Um melancólico conto sobre a morte

“A Ghost Story” me pegou de surpresa. Não sabia o que esperar, apesar de já ter ouvido inúmeros elogios de outras pessoas. Foi um baque. Um choque lento, doloroso e que me fez ter a certeza de que estava diante de algo diferente de tudo o que já vi. Ora drama, ora um assombroso conto de terror. O diretor David Lowery (Amor Fora da Lei), que tem ainda uma carreira curta em longas-metragens, traz alguns traços curiosos que remetem a autenticidade de uma HQ e esta liberdade cartunesca. Seu protagonista é um fantasma que usa um lençol com buracos nos olhos e o filme caminha praticamente todo em silêncio. O poder da obra está em seu visual e é um jogo que funciona. Suas sequências flutuam com a mesma facilidade que nosso olhar flutua pelas páginas em quadrinhos. É um produto feito de belas imagens e que nos atinge fortemente. Que nos impacta com o vazio, nos faz refletir sobre a vida e nos faz sentir tão pequenos diante dela.

A jornada do protagonista (Casey Affleck) se inicia com sua morte. Um acidente de carro o leva para um outro plano, porém, sem conseguir se ver longe de sua esposa (interpretada por Rooney Mara), ele retorna a casa em que viveram juntos e passa a assistir sua vida sem ele. Como um fantasma sem rumo, o tempo passa diante de seus olhos a caminho de outros ciclos, outros fins. É estranho e incômodo ver o que ele vê, assistir passo a passo o vazio deixado por sua ausência. Estar perto e tão distante, inacessível a própria vida. Por isso é tão triste sua caminhada, porque nos faz sentir esse mesmo vazio. Olhar para o lado e perceber que nada é eterno. Que onde pisamos amanhã não pisaremos mais. Aonde depositamos amor, amanhã será só lembrança. Um convite para a bad, “A Ghost Story” fala um pouco sobre este legado que queremos deixar no mundo. Sobre deixar uma prova que um dia passamos por aqui.

O começo da obra é lento. Muito lento. Quase parando. Não desista. Talvez demore para embarcar, mas acredite, faz parte da proposta da obra e tudo terá um sentido para ser. Nesta ausência de diálogos e ações, percebemos o quão potente é sua trilha sonora, que é quem nos convida a entrar neste peculiar universo. Assinada por Daniel Hart, as composições que ouvimos fazem bem para alma. É lindo e a forma como elas mesclam nas sequências, muito bem filmadas, tornam “A Ghost Story” um produto sensorial, mágico, que nos transporta a um cinema nada convencional. É o trabalho mais consistente e mais marcante de David Lowery como diretor. Curioso o formato que usa, quadrado e com os cantos arredondados, remetendo a registros antigos. É uma pena que não tenha ido para os cinemas aqui no Brasil. No entanto, é um filme que tem aos poucos conquistado o público. Um dia ele será grande, tem tudo para ser.

No fim, tudo se encaixa, tudo faz sentido. E digo que é bonito demais de ver. Senti meu coração apertado com os ciclos criados aqui, como tudo se desenvolve lentamente e termina de um jeito devastador. Ainda que não seja de fácil digestão, é bom demais de assistir. É comovente, humano e extremamente sensível em cada saída que encontra. É como um sonho absurdo, fascinante, bizarro, melancólico e que ecoa em nossa mente como poesia. Parece estúpido o fantasma usar um lençol sobre o corpo. Poderia até ser difícil levar a obra a sério, mas não é. Talvez não ver o rosto do protagonista é o que a torna tão dolorosa, porque ao não vê-lo sentimos sua alma, sua dor e mais do que isso, sentimos que poderia ser qualquer um de nós. Vendo o fim de perto, desaparecendo, nos tornando memória.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2017
    Título original: A Ghost Story
    Duração: 92 minutos
    Distribuidor:
    Diretor: David Lowery
    Roteiro: David Lowery
    Elenco: Rooney Mara, Casey Affleck

Um comentário em “Crítica: Sombras da Vida

  1. Ótimo filme. Um dos melhores que assisti nos últimos anos. Só lamento que a maioria do grande público provavelmente não saiba apreciá-lo. Se não me engano, agora em julho entrará para o catálogo da Netflix.

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