Crítica: Memórias de um Amor

Memória háptica

Uma mistura interessante entre “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” e a viagem dentro das memórias com “Sentidos do Amor”, o relacionamento que nasce em uma crise pandêmica. Provavelmente quando foi planejado, “Little Fish” não tinha intenção de dialogar tanto com o que a sociedade viria a presenciar, logo que foi finalizado antes mesmo da COVID. É assim, que hoje, a obra vem com um peso enorme, porque conversa com nossos medos atuais e esta incerteza do amanhã.

A sociedade é devastada por uma doença nova. Os sinais desse vírus é o esquecimento. Pessoas em cada canto do mundo começam a perder a memória e é neste cenário caótico que Emma (Olivia Cooke) decide escrever sua história de amor ao lado de Jude (Jack O’Connell), antes que pudesse esquecer. É assim que mergulhamos nas lembranças do casal, dos instantes de glória e excitação pela novidade à rotina, aos momentos de perda. Enquanto ela regista em palavras, ele registra com a fotografia. Ambos lutando por permanecer.

Essa jornada apresentada em “Little Fish” funciona não apenas por ter dois excelentes atores como casal, mas também pela incrível produção que enriquece cada instante. A direção de Chad Hartigan é bastante assertiva e entrega um produto sensível ao falar sobre esquecimento e apaixonante ao falar sobre amor, sobre a vida a dois. O trabalho de direção de arte também engrandece a experiência, ilustrando com muito cuidado cada detalhe, como quando altera uma mesma cena para mostrar essa memória em mutação, que se equivoca. Há poesia nessas escolhas e muito coração também.

O roteiro é belíssimo e nos leva junto a vivenciar a história do casal, nos envolvendo em cada diálogo, em cada troca de afeto. Onde início e presente nunca é certo, nos enganando, nos fazendo duvidar ao lado deles. Em “Little Fish”, amor é memória, uma narrativa de soma, uma construção. Sem memória não nos resta nada, nenhum apego, nenhuma marca do que vivemos. Quantas histórias guardamos em uma foto? Quantas lembranças nos despertam com o toque, com o olhar. Aquele ato simples mas que nos traz a certeza do porquê amamos, do porque queremos estar ali naquele presente, mesmo que o futuro não exista.

NOTA: 8,5

País de origem: Canadá, EUA
Ano: 2021

Título original: Little Fish
Duração: 101 minutos
Diretor: Chad Hartigan
Roteiro: Aja Gabel, Mattson Tomlin
Elenco: Olivia Cooke, Jack O’Connell, Raúl Castillo

Crítica: O Som do Silêncio

O som que vem de dentro

Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder, que aqui também reprisa sua parceria com Derek Cianfrance (O Lugar Onde Tudo Termina) como roteirista. Belíssima revelação, ele entrega um filme poderoso, íntimo, milagroso até, eu diria. Seu cinema transcende e alcança instantes de uma comoção indescritível.

“Sound of Metal” se inicia com o som exacerbado de um show de rock. Duas almas ali vibram em cima de um palco, entregando toda a fúria e paixão que guardam dentro de si. Ruben Stone (Riz Ahmed) é o baterista e Lou (Olivia Cooke, ótima) é sua parceira na vida e quem entrega a voz na turnê que estão fazendo. Quase como dois nômades rodeando o mundo e distante de todos. Tudo muda quando Ruben começa a perder sua audição e lhe é recomendado se afastar de sons altos para que pudesse salvar o pouco que ainda ouve. Completamente sem direção, o baterista acaba aceitando aquilo que parecia sua única saída, adentrar em um grupo de apoio para pessoas surdas, mergulhando em uma maré de incertezas e angústias, atormentado pelo silêncio que parece arruinar seu futuro.

Uma obra tão inquietante quanto seu protagonista. Quando parece se acomodar, salta em uma nova direção. Seus momentos iniciais são poderosos e logo nos afundam juntamente com Ruben e esta iminente perda de todo seu sustento e razão de viver. É assim que a presença de Riz Ahmed se revela tão potente. Ele demonstra com precisão essa fragilidade e ansiedade, esse medo diante do abismo que sua vida alcança. Quando o som que rodeava toda sua existência se extingue, ele precisa encarar uma nova e assombrosa realidade. O protagonista, porém, sempre está diante de um grande dilema e tem dificuldade em ver as coisas com muita clareza, em se aceitar. Diante de um ambiente que simboliza sua salvação ali, ele se depara com inúmeras pessoas que enfrentam a ausência de audição, mesmo que Ruben nunca se veja como um igual. É extremamente sensível a forma como a obra desenha este lugar. Há otimismo, compaixão e nos faz refletir, de fato, a importância da inclusão em relação às pessoas surdas que poucas vezes ganharam espaço no cinema e na sociedade. É um tema de extrema relevância e guiado com delicadeza pela produção. Destaque, também, para o ator Paul Raci, que passa a ser seu mentor neste novo lugar. É um coadjuvante de ouro, que brilha e emociona em cena.

Todo o trabalho de som é absurdamente bem explorado aqui. É brilhante como a câmera está sempre muito bem posicionada e como ela influencia na maneira como o som é aplicado. Dependendo da perspectiva, seja do protagonista, seja do mundo de fora, é interessante como a equipe consegue criar essa diferenciação e como consequência, nos fazer adentrar ao universo a qual Ruben se encontra. É incômodo quando sua audição é cortada ou, até mesmo, quando o diretor nos censura a ouvir certos sons que para nós é tão natural. O filme nos dá esta dimensão do silêncio e o que ele provoca na mente do personagem. É imenso quando ele ouve música através de uma matéria física, sentindo as vibrações pelo toque. Este é o som do metal. Neste sentido, o instante final da obra é de uma beleza e poesia inigualável. Ruben finalmente se encontra e não é uma trajetória fácil.

Viver é estar em uma montanha russa. Sempre rodando, sempre nos levando para um novo trilho. Às vezes acontece de estarmos no alto, outras somos arrastados para baixo. E quando isso acontece precisamos saber lidar com o que a vida nos oferece. Talvez seja intrínseco do ser humano saber se adaptar, enxergar como é possível se moldar a uma nova circunstância. E só cabe a nós mesmos nos salvarmos, ouvir o que há lá dentro. E não há nada mais barulhento do que o som que vem de dentro. Eu senti a dor, a angústia, o medo, o aperto no peito. “O Som do Silêncio” me fez sentir e me entregou uma das experiências mais incríveis que tive vendo um filme este ano.

NOTA: 9,5

  • País de origem: EUA
    Ano: 2020
    Título Original: Sound of Metal
    Disponível: Prime Video
    Duração: 130 minutos
    Diretor: Darius Marder
    Roteiro: Darius Marder, Derek Cianfrance
    Elenco: Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Amalric