Crítica: A Maldição da Mansão Bly

A segunda temporada da série antológica da Netflix vem com um grande peso nas costas: manter a qualidade oferecida na fantástica “A Maldição da Residência Hill”. É natural que essa expectativa exista e, infelizmente, “Mansão Bly” não é apenas inferior à sua antecessora. Sou mais radical nesse caso…não chega aos pés.

Inspirada levemente na obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso”, que por sua vez já foi adaptada outras vezes para a tela como em “Os Inocentes” (1961), “Os Outros” (2001) e mais recentemente em “Os Órfãos” (2020). Acompanhamos a chegada de uma tutora em uma mansão vitoriana para cuidar de duas crianças órfãs. Logo percebemos que algo de assombroso ocorre dentro daquelas paredes e a série, aos poucos, se propõe a dar suas respostas, que nunca surgem de forma clara ou muito óbvia. O que é ótimo, visto que nosso olhar já vai preparado por se basear em um material tão conhecido, e o roteiro, com toda sua liberdade narrativa, se arrisca a trazer novos detalhes, quase como se expandisse esse universo criado por James. No entanto, tudo o que a trama nos oferece de “novo” é mal trabalhado e pouco causa interesse.

A série encabeçada por Mike Flanagan, erra mão ao sair do campo da sugestão, tão brilhantemente proposto na obra original. O roteiro busca saídas tolas como respostas, como dar vida a Dama do Lago ou o insuportável Peter Quint com seus planos vilanescos. Toda essa narrativa que cria para justificar seus bons mistérios ganha traços de um novelão melodramático e mal conduzido, inserindo, ainda, tramas de amor tão forçadas que são dificílimas de engolir. A ideia de construir uma narrativa através de flashbacks e fluindo entre diferentes tempos, funciona quando se tem um material rico a ser explorado, o que não é o caso. A ida e vinda de uma trama tão linear como a que oferece, só transforma o show em algo repetitivo e cansativo, revelando de forma maçante os mesmos eventos.

Falta, principalmente, carisma aos personagens que guiam tudo isso. Não há como torcer, vibrar ou sofrer por ninguém que nos apresenta, tamanha a confusão e enrolação que entrega. Me afasta, ainda, as tantas frases de efeito, que surgem como se cada situação da trama viesse pelo simples ato de deixar uma lição de moral. Os indivíduos ali tem sempre um ensinamento calculado por trás de cada ação. É chato, é pedante. Ao menos, confesso, gosto do elenco, em especial as crianças e a hipnotizante presença de T’Nia Miller como governanta. Victoria Pedretti, por sua vez, tem potencial, mas sua performance é incômoda. Seus tantos trejeitos e expressões de boa moça destoam de todo o resto.

Vale destacar a produção, que segue ainda mais cuidadosa nos detalhes. O terror é construído pela atmosfera e pelos elementos que ilustram cada momento. Das cores opacas e frias – muito presentes na filmografia de Flanagan – à iluminação que traz uma áurea fantasmagórica para suas cenas.

“Não é uma história de fantasmas, mas uma história de amor”. Enquanto que a primeira temporada conseguiu com brilhantismo trilhar entre o drama e o terror, os roteiristas aqui falham nesta missão, onde a série não funciona em nenhum dos tantos gêneros que tenta abraçar. Terror não é feito só de sustos e é fantástico quando uma obra entende isso. Mas essa saída ousada não transforma “A Maldição da Mansão Bly” em algo bom, quando o que oferece além da tensão é tão pobre. O que antes era uma produção promissora na Netflix, morre cedo.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: The Haunting of Bly Manor
    Disponível: Netflix
    Elenco: Victoria Pedretti, T’Nia Miller, Oliver Jackson-Cohen, Henry Thomas

Crítica: O Chalé

A pressão do parafuso

“The Lodge” é um filme de terror que tem ganhado fama, aos poucos, aqui no Brasil. É o mesmo caminho que a dupla de diretores e roteiristas, Veronika Franz e Severin Fiala, enfrentou em 2014 quando lançaram “Boa Noite, Mamãe”, que surgiu tímido mas não demorou até ganhar reconhecimento. O trabalho anterior deles foi definitivo para o que hoje é realizado dentro do gênero e este retorno vem para reafirmar a grande habilidade deles em construir obras perturbadoras e de forte impacto. Alguns elementos voltam como o fato da trama se concentrar na relação conturbada entre duas crianças e uma enigmática figura materna. Além, é claro, a interessante construção do roteiro, que tem a capacidade de nos confundir e de driblar nosso olhar para a verdade.

O começo do filme é lento mas é crucial para revelar sua potente intenção. A protagonista Grace (Riley Keough) demora a se revelar, propositadamente. Ela é capturada de costas ou através de vidros esfumaçados. Essa escolha é interessante porque nos guia a criar uma imagem dela pelo olhar e impressão de outras pessoas. A julgamos previamente, não apenas por seu passado mas por ela ser a representação daquilo que, teoricamente, destruiu uma família. Grace está noiva de Richard, cujo os dois filhos pequenos, Aidan e Mia acabaram de perder a mãe que se suicidou. Ainda abalados pela perda, os dois são obrigados a se aproximar da nova madrasta no feriado de Natal, dentro de um chalé em uma região remota e afastada. O filme, então, nos leva a enfrentar esta desconfortável relação entre os três. A tensão piora quando estranhos eventos passam a acontecer ali, levando à protagonista a questionar sua fé e reviver as escolhas de seu passado.

Veronika Franz e Severin Fiala entregam sequências visualmente bem interessantes, capturando seus ambientes por planos bem abertos e até mesmo vertiginosos, construindo uma atmosfera de tensão e constante desconforto. É ainda curioso o uso da casa de bonecas, que recria com perfeição o chalé e nos leva a este sentido dúbio sobre o que é invenção, manipulação ou reconstrução da realidade. Quando o roteiro entrega sua primeira reviravolta, ele bifurca suas interpretações e passamos a questionar o que, de fato, está acontecendo ali. Até que ponto aquilo é real ou alucinação. Os roteiristas apostam em nossas lembranças, até mesmo de outros filmes, para criar um jogo audacioso e um tanto quanto divertido. Eles nos enganam porque sabem onde já fomos enganados outras vezes. Com fortes referências à obra clássica de Henry James, “A Volta do Parafuso” – que serviu de base à muito do que conhecemos no terror dentro do cinema – somos manipulados a enxergar algo através desses símbolos que eles usam, inclusive o próprio nome da protagonista, Grace, logo nos remete à personagem de Nicole Kidman em “Os Outros”, talvez a mais memorável adaptação do conto e que muito se assemelha aos acontecimentos daqui. O grande brilhantismo vem quando ele quebra essa nossa previsão e entrega algo mais palpável, surpreendente e ainda assim, assustador.

A expressão “a volta do parafuso” diz muito sobre o filme também. Ainda que em português não faça muito sentido, o termo é uma metáfora para aquilo que está ruim e pressionamos para ficar pior. As crianças aqui usam da fraqueza de Grace para construir um jogo perverso, a levando a enfrentar seus próprios fantasmas, se afundando dentro de si. O terror psicológico vem justamente dessa mente desestabilizada dela e desta relação que tem com a fé, deste pavor que sente diante dos símbolos religiosos que repreendem seus pecados. Esta perigosa oscilação da personagem é muito bem representada pela atriz Riley Keough, que entrega um de seus melhores momentos no cinema até agora. O filme, no entanto, perde um pouco pela pressa de se revelar, não nos permitindo aproveitar dessa tensão que se constrói e de suas próprias reviravoltas. O final, aliás, é bastante caótico e não explora todo o potencial que tinha, entregando suas revelações de forma fria, longe do climax que poderia alcançar. Sinto falta de conhecer um pouco mais sobre as crianças e entender melhor as motivações delas também. O longa carece ainda de originalidade, desde sua trilha sonora com ruídos à condução dos diretores, tudo nos remete à um cinema ainda muito recente como “Hereditário”, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” e outras obras mais potentes do terror moderno.

Apesar das falhas, “The Lodge” funciona e nos deixa bastante atordoados ao fim, tentando digerir tudo o que nos foi mostrado. Pode não ter o mesmo impacto que outros filmes do gênero, mas merece ser descoberto.

NOTA: 7,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2019
    Duração: 100 minutos
    Título original: The Lodge
    Distribuidor: –
    Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz
    Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
    Elenco: Riley Keough, Jaeden Martell, Lia McHugh, Richard Armitage, Alicia Silverstone