Crítica | Athena

A tragédia do confronto

Um dos títulos originais mais interessantes da Netflix em 2022 e que, infelizmente, está passando despercebido. “Athena” é um espetáculo visual que teria sido lindo ter visto em uma tela grande. Dirigido pelo francês Romain Gavras – filho do diretor Costa-Gavras – o longa foi escrito em parceria com Ladj Ly, de “Os Miseráveis” (2019), e é nítido as relações entre os filmes. Ambos revelam este embate entre civis e policiais, mas aqui de uma forma ainda mais visceral e impactante.

Preciso já começar dizendo que a introdução de “Athena” é fodástica! A melhor sequência que tivemos nesse ano. É um plano sequência de tirar o fôlego, com movimentos de câmera que nos deixam extasiados. Já logo de cara, um trabalho formidável de Gavras. Ao longo de toda produção, também, ele rege uma orquestra que nos entrega uma experiência quase que sensorial e que fascina. É um conjunto de elementos ali, desde a montagem, a fotografia e a trilha sonora, que vai construindo este cenário épico e glorioso. Infelizmente, porém, quando entrega o ápice nos primeiros minutos, acaba por deixar uma leve sensação de frustração, porque nada do que vem depois está à altura daquele seu início magistral.

Nos arredores de Paris, a morte de um jovem garoto por um guarda acaba sendo o estopim desta relação entre policiais e os moradores do conjunto habitacional Athena, provocando um embate violento entre os grupos. O longa, então, foca nos três irmãos da vítima e como eles seguem nessa batalha. Cada um defendendo seu interesse, onde nem sempre estão do mesmo lado. Entre os conflitos sociais e fraternos, o texto vai desenhando ali sua própria tragédia grega, com mortes, reviravoltas e muito excesso. É bem interessante, inclusive, a virada no meio do filme, onde há uma troca de protagonistas, nos permitindo seguir na história com outro olhar.

Vindo de uma carreira de clipes musicais, Romain Gavras se mostra muito mais rigoroso nesse espetáculo visual e nessa sua afinidade com a estética do que no roteiro. É uma experiência fantástica sim, mas no fim, sinto que é um filme que não diz muito ou já disse o que já foi dito antes. Todas as discussões políticas e sociais são engolidas por seu fervor, por sua necessidade de impacto, o deixando bem menos profundo do que pretende ser. Ele caminha por aqueles espaços colado em seus protagonistas, mas falta aquela habilidade de imersão, que no meio de gritos, violência e explosões, ainda nos mantém distantes. Ele dita o olhar, mas nem sempre essa intensidade que vemos na tela, pulsa dentro da gente. Ainda assim, uma obra urgente, empolgante e incrivelmente bem produzida. Uma experiência sem igual ali no catálogo da Netflix e que definitivamente merece uma chance.

NOTA: 7,5

País de origem: França
Ano: 2022
Duração: 99 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Romain Gavras
Roteiro: Elias Belkeddar, Ladj Ly, Romain Gavras
Elenco: Sami Slimane, Dali Benssalah, Anthony Bajon

Crítica | Arremessando Alto

A jogada certa de Adam Sandler

Aquela prova de que um clichê bem contado pode se tornar um grande filme. “Arremessando Alto” marca mais uma parceria entre Adam Sandler e a Netflix e surpreende pelo simples fato de ser bom. É uma obra que chega já com a receita pronta, que envolve uma história de superação dentro no universo esportivo. Ainda assim, acerta demais no tempero, entregando uma produção tão incrível e que é capaz de empolgar e emocionar mesmo aqueles que não entendem nada de basquete, assim como este que vos fala.

Claro, aqueles que curtem e entendem de NBA, farão melhor desfrute. Na tela, aparecem astros reais das quadras que, provavelmente, farão os fãs vibrarem. No entanto, o filme consegue facilmente atingir o público em geral, recontando uma trama do qual já vimos outras vezes. Aqui, Sandler interpreta Stanley Sugerman, olheiro de um time de basquete que precisa encontrar uma nova estrela para o time. Entre viagens cansativas e muito fast food, essa descoberta pode transformar sua vida: se tornar um técnico e ficar mais próximo de sua família. Ele, então, aposta todas as suas fichas em Bo Cruz. Habilidoso nas quadras e sua última esperança de realizar seu sonho.

A direção de Jeremiah Zagar torna todo esse espetáculo muito próximo de nós. Tudo muito crível, é impossível não vibrar por cada vitória e torcer fervorosamente pelos protagonistas. A montagem é excelente, dando à obra uma agilidade empolgante. Outro ponto muito assertivo aqui (e nem acredito que direi isso de um filme do Adam Sandler) é seu humor. É brilhante como o roteiro consegue inserir piadas nas horas certas, usando a comédia para agregar, jamais diminuindo a força e potência de sua história.

“Arremessando Alto” é uma jogada certeira do ator, que também produz. Tudo é muito cativante na obra e, mesmo que a história abrace a simplicidade e tantos clichês de filmes de esporte, comove. E comove porque é bem contado e porque tem muito sentimento envolvido.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2022
Título original: Hustle
Duração: 116 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Jeremiah Zagar
Roteiro: Taylor Materne, Will Fetters
Elenco: Adam Sandler, Juancho Hernangomez, Queen Latifah, Ben Foster, Jordan Hull

Crítica | A Filha Perdida

o peso da maternidade

Estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, “A Filha Perdida” é uma adaptação do elogiado livro de Elena Ferrante. Lançado pela Netflix, o texto do filme é potente, foge da obviedade e ecoa em nossa mente, justamente porque ficamos remoendo tudo aquilo que não é dito, não é claramente exposto.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” A obra acerta ao construir personagens complexas e em nenhum momento busca justificar suas ações ou julgar qualquer movimento questionável. Vem com coragem para discutir o peso da maternidade e esses sentimentos tão velados pela sociedade. A protagonista é Leda (Olivia Colman), uma mulher de meia-idade que vive atormentada pelas escolhas que teve enquanto mãe. Ela revisita seu passado quando, ao passar suas férias em um balneário grego, passa a observar atentamente Nina (Dakota Johnson), uma jovem que perde a filha na praia. A hóspede se torna seu escape, seu lembrete doloroso de família e também sua tão aguardada penitência.

O filme se divide em dois tempos e temos a chance de conhecer a personagem no passado e presente. Essa divisão acaba quebrando um pouco o ritmo da trama, mas funciona quando, aos poucos, se aprofunda nas difíceis decisões de Leda. Tudo caminha para um evento trágico e ficamos presos neste thriller psicológico. Maggie constrói uma atmosfera sensual e altamente desconfortável. Há uma sensação de perigo envolvendo todas as relações e nos traz agonia quando a protagonista tem uma série de atitudes um tanto quanto bizarras. Nada é justificável e o brilhante roteiro nem procura por isso. As coisas são porque são. Intriga e apesar da longa duração, nos mantém atentos.

“Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. A citação da escritora Simone Weil é dita em certo momento e fiquei com ela na mente. Há algo de muito poderoso nessa conexão que existe entre as mulheres da obra. A forma como elas se olham, como se procurassem uma compreensão. Em um ato de solidariedade, elas identificam a dor e a solidão sem precisar dizer. “A Filha Perdida” emociona de forma sutil nesse relato sensível e extremamente honesto sobre maternidade, sobre ser mãe e se sentir sufocada pelas obrigações. Quando nem todos esses sentimentos encontram palavras, entra em cena grandes atrizes que revelam tanto em suas expressões. Olivia Colman, Jessie Buckley, Dagmara Dominczyk e Dakota Johnson estão fantásticas!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Lost Daughter
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Ed Harris

Crítica | Ataque dos Cães

A dor silenciosa

Interessante esse movimento atual do cinema, onde diretoras mulheres estão revisitando o faroeste. Um gênero que sempre explorou essa virilidade do homem e com “Ataque dos Cães”, a renomada Jane Campion, parece contestar esse universo tão bem estruturado pela sétima arte e dar voz a sentimentos não explorados. Uma obra contemplativa, onde esses ataques anunciados pelo título surgem de forma silenciosa e sádica e nunca na fúria que se espera de um animal selvagem.

Dividida em capítulos, a trama inicia-se quando, na década de 20, dois irmãos tentam administrar a fazenda que herdaram dos pais. Enquanto Phil (Benedict Cumberbatch) é o típico Cowboy grosseiro, George (Jesse Plemons) é tímido e educado. Ambos possuem visões distintas sobre negócios e sobre a vida. Essa brutalidade de Phil vai ganhando camadas ainda mais assustadoras quando seu irmão traz para dentro de casa a nova esposa, Rose (Kirsten Dunst), acompanhada do filho adolescente Peter (Kodi Smit-McPhee). Phil está decidido a confrontar esta união e fará de tudo para desestabilizar a mente de sua cunhada.

Nunca é claro o porquê das ações e o longa vai se transformando em um suspense enigmático e estranhamente convidativo. Uma guerra silenciosa em um faroeste introspectivo, onde as emoções contidas desses personagens são expressadas em pequenas ações, em detalhes e olhares. É assim que a obra se torna quase que uma experiência sensorial, porque nada vem de forma expositiva, mas ainda assim nos golpeia com força. Quando “Ataque dos Cães” terminou, me encontrei paralisado, tentando encaixar aquelas peças e tentando entender o porquê de tudo aquilo ter me afetado mais do que esperava. Acredito que seja porque, ao fim, entendemos o que estava aprisionado. Porque Phil é aquele lembrete doloroso que muita gente viveu sem ter a liberdade como opção.

Baseado no livro de Thomas Savage, o autor viveu no campo ao lado da esposa e manteve casos extraconjugais com homens. Talvez escrever sobre essa sua masculinidade aprisionada era seu escape, era a representação da sua dor, de tudo aquilo que não podia ser exposto. Phil, brilhantemente interpretado por Benedict Cumberbatch, é um grande personagem. Um dos mais complexos e fascinantes do cinema recente, eu arriscaria dizer. O filme acaba e ficamos revisitando seus passos, encontrando razões para sua violência, para sua fragilidade. É um ser que nos provoca, que nos causa ódio assim como também nos causa uma certa comoção. Kirsten Dunst também está impecável aqui, assim como Kodi Smit-McPhee, que surge como um surpreendente coadjuvante.

“Ataque dos Cães” é o melhor filme de Jane Campion desde “O Piano”, sua grande obra-prima. É o tipo de filme que vai crescendo em nossa mente mesmo depois de acabar. Que se mantém em nós. Um trabalho fascinante e um respiro necessário ao amontoado de produção que chega à Netflix.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Austrália
Ano: 2021
Título original: The Power of The Dog
Duração: 127 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Jane Campion
Roteiro: Jane Campion
Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee, Jesse Plemons

Crítica | 7 Prisioneiros

A liberdade do homem preso

Segundo longa-metragem de Alexandre Moratto, depois de sua ótima estreia com “Sócrates” em 2018. Agora com “7 Prisioneiros”, ele volta a abordar questões sociais em filme reflexivo e com poder de continuar em nós, mesmo depois de acabar. Uma produção simples e que, apesar de não trazer uma trama tão original em uma narrativa já discutida em outras obras recentes, choca ao trazer como cenário o nosso país, em uma realidade assustadoramente possível.

O que você é capaz de fazer para ter uma vida melhor? Esse é o primeiro questionamento que o filme nos traz ao revelar a trajetória de Mateus (Christian Malheiros) e mais três jovens que saem da roça para uma grande oportunidade de trabalho em um ferro velho de São Paulo. Sob o comando de Luca (Rodrigo Santoro), um chefe rigoroso e controlador, eles logo percebem que foram vítimas de uma rede de trabalho escravo, suando para pagar dívidas infinitas e sem chance de escapatória. Entendendo a situação, Mateus passa a ser o braço direito de seu captor para salvar a pele de seus aliados. No entanto, esta arriscada escolha o faz deparar com um grande conflito moral.

“Se você quer subir, tem lugar pra tu”. A obra faz uma interessante análise sobre o que o homem é capaz de fazer para escalar ao topo e até que ponto ele carrega consigo seus valores. Mateus queria a liberdade, mas o preço é sempre alto demais. Fascinante esse dilema do protagonista que, ao mesmo tempo em que nos causa ódio, também compreendemos suas duras escolhas. Há algo cíclico nesse sistema corruptível que o filme narra e quanto mais o roteiro mergulha nessa situação, mais conseguimos enxergar Mateus em Luca, e esse homem que é apenas uma peça de um jogo sujo mas que um dia foi o menino que só queria lutar por algo melhor, e Luca em Mateus, e essa pessoa que precisou abrir mão de seus ideais pela mísera possibilidade de vencer. Os dois são prisioneiros de um sistema que não oferece saída. E os dois cederam a vida para construir um país que ninguém vê.

Quando a câmera passeia pelos fios elétricos de São Paulo, um peso bate no peito. É o trabalho de gente sem preço que está ali, de gente sem nome, sem rosto. É o fio que dá vida à cidade e ninguém percebe. O filme fala de sete prisioneiros do trabalho escravo, mas ficamos reflexivos sobre quantos mais deles são. É tão possível a realidade que mostra, que nos choca e traz angústia. A obra não tem um fim, ela continua em nós e sabemos que ela continua pelas ruas silenciosas da cidade também.

Alexandre Moratto é um ótimo diretor e apesar da simplicidade da produção, entrega mais um trabalho notável. Rodrigo Santoro é o grande destaque aqui, revelando um personagem repleto de camadas. Confesso que ainda tenho ressalvas quanto a atuação de Malheiros, que tem potencial, mas ainda falta. A produção de Ramin Bahrani traz um peso também. Tem muito do cinema social que ele investe e dos temas que ele já debateu outras vezes em sua excelente filmografia.

“7 Prisioneiros” revela esse Brasil que evitamos ver e surpreende pela forma como conclui. É uma visão pessimista, mas absurdamente real e humana. Termino dizendo o quão bom é ver a Netflix apostando nesse cinema nacional de qualidade. Uma porta necessária que se abre e espero que venham outros no mesmo nível.

NOTA: 8

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Duração: 93 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Alexandre Moratto
Roteiro: Alexandre Moratto, Thayná Mantesso

Elenco: Christian Malheiros, Rodrigo Santoro

Crítica | The Trip

A armadilha do fator surpresa

“The Trip” é uma comédia norueguesa que repete a parceria entre o diretor Tommy Wirkola com a atriz Noomi Rapace depois do subestimado “Onde Está Segunda?”. É uma produção sanguinolenta, que causa impacto por sua violência gráfica e por trilhar caminhos inesperados nesta sua assustadora e cômica jornada. Apesar de ter, a todo o tempo, uma surpresa na manga, esse recurso nem sempre se mostra tão positivo assim.

Um casal, que já não vive a melhor fase do relacionamento, decide viajar para uma casa nas montanhas, em uma área afastada e que pudesse trazer paz. Essa é apenas a introdução de uma série de infortúnios que começam a acontecer com os dois nessa viagem. Ambos possuem segundas intenções e nada vai seguir como o planejado. A esperteza da obra é nos lançar a um clímax logo em seu início e não deixar a empolgação cair em seu decorrer. É uma narrativa ágil, ácida, que flui por diversos gêneros em uma mistura inesperada de Tarantino com Irmãos Coen.

Tudo é muito insano em “The Trip” e, infelizmente, a obra acaba se sustentando demais na violência gratuita, sem um bom texto para amarrar suas ideias. Há uma necessidade extrema de causar impacto e isso o deixa, por vezes, apenas vazio. O fator surpresa, também, que deveria ser uma arma do roteiro acaba sendo sua maior armadilha. Quer ser surpreendente a todo custo e para isso aposta no Deus Ex Machina nos momentos mais convenientes possíveis. Para tudo se tem uma solução e força muito a barra para salvar seus personagens. Ao fim, deixa de ser inesperado justamente porque sabemos que em algum momento terá uma intervenção salvadora. Dito e feito.

Em minha saga de evitar ver trailer antes do filme, tenho a possibilidade de mergulhar na história sem expectativas. Aconselho ir sem saber nada sobre, porque é o tipo de história que qualquer informação prévia que tenha, pode estragar a experiência. A obra ainda reserva uma ótima sacada para o final e, apesar dessas falhas que cito, vale muito a pena arriscar. E claro, sempre bom rever a fantástica Noomi Rapace em cena.

NOTA: 7,5

País de origem: Noruega
Ano: 2021

Título original: I Onde Dager
Duração: 113 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Tommy Wirkola
Roteiro: John Niven, Nick Ball
, Tommy Wirkola
Elenco: Aksel Hennie, Noomi Rapace

Crítica: A Última Carta de Amor

As relações de um outro tempo

Enquanto assistia “A Última Carta de Amor”, título recente da Netflix, fiquei me questionando em como filmes como esse se tornaram raridade. Sim, talvez ele tivesse feito um sucesso enorme lá nos anos 2000, mas que bom que ele veio agora, quando o cinema pouco fala sobre paixão. Baseado no livro de Jojo Moyes, temos aqui algumas ideias recicladas de obras como “Cartas para Julieta”. Ainda que nada seja muito novo, é aquele clichê bem contado, que funciona pelo capricho da produção e o charme irresistível do elenco.

A graça da história é que ela acontece em dois tempos diferentes. No presente, a jornalista Ellie (Felicity Jones), ao buscar arquivos na editora em que trabalha, descobre antigas cartas correspondidas entre dois jovens apaixonados e decide pesquisar o que aconteceu com essa história de amor não concretizada. Essas cartas são da década de 60, quando Jennifer (Shailene Woodley), que infeliz no atual casamento, passa a flertar com o escritor Anthony (Callum Turner).

Ainda que a narrativa flua bem entre as épocas diferentes, é inegável a atenção dada à trama do passado, que se torna muito mais instigante, principalmente à química existente entre Shailene e Callum, que estão ótimos em cena. No presente, não apenas a relação entre a jornalista e o arquivista não convence como falha ao transformarem os dois em alívio cômico. No mais, é válido essa reflexão sobre o papel da comunicação nas histórias de amor. Hoje, cartas viraram relíquias de um registro fascinante do tempo. Neste mesmo presente, dependemos de mensagens vazias, emojis e tiques azuis para manter contato com alguém que desejamos mas pouco sabemos como dizer, como se expressar.

A direção é de Augustine Frizzell, responsável pelo piloto da série “Euphoria”. Envolvente e sedutor, ela entrega um produto charmosíssimo, com belos figurinos e locações. É raro porque não tem vergonha do clichê, do romance e abraça tudo isso com muito cuidado e carinho por sua bela história de amor. Me deixou com um sorriso no rosto e um sentimento muito bom no peito.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Last Letter From Your Lover
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Augustine Frizzell
Roteiro: Esta Spalding, Nick Payne
Elenco: Felicity Jones, Shailene Woodley, Callum Turner, Nabhaan Rizwan, Joe Alwyn

Crítica: Atypical (quarta temporada)

Do atípico ao genérico

A triste história de um programa que tinha tanto a dizer mas preferiu ser o mais genérico possível.

Se na Netflix temos os casos das séries canceladas que não possuem nem a chance de se despedir decentemente, também temos aquelas que não souberam aproveitar a oportunidade. Recentemente tivemos “Special” e agora “Atypical”. Os roteiristas, em nenhum momento, lidam com o fato de que esta é a última chance de consertar aqueles tantos erros cometidos nas temporadas passadas. Seja por esse viés machista com que passou a desenhar este drama familiar, onde a mãe está sempre nesse lugar de inferioridade, sempre precisando se redimir de algo que nem o público entende. Seja por não mais explorar o espectro que seu protagonista se encontra. A verdade é que “Atypical” está sempre na tangente, sempre evitando falar sobre temas do mundo real ou de assuntos que tirem seus personagens desses limites que foram estabelecidos. O que antes era uma série doce que tratava com humor e sensibilidade um assunto tão delicado, se prolonga aqui com tramas tolas que servem apenas para termos ainda mais raiva dos personagens e que até, especificamente, o último episódio, não os leva para canto nenhum, rodando em um ciclo tedioso, revivendo os mesmos e mesmos conflitos.

Nesta última temporada, focaram bastante na jornada de Casey e foi simplesmente insuportável ter que acompanhar seu relacionamento com Izzie. Todo episódio, algum conflito chato para dificultar a vida das duas, que estão sempre se desencontrando, se desculpando. Enquanto alguns personagens somem aqui, como Evan que fez tanta falta ou Sharice, que até pouco tempo atrás, era a melhor amiga da protagonista, outros se mantém por razões que ninguém entende como Paige e até mesmo a Izzie. Zahid, por sua vez, foi um ótimo alívio cômico aqui, revelando a carismática presença de Nik Dodani.

A quarta e última temporada de “Atypical” é uma despedida amarga por nunca valorizar seu peculiar universo e seus bons personagens, caindo no lugar comum, naquele campo genérico que engloba qualquer outra série da Netflix. Ao menos o último episódio comove, quando todos seus excêntricos indivíduos encaram aquele medo da mudança, de que é preciso evoluir, seguir uma nova direção. Foi difícil se importar com alguma coisa narrada aqui – inclusive a obsessão de Sam por pinguins e Antártica – mas pelo menos ver o fim nos bate aquela sensação boa de ciclo sendo encerrado.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Netflix
Duração: 302 minutos / 10 episódios
Criação: Robia Rashid
Roteiro: Robia Rashid, Michael Oppenhuizen
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Keir Gilchrist, Brigette Lundy-Paine, Michael Rapaport, Nik Dodani, Jenna Boyd

Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts

Crítica: Pose (Segunda Temporada)

Atendendo aos caprichos do roteiro

É lindo a questão da representatividade e este espaço que a série abre para a comunidade trans e um elenco tão inclusivo. E digo, nenhum defeito apaga esse brilho. Porém, como grande apreciador da primeira temporada, preciso aceitar o fato, com dor no coração, a decepção que foi esse segundo capítulo da trama. Produzido por Ryan Murphy, ele já vem construindo a fama de um criador audacioso mas que acaba sendo refém da própria ambição, jamais conseguindo manter o nível daquilo que inicia.

A continuação de “Pose” frustra porque não há desenvolvimento algum e os personagens estão ali apenas para atender aos caprichos do roteiro. Se hoje vamos falar de ativismo, colocamos eles lá, no próximo episódio a gente finge que não existiu. Se hoje é mais interessante aquele indivíduo estar fracassado, a gente faz assim, amanhã ele será bem sucedido porque fará parte da nova pauta. E assim seguimos em uma sequência aleatória de eventos, onde as transformações acontecem para gerar um debate específico, não porque cabia ao personagem.

Quando Damon parece finalmente ganhar os holofotes com sua dança, isso não o leva a lugar algum, além de torná-lo insuportável. Quando Blanca recomeça depois de uma grande perda, conhecendo o amor, isso logo é ignorado no episódio seguinte. E isso acontece Angel, Lulu e Elektra. Seja nos momentos de glória, de conquista ou de perda. Nada disso os leva para uma nova direção. Nada disso os impulsiona. Todos estão presos em uma caixa, se reiniciando a cada novo episódio, impedindo, assim, qualquer tipo de evolução, crescimento ou até mesmo de uma narrativa dramática mais corajosa.

Claro, os temas são sempre relevantes e é importante abrir espaço para certas pautas, mas é bizarro como eles alteram o caminho da trama para poder debater algo que até então era incabível. É um roteiro que caminha por pura conveniência, sem jamais respeitar aquelas belas histórias e aquelas belas mulheres que tem tanto a dizer, tanto a explorar. Um texto com muito sentimento sim, mas expositivo, lamentavelmente conduzido.

Para piorar, recebemos no combo um desconfortável plot de “fantasia pós-morte” e cenas musicais que pouco conversam com a atmosfera da série, causando mais incômodo do que admiração. É a escola Ryan Murphy do “vamos fazendo assim e lá na frente vemos no que dá”.

Espero que a série se recupere na terceira temporada e termine da forma brilhante como começou. Vou guardar dessa parte a força inspiradora de Blanca e os diálogos icônicos de Elektra, assim como a presença hipnotizante de Dominique Jackson em cena. Curiosamente, o melhor episódio é o 9 (o penúltimo), justamente aquele em que o show é menos pretensioso, mais leve e muito mais humano. Foi o ápice “Pose” para mim.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2019
Disponível: Netflix
Episódios: 10
Diretor: Gwyneth Horder Payton, Ryan Murphy
Elenco: Mj Rodriguez, Billy Porter, Indya Moore, Dominique Jackson, Angelica Ross