O início de um novo tempo (e tudo aquilo que fica para trás)
Um filme sobre homens que andam de moto. Quem poderia imaginar que isso resultaria em algo tão fascinante? Eu estava quase deixando passar despercebido, até descobrir que o diretor era o Jeff Nichols, responsável por produções que admiro muito como “Midnight Special” e “Take Shelter”. Aqui ele tem como base o livro fotográfico de Danny Lyon, que documentou, através de seus registros, a ascensão e o declínio dos “Vândalos”, clube de motoqueiros que teve origem em Chicago. Uma obra que revive memórias e resgata, por um olhar muito sensível, um período de transformações e frustrações.
“Clube dos Vândalos” navega entre os anos de 1965 a 1974, para investigar o que aconteceu com os homens daquele grupo. É então que entra em cena Kathy, interpretada pela ótima Jodie Comer, que vem como o contraponto de toda a imprudência, sendo o coração do filme. É pela percepção da personagem – a partir do momento em que ela se envolve amorosamente com Benny (Austin Butler), um dos membros – que vamos adentrando aos fatos. Apesar da narração em off caminhar através de vários recortes, o roteiro vai encontrando vida nesses indivíduos, os descrevendo quase como lendas. Como seres esquecidos, que passaram por aqui e hoje já não temos notícias. Fazemos parte desta investigação e sentimos um certo prazer por desvendar este mundo secreto.

Benny está no centro desta história. Quieto e de olhares profundos, sempre é definido pelas palavras dos outros. Apesar da rebeldia, ele acaba por inspirar as pessoas ao seu redor, se encontrando dentro de um triângulo. Não necessariamente feito de amor, mas de desejo e expectativas. O líder do grupo, Johnny (Tom Hardy), o encoraja na missão de ocupar seu espaço no futuro, mas esta é uma passada de bastão que o personagem nunca quis receber. Assim como Johnny, Kathy também aguardava por algo. Uma vida segura e distante da selvageria. Um romance. Ambos projetavam um futuro em Benny. Essas relações baseadas em frustrações acabam por sintetizar muito bem o cenário da obra. Uma comunidade vagando sem rumo pela estrada, precisando lidar com suas expectativas quebradas.
Moto e obscenidade sempre andaram de mãos dadas. Já temos essa ideia pré-estabelecida de que motoqueiros são os foras-da-lei. Os “Vândalos” abraçam esta ideia e usam a mesma jaqueta, não só como prova da paixão em comum pelas máquinas, mas por essa necessidade humana de pertencimento. De fazer parte de algo. E quando eles não se identificavam com mais nada do lado de fora, o grupo tornava-se casa. É desta forma, então, que o longa vai ganhando tons melancólicos, quando vai revelando o fim iminente daquela parceria. Os tempos mudam, novas pessoas chegam e aquele pequeno grupo logo se transforma em uma perigosa e gananciosa gangue.

Jeff Nichols traz muitas referências de Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e desse cinema clássico que explorava a masculinidade violenta e exaltava a virilidade. Mas aqui ele subverte essa narrativa, trazendo humanidade aos personagens, enquanto todos buscam pelo frágil ideal masculino. A cada cena, ele vai esvaziando esses estereótipos, revelando uma geração frustrada, devorada pelos novos tempos. Essas inesperadas camadas impedem que eles caiam em caricaturas e faz com que o filme cresça. Ajuda, claro, ter um elenco tão potente em cena. Há vários rostos conhecidos e todos eles estão em perfeita sintonia.
“Clube dos Vândalos” olha para o passado com afeto, mas também com uma certa tristeza e vulnerabilidade. Jeff Nichols se aproveita desta jornada – com começo, meio e fim – de um grupo de motoqueiros, para falar sobre transformações. Sobre uma geração assistindo a sua própria era sendo apagada. A evolução, às vezes, é movida por esses atropelamentos. Costumes sendo engolidos por outros. Tradições sendo engolidas por outras. No entanto, sempre haverão pessoas que estiveram lá. E a história sobrevive através delas. Através de uma memória coletiva. Jeff Nichols entrega em cena um relato sensível sobre o início de um novo tempo e tudo aquilo que, obrigatoriamente, fica para trás. E com isso, ele continua a construir um cinema muito especial. Cheio de boas referências sim, mas também repleto de alma.
NOTA: 9

País de origem: Estados Unidos
Título original: The Bikeriders
Ano: 2023
Duração: 116 minutos
Diretor: Jeff Nichols
Roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Jodie Comer, Tom Hardy, Austin Butler, Mike Faist, Michael Shannon
