O amor não salva tudo

“Querido Menino” marca o primeiro filme de língua inglesa do diretor Felix van Groeningen, que foi indicado ao Oscar, há seis anos atrás, por “Alabama Monroe”. Apesar de se tratar de um belo projeto, sua obra acaba que se sustentando quase que por completo na atuação de Timothée Chalamet. Há muita entrega sua nesse papel e me surpreende não tê-lo visto no Oscar na época do lançamento.

O filme nos mostra a forte relação existente entre um pai e um filho. David Sheff (Steve Carell) é um autor renomado que tem sua rotina abalada quando, pouco antes de entrar para a faculdade, seu filho mais velho Nic (Timothée Chalamet) se revela viciado em metanfetamina. Através de flash backs, vamos adentrando às memórias do pai, que busca entender quando foi que perdeu seu menino. Desta forma, o longa é quase como um amontoado de lembranças e entre passado e presente, vamos construindo, ao lado dos protagonistas, essa bela e conturbada união entre os dois. O grande acerto aqui é nos fazer acreditar neste carinho entre eles, nesta cumplicidade ferida. De fato, há algo muito terno presente em cada cena. É bonito porque o amor é visível ali e é ele que une cada um dos personagens do filme. O amor é aquilo que os move e que justifica suas ações, até mesmo aquelas mais condenáveis.

Ainda que seja muito doloroso o caminho percorrido por David e Nic, é difícil se emocionar com a jornada deles. Isso se deve principalmente porque a montagem parece impedir o filme de sair da superfície. Estamos sempre indo e voltando e quando algumas ações poderiam guiá-lo para um momento de comoção maior ou de transformação, somos cortados e levados para lugar algum. Como quando Nic quase mata uma de suas namoradas ou quando Karen, atual mulher de David, persegue Nic com seu carro. São sequências que poderiam resultar em algo muito maior, mas o filme se recusa a mostrar alguma consequência mais drástica de seus eventos. É muito picotado e dessa forma se torna em uma obra linear, que não sai do lugar e jamais emociona o quanto poderia. Não há tempo para se aprofundar nos sentimos expostos e tudo acaba ficando raso. Me incomoda, também, a inconstante trilha musical da obra, que não se decide entre o punk, o pop eletrônico ou o clássico. Ilustram bem as cenas em que aparecem, mas impedem o filme de ter uma identidade mais coerente.

É até admirável o esforço de Steve Carell em sua carreira em papéis mais dramáticos, no entanto, mais uma vez, ele se mostra limitado demais para encarar um desafio como esse. É assim que Timothée Chalamet, com pouquíssima idade, rouba a cena. Seu trabalho é fantástico e surpreende. Pena que o roteiro não dá espaço para as personagens femininas. Maura Tierney e Amy Ryan estão incríveis em cena, mas são pouco aproveitadas.

Apesar dos deslizes, “Querido Menino” é um filme bem realizado, que reserva alguns ótimos momentos como quando o pai explica para o filho o tamanho de seu amor por ele. É um retrato triste e muito real de muitas famílias, de pais que olham para aqueles que criaram e não os reconhecem mais. Ficamos a espera de uma salvação, de redenção para os personagens e é triste quando nada disso vem, assim como na vida. É doloroso quando o filme nos lembra de que, por mais grande que seja o amor, ele não é capaz de tudo. Ao fim, Felix van Groeningen deixa claro, quando opta pelo didatismo, que seu intuito era fazer uma obra informativa. E isso torna seu produto, de fato, importante, não necessariamente bom.

NOTA: 7

  • País de origem: EUA
    Ano: 2018
    Duração: 111 minutos
    Título original: Beautiful Boy
    Distribuidor: Diamond Films
    Diretor: Felix van Groeningen
    Roteiro: Felix van Groeningen, Luke Davies
    Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Kaitlyn Dever, Jack Dylan Grazer, Amy Ryan, Timothy Hutton

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