O tenebroso ciclo da vida

Alguns temas são difíceis de serem tratados no cinema e por isso é tão raro vê-los em pauta. Por muito tempo senti realmente falta de obras que falassem sobre Alzheimer e tivessem a sensibilidade necessária para falar do assunto de forma responsável e necessária. Se há pouco me deparei com a grandeza de “Meu Pai”, agora me deparo com “Relíquia Macabra”. Existe coragem em usar do terror para expor algo tão íntimo e doloroso. O terror é aquilo que evitamos ver, evitamos sentir. Interessante, então, nesse sentido, em como a jovem cineasta Natalie Erika James explora o gênero para revelar aquilo que tanto tememos, mas inevitavelmente enfrentamos. O envelhecimento e o esquecimento da nossa própria existência.

Produzido por Jake Gyllenhaal e com produção executiva dos Irmãos Russo, o longa coloca em cena três mulheres de diferentes gerações, que são confrontadas por esse tenebroso ciclo da vida. Quando a avó, que já apresenta sinais de demência, desaparece, a filha e a neta retornam para a casa no intuito de encontrá-la e compreender o que aconteceu. Como um bom terror exige, tudo é mais sinistro do que parece. E acredito que esta seja um pouco sua falha. Mesmo com um material tão rico, às vezes, opta pelo susto óbvio para ser mais acessível. No entanto, isso não diminui seu impacto e beleza de suas intenções quando são reveladas.

Em “Relíquia Macabra”, a diretora cria uma atmosfera de tensão que nos mantém intrigados. As cores frias, a escuridão das cenas, a bagunça daqueles pequenos espaços. Tudo causa um certo incômodo e, por fim, ilustram bem os sentimentos daquelas mulheres e da confusão e medo que é ter que lidar com uma situação tão delicada, sem precedentes. O corpo da avó é como as estruturas em decomposição da casa, se diminuindo, sendo engolida pelo tempo. Poderosos os instantes em que ela ingere suas fotografias ou quando, dentre tantos bilhetes que escreve para se recordar de atos corriqueiros, é onde anota sua maior indagação: se ainda é amada.

A verdade é que não me recordo a última vez em que um filme de terror me emocionou. Provável porque vivo parte dessa dor que o filme relata dentro de casa, parte desse medo diante do incerto, diante desse ciclo que um dia pode me alcançar. O final me levou às lágrimas diante do poder de suas imagens e do belíssimo acontecimento que encerra essa jornada. Como é difícil despir o que ontem era inteiro, ter que encontrar a força para cuidar de alguém se foi, mas ainda está ali. Como é difícil amar o que você não mais reconhece.

NOTA: 8,0

País de origem: Austrália, EUA
Ano: 2020
Título original: Relic
Disponível: Telecine Play
Duração: 85 minutos
Diretor: Natalie Erika James
Roteiro: Natalie Erika James
Elenco: Emily Mortimer, Bella Heathcote, Robyn Nevin

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