Quem será o seu legado?

Poderíamos estar diante de uma bem-vinda releitura de Bonnie e Clyde. Aquela velha história do casal que foge após cometer um crime. No entanto, felizmente, “Queen & Slim” é muito mais do que isso. Sim, a premissa da obra é a que já conhecemos, mas há, nas suas entrelinhas, um debate poderoso e que dá o tom da obra. No começo, somos apresentados ao casal Slim (Daniel Kaluuya) e Queen (Jodie Turner-Smith), que estão se conhecendo em um jantar. No retorno para a casa, porém, são parados por um policial e quando, em um ato de desespero e defesa, Slim o mata, o casal se vê obrigado a fugir. Os dois traçam uma rota pelos Estados Unidos enquanto, do outro lado, se tornam símbolo de rebeldia e justiça para a comunidade negra.

Dirigido por Melina Matsoukas, conhecida no meio do entretenimento por dirigir clipes de cantoras como Beyoncé, Jennifer Lopez e Katy Perry, ela traz para a tela toda a beleza de um vídeo musical. Seus cortes, enquadramentos e a belíssima fotografia dão sinais de uma profissional muito consciente sobre como rege esses elementos dentro de sua obra e que ilustram, com perfeição, suas tantas intenções. Mulher. Preta. Ela está em seu lugar de fala e retira, de uma premissa simples, um discurso poderoso sobre racismo e aproveita, através de seu total domínio estético, para fazer um tributo à cultura negra em geral. Pelas ruas de Ohio, Nova Orleans. Pelos bares de jazz. Seja na dança, nas roupas, seja na postura de seus protagonistas. Há elementos clássicos de um road movie, mas sua beleza está nesses detalhes. Detalhes que constroem sua identidade. Identidade que da voz ao seu manifesto.

“Se eu tivesse a chance, eu teria beijado todas as suas cicatrizes.”

“Queen & Slim” diz muito sobre essa luta conjunta entre os negros. Desse suporte e da cultura que ilustra esses discursos. É interessante quando um ato, criminoso até, é visto como um ato de coragem, de libertação por aqueles que os entendem. Que vivem na mesma pele. Que vivem a mesma luta. Sem precisar defender tal atitude, o roteiro entende a força que esses eventos causam na sociedade e que há beleza nessa identificação. Emociona ao ver que na fuga também existe a proteção por todos aqueles da mesma comunidade. É até mesmo nos belos diálogos entre o casal, existe uma cumplicidade, solidariedade, uma conexão que vai muito além de um romance. É uma questão histórica. O filme diz muito sobre esse racismo enraizado na cultura e como ele define a história de alguém, costura seu rumo, constrói seus medos. Sobre como essa estrutura racista, ainda que velada, transforma as interações humanas.

A obra, ainda que muito bem dirigida, tem suas quebras. Talvez por a todo momento os personagens estarem em um canto diferente, mesmo que isso traga uma agilidade e dinamismo na trama, também traz oscilação, entregando alguns instantes sem a mesma potência que outros. Há, também, alguns bons respiros, como quando eles param para ver um cavalo ou sentir a brisa pelo carro. Pode parecer aleatório, mas acredito que esses minutos fortaleçam o laço entre o casal, além de serem visualmente lindas de se verem. Aliás, ambos estão incríveis em cena. Jodie Turner-Smith é uma boa revelação e Daniel Kaluuya comprova, mais uma vez, sua força como ator.

Queen e Slim, a todo momento, questionam o legado que deixarão no mundo. Nessa viagem incerta, sem destino, a maior preocupação deles é serem esquecidos, é que toda a luta seja em vão. Neste sentido, então, o final vem como um soco doloroso na alma. É bonito pela mensagem que deixa, mas impacta porque há um tom de veracidade em sua tragédia.

NOTA: 9,0

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 132 minutos
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Melina Matsoukas
    Roteiro: Lena Waithe, James Frey
    Elenco: Daniel Kaluuya, Jodie Turner-Smith

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