Os bastidores do silêncio

Nos últimos anos uma bomba caiu sobre Hollywood. Movimentos como o “Me Too” – que ganhou força em 2017 – cortaram o silêncio de milhares de mulheres que foram abusadas sexualmente, assediadas e chantageadas pelos chefões do mundo do entretenimento. “A Assistente” surge como o primeiro grande filme a tratar do assunto e por isso possui uma grande relevância no cenário atual. É um registro necessário, que foge do sensacionalismo ou oportunismo e narra de maneira sutil, honesta e bastante realista um momento tão emblemático como este.

Primeiro filme de ficção escrito e dirigido por Kitty Green, que construiu sua curta carreira em documentários. Acredito que esta sua habilidade em contar histórias reais tornou este seu novo trabalho possível, capaz de gerar boas discussões e causar impacto. É curioso como, para fazer sua denúncia, ela optou por revelar o olhar de quem estava nos bastidores e não necessariamente na linha de frente. Somos inseridos neste universo através de Jane (Julia Garner), uma aspirante produtora de cinema que consegue o emprego dos sonhos para ser assistente de um poderoso magnata do entretenimento. Apesar de poucos meses dentro da agência, ela começa a perceber que algo de muito estranho ocorre ali dentro e passa a criar consciência dos tantos abusos que existem naquele ambiente tóxico de trabalho. É desta forma que a diretora consegue criar uma atmosfera tensa e um nível de realismo absurdo aqui. As conversas, as reuniões, os sons, somos completamente inseridos neste mundo que, aos poucos, se torna altamente claustrofóbico, angustiante.

É bastante interessante como a trama vai sendo revelada. Aos poucos, vamos vivenciando ao lado daquela assistente situações que parecem comum naquele lugar, apesar de assustadoras. Desta forma, o filme vai se tornando um poderoso thriller guiado por Jane, uma das poucas mulheres que trabalham em um ambiente dominado por homens brancos. Ela é a personificação da inocência quebrada, da jovem que descobre a sujeira que habita o lugar dos seus sonhos. Há um momento em que Jane é obrigada a pedir desculpas, sendo ensinada e forçada por homens superiores a dizer como ela se sente. Ela, por fim, também representa esse silêncio de tantas mulheres, que são censuradas e repreendidas. O roteiro, muito bem pontuado, acompanha um dia inteiro ao lado de sua rotina, e assistirmos seu momento de catarse, de revelação. A presença de Julia Garner só aumenta a grandeza e poder desses discursos. Ela expõe doçura e inocência, ao mesmo tempo em que há desespero e desconforto em seu olhar, em seus trejeitos. Belíssima composição.

Um dos instante mais desesperadores aqui é quando Jane cria a coragem para denunciar o que vê. A conversa que ela tem com um homem, aparentemente do RH, sintetiza o horror que é estar ali, vendo tudo de perto. Ela não é levada a sério, é ameaçada. Aquele que parecia ser seu único lugar seguro se desmorona. É sufocante ter que ouvir o que ela ouve. Jane está nos bastidores, tudo o que ela sabe é porque ouviu, percebeu, limpou os restos do crime. Ainda que ela não esteja envolvida, estar ali, saber e se manter calada, a torna uma cúmplice. Com isso, “A Assistente” nos faz refletir sobre esse silêncio, sobre todas as pessoas que de alguma forma estiveram envolvidas com tudo isso, seja por aquelas que não viam maldade, seja por aquelas que foram chantageadas para não contar. Curioso como o filme nunca revela o nome ou o rosto de seu principal vilão. Ele é a sombra que caminha pelo escritório. A voz tenebrosa do telefone. As palavras ríspidas de um e-mail. Ele é o homem que existe mas todos fingem não ver. E não há nada mais assustador que isso, porque ele parece inalcançável, inatingível.

Mais do que revelar os bastidores podres do entretenimento, “A Assistente” também surge como o registro de uma mudança. O primeiro passo dado para a revolução. É aquele degrau pequeno, passo lento, mas que está ali e foi necessário. Necessário para tudo o que se deu depois. Jane é, também, a representação esperançosa deste pequeno ato de rebeldia. O longa termina quase como se aquele fosse o fim de um dia comum e que o próximo seria o mesmo. Há um certo alívio saber que não. Filmes como este provam que não vivemos naquele mesmo tempo. Não que tudo tenha acabado mas é ótimo saber que historias como esta hoje podem ser contadas e podemos falar abertamente o que antes era só um boato cruel, um segredo amplamente acobertado por homens de poder.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: The Assistante
    Duração: 87 minutos
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Kitty Green
    Roteiro: Kitty Green
    Elenco: Julia Garner, Kristine Froseth, Matthew MacFadyen, Noah Robbins

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