A lembrança mais valiosa é a dor

Shia LaBeouf sempre foi conhecido por sua vida de excessos e histórias polêmicas que, aos poucos, foram destruindo sua carreira como ator. Problemas com bebidas, violência e uma trajetória que o levaram para uma clínica de reabilitação, tornando este projeto possível. “Honey Boy” é a sessão de terapia pública do astro, que expõe, de forma bastante corajosa, a conturbada relação que teve com seu pai alcoólatra e abusivo. O filme é como um relato de memórias, aberta para expulsar seus tantos traumas e aceitar a dor que sente dentro de si.

Otis (Noah Jupe) é seu alter ego. Um garoto que entra para o mundo do cinema ainda criança e precisa lidar com a pressão que sente por estar construindo uma carreira tão cedo e ter seus pais dependentes de suas conquistas. Anos mais tarde, já adulto (Lucas Hedges), após sofrer um acidente por estar embriagado, ele se vê obrigado a entrar em uma clínica de reabilitação, lugar que o faz visitar as lembranças que teve ao lado de seu pai na infância. Investigando tudo aquilo que ele tentou bloquear durante sua vida. Toda a angústia, todo o rancor. Tudo aquilo que o fez ser, como ele mesmo se denomina, um profissional esquizofrênico, um egomaníaco com complexo de inferioridade.

Alma Rar’el, conhecida por dirigir videoclipes de bandas como Beirut e Sigor Ros (Fjögur píanó, que também conta com a participação de Shia), navega por essas lembranças do ator como se mergulhasse em um sonho insano. É esta experiência que nos oferece, de entrar na mente de alguém, conhecer os recortes dolorosos, sem meio e fim, costurados no meio do caos. Parte da memória de alguém que não lembra os atos com clareza, mas sente com a mesma intensidade como se ainda estivesse lá. Visualmente poderoso, várias cenas nos causam fortes sensações. No entanto, é no relato de seu protagonista que está seu verdadeiro impacto.

“Uma semente se destrói completamente para se tornar
uma flor. Isso é um ato de violência.”

Um dos exercicios pedidos na reabilitação de Otis era que ele fosse no meio de uma região afastada e gritasse. “Honey Boy” é inteiramente esse exercício, de Shia LaBeouf usando de sua arte para expulsar tudo aquilo que o aprisiona. Neste mesmo instante, quando Otis retorna e diz o que está sentindo de forma irônica, ele é confrontado por seu instrutor que o indaga: “Você está brincando comigo ou está sendo sincero?”. Está aí uma leitura interessante do que Shia nos propõe aqui. Seria tudo isso uma zoação com nossa cara, com a mídia que tanto o diminuiu? Porque toda a situação é bizarra. Dele contando a própria história e interpretando o próprio pai, que por sinal, é um palhaço e surge na tela com uma caracterização forçada e aparentemente mal confeccionada, com barriga falsa. Ainda que tudo seja uma piada, há muita honestidade também. Existe uma linha tênue aqui entre o sarcasmo e o sentimentalismo. Seja qual for a intenção dele, existe nobreza em muitos de seus atos e comove pela jornada de Otis. Pela jornada de Shia. Verdadeiramente, Shia LaBeouf. Ele se despe, se confronta e nos confronta com seus traumas.

É muito forte esta relação entre o protagonista e seu pai. Neste embate, neste exercício de entender o passado e seguir em frente. Tentar esquecer talvez pudesse ser a saída que muitos procurariam. Otis – ou Shia – não queria esquecer porque sabia que tudo o que ele se transformou devia àquele homem. O bem mais valioso que seu pai o deixou foi a dor e a arte dele jamais existiria sem essa parte.

NOTA: 8

  • País de origem: EUA
    Título original: Honey Boy
    Ano: 2019
    Duração: 93 minutos
    Distribuidor: –
    Diretor: Alma Har’el
    Roteiro: Shia LaBeouf
    Elenco: Noah Jupe, Shia LaBeouf, Lucas Hedges, FKA Twigs

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