Crítica | A Lenda do Cavaleiro Verde

Jornada de desonra

A Távola Redonda é cercada de lendas gloriosas, entre elas a de Rei Arthur, símbolo da cultura celta e que enfrentou males em prol da honra e bondade. Neste mesmo universo arturiano se encontra Gawain, seu sobrinho. É sobre sua jornada que conhecemos aqui em “A Lenda do Cavaleiro Verde”, lançado no Brasil pelo Prime Video e que, por sua vez, foi baseado em um poema escrito no século XIV.

Dirigido por David Lowery, dos excelentes “Pete’s Dragon” e “A Ghost Story”, o longa se afasta por completo deste cinema de fantasia e ação do qual estamos acostumados, revelando este cenário medieval de forma mais sombria e, até mesmo, mais humana. Nosso protagonista, Gawain, interpretado pelo ótimo Dev Patel, é irresponsável e vive uma vida sem grandes esforços, mesmo que queira ser reconhecido como herói, assim como todos aqueles que o cercam. Sua imprudência, porém, define sua inevitável jornada, quando aceita o desafio do Cavaleiro Verde – uma criatura metade humana, metade árvore – que oferece um poderoso machado e uma vida digna para aquele que o golpear. O preço, porém, é que um ano depois, terá de receber o mesmo golpe de volta. Gawain, em um ato impensável, corta a cabeça do Cavaleiro.

É assim que “A Lenda do Cavaleiro Verde” se transforma em uma espécie, curiosa e intrigante, de coming of age medieval. O jovem protagonista parte em uma longa caminhada pelo interior da Inglaterra para encontrar a criatura e ter sua cabeça cortada. É ele indo atrás da própria morte. Saindo de sua vida cômoda, descobrindo o mundo e sentindo, finalmente, o peso de suas escolhas. O amadurecimento forçado de alguém que não está preparado para ser uma lenda. Há, também, muito de um thriller psicológico aqui, quando o personagem se lança nessa tortura de buscar por seu destino mortal, quando escolher pela vida será sinal de seu fracasso e de sua desonra. É assim que o filme subverte essa saga do herói de forma brilhante e audaciosa.

Existe uma grandeza intimidadora na obra, onde as cenas causam bastante impacto. Visualmente é um dos filmes mais belos que vi nesse ano e teria sido lindo tê-lo visto em uma tela de cinema. É rico todo o trabalho da equipe e o que conseguiram fazer com o orçamento. Sequências como as do encontro com os gigantes ou do mergulho no mar vermelho me deixaram estagnado.

Cheio de simbolismos, “A Lenda do Cavaleiro Verde” termina de forma ambígua e isso o engrandece. As possibilidades que vão se abrindo em nossa mente o tornam ainda mais intrigante. Me senti completamente imerso nesse universo e seduzido pelo poder de suas imagens. Fantástico!

NOTA: 9,0

País de origem: EUA, Canadá, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2021

Título original: The Green Knight
Duração: 130 minutos
Disponível: Prime Video
Diretor: David Lowery
Roteiro: David Lowery
Elenco: Dev Patel, Alicia Vikander, Barry Keoghan, Joel Edgerton, Sean Harris

Crítica: A Vida Extraordinária de David Copperfield

O observador de histórias

Com grande elenco e uma narrativa dinâmica, “A Vida Extraordinária de David Copperfield” vem com o intuito de trazer uma nova roupagem a um dos maiores clássicos do autor britânico Charles Dickens. A adaptação, que vem recheada de humor e personagens caricatos, também pretende ser uma homenagem ao romancista, logo que a jornada deste excêntrico protagonista tem tons autobiográficos.

Dev Patel é quem dá vida a David Copperfield. É um personagem clássico, que enfrenta diversas fases na vida, desde maus tratos por seu padrasto, exploração no trabalho, até enfrentar dificuldades quando adulto. É ele se encontrando nesse mundo, buscando sua própria voz, sua identidade e seu talento como contador de histórias. Copperfield encontrará diversas pessoas em seu caminho, cada uma com suas características peculiares do qual ele observa com muita atenção. Tudo isso é ilustrado com um belíssimo visual, que espanta pela riqueza de cores e detalhes. Os figurinos e cenários são de uma beleza hipnotizante.

Encontramos aqui uma obra ambiciosa, que pretende ser épica, mas infelizmente não tem força. Seu fôlego se desgasta rápido e logo nos vemos presos a inúmeras situações do qual não sentimos nenhuma conexão ou interesse. Armando Iannucci, criador e roteirista da série Veep, parecia a escolha certa para o projeto, mas ainda que ele capriche na direção, seu roteiro não tem vida. Ele acelera o passo para dar tempo de contar tudo o que pretende, mas esses tantos personagens que nos apresenta dentro desse universo tão lúdico, pouco desperta afeição ou algum tipo de sentimento. Vemos belas palavras condensadas em um texto que pouco diz.

Dev Patel é um ótimo ator e aqui se esforça, apesar de ser um protagonista confuso e não muito interessante. Ele divide a cena com um grandioso elenco que faz a obra valer mais a pena. Tilda Swinton está impecável. Temos ainda boas presenças de Hugh Laurie, Peter Capaldi e da carismática revelação de Rosalind Eleazar.

“A Vida Extraordinária de David Copperfield” falha nesta missão de modernizar a literatura de Charles Dickens. Acerta na produção, que é deslumbrante, mas peca na construção de seu universo e nesses tantos personagens que tão pouco nos importamos.

NOTA: 6,0

País de origem: EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte
Ano: 2019

Título original: The Personal History of David Copperfield
Duração: 119 minutos

Disponível: HBO Max
Diretor: Armando Iannucci
Roteiro: Armando Iannucci, Simon Blackwell
Elenco: Dev Patel, Hugh Laurie, Peter Capaldi, Tilda Swinton, Morfydd Clark