Crítica: Fim de Século

A vida que não tivemos juntos

Não há nada mais doloroso em nossa vida do que olharmos para trás e bater aquela dor diante da reflexão “e se”. E se tivéssemos feito diferente? Tomado outro rumo? O que teria sido de nós? De fato, cada oportunidade perdida nos leva para outra direção e é essa a interessante premissa de “Fim de Século”, filme LGBT argentino. Ao começo da trama, Ocho, um poeta que vive em Nova York, está viajando por Barcelona e desvendando a cidade com toda sua solidão e liberdade. Seu caminho acaba se cruzando com o de Javi, um belo jovem que logo desperta seu interesse. Entre conversas, ambos se dão conta de que esta não é a primeira vez que se encontraram e que, há 20 anos atrás, antes da virada do século, a história deles já tinha dado um início.

Um dos personagens, metaforicamente, é cineasta e tem dificuldades em finalizar seu projeto justamente porque se deu conta de que uma obra ilustrada por experiências pessoais é mais rica do que aquela que almeja alcançar sua inspiração. Primeiro longa-metragem dirigido por Lucio Castro, é nítido, em cada cena, o quanto aquele universo é particular à ele e o quanto o que vemos faz parte de uma experiência pessoal. Talvez não por completo, mas grande parte daquilo. Há muita honestidade em cada instante, em cada conversa jogada fora. Até mesmo a forma como Barcelona é registrada, há intimidade. Diante de tamanha naturalidade em captar sua história, nos sentimos parte daquilo. Parte daquele tempo.

O tempo aqui é dividido em dois. Diante de épocas tão distintas, é interessante o quanto a evolução dos anos, da mente de uma sociedade e da tecnologia acaba influenciando em nosso modo de vida. Se em 1999, época em que as pessoas vislumbraram a virada do século e uma iminente vida nova, homens agiam como héteros para serem aceitos, buscavam um esconderijo para serem eles mesmos. Ocho e Javi se encontram em um momento de ruptura, de novas descobertas e, inconscientemente, ambos se ajudam neste processo de auto aceitação, de que amor é possível. 20 anos depois, o sexo ganha a tecnologia como ferramenta principal, onde aplicativos tornam relações mais práticas. Ainda que Ocho procure na vitrine virtual algo que sacie seu tesão, é belo quando ele encontra alguém na rua, offline. Como se Javi fosse mais do que uma foto de perfil, fosse algo real. Mas nem tudo o que é real é alcançável.

“Fim do Século” diz muito sobre como amor não é o suficiente, mesmo quando se quer tanto aquela outra pessoa. Ocho e Javi parecem terem sido feitos um para o outro. E mesmo com duas ótimas oportunidades para que a história deles acontecesse, a vida simplesmente acontece de outra forma, o ciclo se move e eles não caminham juntos. É muito real esse desencontro. O sentimento mútuo existe, só não estão no mesmo passo, no mesmo momento. É lindo quando ao final, Ocho visualiza sua vida caso aquele encontro, 20 anos atrás, tivesse dado em alguma coisa. Talvez eles tivessem sido felizes, talvez não. Talvez eles teriam escrito a mais perfeita jornada para que no final eles se dessem conta de que sonhavam em estar em outro lugar. Porque a vida é isso. Nossa realidade nunca é suficiente. Talvez a grande história de amor entre Ocho e Javi era para ser esses pequenos encontros. Um conto breve. Dois capítulos apenas. Melhor lembrar como algo rápido e bom do que viver para sempre e ver o fim.

Ao optar por colocar seus atores fisicamente muito parecidos entre os dois tempos, enfraquece um pouco seus discursos. Pode até existir a intenção de mostrar o quão falha pode ser nossa memória, mas essa escolha torna um tanto quanto confusa essa alteração, ainda mais quando nem mesmo a fotografia ou a própria Barcelona são diferentes. Me pareceu uma opção preguiçosa da produção, que preferiu simplificar elementos cruciais para a narrativa. No mais, os dois atores se mostram bem a vontades em cena, se entregando a provocativas e bastante sensuais cenas de sexo. É bom ver esse ato tão natural em qualquer relacionamento ser mostrado sem muita censura, de forma crua e de gosto assertivo. Aliás, é ótimo poder ver uma trama tão madura e gostosa de se ver protagonizada por um casal gay. Poderia ser um casal hétero ali e é belo sentir que o cinema evoluiu o bastante para entender que dois homens ou duas mulheres também podem amar e também podem construir suas próprias histórias de amor. Que bom ter cineastas com esta coragem de captar isso com tamanha honestidade e sensibilidade. É aquela questão de representação que há anos atrás tanto fazia falta.

NOTA: 8

  • País de origem: Argentina
    Ano: 2019
    Duração: 84 minutos
    Título original: Fin de Siglo
    Distribuidor: –
    Diretor: Lucio Castro
    Roteiro: Lucio Castro
    Elenco: Juan Barberini, Ramón Pujol