Os 25 melhores filmes de terror da década

O terror foi um dos gêneros que mais nos trouxe filmes interessantes nesta última década. Foi notável a melhora na qualidade das produções que inovaram e conseguiram explorar todas os caminhos possíveis. Seja por um viés mais dramático, por um mais cômico. Seja pelo terror psicológico que ganhou belíssimos exemplares nesses 10 anos que passaram. O terror deixou de ser uma única coisa, de seguir uma fórmula e foi lindo como todas essas obras que cito aqui redefiniram, de alguma forma, o medo. Algumas pessoas até gostam de acreditar que nasceu uma nova fase: o post-horror, mas é apenas uma questão de denominação. O gênero continua o mesmo.

Com um prazer enorme, listo agora os 25 melhores filmes de terror que tivemos nesta década (2010 – 2019). Se lembrarem de outro título que merecia estar aqui, deixem nos comentários. Espero ter sido justo e espero que gostem da seleção. E caso não viram algum, deixo aqui como minhas dicas!

25. Garota Sombria Caminha Pela Noite
2014 | Ana Lily Amirpour

Nada é mais gótico que uma vampira de burca andando de skate pela noite. O terror iraniano revelou o talento da diretora Ana Lily Amirpour e nos mostrou uma nova forma de encarar os vampiros no cinema. O longa nos revela os ataques de uma jovem selvagem contra aqueles que desrespeitam mulheres no silêncio da noite. Filmado em preto e branco, o filme traz algumas sequências desconfortáveis de violência mas, ao mesmo tempo, encanta pela delicadeza ao narrar o romance entre a garota e um adolescente perdido.

24. Amizade Desfeita
2014 | Levan Gabriadze

“Amizade Desfeita”, no mínimo, oferece uma experiência diferente para o público. Apesar de não negar completamente os estereótipos do “terror adolescente”, a produção encontra inovação em sua técnica, narrando toda sua trama através de uma tela, deixando seus personagens interagirem por suas redes sociais e permitindo que o seu “vilão” se mantenha no anonimato. É um produto atual que dialoga com a nova geração, explorando o medo no ambiente online.

23. Pânico 4
2011 | Wes Craven

“Pânico 4” é aquela sequência que ninguém pediu mas veio para dar uma bela lição, no meio de suas tantas ironias e metalinguagens, que Hollywood deve parar de fazer continuações que desrespeitem as obras originais. O longa também marca o último registro de Wes Craven e seu belíssimo legado para o gênero. É um produto divertido, irreverente, que mesmo brincando com os clichês do slasher consegue nos entregar uma trama interessante, com boas sacadas e um final surpreendente.

22. A Morte Te dá Parabéns
2017 | Christopher Landon

Uma garota mesquinha do colégio é brutalmente assassinada por um indivíduo mascarado. Acontece que depois ela acorda e percebe estar vivendo em um eterno looping, no mesmo dia, até descobrir quem está por trás de sua própria morte. O filme resgata com louvor o slasher, subgênero que fez sucesso na década de 90, e brinca com inteligência com a fórmula. Um roteiro divertido, empolgante e que traz sempre ideias criativas para dentro das cenas.

21. O Babadook
2014 | Jennifer Kent

O filme independente de Jennifer Kent foi um dos títulos que marcaram esta nova era do gênero. Com poucos recursos, ela redefiniu o terror psicológico ao colocar em cena uma das criaturas mais assustadoras desses últimos anos: o babadook. O pesadelo que ganha vida e transforma a conturbada relação entre um garoto e sua mãe, que sofre pela morte de seu marido. Há muitas metáforas aqui e o pavor acaba sendo uma representação dos traumas vividos por seus protagonistas.

20. Vingança
2018 | Coralie Fargeat

A grande força de “Vingança” está em seu visual. Com cores vibrantes e uma fotografia estonteante, a diretora Coralie Fargeat constrói um produto sensorial e uma experiência de tirar o fôlego. A história nos revela a busca de vingança de sua protagonista, que luta por matar friamente aqueles que a assediaram. As mortes aqui são extremamente gráficas e chocam pela violência explícita.

19. Kill List
2011 | Ben Weathley

“Kill List” é um dos raros exemplares do terror britânico e facilmente entra na lista dos filmes mais perturbadores da década. É aquele tipo de produto que não deixa ninguém ileso e nos faz ficar remoendo em teorias por conta das tantas respostas que não nos dá. Definitivamente serviu de referência para algumas obras posteriores ao inovar na forma como revela uma seita pagã. Na trama, um pai de família aceita o serviço de matar três pessoas por dinheiro mas logo percebe que nada é o que parece. Um filme violento, brutal e explícito, que choca por diversos instantes e nos deixa atordoados por sua sequência final.

18. A Visita
2015 | M.Night Shyamalan

O mestre M.Night Shyamalan deixou sua marca no terror na década com uma das obras mais simples e caseiras que ele já realizou em sua carreira. Utilizando a técnica de found footage – que deixou de ser explorada nesses últimos 10 anos -, o filme coloca duas crianças como protagonistas enquanto elas visitam seus avós em uma remota fazenda, não demorando muito até elas perceberem que algo de muito estranho acontece por ali. Uma obra divertida e incrivelmente tensa, que nos reserva alguns bons sustos e instantes sufocantes.

17. It – A Coisa
2017 | Andy Muschietti

Baseado no livro de Stephen King, o filme de Andy Muschietti foi um grande sucesso de bilheteria, quebrando alguns recordes para o gênero. A trama gira em torno de um grupo de crianças que são aterrorizadas por um ser sobrenatural, o palhaço Pennywise, que se tornou uma das figuras mais emblemáticas desta década no cinema, graças a boa performance do ator Bill Skarsgård. A obra traz uma vibe nostálgica deliciosa de assistir e causa bastante impacto com suas belas sequências de terror.

16. Midsommar
2019 | Ari Aster

Um dos filmes mais bizarros que tivemos o prazer (ou desprazer) de assistir nesta década. O diretor e roteirista Ari Aster vai além do limite e explora com extrema perversão um misterioso culto pagão. O pavor aqui é entregue à luz do dia e nos deixa completamente aterrorizados e desconfortáveis por suas sequências. O roteiro tenta investigar os traumas e complexidade de sua forte protagonista, defendida com garra pela jovem Florence Pugh, enquanto ela imerge em uma nova e assustadora cultura.

15. Nós
2019 | Jordan Peele

O fascínio de “Nós”, criação do mestre Jordan Peele, vem justamente por ele ter conseguido criar, em seus belos minutos, toda uma mitologia que explique suas invenções. São inúmeras saídas inteligentes que fazem com que a trama ganhe cada vez mais complexidade e proporções imprevisíveis. O filme investiga a invasão das “cópias” que saem do submundo para matar sua matéria original, focando na jornada de uma família que precisa lutar contra seus respectivos duplos. É um produto original, divertido, que explora bem seu universo e sua grande protagonista, revelando uma potente atuação de Lupita Nyong’o.

14. Invasão Zumbi
2016 | Sang-ho Yeon

Grande sucesso do cinema sul-coreano, a trama toda, basicamente, acontece dentro de um trem, enquanto uma epidemia transforma os habitantes em zumbis. Mistura bem orquestrada de ação, terror e drama, a obra é daquelas que nos prende a atenção do começo ao fim. Um produto divertido, empolgante e satisfatoriamente eletrizante. Definitivamente, um ótimo exemplar de filme com zumbi.

13. Um Lugar Silencioso
2018 | John Krasinski

“Um Lugar Silencioso” foi uma grande surpresa. O som, que sempre foi a muleta do gênero, é retirado para que a tensão seja encontrada no silêncio. É genial acompanharmos seus protagonistas atravessando uma longa jornada sem se expressar verbalmente, fugindo de criaturas que atacam quando percebem algum ruído. É simplesmente agonizante essa situação e o filme faz bom proveito disso, entregando sequências eletrizantes e de pura tensão. De certa forma, surpreendentemente, ainda emociona quando seus personagens precisam encarar o luto mas jamais podem expressar o que sentem. Há sensibilidade em cada relação e este é o grande trunfo da obra.

12. A Bruxa
2015 | Robert Eggers

“A Bruxa” marcou uma grande ruptura do gênero nesta década, dando início a uma nova forma do cinema encarar o terror. Robert Eggers foi um dos maiores e mais relevantes nomes revelados nesses últimos anos e isso se deve pela riquíssima qualidade de seu trabalho. Ele basicamente nega as fórmulas que conhecemos e constrói algo novo, único e de grande impacto. O medo está presente em sua atmosfera densa, nos diálogos e em tudo o que seus personagens representam. A trama nos mostra uma Inglaterra Medieval, quando uma família é deserdada da Igreja e passa a suspeitar de forças malignas pelo sumiço do filho mais novo.

11. Rua Cloverfield, 10
2016 | Dan Trachtenberg

Sequência “espiritual” de Cloverfield de 2008 e produzido por J.J.Abrams, o filme merece respeito por conseguir criar uma atmosfera inquietante mesmo se utilizando de pouquíssimos recursos e espaços. O medo vem pela incerteza do que há no mundo de fora daquelas paredes e pela tensão existente entre seus três protagonistas, que vivem isolados dentro de um bunker. Mary Elizabeth Winstead é uma das mais respeitadas Scream Queen do cinema e prova seu talento aqui, ao lado dos ótimos John Goodman e John Gallagher Jr. A relação entre eles é o que torna a obra tão rica, assim como o belíssimo roteiro.

10. Corrente do Mal
2014 | David Robert Mitchell

Uma força maligna que é transmitida através do sexo parecia uma ideia bem bizarra e com grandes chances de dar errado. Felizmente não deu e o diretor e roteirista David Robert Mitchell soube muito bem como fazer isso funcionar e acabou por realizar uma das obras mais originais e fascinantes dentro do gênero que tivemos nesta década. Com uma deliciosa vibe oitentista e uma atmosfera de filme indie, o roteiro acerta ao compor sua forte protagonista e no dilema moral que enfrenta.

09. Você é o Próximo
2012 | Adam Wingard

Um reencontro de família é arruinado quando estranhos usando máscaras de animais começam a atacá-los. Com muita violência, sangue e boas surpresas, “Você é o Próximo” revelou o talento do diretor Adam Wingard dentro do gênero, que soube trazer frescor mesmo utilizando fórmulas tão batidas e recuperando com força elementos do terror da década de 90. A protagonista é excelente, se firmando com uma das grandes final girls que tivemos nos últimos anos.

08. O Lamento
2016 | Na Hong-jin

Uma grande pérola do cinema sul-coreano, “O Lamento” busca no folclore e na cultura do país para narrar uma história cheia de simbolismos e de possíveis interpretações. O filme fala sobre uma comunidade que passa a enfrentar uma praga após a chegada de um misterioso homem no local. Apesar de trazer elementos do terror, não aposta no medo e na tensão para nos manter atentos, mas sim em seu roteiro bem elaborado e em seus personagens carismáticos. Há bastante humor também, o que só nos aproxima ainda mais ao seu peculiar universo.

07. O Convite
2015 | Karyn Kusama

Uma reunião entre amigos. Um convite desconfortável. O filme dirigido por Karyn Kusama narra o retorno de um homem, em meio a um jantar entre conhecidos, à casa que dividia com sua, agora, ex-esposa. Há algo de incômodo em cada instante deste evento e nesta nossa paranoia que nasce por querer compreender o que existe ali, ficamos presos nas situações que revela, tentando decifrar seus mistérios. Muito bem dirigido e atuado, “O Convite” é a prova que a simplicidade também pode nos impactar.

06. O Segredo da Cabana
2011 | Drew Goddard

A paródia excepcional de Drew Goddard. A intenção era ser apenas um produto divertido que faz sátira ao terror, reunindo diversos clichês que fazem parte do gênero. No entanto, a piada foi tão bem elaborada que acabou dando muito certo. Entregaram um roteiro genial, original e bastante intrigante, onde um grupo de jovens bonitos se reúnem em uma cabana e acabam despertando a vida dos mais diversos vilões.

05. O Homem nas Trevas
2016 | Fede Alvarez

Três adolescentes decidem bolar o plano perfeito para assaltar a casa um homem idoso e cego. A simples premissa é apenas o início de um filme eletrizante e surpreendente. A grande reviravolta aqui é que os protagonistas acabam se deparando com um psicopata habilidoso, tornando o espaço limitado de uma casa em um cenário claustrofóbico de uma caçada hipnotizante. Um filme, definitivamente, de tirar o fôlego. Tem bons personagens, roteiro bem construído e uma direção fascinante de Fede Alvarez.

04. Invocação do Mal
2013 | James Wan

Se James Wan deixou um legado nos anos 2000 com “Jogos Mortais”, na década passada ele deixou sua marca com “Invocação do Mal”, provando ser um dos grandes nomes do terror. Uma casa mal-assombrada e afastada da civilização, uma família traumatizada e um casal de demonologistas. Tem susto, possessão e uma tensão hipnotizante presente em todas as cenas. O filme conseguiu recuperar diversos elementos do terror mais clássico e entregou um produto refinado, empolgante e prazeroso de ver pelo simples fato de ser bem escrito, bem dirigido. O grande destaque, também, vai pelo roteiro que desenvolveu tão bem suas ideias e seus personagens, nos fazendo acreditar em seu assustador universo.

03. Boa Noite, Mamãe
2014 | Veronika Franz, Severin Fiala

O filme austríaco que pegou muita gente de surpresa. A trama é tão interessante que aos poucos foi ganhando fama na época de seu lançamento. Ao mostrar a relação conturbada entre uma mãe e seus dois filhos gêmeos, o longa provou ser um rico exemplar do terror psicológico. Poucos cenários, cenas impactantes e um final absurdamente genial. O plot twist é um dos mais brilhantes que tivemos nos últimos anos. É possível prever antes, mas a graça mesmo é deixar ser enganado.

02. Hereditário
2018 | Ari Aster

Gosto de afirmar que se o demônio tivesse a chance de fazer um filme, ele faria algo como “Hereditário”. Ari Aster, outra grande revelação no gênero, redefiniu o terror e construiu, em seus belos minutos, uma obra impactante e perturbadora. É simplesmente assombroso cada instante e nos choca ao colocar uma família precisando viver no mesmo espaço depois de presenciarem eventos tão traumáticos. Como um pesadelo que dificilmente esquecemos, o longa ainda nos deu o presente de ver uma das mais incríveis atuações da década: Toni Collette arrebenta.

01. Corra
2017 | Jordan Peele

“Corra” foi um grande marco nessa década e isso é inegável. O comediante Jordan Peele surpreendeu a todos e se revelou um grande diretor e roteirista. O filme é uma mistura interessante de comédia, terror e com umas boas pitadas de crítica social, revelando com ousadia o racismo estrutural presente em nossa atual sociedade. A história que envolve um jovem negro conhecendo a família branca de sua namorada nos deixou incrivelmente tensos e maravilhados por saídas tão inteligentes.

Qual seu filme de terror favorito desta década?

Crítica: Nós

O medo do outro

“Corra” foi um grande sucesso em 2017, vencendo o Oscar de Melhor Roteiro Original e levando o seu criador, Jordan Peele, aos holofotes. Era de se esperar que em um curto período ele voltaria e a expectativa quanto ao seu retorno seria grande. “Nós” traz muito do que já conhecemos de Peele, uma trama um tanto quanto fantasiosa – com traços de ficção científica – em um terror com tom satírico e simbolismos não tão claros à primeira visita. Pode não ser, obviamente, tão bom quanto seu trabalho anterior, mas ainda é admirável seu esforço como roteirista e diretor, conseguindo entregar um produto refinado, impactante e que mantém o respeito que conquistou em Hollywood.

Na trama, uma família decide viajar para a casa de praia, porém, lá, todos são confrontados por cópias deles mesmos. O que, de início, da a entender que teremos uma perseguição entre os originais e seus respectivos duplos, o filme se expande e ganha e muito ao fazer isso. “Nós” acaba nos apresentando uma interessante mitologia por trás do inusitado evento e ficamos hipnotizados ao seu decorrer, tentando desvendar as razões para tudo aquilo. No fim, uma grande reviravolta, que pode até ser bem previsível para alguns, mas confesso que gosto bastante das saídas que Peele cria, finalizando muito bem suas belíssimas pirações.

Quando os duplos invadem a casa da família são questionados sobre quem realmente são e eles prontamente respondem: “somos americanos”. Vemos, então, uma referência clara ao que os norte-americanos enfrentam desde a eleição de Trump. Há um medo geral naquela nova sociedade que emergiu, medo dos outros, do que vem de fora. É até curioso o uso da palavra “Us”, que pode também ser relacionada à United States. Interessante também em como ambiguidade é trabalhada durante o terror que se instaura. De fato, existe um questionamento sobre quem realmente são os vilões ali, visto que os personagens apresentados como “heróis” são justamente aqueles que praticam a violência em cena. Nós somos nosso pior inimigo e isso é aplicado de forma literal aqui. Ao término, claro, tudo isso ganha uma razão e vamos, aos poucos, juntando as peças apresentadas e quando fazemos isso compreendemos o quão grande é esta ideia. São pequenos e ricos detalhes que tornam a obra ainda mais admirável. A produção também acerta e Jordan Peele finaliza seu produto com grande capricho. A montagem, a fotografia e até mesmo a escolha das canções inseridas. Tudo em excelente estado.

O que me incomoda em “Nós” e me incomoda bastante é seu humor. Em “Get Out” a comédia causava um incômodo proposital, tinha uma razão para estar ali. Já neste novo filme, os instantes cômicos são tantos que quebra o tom, impede de levarmos suas tantas ideias a sério. Há uma constante quebra de clima que nunca se justifica. É compreensível que Jordan Peele enquanto comediante traga isso para suas obras, mas é necessário saber quando e porque e em “Nós” não há isso. Teria sido uma experiência muito mais impactante se ele tratasse sua criação com um pouco mais de seriedade. É difícil de acreditar no que o roteirista diz quando se dá a impressão que nem mesmo ele acredita. Outro problema que vejo é a conveniência do roteiro, que da aquela facilitada quando seus personagens precisam, como quando sempre faz com que um encontre o outro na hora certa, ou quando objetos que podem ser usados como armas sempre surgem ao alcance dos heróis quando eles estão em perigo.

“Nós” ainda traz uma excelente performance de Lupita Nyong’o. Acredito que este papel, que ela abraça com tanta garra, possa abrir novas portas para ela, até então uma atriz pouco valorizada, mesmo com um Oscar na prateleira. O restante do elenco também está ótimo, principalmente os mais pequenos. Se trata de um filme tenso, inteligente e que te fará repensar muitas e muitas vezes depois que terminar. É o tipo de obra que merece uma revisita e uma atenção especial. O terror vive sua melhor era em muitos anos e “Nós” entra facilmente para essa consagrada lista.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 116 minutos
    Título original: Us
    Distribuidor: Universal Pictures
    Diretor: Jordan Peele
    Roteiro: Jordan Peele
    Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Elizabeth Moss

Crítica: O Bebê de Rosemary

O medo causado pela incerteza

Todo mundo tem aquele clássico do cinema que fica postergando para assistir e um dos meus sempre foi “O Bebê de Rosemary”. Por anos esteve na minha lista e só agora resolvi dedicar um tempo para ver. Lançado em 1968 e baseado no livro de Ira Levin, o filme é conhecido com um dos melhores títulos de terror da história, marcando época e servindo, até hoje, de referência para o gênero. Seu realizador, Roman Polanski, por sua vez, não conseguiu se manter nesse tempo e hoje tem seu nome sempre vinculado à polêmicas. No entanto, ele constrói aqui um cenário aterrorizante e devido suas escolhas conseguiu eternizar seu produto. É interessante perceber o quão precursor ele foi e como o terror psicológico foi trabalhado aqui, sem apostar em jump scare ou outros tantos recursos que poderiam prejudicar suas intenções. A grande sacada da obra são as dúvidas que o roteiro vai nos deixando, nos permitindo adentrar na história e ser tão paranoicos quanto sua forte protagonista.

Ao início, somos apresentados a um casal que se muda para um apartamento em Nova York. Rosemary (Mia Farrow) é casada com Guy (John Cassavetes), um ator promissor, e juntos tentam um novo começo na cidade grande, local que decidem ter o primeiro filho. O clima de harmonia se altera quando os excêntricos vizinhos começam a invadir a vida deles, além das tantas histórias que passam a ouvir sobre o passado do mal assombrado edifício. Pouco tempo depois, após um terrível pesadelo, Rosemary descobre estar grávida e apesar da felicidade em conquistar o que queria, começa a adentrar em uma paranoia envolvendo o nascimento do bebê e as tantas situações incomuns que iniciam nesta sua nova rotina.

Através de elementos do cotidiano, Polanski consegue construir uma atmosfera de extremo pavor. O medo nasce já pelo incômodo de assistirmos aquela frágil mulher tendo que enfrentar tamanha pressão. Seja pelo marido que nunca a apóia e apenas a pressiona pela forma como age ou até mesmo como corta seu cabelo. Seja pelo médico ou pelos novos vizinhos que controlam sua gravidez. É desconfortável vê-la tendo que lidar com tudo isso, ao mesmo tempo em que enfrenta um período tão delicado como dar vida a um filho. Por trás do terror desses eventos, a obra não deixa de ser um relato dessa pressão existente na vida da mulher, dela ter que se provar a todo instante enquanto precisa se encaixar perfeitamente ao que a sociedade espera dela enquanto mãe e esposa. Rosemary está sozinha em sua batalha e é desesperador enfrentar esta jornada ao seu lado. 

“O Bebê de Rosemary” coloca sua protagonista lidando com este estresse pós-parto e ao percebermos o quão desolada e vulnerável está, nos faz questionar se seus discursos fantasiosos não são apenas reflexo deste seu novo estado, de seu delírio. Rosemary, após receber um livro de bruxaria de um amigo próximo, passa a questionar a possibilidade de estar sendo vítima de algum pacto ou culto pagão. Há cada nova cena somos apresentados a uma nova pista que nos faz duvidar junto com ela. O medo da obra vem justamente desta incerteza, desta possibilidade de existir ou não um ritual macabro e de que os pesadelos que surgem na mente da protagonista podem não ser apenas alucinações. Os dois lados são possíveis e é brilhante como o filme consegue manter este suspense boa parte da trama. Sentimos a tensão porque não sabemos o que há do lado de fora daquele apartamento, porque não sabemos o que de ruim pode acontecer com aquela mulher ou com seu filho.

Mia Farrow, em começo de carreira, surpreende como protagonista aqui. É incrível de assistir a transformação física e psicológica dela em cena, em como ela se transforma e torna tudo ainda mais convincente. Há garra mesmo na sua doçura, que nos faz torcer por ela, vibrar e se colocar em seu lugar a todo instante. Sua feição de espanto ao final é simplesmente memorável. Apesar da belíssima atuação, curiosamente, quem saiu vencedora do Oscar no mesmo ano foi a coadjuvante Ruth Gordon, que está ótima, mas nada que justifique tal prêmio. John Cassavetes surge carismático e cumpre bem o papel.

Gosto de como a obra vai sendo construída aos poucos, como o roteiro vai revelando suas camadas e seus mistérios no tempo devido. Quando mal percebemos, estamos completamente imersos em seu universo e tudo isso se deve, não apenas ao excelente roteiro, mas a boa direção de Polanski que redefiniu aqui o terror, que desenhou uma nova forma ao medo. Os últimos minutos de filme são simplesmente hipnotizantes, eletrizantes e incrivelmente tensos. Apesar de não revelar tudo, revela o necessário, o suficiente para nos deixar atordoados muito tempo depois que termina. “O Bebê de Rosemary” é daquelas produções que ecoam na mente e nos deixam reflexivos, pensando sobre tudo o que nos foi mostrado. É a grande prova do quão longe o gênero pode ir, pode nos afetar. 50 anos nos separam mas, definitivamente, não envelheceu em nada.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 1968
    Título original: Rosemary’s Baby
    Duração: 136 minutos
    Distribuidor: Paramount Pictures
    Diretor: Roman Polanski
    Roteiro: Roman Polanski
    Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon