o medo como algo palpável

Ano passado, quando “O Mal Que Nos Habita” começou a fazer burburinho, ignorei porque de tempos em tempos surgem esses filmes de terror superestimados. Agora que finalmente resolvi dar uma chance, percebo que os comentários emocionados não eram exagero. Dirigido por Demián Rugna, o longa argentino me deixou sem fôlego, impactado pelas cenas violentas que me pegaram de surpresa e, de certa forma, admirado por todo o universo criado. Há uma mitologia tão bem elaborada que, dias depois de ter assistido, ainda não consegui tirar ele da cabeça.

A obra subverte a lógica de filmes sobre possessão demoníaca, entregando algo original, conciso e bastante eficaz. A trama começa quando dois irmãos, Pedro e Jaime, que moram afastados em uma região rural, descobrem que um vizinho está “infectado” pelo demônio. Na tentativa falha de se livrarem daquele corpo apodrecido e evitarem que mais alguém fosse contagiado, eles acabam dando início a sequência trágica, onde o mal passa a dominar aquela comunidade.

Neste universo de “O Mal Que Nos Habita”, o diabo segue como um vírus, adentrando ao corpo e à mente fraca de suas vítimas, através do contato direto ou indireto. É assim que o caos se instaura em cena e vai escalonando de uma maneira muito imprevisível e hipnotizante. O roteiro não decai e segura bem essa evolução, nos mantendo apreensivos sobre seus macabros desdobramentos. Gosto como o filme recusa os caminhos já trilhados pelo gênero, se levando a sério mesmo com seus excessos e nem tentando ser profundo com os traumas dos protagonistas. As camadas estão ali, sutilmente. É ótimo a construção da família e essa conexão entre eles é o que torna tudo ainda mais potente.

Dois pontos me deixaram completamente fascinado enquanto assistia ao filme. O primeiro deles é a mitologia criada e como o texto, sem nunca ser didático ou expositivo, consegue ir deixando pistas pelo caminho. Existe todo um conjunto de regras e relatos fantásticos que vão desenhando o tom da obra, onde os passos percorridos pelos protagonistas, em um ciclo muito bem elaborado, vão criando uma espécie de conto folclórico de terror. E eles são as peças fundamentais dessa história. Aqueles que carregam a culpa e o fardo pela desgraça que se sucede.

O segundo ponto é como o diretor encara esse horror mais frontal e expõe, em plena claridade da luz, tudo aquilo que não queremos ver. É aterrorizante as saídas visuais que encontra, principalmente aquelas em que o mal está presente de forma pacífica, coexistindo com todo o resto. O mal não corre, não persegue, ele apenas está ali, caminhando do lado. E isso é extremamente perturbador. O gore também é incrivelmente trabalhado aqui. As sequências gráficas e violentas chocam e nos mantém completamente paralisados, sem saber como reagir a tudo aquilo que nos confronta.

“O Mal Que Nos Habita” é um filme brutal, cruel e que acerta ao ir na contramão do cinemão do terror atual. Tem um universo muito rico, que chega através de um texto inteligente e muito atento aos detalhes. É aquele tipo de obra que ficamos remoendo na cabeça, revirando as sequências e buscando seus significados. Digo que fiquei completamente imerso, principalmente porque, ao criar uma série de leis próprias, personifica o mal de uma forma palpável, nova e assustadora.

NOTA: 9,5

País de origem: Argentina
Título original: When Evil Lurks / Cuando Acecha la Maldad
Ano: 2023
Duração: 99 minutos
Diretor: Demián Rugna
Roteiro: Demián Rugna
Elenco: Ezequiel Rodríguez, Demián Salomón, Silvina Sabater

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