As 15 melhores atrizes de 2021

Seguindo com a retrospectiva aqui na página, retorno para revelar uma das listas que mais gosto de fazer e, por isso, venho com muita empolgação apresentar a minha seleção de melhores atrizes de 2021. Durante esses doze meses, tivemos alguns retornos marcantes de veteranas e revelações de jovens atrizes promissoras. Com essas personagens incríveis, elas encontraram a chance perfeita de brilharem em cena.

Seleciono aqui as 15 performances que mais me chamaram a atenção. Espero que gostem da lista! Lembrando que foram elegíveis apenas aquelas que estiveram em filmes lançados entre janeiro e dezembro de 2021 aqui no Brasil, no cinema, streaming ou VOD.

Deixe nos comentários qual foi a sua favorita!

15. Rosamund Pike
(Eu Me Importo)

Arriscaria dizer que Marla Grayson foi umas das personagens mais marcantes do ano. Pilantra, ela ganha vida às custas de velhinhos indefesos. Entre o trágico e o cômico, o filme nos faz amar essa mulher detestável, chegando ao ponto de torcermos por ela, mesmo quando julgamos suas ações tão questionáveis. Rosamund sabe trilhar por essas nuances com perfeição, entregando uma anti-heroína divertidíssima, sagaz e provocativa.

14. Emma Stone
(Cruella)

Muito difícil reviver uma personagem tão icônica, ainda mais quando ela já foi vivida por ninguém menos que Glenn Close. Stone encara o desafio e constrói algo único, à sua forma. A atriz tem um brilho a mais, algo que preenche a tela. Seja por seu imenso carisma, seja por sua incrível habilidade de caminhar pela comédia e drama. Stone é gigante e impressiona a cada novo papel. Podia ter dado muito errado, mas ela faz dar certo, muito mais certo do que qualquer um poderia imaginar.

13. Jodie Foster
(O Mauritano)

Jodie Foster é aquela atriz de poucas aparições. Por algumas vezes, fica anos sem retornar para um papel. Mas quando esse retorno acontece, temos então um grande evento. Ela segura tão bem as cenas e tem uma presença tão forte. Acreditamos no poder de sua personagem, na coragem de ir contra todo um sistema, de apostar na bondade do outro. Como advogada de defesa Nancy Hollander, a atriz domina e nos comove.

12. Elisabeth Moss
(Shirley)

Na pele da escritora Shirley Jackson, Elisabeth Moss entrega mais uma potente atuação em sua carreira. Ela tem sido um dos nomes mais fortes do cinema e da TV atual e fico feliz por esse momento de grande reconhecimento em que vive. Tem algo de muito poderoso em sua presença, dizendo muito com seus olhares, com sua postura. Sua personagem é bastante excêntrica e a atriz revela uma imensidão de sentimentos com suas tantas expressões.

11. Tessa Thompson
(Identidade)

Existem papéis que clamam por um Oscar. Que aos gritos e expressões, uma atriz suplica por uma premiação. Existem, por outro lado, aquelas performances contidas, que parecem pequenas, mas são tão grandes. Tão necessárias. Tessa Thompson surpreende no papel de Irene, essa mulher que enfrenta tantas dúvidas e tantos dilemas como mulher negra nos Estados Unidos da década de 20. É uma personagem belíssima, complexa, elegante, e a atriz se entrega com muita honestidade.

10. Rebecca Hall
(A Casa Sombria)

O terror é um gênero que sempre acaba revelando boas interpretações, no entanto, infelizmente, muitos ainda o subestimam, visto, por exemplo, que quase nunca alcançam premiações importantes. É assim que pouco se falou sobre a fantástica atuação de Rebecca Hall em “A Casa Sombria”. É belo o que a atriz faz de sua personagem, Beth, que vivendo do luto após perder o marido, se lança a um universo assombroso, se afundando no medo e abraçando sua dor. Emociona.

9. Carey Mulligan
(Bela Vingança)

Cassandra é uma incógnita que nos seduz a acompanhar suas armadilhas no thriller “Bela Vingança”. Ela tem um passado misterioso, mas dedica seu tempo atacando homens assediadores que exploram a vulnerabilidade da mulher. Sem dúvida alguma, umas das personagens mais insanas e complexas que passou por nós em 2021. Que bom que esse papel caiu nas mãos de Carey, que há tempos andava sumida. Este é seu retorno triunfal e a prova de que ela merece estar no topo.

8. Carrie Coon
(O Refúgio)

Carrie Coon tem bastante prestígio na TV e, aos poucos, tem conquistado o cinema. Como Allison, uma mulher que tem seus desejos silenciados pelas altas ambições do marido, ela entrega uma performance bastante segura, nos afundando junto com sua personagem, sentindo suas dores e seu medo diante de um ambiente que não se adapta. Sua transformação em cena é brilhante e nos fascina.

7. Jodie Comer
(O Último Duelo)

Um dos melhores roteiros de 2021, que merece destaque por ter dado voz a uma personagem tão interessante. Marguerite, que no século XIV, foi vitima de um estupro, traça uma batalha para acusar seu agressor em um ato de extrema coragem. Jodie Comer surpreende por ser novata no cinema, entregando uma atuação de alguém com muita experiência. Ela domina aquele espaço com sua presença, sua força e garra, mas sem esconder suas fragilidades, seu medo de não ser ouvida, de ser julgada.

6. Zhou Dongyu
(Dias Melhores)

Zhou Dongyu tem em mãos um papel extremamente forte. Desde o início, ela precisa estar entregue a emoções muito intensas, isso porque sua personagem sofre bullying na escola. É tudo bastante pesado em cena e a atriz se entrega com força, sempre muito honesta, nos comovendo em sua dolorosa jornada e nos levando a acompanhá-la a um turbilhão de sentimentos.

5. Andra Day
(Estados Unidos vs. Billie Holiday)

Fiquei bastante surpreso por ver a cantora Andra Day tão entregue no cinema. Não é uma personagem fácil e ela encara o desafio com tanta garra e verdade. Aqui ela dá vida à Billie Holiday e a tumultuada carreira de uma das maiores cantoras e compositoras da história da música. Como é lindo ver o quanto ela se doa e se transforma para esse papel. Andra brilha porque se joga de corpo e alma.

4. Frances McDormand
(Nomadland)

A beleza de ver Frances McDormand aqui é poder presenciar sua naturalidade em cena. Ela se despe por completo em um papel tão singelo, tão honesto, tão real. Como Fern, uma mulher que traça uma jornada sem destino em sua Van e se mantendo em empregos temporários como uma nômade moderna, ela nos faz esquecer que estamos diante de uma interpretação. Ela vive aquilo e nós acreditamos. Sua personagem é adorável e nos faz querer abraçá-la a cada instante.

3. Vanessa Kirby
(Pieces of a Woman)

Um dos papéis mais fortes do ano e uma das atuações mais surpreendentes também. Ainda com um currículo curto no cinema, a atriz britânica Vanessa Kirby entregou, talvez, o que muitas atrizes não conseguiram em uma longa carreira. É uma entrega fascinante, que choca, que nos faz sentir o peso e a dor que é existir para sua personagem. Martha é uma mulher que precisa se manter forte depois de perder o próprio filho no parto. Uma jornada sensível, difícil e ela demonstra total domínio.

2. Jasna Đuričić
(Quo Vadis, Aida?)

Fortíssima protagonista de “Quo Vadis, Aida?”, a atriz sérvia Jasna Đuričić nos faz perder o fôlego, tamanha honestidade que imprime nas cenas. Acreditamos naquela realidade apresentada e em sua personagem que, no meio de uma invasão militar em seu país, precisa correr contra o tempo para salvar sua família. É angustiante e desesperador tudo o que vemos ali e a atriz carrega muito sentimento dentro de si. Há garra e coragem para proteger quem ama, mas há também medo e pavor diante da violência que presencia.

1. Olivia Colman
(A Filha Perdida)

Olivia Colman é uma atriz a ser estudada. Carreira longa no cinema e na TV, ela parece que foi redescoberta nos últimos anos. De uns tempos para cá, ótimos papéis chegaram em suas mãos, caindo na graça do público e dos críticos. Tem algo fascinante que é difícil de descrever em sua persona. Ela tem um brilho, uma força rara. Poucas atrizes sabem tão bem trilhar da comédia para o drama como ela. Olivia dá vida a um texto fantástico e traz vida para “A Filha Perdida”. Sua personagem Leda é extremamente complexa e somente um talento como o dela poderia tornar esse filme possível. Olivia Colman é um acontecimento, a joia mais preciosa do cinema atual.

As 15 melhores atrizes coadjuvantes de 2021

2021 acabou e estou aqui para fazer uma retrospectiva do que teve de melhor no mundo do cinema. Nos próximos dias, revelarei algumas listas com os meus favoritos em algumas categorias. Começo, então, com as melhores atuações femininas em papéis coadjuvantes.

Durante esses meses, algumas atrizes se destacaram e entregaram performances dignas de atenção. Listo as 15 que acredito que foram as melhores. Lembrando que foram elegíveis apenas os filmes lançados entre janeiro e dezembro de 2021 aqui no Brasil, no cinema ou VOD. Espero que gostem das selecionadas e deixem nos comentários a que você mais gostou.

15. Laura Benanti
(Quanto Vale?)

No drama da Netflix “Quanto Vale?”, vemos uma série de depoimentos bastante honestos sobre pessoas que perderam entes queridos na tragédia do 11 de setembro. Laura Benanti vem para dar voz à uma mulher que perdeu o marido e, no meio de seu luto, acaba descobrindo uma traição. É uma personagem pequena ali, mas vem com tanta verdade e sensibilidade que por vezes esquecemos ser uma atuação. Acerta o tom e jamais cai na dramaticidade forçada.

14. Tracee Ellis Ross
(A Batida Perfeita)

Dona de um carisma imenso, Tracee é a alma dessa despretensiosa comédia musical. Aqui ela faz uma cantora de renome, Grace Davis, que precisa reerguer a carreira e produzir algo novo depois de anos estagnada. A atriz traz humor e uma boa dose de honestidade também. Tem força em cena e ainda canta muito bem.

13. Gina Rodriguez
(Falsos Milionários)

Outra rainha do carisma é Gina Rodriguez. É incrível esse poder que a atriz tem de roubar atenção. Na comédia esquisitíssima (e brilhante) “Falsos Milionários”, ela dá vida para uma trambiqueira extrovertida. Melanie, sua personagem, traz luz à obra e nos seduz a acompanhar sua divertida jornada. Gina está encantadora.

12. Ellen Burstyn
(Pieces of a Woman)

A palavra de uma mãe, muitas vezes, tem um peso enorme em nossas decisões. A presença de Ellen Burstyn como mãe da protagonista que acaba de perder o próprio filho é forte, porque suas palavras tem poder, chegando ao ponto de até mesmo ser cruel. A veterana encara com força essa personagem e nos causa incômodo, justamente porque é tão humana, tão real.

11. Danielle Deadwyler
(Vingança & Castigo)

Uma das mais belas surpresas desse ano, a jovem atriz Danielle Deadwyler encara um papel divertido e rouba a cena ao lado de um elenco de peso em “Vingança e Castigo”. Como Cuffee, uma mulher que se disfarça de homem e passa a fazer parte do bando para derrotar um impiedoso criminoso, a atriz constrói uma personagem misteriosa, cômica até e brilhantemente defendida por sua bela atuação.

10. Dianne Wiest
(Let Them All Talk)

O filme de Steven Soderbergh é bastante curioso por deixar seu elenco à vontade para improvisar, enquanto ele filma com seu iPhone. Todos os atores estão ótimos, mas é a veterana Dianne Wiest quem verdadeiramente brilha. Sua doçura e espontaneidade em cena encantam. Há um discurso inspirador quando ela diz sobre como todos ali são privilegiados por serem os últimos a verem as estrelas em seu estado natural. É o melhor momento do filme e o palco é todo dela.

9. Juno Temple
(Palmer)

Juno sempre foi uma atriz bastante subestimada. Não há nada que ela faça pela metade. Com um papel pequeno no drama “Palmer”, ela rouba a cena. Ela faz uma mãe problemática, que anos afastada do próprio filho, retorna para tê-lo de volta. É uma personagem forte e ela engrandece o que poderia ser apenas uma participação.

8. Aunjanue Ellis
(King Richard: Criando Campeãs)

Como mãe de Serena e Venus Williams em “King Richard”, Aunjanue Ellis se mostra uma grande revelação. Tenho a sensação de que ela merecia mais espaço em cena, inclusive. Mas isso é só a prova do peso que ela tem ali. Seus diálogos são ótimos e muitas vezes acaba dizendo o que nós, enquanto público, gostaríamos de dizer. A atriz passa verdade e se destaca, mesmo quando o filme a diminui mais do que necessitava.

7. Jessie Buckley
(A Filha Perdida)

A versão mais jovem de Olivia Colman como Leda em “A Filha Perdida”. É através de suas expressões, sua postura, que compreendemos melhor a personagem no presente. Uma escolha certeira de elenco, que nos permite mergulhar na complexidade da protagonista. Jessie é uma atriz em ascensão e merece sucesso! Só tem a crescer.

6. Odessa Young
(Shirley)

Sempre bom quando encontramos jovens atrizes que se arriscam tanto, que aceitam o desafio de dar vida a personagens tão complexos. Odessa divide a cena com Elisabeth Moss e, mesmo com pouca experiência, chega a altura. Aqui ela interpreta uma jovem estudante que interrompe seus sonhos pelo marido e pelo filho que está para nascer, ao mesmo tempo em que passa a cuidar da escritora Shirley Jackson em um período de bloqueio criativo. Uma presença hipnotizante, que navega entre a sedução e medo, entre desejos e desilusões.

5. Emma Thompson
(Cruella)

Simplesmente saborosíssimo o embate entre Cruella com a Baronesa, vivida por Emma Thompson. Uma antagonista preciosa, divertida e extravagante. Fazia tempo que não via Thompson tão à vontade e tão renovada em cena. Seus trejeitos e sua acidez a tornam uma das personagens mais fascinantes que vi no ano. Foi bom demais assistir.

4. Olivia Colman
(Meu Pai)

Tenho uma relação muito pessoal com essa personagem, por viver algo parecido com ela. Existe doçura e paciência, mas também existe rancor, existe culpa. Cabe tudo isso dentro da Olivia e muito mais. Uma atriz gigante e que em pouquíssimos minutos consegue transmitir o indescritível. Como filha de um senhor com Alzheimer, ela traz muita verdade e emociona.

3. Ruth Negga
(Identidade)

Na pele de Clare, uma mulher negra que se passa por branca nos anos 20, Ruth entrega uma das mais belas atuações do ano. Sua presença é sutil, mas ainda assim hipnotizante e sedutora. Muito subestimada, ela nunca recebe a atenção que merece e aqui só comprova a força dela como atriz. Sempre contida e sempre grandiosa.

2. Youn Yuh-jung
(Minari)

A melhor avó que já tivemos! Vencedora do Oscar no começo de 2021, a atriz sul-coreana é fantástica e constrói uma personagem adorável em cena. Em “Minari”, ela passa a cuidar dos netos quando a família de sua filha se muda para os Estados Unidos. É uma relação linda essa que vai sendo narrada entre esse mulher tão experiente e extrovertida com seu neto David. Os dois juntos são o brilho desse drama morno.

1. Kirsten Dunst
(Ataque dos Cães)

Em “Ataque dos Cães”, a diretora e roteirista Jane Campion desenha na tela personagens enigmáticos e que nos causam certo fascínio. Como Rose, Kirsten Dunst alcança um patamar quase nunca alcançado em sua longa carreira como atriz. Esse embate furioso e silencioso entre ela e Phil, interpretado por Benedict Cumberbatch, só existe pela magnitude dos dois atores em cena. Há sensibilidade em sua entrega, nos causando empatia e também desespero. Um grande papel e uma atriz que, definitivamente, merecia mais reconhecimento.

Crítica | A Filha Perdida

o peso da maternidade

Estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, “A Filha Perdida” é uma adaptação do elogiado livro de Elena Ferrante. Lançado pela Netflix, o texto do filme é potente, foge da obviedade e ecoa em nossa mente, justamente porque ficamos remoendo tudo aquilo que não é dito, não é claramente exposto.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” A obra acerta ao construir personagens complexas e em nenhum momento busca justificar suas ações ou julgar qualquer movimento questionável. Vem com coragem para discutir o peso da maternidade e esses sentimentos tão velados pela sociedade. A protagonista é Leda (Olivia Colman), uma mulher de meia-idade que vive atormentada pelas escolhas que teve enquanto mãe. Ela revisita seu passado quando, ao passar suas férias em um balneário grego, passa a observar atentamente Nina (Dakota Johnson), uma jovem que perde a filha na praia. A hóspede se torna seu escape, seu lembrete doloroso de família e também sua tão aguardada penitência.

O filme se divide em dois tempos e temos a chance de conhecer a personagem no passado e presente. Essa divisão acaba quebrando um pouco o ritmo da trama, mas funciona quando, aos poucos, se aprofunda nas difíceis decisões de Leda. Tudo caminha para um evento trágico e ficamos presos neste thriller psicológico. Maggie constrói uma atmosfera sensual e altamente desconfortável. Há uma sensação de perigo envolvendo todas as relações e nos traz agonia quando a protagonista tem uma série de atitudes um tanto quanto bizarras. Nada é justificável e o brilhante roteiro nem procura por isso. As coisas são porque são. Intriga e apesar da longa duração, nos mantém atentos.

“Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. A citação da escritora Simone Weil é dita em certo momento e fiquei com ela na mente. Há algo de muito poderoso nessa conexão que existe entre as mulheres da obra. A forma como elas se olham, como se procurassem uma compreensão. Em um ato de solidariedade, elas identificam a dor e a solidão sem precisar dizer. “A Filha Perdida” emociona de forma sutil nesse relato sensível e extremamente honesto sobre maternidade, sobre ser mãe e se sentir sufocada pelas obrigações. Quando nem todos esses sentimentos encontram palavras, entra em cena grandes atrizes que revelam tanto em suas expressões. Olivia Colman, Jessie Buckley, Dagmara Dominczyk e Dakota Johnson estão fantásticas!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Lost Daughter
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Ed Harris

Crítica: Meu Pai

A solidão do esquecimento

Demorei para conseguir pôr em palavras o que senti com o filme “Meu Pai” porque tenho uma relação muito pessoal com o tema que ele aborda. Me atingiu mais do que eu esperava e me deixou remoendo os tantos sentimentos que absorvi dali.

Vencedor do Oscar pelo papel, o ator Anthony Hopkins entrega uma atuação poderosíssima e que me causou grande comoção. Anthony, seu personagem, enfrenta o doloroso processo de perda de memória e acompanhamos essa batalha interna dele para tentar reconhecer a própria realidade, assim como a de sua filha, Anne (Olivia Colman), que precisa lidar com sua doença. São dois lados da história muito bem pontuados aqui. O ótimo roteiro não apenas nos permite entender as difíceis decisões de Anne como nos faz criar mais empatia com o Alzheimer e o quão complexo e delicado é a situação da pessoa que o enfrenta.

Escrito pelo dramaturgo francês Florian Zeller, o longa, também, marca sua estreia como diretor. Baseado na peça escrita por ele, é curioso como os ambientes aqui funcionam como um cenário bem elaborado de um teatro, se modificando, se transformando constantemente para ser outra coisa. A arquitetura é quase como um personagem aqui e parte importante da condução da história. O longo corredor, assim como os espaços tão semelhantes entre si, organizados dentro da própria confusão. É como o caminhar do personagem em sua consciência em mutação. Um trabalho rigoroso e impecável de direção de arte.

Acompanho o Alzheimer de perto dentro da minha casa e pela primeira vez senti que um filme entendeu, de fato, o que é. O texto é honesto e nos conforta ao falar, com extrema precisão, dessa dor. Me senti acolhido, compreendido talvez. A personagem de Olivia Colman é grande também, precisando ser forte mesmo quando, nitidamente, toda a situação a fragiliza. Tendo que fazer, diariamente, sacrifícios silenciosos. É triste ver alguém tão perto de você se perdendo na própria existência e você não poder salvar, apenas tentar encontrar saídas pouco eficazes. É brilhante, também, como o roteiro encontra para ilustrar essa confusão do pai. Nos coloca dentro da mente do protagonista e nos faz duvidar junto com ele, sentir essa mágoa por não ter mais controle de tudo o que muda, o que se altera, o que se apaga.

A cena final é de uma sensibilidade e tristeza profunda porque ela é real. “Meu Pai” nos choca porque nos lembra deste processo inevitável que é envelhecer e como isso, às vezes, pode ser cruel e solitário.

NOTA: 9,5

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2021
    Título original: The Father
    Duração: 97 minutos
    Diretor: Florian Zeller
    Roteiro: Florian Zeller, Christopher Hampton
    Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Imogen Poots, Olivia Williams, Rufus Sewell