Crítica: A Última Carta de Amor

As relações de um outro tempo

Enquanto assistia “A Última Carta de Amor”, título recente da Netflix, fiquei me questionando em como filmes como esse se tornaram raridade. Sim, talvez ele tivesse feito um sucesso enorme lá nos anos 2000, mas que bom que ele veio agora, quando o cinema pouco fala sobre paixão. Baseado no livro de Jojo Moyes, temos aqui algumas ideias recicladas de obras como “Cartas para Julieta”. Ainda que nada seja muito novo, é aquele clichê bem contado, que funciona pelo capricho da produção e o charme irresistível do elenco.

A graça da história é que ela acontece em dois tempos diferentes. No presente, a jornalista Ellie (Felicity Jones), ao buscar arquivos na editora em que trabalha, descobre antigas cartas correspondidas entre dois jovens apaixonados e decide pesquisar o que aconteceu com essa história de amor não concretizada. Essas cartas são da década de 60, quando Jennifer (Shailene Woodley), que infeliz no atual casamento, passa a flertar com o escritor Anthony (Callum Turner).

Ainda que a narrativa flua bem entre as épocas diferentes, é inegável a atenção dada à trama do passado, que se torna muito mais instigante, principalmente à química existente entre Shailene e Callum, que estão ótimos em cena. No presente, não apenas a relação entre a jornalista e o arquivista não convence como falha ao transformarem os dois em alívio cômico. No mais, é válido essa reflexão sobre o papel da comunicação nas histórias de amor. Hoje, cartas viraram relíquias de um registro fascinante do tempo. Neste mesmo presente, dependemos de mensagens vazias, emojis e tiques azuis para manter contato com alguém que desejamos mas pouco sabemos como dizer, como se expressar.

A direção é de Augustine Frizzell, responsável pelo piloto da série “Euphoria”. Envolvente e sedutor, ela entrega um produto charmosíssimo, com belos figurinos e locações. É raro porque não tem vergonha do clichê, do romance e abraça tudo isso com muito cuidado e carinho por sua bela história de amor. Me deixou com um sorriso no rosto e um sentimento muito bom no peito.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Last Letter From Your Lover
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Augustine Frizzell
Roteiro: Esta Spalding, Nick Payne
Elenco: Felicity Jones, Shailene Woodley, Callum Turner, Nabhaan Rizwan, Joe Alwyn

Crítica: Atypical (quarta temporada)

Do atípico ao genérico

A triste história de um programa que tinha tanto a dizer mas preferiu ser o mais genérico possível.

Se na Netflix temos os casos das séries canceladas que não possuem nem a chance de se despedir decentemente, também temos aquelas que não souberam aproveitar a oportunidade. Recentemente tivemos “Special” e agora “Atypical”. Os roteiristas, em nenhum momento, lidam com o fato de que esta é a última chance de consertar aqueles tantos erros cometidos nas temporadas passadas. Seja por esse viés machista com que passou a desenhar este drama familiar, onde a mãe está sempre nesse lugar de inferioridade, sempre precisando se redimir de algo que nem o público entende. Seja por não mais explorar o espectro que seu protagonista se encontra. A verdade é que “Atypical” está sempre na tangente, sempre evitando falar sobre temas do mundo real ou de assuntos que tirem seus personagens desses limites que foram estabelecidos. O que antes era uma série doce que tratava com humor e sensibilidade um assunto tão delicado, se prolonga aqui com tramas tolas que servem apenas para termos ainda mais raiva dos personagens e que até, especificamente, o último episódio, não os leva para canto nenhum, rodando em um ciclo tedioso, revivendo os mesmos e mesmos conflitos.

Nesta última temporada, focaram bastante na jornada de Casey e foi simplesmente insuportável ter que acompanhar seu relacionamento com Izzie. Todo episódio, algum conflito chato para dificultar a vida das duas, que estão sempre se desencontrando, se desculpando. Enquanto alguns personagens somem aqui, como Evan que fez tanta falta ou Sharice, que até pouco tempo atrás, era a melhor amiga da protagonista, outros se mantém por razões que ninguém entende como Paige e até mesmo a Izzie. Zahid, por sua vez, foi um ótimo alívio cômico aqui, revelando a carismática presença de Nik Dodani.

A quarta e última temporada de “Atypical” é uma despedida amarga por nunca valorizar seu peculiar universo e seus bons personagens, caindo no lugar comum, naquele campo genérico que engloba qualquer outra série da Netflix. Ao menos o último episódio comove, quando todos seus excêntricos indivíduos encaram aquele medo da mudança, de que é preciso evoluir, seguir uma nova direção. Foi difícil se importar com alguma coisa narrada aqui – inclusive a obsessão de Sam por pinguins e Antártica – mas pelo menos ver o fim nos bate aquela sensação boa de ciclo sendo encerrado.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Netflix
Duração: 302 minutos / 10 episódios
Criação: Robia Rashid
Roteiro: Robia Rashid, Michael Oppenhuizen
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Keir Gilchrist, Brigette Lundy-Paine, Michael Rapaport, Nik Dodani, Jenna Boyd

Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts

Crítica: Pose (Segunda Temporada)

Atendendo aos caprichos do roteiro

É lindo a questão da representatividade e este espaço que a série abre para a comunidade trans e um elenco tão inclusivo. E digo, nenhum defeito apaga esse brilho. Porém, como grande apreciador da primeira temporada, preciso aceitar o fato, com dor no coração, a decepção que foi esse segundo capítulo da trama. Produzido por Ryan Murphy, ele já vem construindo a fama de um criador audacioso mas que acaba sendo refém da própria ambição, jamais conseguindo manter o nível daquilo que inicia.

A continuação de “Pose” frustra porque não há desenvolvimento algum e os personagens estão ali apenas para atender aos caprichos do roteiro. Se hoje vamos falar de ativismo, colocamos eles lá, no próximo episódio a gente finge que não existiu. Se hoje é mais interessante aquele indivíduo estar fracassado, a gente faz assim, amanhã ele será bem sucedido porque fará parte da nova pauta. E assim seguimos em uma sequência aleatória de eventos, onde as transformações acontecem para gerar um debate específico, não porque cabia ao personagem.

Quando Damon parece finalmente ganhar os holofotes com sua dança, isso não o leva a lugar algum, além de torná-lo insuportável. Quando Blanca recomeça depois de uma grande perda, conhecendo o amor, isso logo é ignorado no episódio seguinte. E isso acontece Angel, Lulu e Elektra. Seja nos momentos de glória, de conquista ou de perda. Nada disso os leva para uma nova direção. Nada disso os impulsiona. Todos estão presos em uma caixa, se reiniciando a cada novo episódio, impedindo, assim, qualquer tipo de evolução, crescimento ou até mesmo de uma narrativa dramática mais corajosa.

Claro, os temas são sempre relevantes e é importante abrir espaço para certas pautas, mas é bizarro como eles alteram o caminho da trama para poder debater algo que até então era incabível. É um roteiro que caminha por pura conveniência, sem jamais respeitar aquelas belas histórias e aquelas belas mulheres que tem tanto a dizer, tanto a explorar. Um texto com muito sentimento sim, mas expositivo, lamentavelmente conduzido.

Para piorar, recebemos no combo um desconfortável plot de “fantasia pós-morte” e cenas musicais que pouco conversam com a atmosfera da série, causando mais incômodo do que admiração. É a escola Ryan Murphy do “vamos fazendo assim e lá na frente vemos no que dá”.

Espero que a série se recupere na terceira temporada e termine da forma brilhante como começou. Vou guardar dessa parte a força inspiradora de Blanca e os diálogos icônicos de Elektra, assim como a presença hipnotizante de Dominique Jackson em cena. Curiosamente, o melhor episódio é o 9 (o penúltimo), justamente aquele em que o show é menos pretensioso, mais leve e muito mais humano. Foi o ápice “Pose” para mim.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2019
Disponível: Netflix
Episódios: 10
Diretor: Gwyneth Horder Payton, Ryan Murphy
Elenco: Mj Rodriguez, Billy Porter, Indya Moore, Dominique Jackson, Angelica Ross

Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim

Crítica: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Sem freio

A Sony Pictures Animation parece ter, finalmente, se encontrado. Três anos depois do lançamento do vencedor do Oscar, “Homem-Aranha no Aranhaverso”, o estúdio retorna com uma produção tão inventiva quanto, reforçando uma bela identidade. Um primor de animação 3D, que mistura traços bidimensionais, excesso de cores e uma edição ágil, capaz de manter a atenção dos pequenos e garantir o riso dos mais crescidos. É aquele filmão pipoca para a família toda, bem intencionado e divertido.

Em “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” somos apresentados a uma família disfuncional através dos olhos da jovem talentosa Katie, que tem uma relação difícil com seu pai. Antes que ela inicie os estudos na faculdade, seus pais decidem reunir a família pela última vez em uma viagem. No entanto, acontece a revolução das máquinas, que ao ganharem vida, decidem expulsar os humanos do planeta. É então que os Mitchells se tornam a única salvação da humanidade.

Katie sonha em ser cineasta e a grande sacada da produção é fazer desta aventura como se tivesse a assinatura dela, com seus rabiscos invadindo as cenas e memes como parte da edição. Tudo isso traz uma atmosfera bastante atual e exige dos criadores extrema criatividade. Por outro lado, esse exagero de informação por segundo o torna megalomaníaco, sendo difícil, às vezes, de acompanhar o raciocínio.

É assim que “A Família Mitchell” peca pelo excesso. A longa duração, inclusive, que poderia dar mais espaço para a construção da trama é lotada de cenas ininterruptas de ação. E isso cansa. Vemos uma família fugindo das máquinas e isso nunca gera algum debate além do velho discurso “não seja normal” e da força da família unida. Falta introduzir essa relação dos humanos com a tecnologia e o quanto isso, de fato, afetava as relações. Essa base dada pelo roteiro é muito simplória, colocando as máquinas ali como meros vilões, sem jamais explorar a força desse tema. É um campo rico, mas o filme sempre opta pelo humor barato de memes, gritarias e coisas sendo esmagadas. No fim, tudo não passa de uma justificativa para uma ação desenfreada. A trama nos é apresentada em uma velocidade tão absurda que se torna impossível criar algum envolvimento ou identificação com que nos revela.

É uma diversão fácil que vale ver com a família sim! Um belo trabalho de animação e que apesar de ter me frustrado diante do hype que nasceu, também me deixou curioso pelos próximos passos do estúdio. Vale a pena, mas é muito abaixo dessa “obra-prima instantânea” que estão pintando por aí.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Mitchells vs. the Machines
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Jeff Row, Michael Rianda
Roteiro: Jeff Row, Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Olivia Colman

Crítica: À Espreita do Mal

Tem sido interessante acompanhar esse movimento da Netflix de lançar filmes recentes e que não tiveram o devido reconhecimento na época pela pouca (ou nula) distribuição. Aconteceu recentemente com “Upgrade”, “País da Violência” e agora com “À Espreita do Mal”. É uma produção que pode até ter suas falhas, mas facilmente se destaca no catálogo. Apesar de ter lido algumas duras críticas, confesso que super funcionou comigo. 

A obra já nos instiga em seus primeiros minutos. Seja pelos ruídos da trilha sonora ou pela boa atmosfera de tensão que se constrói, somos fisgados pela curiosidade de compreender essa inquietação que nos causa. É interessante como o filme, no início, traz indícios de um mistério sobrenatural, apostando naquele velho conceito de acontecimentos estranhos dentro de uma casa, ambientada por uma família nitidamente fragilizada. Ganha quando não usa o mistério como muleta para sua revelação final, indicando uma reviravolta intrigante que prefiro não comentar por aqui. Causa desconforto e soa como uma saída ainda melhor do que aquela que prevíamos no início. 

Acredito que o pecado de “À Espreita do Mal” é se justificar demais. Mesmo com uma boa ideia em mãos, o roteiro falha ao querer deixar tudo muito bem explicado ao público, chegando ao ponto de revelar a mesma narrativa por pontos de vistas diferentes, quando na sugestão sua trama era mais interessante. 

Ainda que não alcance por completo o potencial que tinha, é uma obra que vai se tornando cada vez mais intrigante, oferecendo um ótimo final. Subverte o terror e surpreende com os bons caminhos que segue. Funciona, principalmente, porque todos seus personagens escondem algo, uma peça crucial que, até o ato final, não sabemos dizer quais deles são os vilões e os heróis da história.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Título original: I See You
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Adam Randall
    Roteiro: Devon Graye
    Elenco: Jon Tenney, Owen Teague, Helen Hunt, Judah Lewis

Crítica: Amor e Monstros

A assustadora decisão de crescer

Me sinto bem tiozão falando frases como “não fazem mais filmes como antigamente”, mas quando se trata de boas aventuras é justamente isso que penso. Por isso é tão prazeroso encontrar “Amor e Monstros” em pleno 2021. Sua pureza chega a ser nostálgica, estampando um sorriso tonto em meu rosto durante seus minutos. Roteiro esperto, personagens carismáticos, belas mensagens e efeitos especiais incríveis que, diferentemente do que tem sido comum do cinema blockbuster, é usado de forma equilibrada, entregando um visual limpo e bastante inventivo.

Brian Duffield tem se especializado nessas histórias incomuns – e com um toque literalmente explosivo – sobre amadurecimento. Depois dos ótimos “A Babá” e “Espontânea”, ele escreve este belo roteiro sobre Joel (Dylan O’Brien, ótimo) que vive agora em um mundo pós-apocalíptico dominado por monstros e que decide traçar uma perigosa jornada para encontrar sua namorada que não vê há sete anos. Nesse caminho imprevisível, ele é obrigado a lutar pela sobrevivência mesmo não tendo habilidade alguma para isso. O texto é bem inteligente, divertido e ganha vida pela ótima direção de Michael Matthews, que acerta a mão ao entregar a tensão necessária para um filme violento de monstros e a sensibilidade de construir uma doce e madura comédia romântica. São duas linhas completamente opostas mas que funcionam perfeitamente aqui.

“Amor e Monstros” é uma espécie de coming of age da fase adulta. Essa jornada de auto descobertas geralmente é a base para ilustrar o amadurecimento de um adolescente. Aqui, nosso protagonista tem vinte e quatro anos e ele precisa enfrentar a vida de gente grande que ele tanto evita. Confesso que me identifiquei mais do que queria com essa sua aventura. De travar completamente diante de um desafio, de temer os tantos monstros que existem do lado de fora. Esse momento de acabar os estudos e ser cobrado por um bom plano de vida é assustador. Ter que decidir qual caminho seguir mesmo quando não fazemos ideia do que queremos para o futuro. Este lugar tão obscuro e incerto. A obra traz uma mensagem otimista sobre tudo isso, sobre encontrarmos coragem de enfrentar nós mesmos, a confiar em nossos próprios instintos e nos permitir errar para aprender a sobreviver. De arriscar ir para o lado de fora e procurar, enfim, nosso espaço.

(Spoiler) “Não aceite pouco, nem mesmo no fim do mundo”. É muito fácil se identificar, também, com essa história de amor narrada no filme. Apesar da fantasia, ela parece ilustrar muito bem o que muitos de nós enfrentamos em um relacionamento. Não apenas por falar sobre esse amor de migalhas que aceitamos pelo medo da solidão, mas por revelar essa distância que muitas vezes estamos da pessoa que amamos, onde acreditamos que estamos no mesmo passo, que a outra pessoa faria por nós o que faríamos por ela. Joel e Aimee se amam, mas isso não é suficiente, nem mesmo no fim dos tempos. E ninguém está errado nesse jogo, é apenas uma questão de que ambos tiveram experiências e vivências diferentes, logo, passaram a ter sentimentos e expectativas diferentes. Joel esperava de Aimee algo que ela não estava pronta para ceder. E tudo bem.

“Amor e Monstros” é uma bela aventura à moda antiga e muito maior do que parece ser. A saga do herói aqui é incrivelmente bem construída e conduzida. É um filme que respeita seu valente protagonista, a boa ação, os respiros que tão bem acrescentam à trama – não tenho nem palavras para a sequência de Mav1s – e principalmente, que respeita seu público. Um produto raro, nostálgico e um tanto quanto especial.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Love and Monsters
    Disponível: Netflix
    Duração: 109 minutos
    Diretor: Michael Matthews
    Roteiro: Brian Duffield
    Elenco: Dylan O’Brien, Jessica Henwick, Michael Rooker, Ariana Gleenblatt

Crítica: Alma de Cowboy

Cultura ocultada

A temporada do Oscar acaba ofuscando boas produções que chegam nesta época do ano e “Alma de Cowboy” é uma delas. O longa revela a história real dos Cowboys negros da Filadélfia, que ainda nos tempos atuais traçam uma caminhada de luta e resistência. É desta forma que o filme se torna bastante necessário, por dar visibilidade a uma cultura tão ocultada e abrir campo para discutir gentrificação e como os espaços urbanos vão sendo alterados tendo o racismo como condutor.

A trama, baseada no livro de Greg Neri, tem como base uma premissa comum, a do filho que retorna para a casa do pai e precisa se adequar às novas regras. O que deixa essa jornada intrigante é que o jovem em questão é inserido em uma realidade incomum, tendo que dividir seu espaço com um cavalo e os Cowboys da Rua Fletcher. Há um descompasso entre aquela comunidade e o tempo em que o garoto vive. O filme acaba sendo sobre este encontro, dele perceber que enquanto ele busca por um lar, aquelas pessoas buscam o refúgio delas também, diariamente, mantendo os estábulos vivos e se mantendo firmes enquanto a cultura delas estão sendo apagadas.

Apesar da previsibilidade desta relação entre pai e filho e da superficialidade com que encerra alguns conflitos, a obra acerta bastante na ambientação e neste poder de nos conduzir para dentro de seu universo tão único e inesperadamente poético. O filme vê beleza na rotina, no trabalho, nas conversas corriqueiras. É belo a forma em que o diretor Ricky Staub ilustra tudo isso, trazendo, inclusive pessoas reais em cena, criando uma atmosfera ainda mais realista e honesta. Um trabalho sensível e que merece destaque no extenso catálogo da Netflix.

NOTA: 8

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2021
    Título original: Concrete Cowboy
    Disponível: Netflix
    Duração: 101 minutos
    Diretor: Ricky Staub
    Roteiro: Ricky Staub
    Elenco: Caleb McLaughlin, Idris Elba, Lorraine Toussaint

Crítica: A Escavação

O que sobraria de nós

Baseado no livro de John Preston, que reinventa a história real de um arqueólogo que, a chamado de uma viúva para cavar seu extenso terreno, acaba descobrindo valiosos itens que passam a ser de interesse nacional.

“A Escavação”, recente drama lançado pela Netflix, nos faz pensar nesses pequenos passos dados pela história da humanidade. É um evento pequeno, ignorado, mas que existiu e teve sua importância. Sem a necessidade de um clímax ou uma reviravolta, o texto valoriza essa simplicidade do acontecimento e emociona pela forma delicada com que narra tudo isso. É bonito quando, naquele encontro entre dois personagens, eles revisitam o passado, descobrem uma vida, um momento congelado no tempo, mantido pela terra. Basil Brown, o arqueólogo interpretado por Ralph Fiennes, enxerga seu trabalho como um exercício de resgate, uma ação necessária para o futuro. É preciso cavar para escrever a história e é preciso da história para entender o presente. O roteiro, nitidamente, tem muito carinho por esses personagens que descreve, na relação entre cada um e pela profissão que exercem. Não apenas a arqueologia, é interessante como a fotografia entra aqui também, registrando a beleza de cada pequeno ato, cada encontro.

A trama, que acontece em um período que antecede a Segunda Guerra Mundial, se desenha neste interessante paralelo entre vida e morte. A protagonista, que segue com a dor do luto de perder o marido, assiste, nas ruas, jovens caminhando pela incerteza do confronto. Durante este tempo sombrio, eles cavam o túmulo daquelas terras, tentando descobrir o que um dia morreu ali.

“Se mil anos se passassem em um instante, o que sobraria de nós?”.

No meio das tantas descobertas, os personagens se encontram na reflexão de entender qual o legado deixariam ali, quais seriam os vestígios que sobrariam para o futuro. É assim que a obra se mostra um valioso e belo ensaio sobre o fim, sobre o que deixamos em terra quando não mais estivermos aqui.

“A Escavação” traz uma direção correta de Simon Stone, que não foge muito do que esperamos de um bom drama de época, com belas paisagens e uma trilha sonora empolgante, composta pelo estreante Stefan Gregory. Carey Mulligan é sempre excelente, ainda assim é contestável sua escalação, visto que a personagem é bem mais velha do que ela. Ralph Fiennes também brilha aqui, assim como os bons coadjuvantes de Johnny Flynn, Lily James e Ben Chaplin. Uma obra doce, com boas intenções e que, felizmente, segue em uma admirável crescente, sem perder o encanto e empolgação de seus eventos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 112 minutos
    Diretor: Simon Stone
    Roteiro: Moira Buffini
    Elenco: Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Johnny Flynn, Ben Chaplin