Crítica | A Filha Perdida

o peso da maternidade

Estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, “A Filha Perdida” é uma adaptação do elogiado livro de Elena Ferrante. Lançado pela Netflix, o texto do filme é potente, foge da obviedade e ecoa em nossa mente, justamente porque ficamos remoendo tudo aquilo que não é dito, não é claramente exposto.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” A obra acerta ao construir personagens complexas e em nenhum momento busca justificar suas ações ou julgar qualquer movimento questionável. Vem com coragem para discutir o peso da maternidade e esses sentimentos tão velados pela sociedade. A protagonista é Leda (Olivia Colman), uma mulher de meia-idade que vive atormentada pelas escolhas que teve enquanto mãe. Ela revisita seu passado quando, ao passar suas férias em um balneário grego, passa a observar atentamente Nina (Dakota Johnson), uma jovem que perde a filha na praia. A hóspede se torna seu escape, seu lembrete doloroso de família e também sua tão aguardada penitência.

O filme se divide em dois tempos e temos a chance de conhecer a personagem no passado e presente. Essa divisão acaba quebrando um pouco o ritmo da trama, mas funciona quando, aos poucos, se aprofunda nas difíceis decisões de Leda. Tudo caminha para um evento trágico e ficamos presos neste thriller psicológico. Maggie constrói uma atmosfera sensual e altamente desconfortável. Há uma sensação de perigo envolvendo todas as relações e nos traz agonia quando a protagonista tem uma série de atitudes um tanto quanto bizarras. Nada é justificável e o brilhante roteiro nem procura por isso. As coisas são porque são. Intriga e apesar da longa duração, nos mantém atentos.

“Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. A citação da escritora Simone Weil é dita em certo momento e fiquei com ela na mente. Há algo de muito poderoso nessa conexão que existe entre as mulheres da obra. A forma como elas se olham, como se procurassem uma compreensão. Em um ato de solidariedade, elas identificam a dor e a solidão sem precisar dizer. “A Filha Perdida” emociona de forma sutil nesse relato sensível e extremamente honesto sobre maternidade, sobre ser mãe e se sentir sufocada pelas obrigações. Quando nem todos esses sentimentos encontram palavras, entra em cena grandes atrizes que revelam tanto em suas expressões. Olivia Colman, Jessie Buckley, Dagmara Dominczyk e Dakota Johnson estão fantásticas!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Lost Daughter
Duração: 121 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Ed Harris

Crítica | Ataque dos Cães

A dor silenciosa

Interessante esse movimento atual do cinema, onde diretoras mulheres estão revisitando o faroeste. Um gênero que sempre explorou essa virilidade do homem e com “Ataque dos Cães”, a renomada Jane Campion, parece contestar esse universo tão bem estruturado pela sétima arte e dar voz a sentimentos não explorados. Uma obra contemplativa, onde esses ataques anunciados pelo título surgem de forma silenciosa e sádica e nunca na fúria que se espera de um animal selvagem.

Dividida em capítulos, a trama inicia-se quando, na década de 20, dois irmãos tentam administrar a fazenda que herdaram dos pais. Enquanto Phil (Benedict Cumberbatch) é o típico Cowboy grosseiro, George (Jesse Plemons) é tímido e educado. Ambos possuem visões distintas sobre negócios e sobre a vida. Essa brutalidade de Phil vai ganhando camadas ainda mais assustadoras quando seu irmão traz para dentro de casa a nova esposa, Rose (Kirsten Dunst), acompanhada do filho adolescente Peter (Kodi Smit-McPhee). Phil está decidido a confrontar esta união e fará de tudo para desestabilizar a mente de sua cunhada.

Nunca é claro o porquê das ações e o longa vai se transformando em um suspense enigmático e estranhamente convidativo. Uma guerra silenciosa em um faroeste introspectivo, onde as emoções contidas desses personagens são expressadas em pequenas ações, em detalhes e olhares. É assim que a obra se torna quase que uma experiência sensorial, porque nada vem de forma expositiva, mas ainda assim nos golpeia com força. Quando “Ataque dos Cães” terminou, me encontrei paralisado, tentando encaixar aquelas peças e tentando entender o porquê de tudo aquilo ter me afetado mais do que esperava. Acredito que seja porque, ao fim, entendemos o que estava aprisionado. Porque Phil é aquele lembrete doloroso que muita gente viveu sem ter a liberdade como opção.

Baseado no livro de Thomas Savage, o autor viveu no campo ao lado da esposa e manteve casos extraconjugais com homens. Talvez escrever sobre essa sua masculinidade aprisionada era seu escape, era a representação da sua dor, de tudo aquilo que não podia ser exposto. Phil, brilhantemente interpretado por Benedict Cumberbatch, é um grande personagem. Um dos mais complexos e fascinantes do cinema recente, eu arriscaria dizer. O filme acaba e ficamos revisitando seus passos, encontrando razões para sua violência, para sua fragilidade. É um ser que nos provoca, que nos causa ódio assim como também nos causa uma certa comoção. Kirsten Dunst também está impecável aqui, assim como Kodi Smit-McPhee, que surge como um surpreendente coadjuvante.

“Ataque dos Cães” é o melhor filme de Jane Campion desde “O Piano”, sua grande obra-prima. É o tipo de filme que vai crescendo em nossa mente mesmo depois de acabar. Que se mantém em nós. Um trabalho fascinante e um respiro necessário ao amontoado de produção que chega à Netflix.

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Austrália
Ano: 2021
Título original: The Power of The Dog
Duração: 127 minutos
Disponível: Netflix
Diretor: Jane Campion
Roteiro: Jane Campion
Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Kodi Smit-McPhee, Jesse Plemons

Crítica | 7 Prisioneiros

A liberdade do homem preso

Segundo longa-metragem de Alexandre Moratto, depois de sua ótima estreia com “Sócrates” em 2018. Agora com “7 Prisioneiros”, ele volta a abordar questões sociais em filme reflexivo e com poder de continuar em nós, mesmo depois de acabar. Uma produção simples e que, apesar de não trazer uma trama tão original em uma narrativa já discutida em outras obras recentes, choca ao trazer como cenário o nosso país, em uma realidade assustadoramente possível.

O que você é capaz de fazer para ter uma vida melhor? Esse é o primeiro questionamento que o filme nos traz ao revelar a trajetória de Mateus (Christian Malheiros) e mais três jovens que saem da roça para uma grande oportunidade de trabalho em um ferro velho de São Paulo. Sob o comando de Luca (Rodrigo Santoro), um chefe rigoroso e controlador, eles logo percebem que foram vítimas de uma rede de trabalho escravo, suando para pagar dívidas infinitas e sem chance de escapatória. Entendendo a situação, Mateus passa a ser o braço direito de seu captor para salvar a pele de seus aliados. No entanto, esta arriscada escolha o faz deparar com um grande conflito moral.

“Se você quer subir, tem lugar pra tu”. A obra faz uma interessante análise sobre o que o homem é capaz de fazer para escalar ao topo e até que ponto ele carrega consigo seus valores. Mateus queria a liberdade, mas o preço é sempre alto demais. Fascinante esse dilema do protagonista que, ao mesmo tempo em que nos causa ódio, também compreendemos suas duras escolhas. Há algo cíclico nesse sistema corruptível que o filme narra e quanto mais o roteiro mergulha nessa situação, mais conseguimos enxergar Mateus em Luca, e esse homem que é apenas uma peça de um jogo sujo mas que um dia foi o menino que só queria lutar por algo melhor, e Luca em Mateus, e essa pessoa que precisou abrir mão de seus ideais pela mísera possibilidade de vencer. Os dois são prisioneiros de um sistema que não oferece saída. E os dois cederam a vida para construir um país que ninguém vê.

Quando a câmera passeia pelos fios elétricos de São Paulo, um peso bate no peito. É o trabalho de gente sem preço que está ali, de gente sem nome, sem rosto. É o fio que dá vida à cidade e ninguém percebe. O filme fala de sete prisioneiros do trabalho escravo, mas ficamos reflexivos sobre quantos mais deles são. É tão possível a realidade que mostra, que nos choca e traz angústia. A obra não tem um fim, ela continua em nós e sabemos que ela continua pelas ruas silenciosas da cidade também.

Alexandre Moratto é um ótimo diretor e apesar da simplicidade da produção, entrega mais um trabalho notável. Rodrigo Santoro é o grande destaque aqui, revelando um personagem repleto de camadas. Confesso que ainda tenho ressalvas quanto a atuação de Malheiros, que tem potencial, mas ainda falta. A produção de Ramin Bahrani traz um peso também. Tem muito do cinema social que ele investe e dos temas que ele já debateu outras vezes em sua excelente filmografia.

“7 Prisioneiros” revela esse Brasil que evitamos ver e surpreende pela forma como conclui. É uma visão pessimista, mas absurdamente real e humana. Termino dizendo o quão bom é ver a Netflix apostando nesse cinema nacional de qualidade. Uma porta necessária que se abre e espero que venham outros no mesmo nível.

NOTA: 8

País de origem: Brasil
Ano: 2021
Duração: 93 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Alexandre Moratto
Roteiro: Alexandre Moratto, Thayná Mantesso

Elenco: Christian Malheiros, Rodrigo Santoro

Crítica | The Trip

A armadilha do fator surpresa

“The Trip” é uma comédia norueguesa que repete a parceria entre o diretor Tommy Wirkola com a atriz Noomi Rapace depois do subestimado “Onde Está Segunda?”. É uma produção sanguinolenta, que causa impacto por sua violência gráfica e por trilhar caminhos inesperados nesta sua assustadora e cômica jornada. Apesar de ter, a todo o tempo, uma surpresa na manga, esse recurso nem sempre se mostra tão positivo assim.

Um casal, que já não vive a melhor fase do relacionamento, decide viajar para uma casa nas montanhas, em uma área afastada e que pudesse trazer paz. Essa é apenas a introdução de uma série de infortúnios que começam a acontecer com os dois nessa viagem. Ambos possuem segundas intenções e nada vai seguir como o planejado. A esperteza da obra é nos lançar a um clímax logo em seu início e não deixar a empolgação cair em seu decorrer. É uma narrativa ágil, ácida, que flui por diversos gêneros em uma mistura inesperada de Tarantino com Irmãos Coen.

Tudo é muito insano em “The Trip” e, infelizmente, a obra acaba se sustentando demais na violência gratuita, sem um bom texto para amarrar suas ideias. Há uma necessidade extrema de causar impacto e isso o deixa, por vezes, apenas vazio. O fator surpresa, também, que deveria ser uma arma do roteiro acaba sendo sua maior armadilha. Quer ser surpreendente a todo custo e para isso aposta no Deus Ex Machina nos momentos mais convenientes possíveis. Para tudo se tem uma solução e força muito a barra para salvar seus personagens. Ao fim, deixa de ser inesperado justamente porque sabemos que em algum momento terá uma intervenção salvadora. Dito e feito.

Em minha saga de evitar ver trailer antes do filme, tenho a possibilidade de mergulhar na história sem expectativas. Aconselho ir sem saber nada sobre, porque é o tipo de história que qualquer informação prévia que tenha, pode estragar a experiência. A obra ainda reserva uma ótima sacada para o final e, apesar dessas falhas que cito, vale muito a pena arriscar. E claro, sempre bom rever a fantástica Noomi Rapace em cena.

NOTA: 7,5

País de origem: Noruega
Ano: 2021

Título original: I Onde Dager
Duração: 113 minutos

Disponível: Netflix
Diretor: Tommy Wirkola
Roteiro: John Niven, Nick Ball
, Tommy Wirkola
Elenco: Aksel Hennie, Noomi Rapace

Crítica: A Última Carta de Amor

As relações de um outro tempo

Enquanto assistia “A Última Carta de Amor”, título recente da Netflix, fiquei me questionando em como filmes como esse se tornaram raridade. Sim, talvez ele tivesse feito um sucesso enorme lá nos anos 2000, mas que bom que ele veio agora, quando o cinema pouco fala sobre paixão. Baseado no livro de Jojo Moyes, temos aqui algumas ideias recicladas de obras como “Cartas para Julieta”. Ainda que nada seja muito novo, é aquele clichê bem contado, que funciona pelo capricho da produção e o charme irresistível do elenco.

A graça da história é que ela acontece em dois tempos diferentes. No presente, a jornalista Ellie (Felicity Jones), ao buscar arquivos na editora em que trabalha, descobre antigas cartas correspondidas entre dois jovens apaixonados e decide pesquisar o que aconteceu com essa história de amor não concretizada. Essas cartas são da década de 60, quando Jennifer (Shailene Woodley), que infeliz no atual casamento, passa a flertar com o escritor Anthony (Callum Turner).

Ainda que a narrativa flua bem entre as épocas diferentes, é inegável a atenção dada à trama do passado, que se torna muito mais instigante, principalmente à química existente entre Shailene e Callum, que estão ótimos em cena. No presente, não apenas a relação entre a jornalista e o arquivista não convence como falha ao transformarem os dois em alívio cômico. No mais, é válido essa reflexão sobre o papel da comunicação nas histórias de amor. Hoje, cartas viraram relíquias de um registro fascinante do tempo. Neste mesmo presente, dependemos de mensagens vazias, emojis e tiques azuis para manter contato com alguém que desejamos mas pouco sabemos como dizer, como se expressar.

A direção é de Augustine Frizzell, responsável pelo piloto da série “Euphoria”. Envolvente e sedutor, ela entrega um produto charmosíssimo, com belos figurinos e locações. É raro porque não tem vergonha do clichê, do romance e abraça tudo isso com muito cuidado e carinho por sua bela história de amor. Me deixou com um sorriso no rosto e um sentimento muito bom no peito.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021

Título original: The Last Letter From Your Lover
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Augustine Frizzell
Roteiro: Esta Spalding, Nick Payne
Elenco: Felicity Jones, Shailene Woodley, Callum Turner, Nabhaan Rizwan, Joe Alwyn

Crítica: Atypical (quarta temporada)

Do atípico ao genérico

A triste história de um programa que tinha tanto a dizer mas preferiu ser o mais genérico possível.

Se na Netflix temos os casos das séries canceladas que não possuem nem a chance de se despedir decentemente, também temos aquelas que não souberam aproveitar a oportunidade. Recentemente tivemos “Special” e agora “Atypical”. Os roteiristas, em nenhum momento, lidam com o fato de que esta é a última chance de consertar aqueles tantos erros cometidos nas temporadas passadas. Seja por esse viés machista com que passou a desenhar este drama familiar, onde a mãe está sempre nesse lugar de inferioridade, sempre precisando se redimir de algo que nem o público entende. Seja por não mais explorar o espectro que seu protagonista se encontra. A verdade é que “Atypical” está sempre na tangente, sempre evitando falar sobre temas do mundo real ou de assuntos que tirem seus personagens desses limites que foram estabelecidos. O que antes era uma série doce que tratava com humor e sensibilidade um assunto tão delicado, se prolonga aqui com tramas tolas que servem apenas para termos ainda mais raiva dos personagens e que até, especificamente, o último episódio, não os leva para canto nenhum, rodando em um ciclo tedioso, revivendo os mesmos e mesmos conflitos.

Nesta última temporada, focaram bastante na jornada de Casey e foi simplesmente insuportável ter que acompanhar seu relacionamento com Izzie. Todo episódio, algum conflito chato para dificultar a vida das duas, que estão sempre se desencontrando, se desculpando. Enquanto alguns personagens somem aqui, como Evan que fez tanta falta ou Sharice, que até pouco tempo atrás, era a melhor amiga da protagonista, outros se mantém por razões que ninguém entende como Paige e até mesmo a Izzie. Zahid, por sua vez, foi um ótimo alívio cômico aqui, revelando a carismática presença de Nik Dodani.

A quarta e última temporada de “Atypical” é uma despedida amarga por nunca valorizar seu peculiar universo e seus bons personagens, caindo no lugar comum, naquele campo genérico que engloba qualquer outra série da Netflix. Ao menos o último episódio comove, quando todos seus excêntricos indivíduos encaram aquele medo da mudança, de que é preciso evoluir, seguir uma nova direção. Foi difícil se importar com alguma coisa narrada aqui – inclusive a obsessão de Sam por pinguins e Antártica – mas pelo menos ver o fim nos bate aquela sensação boa de ciclo sendo encerrado.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Disponível: Netflix
Duração: 302 minutos / 10 episódios
Criação: Robia Rashid
Roteiro: Robia Rashid, Michael Oppenhuizen
Elenco: Jennifer Jason Leigh, Keir Gilchrist, Brigette Lundy-Paine, Michael Rapaport, Nik Dodani, Jenna Boyd

Crítica: A Mulher na Janela

Colcha de retalhos

Difícil analisar “A Mulher na Janela” porque, claramente, é uma colcha de retalhos, porcamente costurada. Problemas na produção, roteiro reescrito, cenas regravadas. Tudo isso acaba se refletindo no resultado final e o que vemos, infelizmente, é um experimento mal sucedido e que já indicava dar errado lá no início. Não venho crucificar o trabalho do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito), porque é nítido o quão competente ele é e não sei o quanto dele realmente existe dentro desse filme. Se houve alguma intenção por parte do autor, que soa como o estudo da psique da protagonista que precisa investigar seus próprios traumas para entender um crime, tudo isso se desfaz e se transforma em um exagerado clímax de terror, com sangue, tensão e tudo o que a obra, até então, se negava a ser.

Baseado no best seller de A. J. Finn e com claras referências ao cinema de Hitchcock, “A Mulher na Janela” desenha um suspense clássico, onde a perspectiva da protagonista não é das mais confiáveis. Ana (Amy Adams) é uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia, o que a impede de sair para fora de casa. Ela enfrentou grande perda no passado e se vê estagnada nesta tentativa de se reerguer. A grande virada é quando ela acredita ter presenciado um assassinato no outro lado da rua, precisando provar sua sanidade e sua palavra contra todos aqueles que negam suas acusações.

A obra pouco explora esse voyeurismo da personagem, que sabe exatamente quando apontar sua câmera para o vizinho e avistar algo duvidoso. E assim, tudo nos é revelado às presas e pouco conseguimos desfrutar dos mistérios ou desta paranoia. O roteiro tem pouco apego sobre o suspense e revela seus bons segredos com desdém, com pouca importância. Diminui o máximo que pode a complexidade da trama e desses personagens, que pouco nos causam interesse. O grande problema do texto, ao fim, é nunca conseguir estabelecer essa relação que existe entre todos eles, enfraquecendo toda a trama e suas viradas, que jamais causam algum impacto.

A cor rosa, muito presente nas cenas, representa a inocência, a fantasia. Como se o que Ana vivesse fosse um sonho, uma ilusão. Apegada aos filmes que assiste, assim como sua negação a tudo o que é real, ao lado de fora. A boa intenção de “A Mulher na Janela”, além de concentrar toda sua trama em um único ambiente, basicamente, é nos fazer questionar essa ilusão, se o que acontece além daquelas janelas é realmente como a protagonista diz. Apesar das boas ideias, a obra conta com um roteiro preguiçoso e tudo é resolvido de maneira insossa, como a solução que encontra para o transtorno da protagonista ao fim.

O grande momento do filme é quando entra em cena Julianne Moore. Em poucos minutos, a atriz entrega todo o sentimento e honestidade que falta ao resto. O jovem Fred Hechinger também se destaca mesmo com o pobre roteiro, entregando algo notável. “A Mulher na Janela”, apesar de contar com um bom ritmo, é uma bagunça desgovernada que não se decide o que quer ser. Na ausência de um único diretor, se perde no próprio conceito, na própria linguagem. Ter altas ambições não adianta se não existe um objetivo a seguir. Um grande equívoco.

NOTA: 6

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Woman in The Window
Disponível: Netflix
Duração: 101 minutos
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Tracy Letts
Elenco: Amy Adams, Fred Hechinger, Gary Oldman, Wyatt Russell, Julianne Moore, Anthony Mackie, Tracy Letts

Crítica: Pose (Segunda Temporada)

Atendendo aos caprichos do roteiro

É lindo a questão da representatividade e este espaço que a série abre para a comunidade trans e um elenco tão inclusivo. E digo, nenhum defeito apaga esse brilho. Porém, como grande apreciador da primeira temporada, preciso aceitar o fato, com dor no coração, a decepção que foi esse segundo capítulo da trama. Produzido por Ryan Murphy, ele já vem construindo a fama de um criador audacioso mas que acaba sendo refém da própria ambição, jamais conseguindo manter o nível daquilo que inicia.

A continuação de “Pose” frustra porque não há desenvolvimento algum e os personagens estão ali apenas para atender aos caprichos do roteiro. Se hoje vamos falar de ativismo, colocamos eles lá, no próximo episódio a gente finge que não existiu. Se hoje é mais interessante aquele indivíduo estar fracassado, a gente faz assim, amanhã ele será bem sucedido porque fará parte da nova pauta. E assim seguimos em uma sequência aleatória de eventos, onde as transformações acontecem para gerar um debate específico, não porque cabia ao personagem.

Quando Damon parece finalmente ganhar os holofotes com sua dança, isso não o leva a lugar algum, além de torná-lo insuportável. Quando Blanca recomeça depois de uma grande perda, conhecendo o amor, isso logo é ignorado no episódio seguinte. E isso acontece Angel, Lulu e Elektra. Seja nos momentos de glória, de conquista ou de perda. Nada disso os leva para uma nova direção. Nada disso os impulsiona. Todos estão presos em uma caixa, se reiniciando a cada novo episódio, impedindo, assim, qualquer tipo de evolução, crescimento ou até mesmo de uma narrativa dramática mais corajosa.

Claro, os temas são sempre relevantes e é importante abrir espaço para certas pautas, mas é bizarro como eles alteram o caminho da trama para poder debater algo que até então era incabível. É um roteiro que caminha por pura conveniência, sem jamais respeitar aquelas belas histórias e aquelas belas mulheres que tem tanto a dizer, tanto a explorar. Um texto com muito sentimento sim, mas expositivo, lamentavelmente conduzido.

Para piorar, recebemos no combo um desconfortável plot de “fantasia pós-morte” e cenas musicais que pouco conversam com a atmosfera da série, causando mais incômodo do que admiração. É a escola Ryan Murphy do “vamos fazendo assim e lá na frente vemos no que dá”.

Espero que a série se recupere na terceira temporada e termine da forma brilhante como começou. Vou guardar dessa parte a força inspiradora de Blanca e os diálogos icônicos de Elektra, assim como a presença hipnotizante de Dominique Jackson em cena. Curiosamente, o melhor episódio é o 9 (o penúltimo), justamente aquele em que o show é menos pretensioso, mais leve e muito mais humano. Foi o ápice “Pose” para mim.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA
Ano: 2019
Disponível: Netflix
Episódios: 10
Diretor: Gwyneth Horder Payton, Ryan Murphy
Elenco: Mj Rodriguez, Billy Porter, Indya Moore, Dominique Jackson, Angelica Ross

Crítica: Passageiro Acidental

Qual vida vale mais?

Me causa um certo fascínio esta ficção espacial lançada pela Netflix. Diferente das últimas lançadas nos últimos anos, “Passageiro Acidental” vem sem os exageros e grandiosidade comuns do gênero. Centrado em apenas 4 personagens dentro de uma nave, essa jornada que eles enfrentam se torna cada vez mais claustrofóbica, não apenas pelos pequenos espaços, mas principalmente pelos dilemas morais que ali são impostos.

Em uma missão a Marte, a vida de três tripulantes é colocada em risco quando descobrem que há mais alguém à bordo, o engenheiro Michael (Shamier Arderson). O grande – e interessante – conflito nasce com a revelação de que não haveria oxigênio suficiente para manter quatro pessoas vivas. De imediato, a única solução possível é matar o quarto elemento. Existe alguma vida menos importante ali? Existe alguém que se sacrificaria pelos demais? São inúmeros questionamentos que vão invadindo aquele espaço, no meio da tensão e desespero que se instaura. É assim que “Passageiro Acidental” se torna um intrigante drama de sobrevivência, mas sem jamais cair na obviedade. Nos faz questionar o que faríamos em uma situação como essa e termina de forma agridoce, provocando essa dúvida silenciosa em nós mesmos.

O grande trunfo, porém, está nas entrelinhas do texto. Nada é muito claro, podendo ter interpretações diversas. Vejo um discurso poderoso aqui sobre o papel do negro na sociedade. Ou melhor, o papel que os outros impregam sobre o homem negro. Nesse universo proposto, não sabemos como Michael foi parar ali e estamos sempre tentando definir qual o lugar dele. Teria ele conseguido aquela vaga pelos esforços e estudos dele? Ele se colocou, colocaram ele? É curioso como nada naquele espaço foi projetado para sua presença. Não existe o traje perfeito, a coberta, a comida. Não existe ar para ele respirar ali. “Passageiro Acidental” faz uma brilhante reflexão sobre qual o caminho queremos para essa sociedade. Estamos realmente prontos para deixá-lo viver? Estamos prontos para um mundo igualitário e altruísta onde todas as vidas têm o mesmo peso?

Dirigido pelo brasileiro Joe Penna, o filme entrega algumas belas sequências como a busca pelo cilindro fora da nave. É um grande momento. No entanto, o filme se enfraquece por não conseguir se aprofundar nesses personagens que sempre parecem tão distantes de nós. Em uma obra que diz muito sobre empatia, pouco sabemos sobre a vida e sentimentos que cada um carrega. É incômodo, também, esta estranha inexperiência dos tripulantes, que pouco demonstram saber o que estão fazendo ali. Apesar da bela premissa e reflexões, o longa deixa, ao fim, uma estranha sensação de que não fomos recompensados. Falta força, mas ainda vale pela experiência fora do comum.

NOTA: 8,0

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: Stowaway
Disponível: Netflix
Duração: 117 minutos
Diretor: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Shamier Anderson, Toni Collette, Daniel Dae Kim

Crítica: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Sem freio

A Sony Pictures Animation parece ter, finalmente, se encontrado. Três anos depois do lançamento do vencedor do Oscar, “Homem-Aranha no Aranhaverso”, o estúdio retorna com uma produção tão inventiva quanto, reforçando uma bela identidade. Um primor de animação 3D, que mistura traços bidimensionais, excesso de cores e uma edição ágil, capaz de manter a atenção dos pequenos e garantir o riso dos mais crescidos. É aquele filmão pipoca para a família toda, bem intencionado e divertido.

Em “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” somos apresentados a uma família disfuncional através dos olhos da jovem talentosa Katie, que tem uma relação difícil com seu pai. Antes que ela inicie os estudos na faculdade, seus pais decidem reunir a família pela última vez em uma viagem. No entanto, acontece a revolução das máquinas, que ao ganharem vida, decidem expulsar os humanos do planeta. É então que os Mitchells se tornam a única salvação da humanidade.

Katie sonha em ser cineasta e a grande sacada da produção é fazer desta aventura como se tivesse a assinatura dela, com seus rabiscos invadindo as cenas e memes como parte da edição. Tudo isso traz uma atmosfera bastante atual e exige dos criadores extrema criatividade. Por outro lado, esse exagero de informação por segundo o torna megalomaníaco, sendo difícil, às vezes, de acompanhar o raciocínio.

É assim que “A Família Mitchell” peca pelo excesso. A longa duração, inclusive, que poderia dar mais espaço para a construção da trama é lotada de cenas ininterruptas de ação. E isso cansa. Vemos uma família fugindo das máquinas e isso nunca gera algum debate além do velho discurso “não seja normal” e da força da família unida. Falta introduzir essa relação dos humanos com a tecnologia e o quanto isso, de fato, afetava as relações. Essa base dada pelo roteiro é muito simplória, colocando as máquinas ali como meros vilões, sem jamais explorar a força desse tema. É um campo rico, mas o filme sempre opta pelo humor barato de memes, gritarias e coisas sendo esmagadas. No fim, tudo não passa de uma justificativa para uma ação desenfreada. A trama nos é apresentada em uma velocidade tão absurda que se torna impossível criar algum envolvimento ou identificação com que nos revela.

É uma diversão fácil que vale ver com a família sim! Um belo trabalho de animação e que apesar de ter me frustrado diante do hype que nasceu, também me deixou curioso pelos próximos passos do estúdio. Vale a pena, mas é muito abaixo dessa “obra-prima instantânea” que estão pintando por aí.

NOTA: 7,5

País de origem: EUA
Ano: 2021
Título original: The Mitchells vs. the Machines
Disponível: Netflix
Duração: 110 minutos
Diretor: Jeff Row, Michael Rianda
Roteiro: Jeff Row, Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Olivia Colman