uma trama inusitada, mas com uma abordagem inofensiva demais
Pode existir um abismo entre o que somos e o que queremos ser. Entender nossa própria identidade e entender como queremos nos expressar, muitas vezes, exige exposição e coragem para sair do próprio casulo. É com essa ideia que Richard Linklater, em parceria com o ator Glen Powell, escreve o roteiro de “Assassino Por Acaso”. Ele sabe como aguçar nossa curiosidade diante de seus absurdos, mas infelizmente, apesar de entregar um produto divertido e sexy, falta um tempero. Falta sair justamente dessa zona de conforto que o próprio filme nos alerta.
A obra é levemente inspirada na vida de Gary Johnson, um cara que vivia uma vida tranquila e rural na década de 90 e mesmo assim ajudou a polícia a prender mais de 60 pessoas. Gary aqui é interpretado pelo ator do momento, Glen Powell. Na trama, ele divide seu tempo entre ser um professor de psicologia e trabalhar para a polícia. Com um rosto esquecível, ele cria uma série de disfarces para fingir ser um “assassino de aluguel” – o Ron – e prender potenciais criminosos antes que cometam os assassinatos. Tudo começa a fugir do rumo quando ele acaba se apaixonando por Madison (Adria Arjona), uma dessas suspeitas, que é vítima de um casamento abusivo e que decide matar o próprio marido.

Ainda que tudo soe pesado, o filme navega com muita leveza e humor. É muito inusitado esse encontro entre o casal protagonista e a obra ganha e muito com a junção dos dois. Não só porque há muita química entre Powell e Arjona, mas por essa relação de fantasia que existe entre eles. Neste relacionamento, Madison não vê problema em estar atraída por um assassino de aluguel. Ela se sente protegida e se sente livre do passado. Gary se aproveita disso. Estar ali, o faz abraçar por inteiro a identidade de Ron. O faz ser aquele que deseja ser. É a troca de falsidade que ambos necessitam naquele momento.
Sinto, por outro lado, que o filme explora pouco esse amor existente entre os dois. É difícil acreditar que Gary jogaria toda sua carreira fora – inclusive cometendo atrocidades – para salvar alguém que nunca se mostra tão sincera. Para isso deveria existir um sentimento muito intenso e é algo que não se vê na tela. Madison também está sempre de escanteio. É uma personagem extremamente interessante e ficamos naquela sede por tentar desvendá-la, por vê-la além dos olhos do protagonista, mas o roteiro pouco tem interesse nessa ambiguidade dela, deixando tudo muito raso. E devido a isso, torna-se difícil embarcar nas decisões do final. Todos os conflitos são jogados para debaixo do tapete. Tudo é simplesmente abafado em prol de um final feliz.
Há outro fator na narrativa que já me despertou um incômodo logo nos primeiros minutos. Uma estranheza que me afastou um pouco do universo que a obra propõe. Gary é jogado para uma missão do qual ele não tem noção alguma. Ele é descrito como o cara nerd engomadinho e, de repente, sem qualquer preparo ou justificativa, ele se transforma em um ser fodão, com postura de hitman, uma inesperada habilidade de interpretação e um plano infalível de disfarces. O texto não faz nenhum proveito desta “inadequação” e simplesmente precisamos aceitar. Falta desenvolvimento na trama, um caminho mais crível para que possamos, de fato, embarcar na brincadeira.

Richard Linklater é um cara que sempre buscou encaixar questões filosóficas para dentro de seus filmes. No entanto, existiu um esforço aqui um tanto quanto forçado demais. Ele quebra sua jornada, a todo instante, para mostrar Gary filosofando em suas aulas, como se buscasse, nessas cenas, explicar de forma didática as ações do protagonista. São cenas pouco atrativas e que estão ali apenas para validar a própria criação. É como se não acreditasse tanto nela ou precisasse que o público – ou os críticos – o levasse mais a sério.
“Assassino Por Acaso” tem seus tropeços, mas é inegável que tem lá seu charme. É divertido, leve e possui uma trama inusitada. E o principal, tem dois atores muito a vontade em cena, que nos mantém com um constante sorriso no rosto. Por outro lado, há também o esforço de tornar tudo aprazível demais. Por fim, é uma obra muito inofensiva, que pouco se aproveita de seus conflitos e, consequentemente, quase nunca gera algum tipo de excitação ou aquela sensação de tensão quando tudo pode dar errado. É bonitinho e limpo demais. Assim como alguns outros trabalhos do diretor, falta um tempero. Algo que chacoalhe de fato sua trama e a faça sair do conforto.
NOTA: 7

País de origem: Estados Unidos
Título original: Hit Man
Ano: 2024
Duração: 113 minutos
Diretor: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Glen Powell
Elenco: Glen Powell, Adria Arjona, Austin Amelio, Retta
