Crítica: Alma de Cowboy

Cultura ocultada

A temporada do Oscar acaba ofuscando boas produções que chegam nesta época do ano e “Alma de Cowboy” é uma delas. O longa revela a história real dos Cowboys negros da Filadélfia, que ainda nos tempos atuais traçam uma caminhada de luta e resistência. É desta forma que o filme se torna bastante necessário, por dar visibilidade a uma cultura tão ocultada e abrir campo para discutir gentrificação e como os espaços urbanos vão sendo alterados tendo o racismo como condutor.

A trama, baseada no livro de Greg Neri, tem como base uma premissa comum, a do filho que retorna para a casa do pai e precisa se adequar às novas regras. O que deixa essa jornada intrigante é que o jovem em questão é inserido em uma realidade incomum, tendo que dividir seu espaço com um cavalo e os Cowboys da Rua Fletcher. Há um descompasso entre aquela comunidade e o tempo em que o garoto vive. O filme acaba sendo sobre este encontro, dele perceber que enquanto ele busca por um lar, aquelas pessoas buscam o refúgio delas também, diariamente, mantendo os estábulos vivos e se mantendo firmes enquanto a cultura delas estão sendo apagadas.

Apesar da previsibilidade desta relação entre pai e filho e da superficialidade com que encerra alguns conflitos, a obra acerta bastante na ambientação e neste poder de nos conduzir para dentro de seu universo tão único e inesperadamente poético. O filme vê beleza na rotina, no trabalho, nas conversas corriqueiras. É belo a forma em que o diretor Ricky Staub ilustra tudo isso, trazendo, inclusive pessoas reais em cena, criando uma atmosfera ainda mais realista e honesta. Um trabalho sensível e que merece destaque no extenso catálogo da Netflix.

NOTA: 8

  • País de origem: Reino Unido, Irlanda do Norte
    Ano: 2021
    Título original: Concrete Cowboy
    Disponível: Netflix
    Duração: 101 minutos
    Diretor: Ricky Staub
    Roteiro: Ricky Staub
    Elenco: Caleb McLaughlin, Idris Elba, Lorraine Toussaint

Crítica: A Escavação

O que sobraria de nós

Baseado no livro de John Preston, que reinventa a história real de um arqueólogo que, a chamado de uma viúva para cavar seu extenso terreno, acaba descobrindo valiosos itens que passam a ser de interesse nacional.

“A Escavação”, recente drama lançado pela Netflix, nos faz pensar nesses pequenos passos dados pela história da humanidade. É um evento pequeno, ignorado, mas que existiu e teve sua importância. Sem a necessidade de um clímax ou uma reviravolta, o texto valoriza essa simplicidade do acontecimento e emociona pela forma delicada com que narra tudo isso. É bonito quando, naquele encontro entre dois personagens, eles revisitam o passado, descobrem uma vida, um momento congelado no tempo, mantido pela terra. Basil Brown, o arqueólogo interpretado por Ralph Fiennes, enxerga seu trabalho como um exercício de resgate, uma ação necessária para o futuro. É preciso cavar para escrever a história e é preciso da história para entender o presente. O roteiro, nitidamente, tem muito carinho por esses personagens que descreve, na relação entre cada um e pela profissão que exercem. Não apenas a arqueologia, é interessante como a fotografia entra aqui também, registrando a beleza de cada pequeno ato, cada encontro.

A trama, que acontece em um período que antecede a Segunda Guerra Mundial, se desenha neste interessante paralelo entre vida e morte. A protagonista, que segue com a dor do luto de perder o marido, assiste, nas ruas, jovens caminhando pela incerteza do confronto. Durante este tempo sombrio, eles cavam o túmulo daquelas terras, tentando descobrir o que um dia morreu ali.

“Se mil anos se passassem em um instante, o que sobraria de nós?”.

No meio das tantas descobertas, os personagens se encontram na reflexão de entender qual o legado deixariam ali, quais seriam os vestígios que sobrariam para o futuro. É assim que a obra se mostra um valioso e belo ensaio sobre o fim, sobre o que deixamos em terra quando não mais estivermos aqui.

“A Escavação” traz uma direção correta de Simon Stone, que não foge muito do que esperamos de um bom drama de época, com belas paisagens e uma trilha sonora empolgante, composta pelo estreante Stefan Gregory. Carey Mulligan é sempre excelente, ainda assim é contestável sua escalação, visto que a personagem é bem mais velha do que ela. Ralph Fiennes também brilha aqui, assim como os bons coadjuvantes de Johnny Flynn, Lily James e Ben Chaplin. Uma obra doce, com boas intenções e que, felizmente, segue em uma admirável crescente, sem perder o encanto e empolgação de seus eventos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 112 minutos
    Diretor: Simon Stone
    Roteiro: Moira Buffini
    Elenco: Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Johnny Flynn, Ben Chaplin

Crítica: O Animal Cordial

O sonho do oprimido

Sempre bom ver o cinema nacional se arriscando em outros gêneros e “O Animal Cordial” merece atenção pelo bom resultado que alcança. Uma proposta ousada e que funciona pelas mãos da diretora Gabriela Amaral Almeida, que entrega aqui um potente thriller psicológico.

Quando um restaurante é tomado por dois assaltantes, o dono do local reverte a situação para salvar seu estabelecimento, construindo um jogo perverso e violento dentro daquele pequeno ambiente. Com poucos espaços, o roteiro prende seus personagens durante uma noite tumultuada, construindo ali um embate pela sobrevivência. Apesar do cardápio elegante, é curioso como a produção desenha seu cenário, com cores escuras, paredes sujas, mais parecendo um matadouro, pronto para a carnificina.

A obra me remeteu à fase mais crua de Nicolas Winding Refn, pelo uso das cores, violência e principalmente pela trilha sonora, que aqui mescla órgãos e sintetizadores. As atuações são ótimas, se destacando, claro, Murilo Benício, que cria em cena um personagem macabro e marcante. Luciana Paes e Irandhir Santos também estão incríveis.

O sonho do oprimido é ser opressor. Essa frase ilustra bem “O Animal Cordial” e em como seus personagens, que se veem como a escória de uma posição acima, se rebelam contra esta estrutura hierárquica, decididos a inverter a cadeia alimentar. Todos eles são diminuídos, rejeitados pelo simples ato de ser quem são. É forte o instante em que um dos cozinheiros tem seus cabelos cortados, símbolo de sua resistência e identidade, simplesmente porque “incomodava” seu opressor. Todos almejam uma nova posição, uma fuga, estar longe daquela vida, longe do trabalho de “merda”. E neste jogo violento de ascensão, os indivíduos ali perdem o controle, se degradando até que, ao fim, se tornem apenas animais, grosseiros e famintos.

NOTA: 8,5

  • País de origem: Brasil
    Ano: 2017
    Disponível: Netflix
    Duração: 96 minutos
    Diretor: Gabriela Amaral Almeida
    Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
    Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Camila Morgado, Humberto Carrão

Crítica: Pieces of a Woman

O pedaço que falta

Em 1940 aconteceu um caso um tanto quanto incomum na pequena cidade de Tacoma. Poucos meses depois de uma aguardada ponte ganhar vida, ela cai após uma forte ventania. Até hoje, estudiosos tentam elaborar teorias sobre o que poderia ter acontecido, encontrando explicações tanto no histórico do local como na física. Nos tempos atuais, temos aqui, como cenário, uma cidade com uma outra grande ponte em construção e a avistamos ali distante, em evolução, mas sempre com um buraco faltando, sempre incompleta. Aquele pedaço importante que impede os outros de chegarem no lado oposto

É com essa analogia que o diretor húngaro Kornél Mundruczó cria “Pieces of a Woman”, seu primeiro longa falado em inglês. Ele narra a dolorosa jornada de Martha, uma mulher que perde o filho logo após o parto. Os primeiros 30 minutos que ele nos entrega são dilacerantes. A cena do parto é forte, real e a opção de registrar este instante em um plano sequência foi certeira. Ainda que entregue o ápice do filme no começo, não vejo como algo negativo, faz sentido dentro da narrativa, logo que o que vem depois é apenas o silêncio, o vazio que nasce na vida daquela mulher despedaçada, vivendo no abismo que nasce entre ela e as pessoas que estão ao seu redor, que não possuem a sensibilidade de entender o que ela enfrenta. Martha é aquela estrutura que precisa ser forte, continuar em pé, mesmo quando falta algo que a completa.

É brutal toda sua batalha interna na qual a personagem enfrenta, essa luta silenciosa de seguir com tamanha dor e ainda precisando lidar com pessoas diminuindo seus sentimentos ou lhe dizendo como se sentir. Vanessa Kirby é potente e transmite com precisão esse momento tão delicado. A atriz se entrega ao papel e é lindo presenciar esta sua evolução. O elenco todo é fantástico, revelando bons momentos de Shia LaBeouf, Sarah Snook e a veterana Ellen Burstyn que finalmente ganha um papel a sua altura. Fazia tempo que o cinema devia isso a ela e é brilhante o que ela faz em cena.

Kornél é um dos grandes diretores que temos em atividade no cinema e sempre me choca a perfeição com que ele finaliza suas obras. São produções desafiadoras, que causam impacto e fico feliz em ver este reconhecimento. É um cara que vai longe. “Pieces of a Woman” é o filme que mais gostei dele e é ótimo também ver algo assim chegando na Netflix. O único detalhe que me incomoda um pouco é sua trilha sonora. Tive a sensação de que ela entra em alguns momentos indevidos, crescendo em cena quando o silêncio seria mais efetivo. No mais, um baita filme, bem escrito, dirigido e incrivelmente atuado.

NOTA: 9,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 128 minutos
    Diretor: Kornél Mundruczó
    Roteiro: Kata Wéber
    Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Sarah Snook, Bennie Safdie, Molly Parker

Crítica: Malcolm & Marie

O lugar errado da fala

Em algum momento alguém afirmou que Sam Levinson era visionário e isso claramente afetou o ego do homem. Sim, “Euphoria” e “Assassination Nation” tem muitas qualidades, mas chega a ser cômico como ele decidiu, posteriormente, fazer um filme porque recebeu uma crítica ruim e precisava desabafar. Mais do que imaturo é um passo perigoso.

Filmado durante a pandemia em um período de duas semanas, é interessante assistir o resultado alcançado pelo cineasta. É um exercício ousado, que acontece todo dentro de uma casa e apenas dois atores em cena. A forma como ele explora os espaços e sua câmera caminha pelos ambientes, dão um tom ágil à produção. O texto é feroz e revela uma eterna DR entre um casal composto por um diretor de cinema e uma jovem atriz com passado turbulento. Uma lavação de roupa suja que até tem seus momentos de brilho ao questionar esse relacionamento tóxico vivido pelos protagonistas, que se machucam a todo instante, no entanto, o roteiro peca na repetição. O casal abre feridas, as fecham para logo em seguida abrir novas, construindo uma narrativa cíclica enfadonha, verborrágica e infértil.

Há, em cena, ótimos diálogos e dois atores se doando, mas nada passa verdade. Zendaya e John David Washington se esforçam, mas o sentimento dito morre no texto e nunca alcança a interpretação dos dois. É tanta encenação que não há espaço para construir uma química entre os atores, que clamam por atenção, gritam para serem ouvidos, mas que só funcionam isoladamente. Culpa do roteiro que precisa dar um monólogo incrível de cinco em cinco minutos para cada um ter o seu Oscar tape.

“Malcolm e Marie” me faz pensar, ainda que um termo banalizado recentemente, em lugares de fala. Sam Levinson tenta limpar sua barra através de sua prepotência em se mostrar conhecedor da arte do cinema e expor suas frustrações enquanto criador através de um interlocutor preto. É perigoso e covarde quando ele verbaliza na tela tudo aquilo que não poderia enquanto homem branco. O mesmo acontece quando a personagem de Zendaya questiona a sexualização feminina em filmes dirigidos por homens, enquanto ela é sexualizada durante todo o filme. Levinson tenta abraçar essas causas sociais quando, na sua pele, nada afeta. São discursos vazios de um homem que realiza um produto egocêntrico, vomitando suas verdades, sem parecer que é tudo sobre ele mesmo.

NOTA: 6,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Disponível: Netflix
    Duração: 106 minutos
    Diretor: Sam Levinson
    Roteiro: Sam Levinson
    Elenco: Zendaya, John David Washington

Os 9 melhores filmes originais da Netflix em 2020

No meio de muita produção duvidosa, a Netflix conseguiu entregar alguns filmes realmente bons em 2020. Em um período em que quase não tivemos lançamentos na tela grande, a gigante do streaming nos permitiu ter acesso a novidades e manter acesa aquelas boas discussões sobre cinema.

“Mank”, “Os 7 de Chicago”, “A Voz Suprema do Blues” tem suas qualidades, mas vou deixar os Oscar Baits de fora aqui. Espero que gostem dos selecionados e deixo aqui como dicas para assistir, caso não tenham visto algum.

Menções honrosas: Tempo de Caça, A Caminho da Lua, Ninguém Sabe Que Estou Aqui, Ya No Estoy Aquí, Seu Nome Gravado em Mim.

9. A Trincheira Infinita
de Jon Garaño, Aitor Arregi, José M. Goenaga | Espanha

Quando uma Guerra Civil explode na Espanha, um homem, por medo de represálias das autoridades, decide viver escondido dentro da própria casa. É um relato forte, emocionante e um registro assustador de uma época, de muitas histórias. A produção é incrível e nos faz mergulhar nos sentimentos dos protagonistas ao longo de vários anos, vivendo pelo medo e pela dor de existir e não poder ver o lado de fora.

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8. Tigertail
de Alan Yang | EUA

A singela história de uma vida. “Tigertail” mergulha nas lembranças de um imigrante taiwanês que, para ter uma vida melhor, abandonou seu grande amor e sua família para viver em Nova York. O longa revela essa experiência bastante íntima de um imigrante, cheia de perdas e danos, com muita sensibilidade. Emociona nesse relato da busca por um sonho que nunca se alcança.

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7. Happy Old Year
de Nawapol Thamrongrattanarit | Tailândia

O filme acompanha a história de uma mulher que se depara com inúmeras lembranças de sua vida ao decidir descartar inúmeros objetos de sua casa. E nesta atividade de reviver o passado para seguir em frente, ela decide ir atrás do ex-namorado com quem nunca teve um fim digno. Simples, original e bastante delicado.

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6. Você Nem Imagina
de Alice Wu | EUA

As comédias românticas teen da Netflix parecem seguir uma fórmula. Justamente por isso foi tão bom encontrar “Você Nem Imagina”, que tem como base uma série de clichês do gênero mas inova na condução, entregando um texto maduro e bastante sensível.

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5. O Que Ficou Para Trás
de Remi Weekes | Reino Unido, Irlanda do Norte

Uma outra grande surpresa que surgiu no catálogo em 2020 foi “O Que Ficou Para Trás”, terror psicológico britânico que foge das fórmulas ao narrar a jornada de um casal de imigrantes recomeçando a vida na Inglaterra. Sem distinguir o que é pesado e realidade, eles são confrontados pelos fantasmas do passado. É instigante, inteligente e muito bem realizado.

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4. O Diabo de Cada Dia
de Antonio Campos | EUA

Com um elenco fantástico, o filme narra inúmeras histórias e personagens que vão se cruzando ao longo do tempo e tem como base o rancor, o medo e a obsessão religiosa. O roteiro é brilhante e caminha respeitando cada trama e seus belos desdobramentos.

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3. A Sun
de Mong-Hong Chung | Taiwan

Drama taiwanês bastante emocionante. O filme revela a dor de uma família depois de dois eventos trágicos e como eles tiveram que sobreviver. Apesar da longa duração, o longa tem bom ritmo e encanta pela delicadeza ao falar sobre redenção, perdão e recomeços.

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2. The 40-Year-Old Version
de Radha Blank | EUA

Primeiro filme escrito e dirigido por Radha Blank, “The Forty-Year-Old Version” é uma bela surpresa. Como mulher preta, ela entrega aqui seu grande manifesto e sua insatisfação de envelhecer no meio artístico e os tantos percalços que precisa enfrentar. É um discurso bastante íntimo e revelador, bastante necessário.

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1. Joias Brutas
de Josh Safdie, Ben Safdie | EUA

Foi lá no começo do ano quando a Netflix lançou essa preciosidade. Dificilmente ela lançaria algo a altura ou melhor que “Joias Brutas”. Dirigido pelos irmãos Safdies (Bom Comportamento), o longa coloca Adam Sandler ao avesso e revela a mais potente atuação de sua carreira. É um filme revigorante, inquietante, que nos faz rir de nervoso e nos faz vibrar pela insana trajetória de seu brilhante protagonista.

Crítica: O Tigre Branco

comendo vivo

Bela surpresa na Netflix, “O Tigre Branco” tem potencial para ganhar um forte público nas próximas semanas. Temos aqui uma boa mistura de “Parasita” e “Quem Quer Ser um Milionário?”. Não que alcance o brilhantismo dessas duas produções, mas só pela comparação já o torna digno de ser assistido.

O filme tem como intenção contar os valores da Índia através da história de um homem, o motorista Balram, que vindo de uma região pobre, busca por sua ascensão no mundo dos ricos. Trata-se um texto provocativo e que escancara a desigualdade social existente no país e nesta relação patrão e empregado fortemente enraizado na sociedade. O roteiro é uma adaptação do livro homônimo de Aravind Adiga, lançado em 2008.

O mais surpreendente no longa é o fato de nunca vitimizar seu forte protagonista. Ele sofre, perde, mas para vencer é capaz de atrocidades. Existe uma linha tênue ali entre sonho e obsessão, entre coragem e crueldade. O ator Adarsh Gourav é carismático e nos seduz para dentro da trama. Destaque, também, para a atriz Priyanka Chopra que se sai muito bem como coadjuvante.

A quase que ininterrupta narração acaba por atropelar diversos acontecimentos da trama, por vezes, nos impedindo de desfrutar alguns desdobramentos que mereciam mais cuidado. O final é um claro exemplo disso. Simplesmente acontece, nos é explicado, mas é abruptamente resolvido. Outro momento é quando envolve um assassinato que poderia levar o filme para uma nova direção, mas se encerra com a mesma facilidade em que começou. Tendo isso em mente, sinto que temos uma história poderosa mas que nunca ganha o tratamento que merecia, principalmente por esta pressa em terminar os tantos ciclos que inicia.

A direção de Ramin Bahrani (99 Casas) funciona, trazendo dinamismo e ritmo para um filme que nunca perde a empolgação. É o momento mais comercial de sua carreira que, espero, o alavanque para novos e interessantes projetos no futuro.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2021
    Título Original: The White Tiger
    Duração: 125 minutos
    Diretor: Ramin Bahrani
    Roteiro: Ramin Bahrani
    Elenco: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao
    , Priyanka Chopra

Crítica: Mank

A bela jornada apática de Fincher

Aguardado retorno do mestre David Fincher, ele chega naquele ponto em que muitos diretores consagrados chegaram: fazer sua grande homenagem à Hollywood. É um projeto bastante pessoal, visto que aqui ele conta com o roteiro de seu próprio pai, Jack Fincher, que faleceu em 2003. “Mank”, justamente, dá protagonismo aos roteiristas, e esses indivíduos históricos que fizeram o cinema acontecer.

O filme faz um recorte na vida do roteirista Herman Mankiewicz e sua tumultuada jornada durante a produção de “Cidadão Kane” e sua busca por receber créditos pela obra. Apesar do belo conceito e por contar com uma produção deslumbrante – que facilmente o levará para as próximas premiações – é uma grande decepção. Na intenção de simular o cinema da época, David Fincher entrega seu trabalho mais engessado enquanto diretor. Desde o excesso de fade out, aos ruídos na imagem comum em rolo de filmes antigos, ao pedante letreiro na tela indicando ser um roteiro dentro de um roteiro. São escolhas visuais que se espera de um produto como esse, o que torna frustrante ver um diretor como Fincher se render a tanta obviedade. É o produto menos expressivo de toda sua carreira.

“Mank” é presunçoso e acontece sem nos convidar. Não apresenta nenhum conflito real ou algo que impulsione a trama. Nem mesmo as relações entre os personagens parece ter alguma relevância. Pouco se aprofunda em Mank, não nos permitindo sentir qualquer coisa a seu respeito. Gary Oldman é ótimo, mas seu protagonista não merece duas horas de nosso tempo.

Além de Oldman, Amanda Seyfried brilha na pele da atriz Marion Davis. Ela ilumina o filme mesmo com tão pouco tempo de cena.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Netflix
    Duração: 131 minutos
    Diretor: David Fincher
    Roteiro: Jack Fincher
    Elenco: Gary Oldman, Charles Dance, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey

Crítica: Era Uma Vez um Sonho

O peso das lembranças

Baseado no livro de memórias de J.D.Vance, “Era Uma Vez Um Sonho” mergulha nas dores de uma família em duas épocas distintas. O mais novo filme de Ron Howard, em parceria com a Netflix, diz muito sobre como o meio em que nascemos define grande parte de nosso destino. O peso das lembranças do protagonista é um fardo que precisa ser constantemente superado, ainda mais quando, anos depois, prestes a dar um grande passo na carreira, ele precisa recuar e retornar a sua cidade Natal para fazer aquilo que destruiu parte de sua infância, salvar sua mãe de seus vícios e surtos.

Ainda que a obra seja carregada de intenções nobres e tem lá seus momentos de forte comoção, o roteiro assinado por Vanessa Taylor (A Forma da Água) é muito esquemático. Existe uma construção repetitiva e calculada para causar impacto no público. Neste sentido, os flashbacks soam como uma muleta frágil da narrativa, sempre muito bem posicionados na intenção de justificar tal comportamento futuro de algum personagem. Para falar sobre os altos e baixos de uma família, o texto se perde em tantas oscilações, risivelmente indo do ódio à compaixão para suas conclusões simplórias. É assim que se dá espaço para gritarias, choros e tudo o que a produção acredita que possa impressionar a Academia do Oscar. É forçado e nada vem de forma natural ou honesta.

Amy Adams é uma atriz fantástica e com muita pena digo que é vergonhoso o papel que ela desempenha aqui. É triste vê-la se desgastando em sequências tão caóticas, de pouca inspiração. Glenn Close, infelizmente, também se perde no meio da caricatura. Existe entrega das duas, mas o roteiro é pobre demais para extrair algo de bom delas.

Ron Howard, que já vem de uma carreira inconstante, retorna com a mão mais pesada do que nunca e aqui peca, constantemente, pelo excesso. Ainda que seja piegas em todo seu discurso do sonho americano destruído, “Hillbilly Elegy” tem boas intenções ao falar sobre família, legado e perdão. É preciso destacar alguns pontos, também, como a sempre boa presença de Haley Bennett e a ótima trilha sonora composta pelo veterano Hans Zimmer. Sinto que a obra tem bom ritmo, conseguindo manter o público atento, apesar dos erros.

NOTA: 6,5

  • País de origem: EUA
    Título origina: Hillbilly Elegy
    Ano: 2020
    Disponível: Netflix
    Duração: 116 minutos
    Diretor: Ron Howard
    Roteiro: Vanessa Taylor
    Elenco: Amy Adams, Gabriel Basso, Glenn Close, Owen Asztalos, Haley Bennett, Freida Pinto

O Gambito da Rainha

Como tornar uma história sobre xadrez interessante? Este é o grande obstáculo vencido na minissérie “O Gambito da Rainha”, que facilmente nos prende por seus belíssimos 7 episódios.

Baseado no romance de Walter Tevis, a obra nos leva a conhecer a hipnotizante jornada de Beth Harmon, que após perder a mãe, é levada para um orfanato, local que a faz conhecer o xadrez. Este é o primeiro passo de uma vida de excessos, de ascensão e fama, de perdas. O roteiro é brilhante, narrando com cuidado e uma riqueza de detalhes fascinante. Não é preciso entender e gostar de xadrez para embarcar na trama. A obra nos convida a todo instante a participar de seus gloriosos eventos e vamos com prazer, tamanho deslumbre que nos causa.

Anya Taylor-Joy cai como uma luva na pele da protagonista. É uma personagem intrigante, complexa, que enquanto vai de encontro ao seu maior adversário no esporte, precisa enfrentar seu passado, preenchendo as lacunas necessárias para seguir em frente. Sua presença é estonteante, nos faz torcer, vibrar e tentar entendê-la.

A produção é de um grande charme. Os figurinos traduzem com perfeição as tantas fases enfrentadas por Beth, assim como os cenários, objetos de cena, tudo em irreparável estado. A trilha sonora assinada por Carlos Rafael Rivera é um espetáculo, trazendo a tensão e emoção necessária para cada instante. Scott Frank dirige todos os episódios e ele sai daqui com um belíssimo produto no currículo. Ele conduz todos esses elementos de maneira admirável, mantendo o nível do começo ao fim.

“O Gambito da Rainha” é um belíssimo acerto da Netflix. Vale muito a pena se deixar levar por esta grande história e produção.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: The Queen’s Gambit
    Disponível: Netflix
    Elenco: Anya Taylor-Joy, Marielle Heller, Harry Melling, Thomas Brodie-Sangster, Jacob Fortune-Lloyde, Moses Ingram, Bill Camp