Crítica | Casa Gucci

Preciso começar dizendo que “Casa Gucci” é uma pataquada divertida. Peca pelos excessos, mas não é aquele entretenimento que nos faz ter a sensação de tempo perdido. Achei tudo muito curioso, bizarro e me vi querendo saber até onde tudo aquilo poderia chegar. Claro, é um produto muito aquém de todos os envolvidos e a sensação de frustração vem justamente por nunca alcançar o grande potencial que tinha. O filme investiga, de forma pobre, a ascensão do império da família Gucci e como ele foi interrompido de forma trágica.

Gucci é uma grife italiana e uma das mais importantes do mundo da moda. Sua história, por trás dos holofotes, é recheada de ganância, intrigas familiares e um assassinato. Temos um material riquíssimo aqui, mas que nunca resulta em um grande filme. A trama nos apresenta esse universo com a entrada da socialite Patrizia Reggiani (Lady Gaga), ao se casar com o herdeiro Maurizio Gucci (Adam Driver). As interferências dela na condução da marca, acabam por abalar os negócios e as relações desse clã.

Apesar da belíssima produção, que choca pelo incrível trabalho de maquiagem e figurinos, “Casa Gucci” falha em seu roteiro. Tudo muito picotado e atropelado mesmo com uma longa duração. Até conseguimos ver uma evolução sendo contada ali, mas nunca deixa claro seus desenvolvimentos. Em uma cena, por exemplo, Patrizia é só uma mulher apaixonada, na outra ela é a gananciosa. O texto nunca se aprofunda, de fato, nos acontecimentos, deixando uma sensação de ter exibido apenas a superfície do iceberg, existindo uma história inteira não contada dentro do filme. É um roteiro que parece não ter passado por uma revisão, que tinha tudo ali nas mãos, mas não soube explorar nada com muito cuidado.

O elenco grandioso é apagado por esse texto atrapalhado, sobrando apenas os sotaques italianos exagerados e a caricatura. Lady Gaga, por sua vez, acaba sendo o grande destaque. Quando sai de cena, o filme rapidamente enfraquece (ainda mais). É ela quem mais acerta o tom e mais tem consciência sobre o que faz ali. Em contrapartida, Jared Leto entrega um dos papéis mais esquisitos que vi em um longa neste ano. É tanto equívoco que não sei bem por onde começar. Mas não é só culpa de sua atuação, é de direção também, por nunca entender a função daquele personagem na trama. Ele é distante de todo o resto, cômico no nível paródia. Tão bizarro de assistir que eu me contorcia quando ele aparecia.

Talvez nunca tenhamos acesso a versão completa de Ridley Scott. Mas essa que vemos aqui é uma bagunça. Ao menos, entrega um entretenimento divertido, onde seu exagero e cafonice desperta atenção. E claro, uma Lady Gaga inspirada e é ela quem faz a sessão valer a pena.

NOTA: 6,5

País de origem: EUA, Canadá
Ano: 2021
Título original: House of Gucci
Duração: 157 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston, Roberto Bentivegna
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Camille Cottin, Jeremy Irons, Jack Huston

Crítica | O Último Duelo

A glória falida dos homens

Fazia tempo que não via uma trama medieval tão interessante como esta. Com direção de Ridley Scott, a obra investiga, de forma bastante intrigante, o último julgamento travado por um duelo mortal na França. Por trás do ocorrido, também conhecemos a verídica história de uma mulher que expôs um caso de estupro em 1386, época em que poderia ser condenada à morte se a denúncia não fosse verdadeira.

Com roteiro de Matt Damon, Ben Affleck e da sempre fantástica Nicole Holofcener, o filme se divide em três capítulos. Cada um deles, dedicado a contar a versão dos três envolvidos no caso, que já sabemos, previamente, terminará em um duelo. A trama registra o instante em que Marguerite (Jodie Comer) decide expor o fato de ter sido abusada sexualmente pelo escudeiro Jacques le Gris (Adam Driver), que em épocas passadas, foi grande amigo de seu atual marido, o cavaleiro Jean de Carrouges (Matt Damon). Os dois homens são levados para o combate e deixar com que a morte decida a justiça.

O recurso de mostrar cada lado da história é muito bem empregado. Apesar de mostrar muitas vezes o mesmo evento, o roteiro é esperto o bastante para sempre se renovar, sempre trazer uma carta nova na manga. Sabiamente, o texto deixa claro que a verdade se encontra na versão de Marguerite. E isso, em momento algum, tira o brilhantismo ou a tensão da trama, pelo contrário. Ao se aprofundar no olhar feminino, “O Último Duelo” desenha na tela um conflito potente, porque é a palavra de uma única mulher contra todos. É doloroso enfrentar essa jornada pelos olhos dela, porque é a única que perde, a única a ser julgada. A atriz Jodie Comer está fantástica aqui e nos faz sentir esse peso que carrega.

A sequência do duelo é incrível. É eletrizante, violenta e a prova de que aquele Ridley Scott de “Gladiador” ainda existe. A genialidade deste instante está em nos fazer vibrar quando já não existem mais lados para torcer. Conhecemos cada uma das versões da história, e a cada mudança de perspectiva, mudamos nosso olhar sobre determinado personagem, sobre cada situação. O texto é bastante crítico e atual ao apontar que, ao fim, mesmo quando é a palavra de uma mulher que está em jogo, tudo é sobre a honra e glória dos homens, sobre a postura deles diante dos outros. E isso dói de assistir.

“O Último Duelo” é uma grande surpresa de 2021. Além do excelente roteiro, a produção vem caprichada. As cenas de batalhas, as locações, cenários, figurinos. Tudo chega em estado grandioso e deslumbrante, marcando um dos melhores trabalhos de Ridley Scott dos últimos tempos. Um filme que tem alma, tem força e nos envolve com seus ótimos conflitos.

NOTA: 9,0

País de origem: Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021
Título original: The Last Duel
Duração: 152 minutos
Disponível: Star+
Diretor: Ridley Scott
Roteiro: Nicole Holofcener, Ben Affleck, Matt Damon
Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck, Alex Lawther