação do elenco. Aliás, Florence Pugh é, de fato, a grande força da obra. É ela quem extrai o melhor de todas as cenas e o melhor da protagonista.

Sinto, porém, que aquela narrativa de espionagem e dramas familiares que nasce ao início teria dado um baita filme, mas infelizmente, “Viúva Negra” vai lentamente sendo modificado para poder se encaixar aos moldes das produções de super heróis. O fato da personagem não ter poderes poderia resultar em uma obra mais crível, quase como um respiro necessário ao MCU. No entanto, para se ter o selo Marvel é preciso explosões colossais, com direito a luta nas alturas e sequências extremamente forçadas. Tudo ia muito bem até o último ato na Sala Vermelha, que é de um mau gosto extremo, reunindo o que há de pior em Missão Impossível com reviravoltas brochantes e um embate mequetrefe com o grande vilão. Essas decisões ao final diminuem a qualidade do filme como um todo.

Ainda assim, “Viúva Negra” tem um ritmo ótimo e a direção de Shortland entrega cenas de ação empolgantes, visualmente caprichadas. Bons efeitos especiais e personagens carismáticos o tornam uma sessão válida, como qualquer outro filme da Marvel. O que o difere é esse fator “humano” e as boas escolhas dramáticas. Infelizmente, peca demais ao fim, quando eles entregam o que acham que os fãs querem e não necessariamente o que o filme precisava. É uma despedida amarga, não por ser ruim porque está longe de ser, mas porque não consegue tirar a personagem daquele escanteio, daquela sombra misteriosa que a tornaria desvendável. Leva seu nome, mas jamais é sobre ela, sobre seu legado e sobre o impacto que ela poderia ter deixado.

NOTA: 7,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: Black Widow
Disponível: Disney+
Duração: 133 minutos
Diretor: Cate Shortland
Roteiro: Eric Pearson
Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, Rachel Weisz, Ray Winstone, Olga Kurylenko

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