Crítica: Soul

O propósito da vida

Sem dúvidas, a melhor animação da Pixar desde “Divertida Mente”. É um momento muito especial para o estúdio, que entrega aqui o que há de melhor em suas criações.

O filme nos leva a uma jornada emocional quando seu protagonista se depara com o mundo das almas. Na tentativa desesperada de fugir da morte e realizar seu grande sonho como músico de jazz, se passa por instrutor no local, precisando encontrar um propósito de vida para 22, uma alma em treinamento desmotivada pela vida dos humanos.

Este encontro entre os dois personagens nos permite grandes reflexões. É interessante essa busca por um propósito, a vocação como item necessário para se ter uma vida. Somos naturalmente tão obcecados por isso. “Soul” é um lembrete sensível de que nossa existência vai além desta conquista, de que nossos sonhos é que nos impulsiona, mas não é o todo. O que nos faz querer estar vivos envolve tanta coisa, pequenos detalhes muitas vezes não perceptíveis na nossa correria de buscar um sentido. Somos aqueles que querem o oceano, quando a água já nos rodeia.

O filme é, ainda, visualmente belíssimo. Todas as cenas causam impacto, tamanha perfeição e deslumbre que alcança. É inventivo, original e o mais importante, feito de coração. Um estudo complexo e profundo sobre os desejos humanos, valendo uma revisita e podendo ter diversas interpretações. As crianças podem se divertir, mas recomendo fortemente aos adultos.

NOTA: 9

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020

    Disponível: Disney Plus
    Duração: 100 minutos
    Diretor: Pete Docter
    Roteiro: Pete Docter, Kemp Powers

Crítica: Mank

A bela jornada apática de Fincher

Aguardado retorno do mestre David Fincher, ele chega naquele ponto em que muitos diretores consagrados chegaram: fazer sua grande homenagem à Hollywood. É um projeto bastante pessoal, visto que aqui ele conta com o roteiro de seu próprio pai, Jack Fincher, que faleceu em 2003. “Mank”, justamente, dá protagonismo aos roteiristas, e esses indivíduos históricos que fizeram o cinema acontecer.

O filme faz um recorte na vida do roteirista Herman Mankiewicz e sua tumultuada jornada durante a produção de “Cidadão Kane” e sua busca por receber créditos pela obra. Apesar do belo conceito e por contar com uma produção deslumbrante – que facilmente o levará para as próximas premiações – é uma grande decepção. Na intenção de simular o cinema da época, David Fincher entrega seu trabalho mais engessado enquanto diretor. Desde o excesso de fade out, aos ruídos na imagem comum em rolo de filmes antigos, ao pedante letreiro na tela indicando ser um roteiro dentro de um roteiro. São escolhas visuais que se espera de um produto como esse, o que torna frustrante ver um diretor como Fincher se render a tanta obviedade. É o produto menos expressivo de toda sua carreira.

“Mank” é presunçoso e acontece sem nos convidar. Não apresenta nenhum conflito real ou algo que impulsione a trama. Nem mesmo as relações entre os personagens parece ter alguma relevância. Pouco se aprofunda em Mank, não nos permitindo sentir qualquer coisa a seu respeito. Gary Oldman é ótimo, mas seu protagonista não merece duas horas de nosso tempo.

Além de Oldman, Amanda Seyfried brilha na pele da atriz Marion Davis. Ela ilumina o filme mesmo com tão pouco tempo de cena.

NOTA: 6

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Disponível: Netflix
    Duração: 131 minutos
    Diretor: David Fincher
    Roteiro: Jack Fincher
    Elenco: Gary Oldman, Charles Dance, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey