Demorei para escrever sobre esse filme porque o final me causou um grande desconforto. Tal desconforto que não consegui compreender de imediato, precisei de um tempo para digerir. Aliviar a dor no peito que me deixou. Indicado nas principais categorias do Oscar neste ano, “Bela Vingança” é daquelas obras com potencial para sobreviver ao tempo, sendo muito mais do que só um destaque da temporada.

Carey Mulligan está incrível em cena e aqui ela dá vida à Cassandra, uma grande incógnita que vai se revelando aos poucos. O que descobrimos ao início é que ela frequenta bares à noite e se finge de bêbada para atacar homens assediadores que exploram a vulnerabilidade da mulher nessas condições. O que a motiva é um sentimento de vingança, devido a traumas vividos em seu passado.

O roteiro é bastante esperto e vai nos entregando as respostas no devido tempo. E mesmo quando pouco sabemos da trama, é sadicamente divertido acompanhar este jogo perverso criado pela protagonista. A obra sai constantemente do lugar comum ao falar sobre vingança e reformula por completo filmes que já abordaram o mesmo tema. Com trilha musical pop – com direito a Toxic de Britney Spears em um dos momentos cruciais – e uma trama muito bem costurada, a diretora Emerald Fennell nos seduz a este universo, que segue por rumos inesperados e transita de forma harmoniosa e bastante original por diversos gêneros. Se no começo a obra tem o poder de nos fazer sorrir diante de uma inusitada comédia romântica, logo em seguida nos faz temer pelos caminhos obscuros que segue. No fim, compreendemos a força de seus relatos. É doloroso, cruel e impactante. É uma obra que cresce, ganhando proporções cada vez mais insanas.

“Promising Young Woman” é um título mais interessante, que traduz bem o olhar que os outros tem sobre a personagem. A mulher que tinha uma carreira promissora como médica, mas fracassou. Que chegou aos 30 anos e não tem perspectivas sobre o futuro. Todos a julgam pois acreditam saber muito bem como uma mulher deve investir seu tempo, como ela deve ocupar seu espaço. Ela carrega em si um peso que ninguém mais vê e que somente o público tem acesso. Ainda que ela tenha métodos bastante questionáveis, é impossível não vibrar por sua jornada. Neste sentido, é interessante como a diretora a enquadra em cena, sempre com um tom celestial, como se fosse uma santidade, devota em sua missão, com cores e figurinos leves que ilustram uma aura de fragilidade e submissão, exatamente como a sociedade encaixa essas jovens mulheres promissoras. O que não deixa de ser um contraste sarcástico e bem-vindo.

Cassandra viu algo que a sociedade parece rejeitar. Crimes de assédio cometidos por homens “de bem” são silenciados na mesma proporção que a dor das mulheres enquanto vítimas. De que o futuro desses jovens são promissores e uma barbaridade “qualquer” não pode defini-los. Os vilões desta história usam calça mocassim e sapatênis. Estão na faculdade e amanhã serão os chefes. São cavalheiros, educados e românticos. E não há nada mais assustador que isso, porque nos lembra dessa realidade que vivemos, de que esses homens estão ao nosso redor, vitoriosos, invisíveis sobre qualquer julgamento.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título original: Promising Young Woman
    Duração: 113 minutos
    Diretor: Emerald Fennell
    Roteiro: Emerald Fennell
    Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Laverne Cox, Jennifer Coolidge, Chris Lowel, Adam Brody, Alfred Molina

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